Num caso apresentado no SBSS 2026, dois talhões vizinhos, com histórico de abertura e custo de investimento semelhantes e análise química sem diferença marcante, entregaram 61,41 e 81,93 sc/ha na safra 25/26. O diagnóstico da saúde do solo existe para responder a esse tipo de pergunta, que a análise química de rotina, sozinha, não responde.
A dificuldade não está na falta de ferramentas, mas no excesso delas. BioAS, DRES, infiltração de água, penetrômetro, estoque de carbono, qPCR e metagenômica têm custo, escala e finalidade diferentes, e escolher a análise “da moda” não fecha diagnóstico nenhum. Ao mesmo tempo, o custo de produção subiu a ponto de a produtividade que antes pagava a conta já não garantir retorno. O risco é medir muito, no lugar errado, e não decidir nada.
No Simpósio Brasileiro de Saúde do Solo (SBSS) 2026, promovido pela Agroadvance, Lucas Rozas, diretor geral da Prisma Inteligência Agronômica, apresentou a sistemática que a consultoria usa para ir do dado ao diagnóstico e do diagnóstico à decisão, com casos de campo do Cerrado goiano. Os casos vêm da consultoria do palestrante; o bloco biológico é complementado aqui pelas publicações da Embrapa Cerrados que sustentam a BioAS (Mendes et al., 2019; 2021).
O percurso é este: porque a química não basta, as quatro perguntas da sistemática, onde amostrar, quanto custa por hectare, como ler química, física e biologia em conjunto e como converter o resultado em decisão de manejo. Em todas as etapas, a saúde do solo é lida como resultado do sistema, não de um indicador isolado.
Por que talhões com análise química parecida produzem diferente?
Porque a análise química de rotina responde sobretudo pela função de suprir nutrientes. Ela não mede a ciclagem biológica, a estrutura nem a infiltração de água, e não capta a distribuição da chuva dentro do talhão. Qualquer desses fatores pode separar produtividades em áreas quimicamente semelhantes, e qual deles pesa mais só se descobre investigando.
O caso que abriu a palestra do Lucas no SBSS mostra o problema com números. Os talhões 102 (113,17 ha) e 104 (68,09 ha) têm pH de 5,5 e 5,8 e V% praticamente igual (59 e 58,8). A diferença aparece onde menos se esperaria: o talhão 104, o mais produtivo, tem menor CTC (4,4 contra 5,8 cmolc/dm³), menos P (7,28 contra 11,88 mg/dm³) e menos K (26,59 contra 41,8 mg/dm³).
Pela leitura convencional da análise de solo, nada indicaria vantagem do talhão 104. Ele produziu 20 sacas a mais.
A palestra não fechou o diagnóstico desses dois talhões: o caso estava em andamento, sem dados de biologia ou de física apresentados para eles. O exemplo serve aqui como pergunta, não como resposta. O que ele demonstra é que pH e saturação por bases equivalentes, e até teores maiores de P e K, não garantem produtividade maior.

A explicação passa pelas três funções do solo: suprir, armazenar e ciclar nutrientes. O diagnóstico químico de rotina cobre bem a primeira. Na BioAS, a função armazenar é calculada a partir da matéria orgânica e da CTC, e a função ciclar, a partir da atividade de duas enzimas, β-glicosidase e arilsulfatase (Mendes et al., 2021).
A matéria orgânica do solo é o elo entre as três funções. O teor que aparece na análise de rotina, isolado, dá pouco direcionamento de manejo.
Há ainda um fator que nenhuma análise de solo capta: a chuva não é uniforme no talhão. Parte da mancha no mapa de produtividade pode ser hídrica, e tentar justificá-la pela análise de solo leva a procurar no solo a causa de um problema que não está nele. A causa da diferença pode ser química, física, biológica ou hídrica, e a sistemática existe para separar uma da outra.
Como montar um diagnóstico da saúde do solo?
O diagnóstico da saúde do solo não começa pela escolha de uma análise, mas por quatro perguntas em sequência:
- por que medir,
- o que medir,
- onde medir e
- como decidir.
A finalidade (investigar um sintoma ou monitorar a evolução do sistema) define as ferramentas, e o histórico da área define onde aplicá-las.
A tese da palestra estava escrita no próprio slide que abriu a sistemática:
“Saúde do solo não se diagnostica escolhendo uma análise isolada. Não existe receita de bolo. Existe sistemática de decisão.” — Lucas Rozas (SBSS, 2026).
O ponto de partida é a anamnese da área, antes de qualquer coleta:
- mapas de produtividade de várias safras;
- índices de vegetação e modelo de elevação;
- mapa de chuva;
- histórico de manejo e de arrendamento.
Confirmar que existe um problema não basta ao produtor. Ele precisa entender por que o problema acontece e o que pode ser feito, e é isso que orienta a escolha das ferramentas.
O limite prático é a capacidade operacional. Uma grade de 1 ponto por hectare não se justifica se o produtor não consegue manejar a área nesse nível de detalhe. O protocolo tecnicamente ideal precisa caber no que a fazenda consegue executar. O conceito de indicadores químicos, físicos e biológicos de qualidade do solo é a base de tudo isso. A sistemática trata de outra coisa: qual indicador usar, para qual pergunta e em que ponto do talhão.

Diagnóstico ou monitoramento?
Diagnóstico investiga um efeito já visível, como uma mancha ou reboleira na lavoura, e pede ferramentas mais direcionadas. Monitoramento acompanha a evolução do sistema em rotina, com o mesmo protocolo ao longo das safras. A finalidade muda o nível de detalhe do protocolo e o custo que se justifica investir.
Nos casos apresentados no SBSS, o monitoramento usou BioAS, DRES, infiltração, resistência à penetração e carbono. O diagnóstico de sintoma, numa mancha com podridão radicular, usou qPCR. É a diferença entre olhar a área com uma lupa maior ou menor.
Que ferramenta responde a qual pergunta?
Cada ferramenta responde a uma pergunta diferente e tem limitação própria. A BioAS, por exemplo, mede ciclagem biológica e integra os resultados à química, mas foi calibrada para cultivos anuais de grãos no Cerrado, na camada de 0–10 cm (Mendes et al., 2021).
Tabela 01. Ferramentas do diagnóstico da saúde do solo, a pergunta que cada uma responde e suas limitações
| Ferramenta | O que responde | Uso típico | Limitação |
| Análise química de rotina | Disponibilidade de nutrientes e acidez (função suprir) | Monitoramento e base de qualquer diagnóstico | Não explica, sozinha, diferenças entre áreas quimicamente semelhantes |
| BioAS | Ciclagem (β-glicosidase e arilsulfatase), integrada a armazenamento e suprimento nos índices de qualidade do solo | Monitoramento | Camada de 0–10 cm; calibrada para cultivos anuais de grãos no Cerrado |
| DRES | Qualidade estrutural dos agregados, em notas de 1 a 6 | Monitoramento | Avaliação interpretativa, depende do padrão técnico do avaliador |
| Infiltração de água | Velocidade de entrada de água no solo | Monitoramento | Sensível à posição do anel em relação à linha de plantio e ao rodado |
| Resistência à penetração | Adensamento ao longo do perfil | Monitoramento | Indica adensamento, mas não diagnostica compactação sozinha |
| Carbono (estoque) | Reserva de carbono do sistema e comparação com área de referência | Monitoramento | Responde devagar no curto prazo; resultado depende de onde se coleta a referência |
| qPCR | Presença e concentração de patógenos e benéficos específicos | Diagnóstico de sintoma | Usa primers direcionados: avalia só os organismos-alvo |
| Metagenômica | Todo o DNA da comunidade microbiana | Diagnóstico e posicionamento de biológicos | Custo mais alto |
Onde amostrar para o dado representar o talhão?
Os pontos devem ser alocados cruzando relevo, índices de vegetação e histórico de produtividade, em zonas de alto, médio e baixo potencial, e medidos sempre com o mesmo protocolo. Um ponto que não representa a média do talhão enviesa a decisão, e nenhuma análise sofisticada corrige uma amostra mal alocada.
Como alocar os pontos?
A alocação cruza duas camadas de informação: o modelo de elevação e os índices de vegetação combinados ao mapa de produtividade de várias safras. O resultado são classes de potencial alto, médio e baixo, a mesma lógica das zonas de manejo da agricultura de precisão.
A pergunta de controle é se o ambiente está definido pelo que se cultiva nele ou pelo que ele realmente representa.
A variação dentro de um mesmo talhão pode ser grande. Num talhão argiloso do sudoeste goiano, com 63 a 69% de argila, o IQS Biológico variou de 0,56 a 0,84 entre quatro pontos, ou seja, de “médio” a “muito alto” na escala da BioAS.
Tabela 02. Escores da BioAS em quatro pontos de um mesmo talhão argiloso no sudoeste goiano
| Ponto | Argila (%) | MOS (g/dm³) | Ciclagem | Armazenamento | Suprimento | IQS Biológico | IQS Químico | IQS Fertbio |
| P.1 | 63 | 35 | 0,84 | 0,58 | 0,87 | 0,84 | 0,72 | 0,76 |
| P.2 | 69 | 38 | 0,64 | 0,56 | 0,86 | 0,64 | 0,71 | 0,69 |
| P.3 | 65 | 36 | 0,75 | 0,52 | 0,82 | 0,75 | 0,67 | 0,70 |
| P.4 | 67 | 32 | 0,56 | 0,44 | 0,84 | 0,56 | 0,64 | 0,62 |
Classes de interpretação dos escores: muito baixo, 0–0,20; baixo, 0,21–0,40; médio, 0,41–0,60; alto, 0,61–0,80; muito alto, 0,81–1,00 (Mendes et al., 2021).
O peso da representatividade cresce com a escala. Em empresas com compromisso público de indicadores e em programas que remuneram carbono, a métrica é declarada por talhão. Um ponto atípico distorce o resultado reportado e a decisão tomada a partir dele.
Como reduzir o ruído entre safras?
O monitoramento só compara safras se o protocolo for o mesmo: mesma época e mesma condição de amostragem. Uma diferença de época pode simular um adensamento ou uma melhora que não existem.
Na infiltração de água, a consultoria passou a usar três anéis em vez de um, estratificados em relação à linha de plantio, para separar o efeito do rodado das máquinas do efeito do manejo.
Onde coletar a referência de carbono?
Longe da borda da vegetação nativa. Num caso apresentado no SBSS 2026, o estoque de carbono em 0–30 cm passou de cerca de 53 t C/ha a 6 m da borda da mata para cerca de 108 t C/ha a 30 m, sem análise estatística. Uma referência mal alocada muda o tamanho do déficit calculado para o talhão.
A coleta foi feita a cada 6 m, entrando na mata, numa área de Rio Verde (GO). Os totais em 0–30 cm foram de 53,06 t C/ha a 6 m, 61,13 t C/ha a 12 m, 94,31 t C/ha a 18 m e 107,81 t C/ha a 30 m. O talhão da mesma área tinha 71,47 t C/ha na mesma camada.
Comparado ao ponto a 30 m dentro da mata, o talhão tem 36,33 t C/ha a menos em 0–30 cm. Com a referência tomada mais perto da borda, esse déficit seria outro. O dado tem limites claros. É um caso único, sem análise estatística e sem descrição do método de densidade ou de correção por massa equivalente de solo. O próprio palestrante o apresentou como direcionamento, não como regra. O alerta vale como método: em créditos de carbono, a posição do ponto de referência interfere diretamente no déficit atribuído ao talhão.

O acúmulo de carbono no solo é lento, e isso tem outra consequência para o diagnóstico: o carbono responde devagar e, sozinho, não mostra em uma ou duas safras se uma mudança de manejo está funcionando (Mendes et al., 2021).
Quanto custa o diagnóstico da saúde do solo por hectare?
Depende menos do preço por amostra e mais da estratégia de amostragem. Nos preços praticados pela consultoria Prisma e apresentados no SBSS 2026, a BioAS custa R$ 180 por amostra: R$ 180/ha com uma amostra por hectare, R$ 12/ha com uma por zona de 15 ha e R$ 3,60/ha com zonas de alto e baixo potencial em 50 ha.
A pergunta do slide era direta: despesa ou investimento? A resposta depende de como a área é estratificada. A amostragem por zona, descrita no capítulo anterior, é o que torna viável usar as ferramentas mais caras.
A metagenômica é o exemplo extremo. A R$ 850 por amostra, custa R$ 850/ha numa grade de uma amostra por hectare e R$ 4,25/ha com amostra direcionada em 200 ha.
Tabela 03. Custo por hectare das análises de solo conforme a estratégia de amostragem
| Análise | Preço por amostra | 1 amostra/ha | 1 amostra/zona (15 ha) | Zona alta/zona baixa (50 ha) | Amostra direcionada (200 ha) |
| Físico-química | R$ 70,00 | R$ 70,00/ha | R$ 4,60/ha | — | — |
| BioAS | R$ 180,00 | R$ 180,00/ha | R$ 12,00/ha | R$ 3,60/ha | — |
| Metagenômica | R$ 850,00 | R$ 850,00/ha | R$ 56,00/ha | R$ 17,00/ha | R$ 4,25/ha |
Valores reproduzidos como no original, que arredonda parte dos resultados (R$ 70/15 ha = R$ 4,67/ha; R$ 850/15 ha = R$ 56,67/ha).
A redução de custo depende de as zonas estarem bem definidas. Cada amostra passa a representar uma área maior, e o erro de alocação discutido no capítulo anterior pesa proporcionalmente mais.
Como ler química, física e biologia em conjunto?
A leitura integrada cruza a velocidade de ciclagem (enzimas) com a reserva do sistema (matéria orgânica), a capacidade de suprimento (química) e a estrutura do solo (DRES, infiltração e resistência à penetração). Cada combinação aponta uma condição e um manejo diferentes; nenhum indicador isolado basta para fechar o diagnóstico.
O funcionamento da BioAS, das enzimas aos índices, já foi detalhado no blog, assim como a leitura dos indicadores biológicos. O foco aqui é o que muda quando esses resultados são lidos ao lado da química e da física.
O que as cinco condições da BioAS indicam?
Cruzando ciclagem (enzimas) e armazenamento (matéria orgânica), a BioAS separa cinco condições: saudável (as duas altas), doente (as duas baixas), médio, adoecendo (ciclagem baixa com matéria orgânica alta, alerta precoce) e em recuperação (ciclagem alta com matéria orgânica baixa). As duas últimas são transitórias.
Saudável, doente e médio são padrões estáveis. Adoecendo e em recuperação são padrões de transição, que normalmente aparecem até cerca de 3 anos após uma mudança de manejo (Mendes et al., 2021).
A ação indicada muda com a condição (Mendes et al., 2021):
- saudável: manter as práticas;
- em recuperação: manter as práticas;
- médio: verificar onde há espaço para melhorias;
- doente: reavaliar as práticas de manejo;
- adoecendo: adotar práticas regenerativas com urgência.
A leitura ganha outra camada quando a física entra. Para um solo com ciclagem baixa, matéria orgânica ainda alta e princípio de compactação, o palestrante levantou uma hipótese de manejo, apresentada como pergunta e não como resultado: uma intervenção física poderia acelerar a perda da matéria orgânica que ainda resta. A alternativa que ele discutiu são plantas de cobertura com sistema radicular agressivo, numa evolução gradual da estrutura.

O que a avaliação física acrescenta?
A física mostra o que a química e a biologia não medem: estrutura dos agregados (DRES), velocidade de entrada de água (infiltração) e adensamento (resistência à penetração). Lidas juntas, essas avaliações indicam se o gargalo é de estrutura e se uma intervenção mecânica anterior está perdendo efeito.
O primeiro caso é o do talhão argiloso do sudoeste goiano da Tabela 02. A área tinha histórico de compactação severa e alta infestação de nematoides. Na safra 22, recebeu subsolagem seguida de milho safrinha consorciado com crotalária.
Nas avaliações seguintes, o DRES (Ralisch et al., 2017) deu notas entre 5,3 e 6,0, numa escala de 1 a 6. A infiltração variou muito entre pontos do mesmo talhão. A resistência à penetração, na leitura do palestrante, já indicava potencial de adensamento dois anos depois da subsolagem.
O talhão produziu 82,31 sc/ha na safra 24/25. Não há área-controle no mesmo talhão e na mesma safra, e o resultado não permite atribuir a produtividade à subsolagem, à crotalária ou a qualquer outra prática isoladamente.
O segundo caso é um solo arenoso com plantas de cobertura em rotação, monitorado em duas safras. O DRES passou de notas entre 2,7 e 4,1 em 24/25 para 4,6 a 5,0 em 25/26. A infiltração se manteve estável. A resistência à penetração foi maior na segunda safra, diferença que o palestrante atribuiu possivelmente à época de amostragem, o que reforça a exigência de protocolo consistente entre safras.
A resistência à penetração, sozinha, indica adensamento, mas não diagnostica compactação. A leitura só se fecha quando cruzada com a estrutura (DRES) e a entrada de água (infiltração).
Como transformar o diagnóstico da saúde do solo em decisão de manejo?
O diagnóstico vira decisão quando responde a uma pergunta concreta de manejo: manter ou reduzir fósforo, onde posicionar a cultivar de maior risco, que planta de cobertura ou biológico usar e onde controlar o tráfego. A decisão também precisa caber na capacidade operacional do produtor de executar o que o dado indica.
É esse o sentido de uma das frases da parte final da palestra:
“O nosso paciente ele não é só o solo e a fazenda ele é o produtor.” — Lucas Rozas (SBSS, 2026).
O diagnóstico integrado transforma uma fotografia superficial do solo numa compreensão funcional do sistema. As decisões abaixo foram discutidas como exemplos na palestra; nenhuma delas vem acompanhada de ensaio nas fontes deste artigo.
Tabela 04. Do resultado do diagnóstico da saúde do solo à decisão de manejo: exemplos discutidos no SBSS 2026
| O que o diagnóstico mostra | Decisão discutida | Natureza da evidência |
| Reserva de P, matéria orgânica e ciclagem adequadas | Reduzir ou zerar a dose de P | Exemplo de decisão do palestrante |
| Talhões com maior saúde e resiliência do solo | Posicionar cultivares mais suscetíveis ou de ciclo precoce, onde o risco é menor | Exemplo de decisão do palestrante |
| Retrato nutricional da safra | Ajuste fino da adubação por extração e exportação, descontando a contribuição da planta de cobertura | Exemplo de decisão do palestrante |
| Patógeno presente com diversidade de microrganismos benéficos | Ativar a biologia existente e usar cepas direcionadas ao problema principal | Exemplo de decisão do palestrante |
| Pouca diversidade de benéficos (área em recuperação) | Mix de plantas de cobertura customizado | Exemplo de decisão do palestrante |
| Adensamento associado ao tráfego | Controlar o tráfego, sobretudo na colheita com solo úmido | Exemplo de decisão do palestrante |
Adubação e posicionamento de cultivar
A decisão de reduzir ou zerar o fósforo olha três coisas ao mesmo tempo: a reserva de P, a matéria orgânica e a velocidade de ciclagem. A interpretação da análise de solo química, sozinha, não sustenta essa decisão.
A recomendação por extração e exportação permite o ajuste fino com o retrato da safra, como decidir se o boro entra ou não na adubação. A contribuição da planta de cobertura entra no balanço total de nutrientes da safra.
O diagnóstico também orienta o posicionamento de cultivar: a genética mais suscetível ou de ciclo precoce vai para os talhões de maior saúde e resiliência, onde o risco é menor.
Biológicos e plantas de cobertura
A escolha entre as ferramentas de microbiologia do solo segue a pergunta. A metagenômica lê todo o DNA da amostra; o qPCR usa primers direcionados e procura organismos específicos, patógenos ou benéficos.
Numa mancha com podridão radicular característica de Fusarium, o qPCR confirmou a presença do patógeno e mostrou diversidade de benéficos, entre eles espécies de Bacillus. Numa área de manejo conservacionista antigo, usada como comparação, Fusarium estava presente em baixa concentração e os benéficos, em alta. Na leitura do palestrante, o solo saudável não é o que não tem patógeno, e sim o que convive com ele.
Essa leitura muda a recomendação. Onde já há diversidade de benéficos, a discussão é ativar a biologia existente e complementá-la com cepas direcionadas ao problema principal. Onde a diversidade é baixa, como numa área em recuperação, só aplicar bioinsumos talvez não resolva, e um mix de plantas de cobertura customizado entra na conta.
Tráfego de máquinas
Colheita de soja com solo úmido, carreta graneleira e pneus lastrados adensam o solo justamente nas áreas que o diagnóstico procura recuperar. O Prof. Eduardo Severiano, no primeiro dia do SBSS, chamou a compactação de “doença silenciosa”. O controle de tráfego é a decisão que evita transformar o talhão num solo compactado.
O que você leva pro campo amanhã?
- A análise química de rotina responde pelo suprimento de nutrientes; diferenças de produtividade entre talhões quimicamente parecidos exigem olhar armazenamento, ciclagem, estrutura e chuva.
- O diagnóstico começa pelas quatro perguntas (por que, o que, onde medir e como decidir) e pela anamnese da área, não pela análise da moda.
- Diagnóstico de sintoma e monitoramento pedem protocolos e ferramentas diferentes.
- Onde amostrar pesa tanto quanto o que medir: zonas por relevo, índice de vegetação e histórico, e o mesmo protocolo safra após safra.
- A estratégia de amostragem, mais que o preço por amostra, define o custo por hectare do diagnóstico.
- Enzimas mostram a mudança de manejo antes do carbono; ciclagem e armazenamento se leem juntos, com a física ao lado.
Perguntas frequentes sobre diagnóstico da saúde do solo
Como fazer o diagnóstico da saúde do solo?
O diagnóstico da saúde do solo começa pela anamnese da área (histórico, mapas de produtividade, relevo e chuva) e segue quatro perguntas: por que medir, o que medir, onde medir e como decidir. Química, física e biologia são combinadas conforme a finalidade, em pontos que representem as zonas do talhão.
Qual a diferença entre análise química e análise biológica do solo?
A análise química mede a disponibilidade de nutrientes e a acidez, isto é, a capacidade do solo de suprir a cultura. A análise biológica, como a BioAS, mede a atividade de enzimas ligadas à ciclagem de nutrientes, que responde ao manejo antes da matéria orgânica.
Quanto custa uma análise biológica do solo por hectare?
Depende da estratégia de amostragem. Em preços praticados pela consultoria Prisma e apresentados no SBSS 2026, sem data de referência, a BioAS custava R$ 180 por amostra, o equivalente a R$ 180/ha com uma amostra por hectare e R$ 3,60/ha com amostragem por zonas de alto e baixo potencial em 50 ha.
Por que talhões com a mesma análise de solo têm produtividades diferentes?
Porque a análise química de rotina não mede estrutura, infiltração nem atividade biológica, e não capta diferenças de chuva dentro do talhão. Qualquer desses fatores pode explicar a diferença; identificar qual exige avaliações complementares.
Qual a diferença entre diagnóstico e monitoramento da saúde do solo?
Diagnóstico investiga um sintoma já visível, como uma mancha na lavoura, com ferramentas mais direcionadas. Monitoramento acompanha a evolução do sistema em rotina, com o mesmo protocolo ao longo das safras.
Em que profundidade e época coletar a amostra para BioAS?
Na camada de 0–10 cm, após a colheita (de preferência depois do milho safrinha), com o solo seco ao ar, seguindo os mesmos princípios da amostragem química (Mendes et al., 2019; 2021).
—
Um diagnóstico da saúde do solo que termina em decisão exige ler química, física e biologia como um sistema, da escolha dos pontos de amostragem à recomendação de manejo. Você está preparado para fazer essa leitura integrada nas suas áreas? A Pós-Graduação em Fertilidade e Saúde do Solo da Agroadvance prepara você para esse passo. Clique em SAIBA MAIS e conheça o curso:
Procedência
Este artigo é uma cobertura editorial da palestra “Integração entre análises químicas, BioAS e avaliações de campo para decisões de manejo”, apresentada por Lucas Rozas, diretor geral da Prisma Inteligência Agronômica, no Dia 2 do Simpósio Brasileiro de Saúde do Solo (SBSS) 2026, promovido pela Agroadvance em Goiânia (GO), em 06/08/2026.
Referências
MENDES, I. C.; CHAER, G. M.; REIS JUNIOR, F. B.; SOUSA, D. M. G.; DANTAS, O. D.; OLIVEIRA, M. I. L.; MALAQUIAS, J. V. Tecnologia BioAS: uma maneira simples e eficiente de avaliar a saúde do solo. Planaltina, DF: Embrapa Cerrados, 2021. 50 p. (Documentos, 369). ISSN 1517-5111. Disponível em: https://www.infoteca.cnptia.embrapa.br/infoteca/bitstream/doc/1133109/1/Tecnologia-Bioas-Documentos-369.pdf
MENDES, I. C.; SOUZA, L. M.; SOUSA, D. M. G.; LOPES, A. A. C.; REIS JUNIOR, F. B.; LACERDA, M. P. C.; MALAQUIAS, J. V. Critical limits for microbial indicators in tropical Oxisols at post-harvest: the FERTBIO soil sample concept. Applied Soil Ecology. v. 139, p. 85-93, 2019. DOI: https://doi.org/10.1016/j.apsoil.2019.02.025
RALISCH, R.; DEBIASI, H.; FRANCHINI, J. C.; TOMAZI, M.; HERNANI, L. C.; MELO, A. S.; SANTI, A.; MARTINS, A. L. S.; BONA, F. D. Diagnóstico rápido da estrutura do solo – DRES. Londrina: Embrapa Soja, 2017. (Documentos, 390). Disponível em: https://www.infoteca.cnptia.embrapa.br/infoteca/handle/doc/1071114
Sobre a autora:

Beatriz Nastaro Boschiero
Especialista em Conteúdo na Agroadvance
- Pós-doutora pelo CTBE/CNPEM e CENA/USP
- Mestra e Doutora em Solos e Nutrição de Plantas (ESALQ/USP)
- Engenheira Agrônoma (UNESP/Botucatu)
Como citar este artigo
BOSCHIERO, B. N. Diagnóstico da saúde do solo: como integrar análise química, BioAS e avaliações de campo para decidir o manejo. Blog Agroadvance. Publicado em: 13 Out. 2026. Disponível em: https://agroadvance.com.br/blog-diagnostico-da-saude-do-solo/. Data de acesso: 13 out. 2026.



