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Metabolismo dos micronutrientes nas plantas: funções fisiológicas e estratégias de manejo

Entenda como o metabolismo dos micronutrientes nas plantas impacta a produtividade. Explore funções fisiológicas, rotas metabólicas e estratégias de manejo para evitar deficiências.
  • Publicado em 03/06/2026
  • João Paulo Marin Sebim
  • Fisiologia vegetal, Nutrição de plantas
  • Publicado em 03/06/2026
  • João Paulo Marin Sebim
  • Fisiologia vegetal, Nutrição de plantas
  • Atualizado em 01/06/2026
metabolismo dos micronutrientes nas plantas funções dos micronutrientes
Sumário

A produtividade de uma cultura não é determinada apenas pelas quantidades de nutrientes que aplicamos em larga escala no solo, mas sim pelo equilíbrio fisiológico e bioquímico que ocorre a nível celular.

Você já se perguntou por que razão, mesmo com adubação adequada de NPK, algumas plantas não atingem o seu potencial produtivo? Em grande parte dos casos, essas limitação pode estar associada ao metabolismo dos micronutrientes nas plantas.

Embora representem menos de 0,1% da massa seca vegetal, os micronutrientes funcionam como os “maestros” de reações enzimáticas vitais, transporte de elétrons, metabolismo antioxidativo, síntese hormonal, fotossíntese e metabolismo do nitrogênio.

Na prática, isso significa que pequenas limitações nutricionais podem comprometer processos fisiológicos decisivos para o enchimento de grãos, formação de estruturas reprodutivas, tolerância a estresses e eficiência fotossintética.

Neste artigo, vamos aprofundar o papel fisiológico dos micronutrientes nas plantas, suas rotas metabólicas, principais sintomas de deficiência e estratégias de manejo para aumentar a eficiência nutricional no campo.

O que é o metabolismo de micronutrientes?

O metabolismo de micronutrientes envolve os processos de absorção (geralmente iónica), transporte através do xilema e floema, redistribuição e integração desses elementos em moléculas orgânicas ou complexos enzimáticos.

Diferente dos macronutrientes, que possuem funções estruturais e energéticas, os micronutrientes atuam de forma predominante na ativação de enzimas e no transporte de elétrons.

Grande parte desses elementos participa diretamente:

  • da ativação de enzimas;
  • do transporte de elétrons;
  • da síntese de hormônios;
  • da proteção antioxidativa;
  • da fotossíntese;
  • da respiração celular;
  • da assimilação de nitrogênio.

Por isso, pequenas alterações na disponibilidade desses nutrientes podem desencadear impactos fisiológicos expressivos.

O que são micronutrientes?

O termo “micronutriente” refere-se à quantidade demandada pela planta, e não à sua importância fisiológica.

Enquanto macronutrientes como o nitrogênio são encontrados em concentrações de gramas por quilograma de matéria seca (g/kg), os micronutrientes normalmente aparecem em concentrações de miligramas por quilograma (mg /kg).

Para ser considerado um micronutriente essencial, o elemento deve atender aos três critérios de essencialidade de Arnon & Stout (1939):

  1. Imprescindibilidade: a planta é incapaz de completar seu ciclo de vida (crescimento vegetativo e produção de sementes viáveis) na ausência do elemento.
  2. Irreemplaçabilidade: a função do elemento é específica. Nenhum outro elemento da tabela periódica pode substituir suas funções bioquímicas.
  3. Ação direta: O elemento deve participar diretamente do metabolismo vegetal, seja como constituinte de uma molécula (como uma enzima) ou como parte de uma etapa de reação bioquímica.

Reconhecemos, atualmente, oito micronutrientes como essenciais para as plantas superiores: Boro (B), Cloro (Cl), Cobre (Cu), Ferro (Fe), Manganês (Mn), Molibdênio (Mo), Níquel (Ni) e Zinco (Zn).

Alguns elementos como Cobalto (Co), Selênio (Se) e Silício (Si) são considerados benéficos para certas espécies, mas não atendem a todos os critérios de essencialidade.

A Figura 1 apresenta a classificação dos elementos de acordo com os critérios da nutrição, estabelecidos por Arnon e Stout.

  • Micronutriente: mg/kg
  • Macronutrientes: g/kg

Classificação dos nutrientes em macro, micro e elementos benéficos na tabela peródica
Figura 1. Classificação dos nutrientes em macro, micro e elementos benéficos. Fonte: Tiago Tezotto.

Surge então a dúvida: elemento como o Cobalto (Co), fundamental para a Fixação Biológica de Nitrogênio (FBN) em leguminosas, não deveria ser considerado micronutriente? De acordo com a nutrição, se seguirmos os critérios clássicos de essencialidade, a resposta é não.

No entanto, a legislação brasileira adota uma visão pragmática: para fins de registro e fabricação de fertilizantes, elementos como Silício (Si), Cobalto e Selênio (Se) são enquadrados como nutrientes. Trata-se, portanto, de uma classificação mais jurídica do que estritamente fisiológica ou bioquímica.

Figura 2 representa quando foi demonstrado a essencialidade de cada micronutriente e os critérios de Arnon e Stout.

Ano em que cada elemento foi demonstrado como essencial e os critérios de Arnon e Stout adotado
Figura 2. Ano em que cada elemento foi demonstrado como essencial e os critérios de Arnon e Stout adotado. Fonte: Tiago Tezotto.

Classificação fisiológica e bioquímica dos micronutrientes

Sob o ponto de vista fisiológico, baseada em Mengel e Kirkby (1987), os micronutrientes podem ser agrupados de acordo com a dinâmica bioquímica e fisiológica na planta (Figura 3).

Essa classificação auxilia na compreensão da dinâmica nutricional dentro da planta e da relação entre sintomas visuais e processos fisiológicos afetados.

critérios para classificação dos nutrientes
Figura 3. Classificação dos micronutrientes pelo critério fisiológico. Fonte: Tiago Tezotto.

Grupo 01: fazem parte de moléculas orgânicas da planta.

Grupo 02: fazem ligação da estabilidade da molécula através de esterificação com terminações álcool, então o B se enquadra nesse grupo, na membrana plasmática.

Grupo 03: elementos que regulam o potencial de água, condiciona o potencial hídrico da planta, ativam a enzima.

Grupo 04: presentes na forma quelatizada, ou seja, eu tenho Fe ligado a uma molécula orgânica, seja um composto orgânico citrato, malato ou um proveniente de um aminoácido, como por exemplo, uma estidina. Que são elementos dentro da planta que tem a capacidade de quelatizar esses elementos e incorporá-los como cofator enzimático.

Quando olhamos a forma desses elementos, estudamos qual a forma biológica que ele esta ativo na planta (Tabela 1).

Tabela 1. Forma biológica do nutriente na planta e sua concentração

 ElementoForma biologicamente ativaConcentração nas plantas (mg / kg)
Deficiência    Normal Toxicidade
Ferro (Fe)Fe2+, Fe3+< 2020 – 1000> 2000
Cobre (Cu)Cu+, Cu2+< 1010 – 25> 25
Zinco (Zn)Zn2+< 1010 – 120> 120
Manganês (Mn)Mn2+, Mn3+, Mn4+< 9090 – 200> 200
Molibdênio (Mo)Mo4+, Mo6+ (Mo-co ou FeMo-co)< 0.10.1 – 90> 90
Boro (B)B(OH)3< 1010 – 80> 80
Cloro (Cl)Cl–> 100100 – 800> 800
Níquel (Ni)Ni2+> 0,050,05 – 10> 10
Fonte: Tiago Tezotto.

Metabolismo dos micronutrientes nas plantas: Função metabólica dos micronutrientes

Boro (B)

O boro (B) é um dos micronutrientes mais complexos devido à sua baixa mobilidade e forte participação estrutural e metabólica.

  • Estabilidade de membranas e formação de tecidos

O B participa da integridade da parede celular, principalmente pela ligação com polissacarídeos pécticos.

Na deficiência de boro, há uma falha na formação da membrana plasmática e falta de estabilidade das membranas. O que causa uma deformação morfológica da estrutura da parede celular, e impacta na má formação de tecido, e gera necrose e abortamento de estruturas, má formação de tecido vegetal, encarquilhamento de folhas, associados à restrição de crescimento.

  • Fluidez e transporte de açúcares

O B também influencia diretamente o transporte de carboidratos.

Funciona assim: a planta possui moléculas de sacarose; quando uma sacarose se liga a outra, aumenta-se a complexidade desse açúcar, gerando o que chamamos de estaquiose e rafinose. Esses são açúcares “gigantes” que dificultam o transporte. O B liga-se a uma terminação da sacarose, e evita que ela se ligue a outra. Isso garante maior fluidez de açúcar no floema.

Em condições de restrição hídrica, ter mais sacarose e menos estaquiose/rafinose evita o entupimento dos tubos do floema, acelerando o enchimento de grãos (Tabela 2).

Tabela 2. Aplicação foliar de B na fase R5-R6 na concentração de sacarose, rafinose, estaquiose e açúcares totais em grãos de soja

SacaroseRafinoseEstaquioseAçúcares totais
Tratamento(mg/g)(mg/g)(mg/g)(mg/g)
Irrigado55,54,653292,15
Irrigado + Boro684,734,5107,2
Estresse hídrico27,59,1560,597,15
Estresse hídrico + B357,855092,85
Tratamento (%)(%)(%)(%)
Irrigado60,25,034,7100,0
Irrigado + Boro63,44,432,2100,0
Estresse hídrico28,39,462,3100,0
Estresse hídrico + B37,78,553,9100,0
Fonte: Tiago Tezotto.
  • Metabolismo antioxidativo

Uma função indireta do B está relacionada à concentração de ácido ascórbico nas folhas.

A deficiência de B leva a uma menor concentração de ascorbato, que é um poderoso agente antioxidante. Uma planta bem nutrida em B possui maior capacidade antioxidante, protegendo os tecidos contra estresses oxidativos.

  • Fecundação e germinação do pólen

Talvez a função mais conhecida seja na fecundação. O B influencia diretamente a germinação do pólen ao cair no estigma.

Sem B, ocorre uma deformação do tubo polínico, impedindo que ele alcance e fecunde o óvulo, o que afeta o número de sementes e frutos.

Deficiência de B

Por se tratar de um nutriente pouco móvel, ocorre deformação de tecido jovem (Figura 4).

sintoma de deficiência de boro nas plantas
Figura 4. sintomas de deficiência de boro nas plantas. Fonte: Tiago Tezotto.

Toxidez de Boro

Como o boro tem baixa mobilidade em várias culturas (como o café), ele acumula-se em folhas mais velhas. Quando atinge níveis tóxicos, provoca uma clorose internerval seguida de necrose, um sintoma visualmente quase idêntico à falta de Magnésio.

A Figura 5 ilustra exatamente este cenário, onde apresenta o gradiente de clorose e necrose numa folha velha causado pelo excesso de Boro.

sintoma de toxidez de boro em plantas de café
Figura 5. Toxidez de boro (B) em plantas de café. Fonte: Tiago Tezotto.

Cloro (Cl)

  • Fotólise da água

O Cl participa da fotólise da água no fotossintema II. Quando falamos de fotólise da água, que é a quebra da molécula de água, há três elementos que participam neste processo. O Ca (que está no centro de evolução de oxigênio onde ocorre a quebra) e quatro átomos de Mn.

Quando falarmos do Mn, voltaremos a este processo, mas o Cl também é um constituinte fundamental aqui. A quebra da molécula de água liberta o oxigênio que nós respiramos e liberta também um elétron que caminha pela cadeia para gerar ATP e regenerar o NADPH, que são as moléculas energéticas dentro da planta.

  • Regulação osmótica

Uma outra função do Cl está ligada à sua característica de regulação osmótica. Grande parte da abertura e fechamento estomático dá-se pela presença de íons na célula-guarda. A entrada e saída de K (um macronutriente) e de Cl (um micronutriente) nas células-guarda faz com que o estômato se abra ou se feche (Figura 6).

Regulação osmótica mediada pelo Cloro e potássio K
Figura 6. Regulação osmótica mediada pelo Cl e K. Fonte: Tiago Tezotto.

Portanto, essa abertura e fechamento dão-se pelo bombeamento e saída de Cl, o que permite a regulação osmótica. Ou seja, o controle do potencial osmótico no tecido vegetal para que a planta absorva mais água e se hidrate depende ativamente desta participação.

Deficiência de Cl

A deficiência de Cl reduz o crescimento da planta, mas é muito difícil de ser observada no campo. Por quê? Porque grande parte da nossa adubação é feita com cloretos, como o Cloreto de Potássio (KCl).

Quando faço o fornecimento de K, o Cl já está a entrar em grande quantidade. Ou seja, já tem Cl nessa planta. Por isso, é muito difícil encontrar uma deficiência de Cl no campo, sendo mais comum apenas em algumas condições muito específicas, como em cultivo protegido sem este aporte (Figura 7).

Sintomas de deficiência de Cloro nas plantas
Figura 7. Sintomas de deficiência de Cl. Fonte: Tiago Tezotto.

Molibdênio (Mo)

Ele está relacionado ao metabolismo do N. Falou Mo, falou N; falou N, falamos de Mo. Isso porque ele é constituinte (cofator) de duas enzimas que participam do metabolismo do N: a nitrato redutase (redutase do nitrato) e a nitrogenase. São duas enzimas que estão no metabolismo do N.

No entanto, não é só no metabolismo do N que ele atua. Ele participa de uma série de processos ligados à resistência a estresses, como pela enzima xantina desidrogenase, que também precisa de Mo para funcionar.

Então, nós preocupamo-nos com o N, sim, mas a planta tem outros metabolismos, como a resistência a estresses, o metabolismo de S (através da enzima sulfito oxidase) e a síntese de um hormônio, o ABA (ácido abscísico), que é transformado através da enzima aldeído oxidase, que também precisa de Mo para funcionar.

É por isso que, quando falamos de adubação com molibdênio em soja, não bastam apenas aquelas 15 a 20 gramas direcionadas para a FBN. Eu tenho todo o tecido da planta de soja para ser atendido por esse nutriente e é por isso que, via de regra, a gente chega a recomendar até 60 gramas de Mo na lavoura de soja.

Isso vai muito além das quantidades exigidas apenas para a FBN. Se pensarmos só na FBN, estamos a olhar apenas para uma parte do processo. Na verdade, podemos observar a participação do cofator de Mo na nitrato redutase (transformando nitrato em nitrito), na xantina desidrogenase, na sulfito oxidase (transformando sulfito) e na aldeído oxidase (que depois vai virar hormônio).

Além disso, atua no metabolismo de xantina e hipoxantina, que são produtos da quebra de purinas relacionados ao metabolismo de estresse.

Vejam, portanto, que o Mo participa em diferentes rotas desse metabolismo, provando que vai muito além do nitrogênio.

Relação do Mo com FBN

Quando falamos da nitrogenase, muito do que observamos é a transformação do N₂ em amônia, e essa amônia é incorporada em amônio. Esses ureídeos e aminoácidos são, então, transportados para a folha.

E essa nitrogenase depende de Fe e depende de Mo para conseguir fazer essa fixação do nitrogênio (N₂) em amônia lá dentro do nódulo (Figura 8).

Por isso, o manejo de Mo vai muito além da inoculação e exerce impacto direto sobre o metabolismo global da planta.

papel do molibdênio na FBN MO e FBN
Figura 8. Ação do Mo na FBN. Fonte: Tiago Tezotto.

Temos também outros elementos, que são benéficos, como é o caso do Co. O Co ajuda a manter uma concentração de N₂ maior nesse nódulo, reduzindo a concentração de oxigênio livre e aumentando a de N₂ para que essa enzima trabalhe de forma mais eficiente.

Uma vez transportados para a parte aérea, o Mn faz a quebra desses ureídeos em amônio.

Deficiência de Mo

Deficiência de Mo é deficiência de N. Não dá para chegar no campo e afirmar que é deficiência de Mo (Figura 9).

Deficiência de Molidbênio nas plantas
Figura 9. Deficiência de Mo em alfafa e trigo. Fonte: Tiago Tezotto.

Manganês (Mn)

  • Fotólise da água e fotossíntese

Quando falamos da quebra da molécula de água dentro do fotossistema II, existe um complexo denominado centro de evolução de oxigênio. Nesse complexo encontram-se quatro átomos de Mn, além de Ca e Cl.

É exatamente nesse local que ocorre a fotólise da água, liberando elétrons para a cadeia transportadora, prótons (H+) e oxigênio. Portanto, sem Mn, a planta perde eficiência na geração de ATP e NADPH, que são as moléculas energéticas responsáveis por sustentar o metabolismo vegetal (Figura 10).

papel do  mn na Fotólise da água
Figura 10. Fotólise da água. Fonte: Tiago Tezotto.

Além disso, a deficiência de Mn reduz a taxa fotossintética, o crescimento e a produção de biomassa.

  • Metabolismo antioxidativo

Em condições de estresse biótico ou abiótico, ocorre a formação de espécies reativas de oxigênio (EROs), como o radical superóxido (O2-). Essas moléculas são altamente tóxicas para as células vegetais.

O Mn participa da enzima superóxido dismutase (Mn-SOD), responsável pela conversão do radical superóxido em peróxido de hidrogênio (H2O2), reduzindo os danos oxidativos (Figura 11).

Participação do manganês no metabolismo antioxidativo vegetal.
Figura 11. Participação do manganês no metabolismo antioxidativo vegetal. Fonte: Tiago Tezotto.

Uma planta bem nutrida em Mn apresenta maior capacidade de tolerar condições como seca, excesso de radiação, temperaturas elevadas e ataque de patógenos.

  • Ativação enzimática e metabolismo do nitrogênio

O Mn também atua como ativador de diversas enzimas ligadas ao metabolismo do nitrogênio, carboidratos e compostos fenólicos.

Na soja, por exemplo, após a FBN, os ureídeos transportados até a parte aérea precisam ser degradados para libertar amônio e posteriormente serem incorporados em aminoácidos. Esse processo depende diretamente da presença de Mn.

Deficiência de Mn

A deficiência de Mn manifesta-se em folhas novas ou intermediárias, devido à sua baixa mobilidade no floema.

Os sintomas caracterizam-se por clorose internerval, mantendo as nervuras verdes (Figura 12). Em casos severos, podem surgir pequenas pontuações necróticas.

Em culturas como soja e café, a deficiência de Mn reduz a atividade fotossintética e a eficiência metabólica.

sintoma visual da deficiência de manganês Clorose internerval em folhas novas
Figura 12. Clorose internerval em folhas novas. Fotos: Tiago Tezotto.

Toxidez de Mn

O excesso de Mn provoca manchas necróticas e escurecimento das folhas, principalmente em solos ácidos.

Isso ocorre porque, em condições de baixo pH, o Mn torna-se mais solúvel e disponível para absorção. Em excesso, passa a atuar como elemento tóxico, comprometendo a integridade celular e aumentando o estresse oxidativo.

Ferro (Fe)

  • Transporte de elétrons

O Fe participa do transporte de elétrons tanto na fotossíntese quanto na respiração celular.

Dentro dos cloroplastos e mitocôndrias, o Fe encontra-se presente em citocromos, ferredoxinas e proteínas ferro-enxofre, que são responsáveis pela transferência de elétrons.

Sem Fe, a planta perde eficiência energética, reduzindo a produção de ATP e compromete maior parte do metabolismo celular.

  • Síntese de clorofila

Embora o Fe não faça parte estrutural da molécula de clorofila, ele é indispensável para sua síntese.

Por isso, plantas deficientes em Fe apresentam intensa clorose internerval nas folhas novas, mantendo as nervuras verdes.

Isso acontece porque o Fe possui mobilidade intermediária no floema, dificultando sua redistribuição para tecidos jovens.

  • Metabolismo do nitrogênio

O Fe também participa da atividade da nitrato redutase e da nitrogenase.

Na FBN, a nitrogenase depende de Fe e Mo para converter o N2 atmosférico em amônia dentro do nódulo.

Além disso, o Fe participa do metabolismo respiratório necessário para fornecer energia ao processo de fixação biológica.

  • Síntese de lignina e resistência a estresses

O Fe participa da síntese de lignina e do metabolismo antioxidativo.

Uma planta nutrida em Fe possui maior capacidade de redução de estresses oxidativos e melhor estruturação dos tecidos vegetais.

Deficiência de Fe

A deficiência de Fe é caracterizada por clorose internerval intensa nas folhas novas (Figura 13).

sintoma de deficiência de ferro nas folhas
Figura 13. Clorose internerval em folhas novas de cafeeiro no período das águas (janeiro-fevereiro). Fotos: Tiago Tezotto.

Em situações severas e prolongadas, ocorre necrose do limbo foliar.

Esse problema é comum em solos alcalinos, mal drenados ou com excesso de bicarbonatos.

Em muitas situações, o Fe está presente no solo, mas indisponível para absorção devido ao pH elevado.

Toxidez de Fe

A toxidez de Fe ocorre em maior parte em solos alagados, como no cultivo de arroz irrigado.

Em condições anaeróbias, o Fe3+ é reduzido para Fe2+, forma solúvel e absorvida pela planta.

Quando acumulado em excesso, provoca necrose foliar, escurecimento das folhas e danos oxidativos.

Como mecanismo de proteção, a planta oxida Fe2+ para Fe3+ e armazena esse elemento na proteína ferritina.

A ferritina pode armazenar mais de 80% do Fe presente na folha, funcionando como importante reserva e mecanismo de detoxificação (Figura 14).

sintomas da Toxicidade de ferro em arroz alagado
Figura 14. Toxicidade de ferro em arroz alagado (> 500 mg/kg). Fonte: Tiago Tezotto.

Cobre (Cu)

  • Respiração celular

O Cu participa da respiração celular através da enzima citocromo c oxidase, localizada na mitocôndria.

Essa enzima atua na cadeia transportadora de elétrons, sendo fundamental para geração de energia.

  • Fotossíntese

Na fotossíntese, o Cu integra a plastocianina, proteína responsável pelo transporte de elétrons dentro do cloroplasto.

Dessa forma, a deficiência de Cu reduz a eficiência fotossintética e o metabolismo energético da planta.

  • Síntese de lignina

Uma das funções mais importantes do Cu está relacionada à síntese de lignina.

Enzimas como catecol oxidase e lacase dependem diretamente desse micronutriente.

A lignina atua como barreira física de proteção, aumentando a resistência mecânica dos tecidos e dificultando a penetração de patógenos.

Por isso, plantas deficientes em Cu tornam-se mais suscetíveis a doenças e apresentam tecidos mais frágeis.

  • Metabolismo antioxidativo

O Cu também participa do sistema antioxidativo através da enzima superóxido dismutase (Cu/Zn-SOD).

Essa enzima converte radicais superóxido em peróxido de hidrogênio, reduzindo os danos causados pelo estresse oxidativo.

Além disso, a uma relação entre Cu e mecanismos de defesa associados ao ácido salicílico e proteínas relacionadas à resistência sistêmica adquirida.

Deficiência de Cu

Por apresentar mobilidade intermediária, os sintomas surgem principalmente em folhas novas.

Entre os sintomas mais comuns estão:

  • Deformação do limbo foliar;
  • Ausência de crescimento apical (Figura 15);
  • Seca de ponteiro;
  • Folhas estreitas em gramíneas, com aspecto de agulha;
  • Excesso de perfilhamento.

Desenvolvimento de plantas de Arabidopsis thaliana sob suficiência (+Cu) e deficiência de cobre (-Cu).
Figura 15. Desenvolvimento de plantas de Arabidopsis thaliana sob suficiência (+Cu) e deficiência de cobre (-Cu). Fonte: Tiago Tezotto.

Em cafeeiro e citros, a deficiência pode provocar seca de ramos e redução do crescimento.

Toxidez de Cu

O excesso de Cu provoca necrose em raízes e folhas.

Esse problema é comum em áreas com uso frequente de fungicidas cúpricos ou calda bordalesa, principalmente em viticultura.

Em algumas situações, análises foliares podem indicar elevados teores de Cu devido ao depósito superficial de fungicidas sobre a folha, sem refletir o estado nutricional interno da planta.

Zinco (Zn)

  • Fotossíntese e anidrase carbônica

O Zn participa da enzima anidrase carbônica, extremamente importante para plantas C4.

Essa enzima catalisa a conversão de CO2 em bicarbonato (HCO3-), etapa fundamental para o metabolismo fotossintético.

Assim, culturas como milho e cana-de-açúcar apresentam elevada sensibilidade à deficiência de Zn.

  • Síntese de proteínas

O Zn participa da síntese proteica e da estabilização estrutural de proteínas e ribossomos.

Quando há deficiência, ocorre redução no crescimento vegetal devido à menor produção de proteínas.

  • Síntese de hormônios

Uma função clássica do Zn está relacionada à síntese de auxinas.

Sem Zn, há redução na produção desses hormônios vegetais, o que causa encurtamento de internódios e crescimento reduzido.

Por isso, plantas deficientes apresentam folhas pequenas e entrenós curtos.

  • Metabolismo antioxidativo

O Zn também participa da enzima superóxido dismutase (Cu/Zn-SOD), atuando na redução do estresse oxidativo.

  • Metabolismo reprodutivo

O Zn possui forte relação com a formação e viabilidade do pólen.

A um aumento no número de grãos de pólen e no diâmetro polínico em plantas suplementadas com Zn. Quando associado ao B, esses efeitos podem ser ainda maiores (Tabela 3).

Tabela 3. Capacidade de produção de pólen das anteras e diâmetro dos grãos de pólen em milho em resposta à aplicação de Zn isoladamente ou em combinação com B.

ParâmetrosControleZnZn + B
Número de grãos de pólen / antera
Capacidade de produção de pólen15602430 (+55,6%)2820 (+80,8%)
 µm
Diâmetro dos grãos de pólen70,182,7 (+18,0%)86,4 (+23,3%)
Fonte: Shikha Yadav e Digvijay Singh (2017).
  • Metabolismo de carboidratos

O Zn participa da síntese e transporte de açúcares, influenciando o enchimento de grãos e a produtividade.

Deficiência de Zn

Os sintomas aparecem em folhas novas, devido à mobilidade intermediária. Entre os sintomas mais comuns estão:

  • Redução de internódios;
  • Folhas pequenas e lanceoladas;
  • Emissão de folhas em roseta;
  • Clorose internerval.

Em milho, é muito comum observar plantas pequenas e entrenós extremamente curtos (Figura 16).

Deficiência de Zinco Zn  em milho
Figura 16. Deficiência de Zn em milho. Fotos: Tiago Tezotto.

Toxidez de Zn

O excesso de Zn provoca amarelecimento seguido de pontuações necróticas nas folhas.

Além disso, altas concentrações podem induzir deficiência de outros nutrientes, como Fe e Mn, devido ao antagonismo nutricional.

Níquel (Ni)

  • Metabolismo do nitrogênio

O Ni foi o último micronutriente reconhecido como essencial para plantas superiores.

Sua principal função está relacionada à enzima urease. A urease é responsável pela degradação da ureia em amônio, o que permiti que o nitrogênio seja assimilado pela planta.

Sem Ni, ocorre acúmulo de ureia nos tecidos, causando toxicidade celular.

  • Remobilização de reservas nitrogenadas

O Ni também participa do metabolismo da arginina e da remobilização de reservas nitrogenadas. Esse processo é importante durante a germinação e a fase reprodutiva.

Durante muitos anos acreditava-se que o Ni participava diretamente da degradação de ureídeos em plantas. Hoje sabemos que esse mecanismo ocorre principalmente em fungos, bactérias e algas. Em plantas superiores, a degradação de ureídeos depende em sua maioria da enzima alantoato amidohidrolase, associada ao Mn.

  • Redução de estresses

Outra função importante do Ni está relacionada à detoxificação de methylglyoxal (MG), um composto tóxico formado durante condições de estresse.

O acúmulo de MG aumenta a produção de espécies reativas de oxigênio e provoca danos celulares.

Plantas bem nutridas em Ni apresentam maior eficiência na eliminação desse composto tóxico.

Deficiência de Ni

Os sintomas mais comuns da deficiência de níquel nas plantas, inclui:

  • Pontas das folhas mais novas apresentam manchas escuras em formato arredondado;
  • Clorose foliar;
  • Redução do tamanho e formato alterado da folha;
  • Região verde-escuro nas pontas foliares;
  • Necrose apical foliar;
  • Curvatura e enrugamento da região apical foliar;
  • Ausência do desenvolvimento laminar.

Sintomas de deficiência de níquel (Ni) em plantas
Figura 17. Sintomas de deficiência de níquel (Ni) em pecã (Carya illinoinensis). As imagens ilustram alterações morfológicas associadas à deficiência do micronutriente, incluindo redução do crescimento de ramos, deformações foliares (“orelha-de-rato”) e alterações no desenvolvimento vegetativo. À esquerda superior, comparação entre galhos tratados com Ni e galhos com deficiência; à direita superior, folha com deformação típica; na parte inferior, folhas compostas apresentando sintomas característicos em condições de campo. Adaptado de Wood, Reilly e Nyczepir (2004a; 2004b; 2006).

Toxidez de Ni

Embora seja exigido em quantidades extremamente baixas, o excesso de Ni torna-se altamente tóxico.

Altas concentrações provocam redução do crescimento radicular, clorose e desequilíbrios metabólicos.

Manejo de micronutrientes: como aumentar a eficiência no campo

Aplicação via solo

A adubação com micronutrientes via solo continua sendo uma das principais estratégias para o seu fornecimento.

No entanto, a eficiência depende diretamente de fatores como:

  • pH do solo;
  • Teor de matéria orgânica;
  • Textura;
  • Interação entre nutrientes;
  • Umidade do solo.

Em solos muito argilosos ou com pH elevado, micronutrientes como Zn, Cu e Fe podem ficar menos disponíveis.

Já em solos arenosos, há maior risco de perdas por lixiviação, principalmente para B.

Aplicação foliar

A aplicação foliar é uma estratégia eficiente para corrigir deficiências rapidamente.

Micronutrientes aplicados via folha apresentam resposta rápida devido à absorção direta pelos tecidos vegetais.

No entanto, essa prática deve ser encarada como complementar, e não substitutiva ao manejo do solo.

Quelatos e tecnologias modernas

O uso de quelatos aumentou significativamente a eficiência dos micronutrientes.

Moléculas quelatizantes protegem os nutrientes contra precipitação e oxidação, o que aumenta sua estabilidade e absorção. Isso é importante para Fe, Zn e Cu.

Além disso, novas tecnologias envolvendo complexação com aminoácidos, ácidos orgânicos e nanotecnologia vêm sendo estudadas para aumentar a eficiência nutricional.

Integração entre fisiologia e manejo

O manejo de micronutrientes não deve ser baseado apenas em tabelas de recomendação.

Compreender a fisiologia vegetal permite interpretar melhor sintomas, antecipar problemas nutricionais e construir estratégias mais eficientes de posicionamento dos micros.

Uma planta produtiva não depende apenas de grandes quantidades de nutrientes, mas sim do equilíbrio metabólico entre eles.

Conclusões

Os micronutrientes representam uma fração pequena da composição vegetal, mas exercem funções decisivas no metabolismo das plantas.

Fotossíntese, respiração, metabolismo antioxidativo, síntese hormonal, formação de tecidos, transporte de elétrons e metabolismo do nitrogênio dependem desses elementos.

Deficiências de micronutrientes reduzem não apenas o crescimento, mas toda a eficiência bioquímica da planta.

Por isso, compreender o metabolismo dos micronutrientes é um passo importante para construir programas de posicionamento de adubação mais eficientes, sustentáveis e produtivos.

Mais do que corrigir sintomas visuais, o manejo nutricional moderno precisa atuar na manutenção do equilíbrio fisiológico da planta.

Estamos vivendo a era da agricultura dos detalhes, não podemos viver do improviso. Altas produtividades e função disso!

Baixe gratuitamente o Guia Prático de Deficiências Nutricionais das Plantas e aprenda a identificar sintomas, interpretar análises e posicionar micronutrientes de forma estratégica na lavoura.

guia prático de deficiências nutricionais

Referências 

ARNON, D.I., STOUT, P.R. (1939). The essentiality of certain elements in minute quantity for plants with special reference to copper. Plant Physiol. 14: 375 371 ;

EPSTEIN, E. BLOOM, A.J. (2003). Mineral Nutrition of Plants: Principles and Perspectives, 2nd Ed., John Wiley & Sons, New York.

MARSCHNER, P., ed (2012). Marschner’s Mineral Nutrition of Higher Plants. 3rd ed. (London: Academic Press).

Sobre o autor

João Paulo Marin Sebim

Doutorando em fitotecnia (ESALQ/USP)

  • Mestre em Produção Vegetal (UFAC)
  • Engenheiro Agrônomo (UFAC)
  • [email protected]
  • Perfil do Linkedin
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Como citar este artigo:

SEBIM, J.P.M. Metabolismo dos micronutrientes nas plantas: funções fisiológicas, deficiência e manejo nutricional. Blog Agroadvance. Publicado em: 03 Jun. 2026. Disponível em: https://agroadvance.com.br/blog-metabolismo-dos-micronutrientes-nas-plantas/. Acesso: 03 jun. 2026.

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