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Deficiência de magnésio no solo: por que o calcário nem sempre resolve e como corrigir

A deficiência de magnésio no solo pode limitar a produtividade mesmo após a calagem. Entenda por que o calcário nem sempre resolve e conheça as melhores estratégias de correção.
  • Publicado em 17/07/2026
  • Felipe Wohnrath
  • Fertilidade do Solo
  • Publicado em 17/07/2026
  • Felipe Wohnrath
  • Fertilidade do Solo
  • Atualizado em 14/07/2026
Deficiência de magnésio no solo na soja
Sumário

O calcário é indispensável para corrigir a acidez do solo e criar um ambiente favorável ao desenvolvimento das culturas. No entanto, em sistemas de alta produtividade, corrigir o pH não significa, necessariamente, garantir o suprimento adequado de todos os nutrientes essenciais.

É relativamente comum encontrar áreas com saturação por bases dentro da meta, pH corrigido e, ainda assim, apresentar limitações produtivas relacionadas ao desequilíbrio nutricional. Nesses casos, um dos fatores frequentemente negligenciados é a disponibilidade de magnésio no solo.

Embora seja classificado como um macronutriente secundário, o magnésio exerce funções centrais na fisiologia vegetal. Além de compor a molécula de clorofila, participa da ativação de centenas de enzimas, da fotossíntese, da fixação de carbono, do transporte de fotoassimilados pelo floema e do enchimento de grãos. Quando sua disponibilidade é insuficiente, a eficiência da planta em converter energia luminosa em produtividade também diminui.

Nas últimas décadas, a intensificação dos sistemas produtivos aumentou significativamente a extração de magnésio pelas culturas. Ao mesmo tempo, estratégias de manejo baseadas apenas na calagem nem sempre conseguem repor esse nutriente na mesma velocidade em que ele é removido do sistema.

Um padrão observado com frequência nas análises de solo ilustra bem essa situação: após a calagem, os teores de cálcio aumentam conforme esperado, enquanto o magnésio permanece próximo ou até abaixo do nível crítico, muitas vezes entre 6 e 8 mmolc/dm³, mesmo após sucessivas aplicações de calcário.

Esse comportamento demonstra que a disponibilidade de magnésio depende de fatores muito mais complexos do que apenas a quantidade aplicada. A solubilidade da fonte, a dinâmica química do solo, a relação com outros nutrientes e a própria eficiência da calagem influenciam diretamente o suprimento desse elemento às plantas.

Por isso, compreender por que o calcário nem sempre consegue corrigir a deficiência de magnésio tornou-se essencial para produtores e consultores que buscam explorar o máximo potencial produtivo das culturas.

Este artigo reúne os principais conceitos apresentados em uma aula técnica ministrada pelos professores Dr. Rafael Otto e Dr. Tiago Tezotto, da ESALQ/USP, integrando aspectos de fertilidade do solo, química, nutrição mineral e manejo da adubação.

Ao longo do conteúdo serão abordados:

  • porque o calcário pode não fornecer magnésio suficiente;
  • como ocorre a dinâmica entre cálcio e magnésio no solo;
  • quais parâmetros utilizar no diagnóstico da deficiência;
  • como escolher corretamente as fontes de magnésio;
  • quando complementar a adubação via solo e via foliar;
  • quais estratégias aumentam a eficiência do manejo em sistemas de alta produtividade.

Caso prefira assistir ao conteúdo completo, a aula está disponível gratuitamente no YouTube.

Boa leitura!

Limitações do calcário como fonte de magnésio

Durante muitos anos, considerou-se que a aplicação de calcário dolomítico seria suficiente para suprir tanto cálcio quanto magnésio às culturas. Porém, essa premissa nem sempre se confirma nas condições atuais de agricultura intensiva.

Na prática, o problema raramente está relacionado à quantidade total de magnésio aplicada. Em muitos casos, o nutriente está presente no corretivo, mas não se torna disponível para absorção pelas plantas na velocidade necessária.

Em outras palavras, a limitação é muito mais uma questão de disponibilidade do que de aporte. A limitação do magnésio está na solubilidade e no balanço com o cálcio, sendo a solubilidade o fator mais determinante.

Esse comportamento ocorre porque a fração magnesiana presente no calcário dolomítico possui menor velocidade de dissolução à medida que a acidez do solo é neutralizada. Assim, parte significativa do magnésio permanece retida na estrutura mineral do corretivo, reduzindo sua participação na solução do solo justamente quando as culturas apresentam maior demanda.

Além disso, a agricultura moderna passou por mudanças importantes nas últimas décadas. O aumento da produtividade elevou a exportação de nutrientes pelos grãos, enquanto práticas como a gessagem e o uso frequente de fertilizantes potássicos alteraram significativamente o equilíbrio entre os cátions presentes no solo.

Como consequência, confiar exclusivamente no calcário como fonte de magnésio deixou de ser suficiente em muitas situações.

Esse cenário resulta da combinação de quatro fatores:

  1. Uso exclusivo de calcário como fonte de Mg. A fração magnésio do calcário dolomítico (a dolomita, CaMg(CO3)2) tem baixa solubilidade. Não basta o Mg estar lá: ele precisa virar solução.
  2. Desbalanço entre o que sai (exportação) e o que entra (reposição). As culturas exportam cálcio e magnésio em proporção próxima de 1:1, mas a calagem aplica muito mais cálcio que magnésio. Geralmente a calagem fornece entre 6:1 e 10:1 de Ca:Mg, favorecendo fortemente o aporte de cálcio. Com o passar das safras, esse descompasso tende a reduzir gradativamente os teores de magnésio disponíveis no solo.
  3. Uso crescente de gesso agrícola. O gesso agrícola traz cálcio e enxofre, mas não traz magnésio — e ainda empurra mais cálcio para o sistema. Por isso vale entender que o gesso não fornece magnésio, por mais que ele seja peça-chave em outras frentes. Isso não significa que o gesso deva ser evitado. Pelo contrário: trata-se de uma ferramenta extremamente importante para diversas situações de manejo. O ponto de atenção é compreender que sua utilização exige um acompanhamento mais criterioso dos níveis de magnésio na análise de solo.
  4. Desequilíbrios nutricionais, sobretudo o excesso de potássio, que inibe a absorção de Mg. Como ambos são cátions absorvidos por sistemas de transporte semelhantes nas raízes, concentrações elevadas de potássio podem reduzir competitivamente a absorção de Mg, mesmo quando este se encontra presente no solo. Esse antagonismo é especialmente comum em sistemas que recebem elevadas doses de potássio, como áreas de cana-de-açúcar fertirrigadas com vinhaça e lavouras de café altamente tecnificadas. Nessas situações, o problema deixa de ser apenas a disponibilidade do magnésio no solo e passa a envolver também sua eficiência de absorção pela planta.

A combinação desses quatro fatores explica por que o magnésio no solo pode permanecer deficiente mesmo em áreas com aplicação regular de corretivo, contrariando a premissa de que o calcário é fonte suficiente de magnésio. Historicamente, o calcário foi tratado como a única fonte necessária de magnésio; esse pressuposto, no entanto, não reflete mais a realidade das lavouras atuais.

Relação cálcio:magnésio no solo

Para compreender por que o cálcio aumenta mais rapidamente que o magnésio após a calagem, é necessário entender como ocorre a dissolução dos minerais presentes no calcário.

A maior parte dos corretivos agrícolas é constituída por dois carbonatos principais: a calcita (CaCO₃) e a dolomita [CaMg(CO₃)₂]. Embora ambos neutralizem a acidez do solo, seu comportamento químico é diferente.

A calcita apresenta maior velocidade de dissolução, liberando cálcio rapidamente para a solução do solo logo após a aplicação. Já a dolomita possui dissolução mais lenta e torna-se progressivamente menos solúvel à medida que o pH aumenta.

Esse comportamento é particularmente evidente quando o pH em CaCl₂ se aproxima de 6,2. Nessa condição, a velocidade de dissolução da dolomita diminui acentuadamente, reduzindo a liberação de magnésio para a solução do solo.

Como consequência, mesmo sendo aplicados simultaneamente no mesmo corretivo, cálcio e magnésio passam a apresentar comportamentos bastante distintos ao longo do tempo.

Na prática, isso explica um padrão frequentemente observado nas análises de solo realizadas cerca de um ano após a calagem: os teores de cálcio aumentam de forma consistente, enquanto os de magnésio permanecem praticamente inalterados ou evoluem muito lentamente.

Solubilidade da calcita × dolomita em função do pH (CaCl2)
Figura 1. Solubilidade da calcita × dolomita em função do pH (CaCl2).

Outro fator relevante é o balanço entre a quantidade de nutrientes adicionada ao solo e aquela removida pelas culturas. A planta exporta cálcio e magnésio numa relação próxima de 1:1. A calagem, por outro lado, aplica numa relação de 6:1 a 10:1. Ou seja: entra muito mais cálcio do que a planta usa, e o magnésio fica sempre na conta apertada.

Dois fatores adicionais agravam esse cenário. Primeiro, o magnésio desce mais no perfil do solo: por ter raio iônico hidratado maior que o do cálcio, interage menos com a CTC e lixivia mais, enquanto o cálcio permanece mais retido, conforme observações do professor Paulo Mazzafera.

Segundo a própria rocha entrega menos magnésio na fração fina: a mineração relata maior facilidade em moer rocha rica em cálcio do que rica em magnésio, o que sugere que as partículas finas — que reagem mais rápido — concentram mais cálcio, enquanto as partículas grossas, de reação mais lenta, concentram mais magnésio.

Extração e exportação de cálcio e magnésio pela planta.
Figura 2. Extração × aporte de Ca e Mg. Elaborado pelo autor. Fonte: dados de Prof. Rafael Otto (USP/ESALQ).

Atenção:  Corrigir a acidez do solo não significa, obrigatoriamente, corrigir a deficiência de magnésio no solo. Em muitas situações, o pH e a saturação por bases atingem os valores recomendados enquanto os teores absolutos de magnésio permanecem abaixo do nível considerado adequado para sustentar altas produtividades.

Diagnóstico: análise de magnésio no solo

O diagnóstico da disponibilidade de magnésio no solo é feito por meio da análise química do solo. No entanto, um erro relativamente comum é interpretar apenas o teor absoluto de Mg, cujos níveis críticos variam conforme a textura:

  • 8 mmolc/dm³ em solos arenosos;
  • 10 mmolc/dm³ em textura média;
  • 12 mmolc/dm³ em argilosos (≥35% de argila);

Como referência complementar, recomenda-se que o magnésio represente aproximadamente 18% da capacidade de troca de cátions (CTC).

A CTC do solo corresponde à capacidade do solo de reter e disponibilizar cátions como cálcio, magnésio, potássio e amônio. Solos com maior CTC conseguem armazenar maior quantidade desses nutrientes, reduzindo perdas por lixiviação e aumentando sua disponibilidade para as plantas.

Entretanto, para sistemas de alta produtividade, trabalhar apenas nos níveis críticos normalmente não é suficiente.

Para lavouras de alta produtividade, os alvos recomendados são superiores aos níveis críticos padrão, pois estes nem sempre atendem à extração de sistemas de alto teto produtivo:

  • Camada 0–20 cm: Ca ≥ 35 mmolc/dm3, Mg ≥ 12 mmolc/dm³ e S > 10 mg/dm³;
  • Camada 20–40 cm: Ca ≥ 15 mmolc/dm3, Mg ≥ 8 mmolc/dm³ e S ≥ 15 mg/dm³.

Esses valores permitem maior segurança no suprimento nutricional durante períodos de elevada demanda fisiológica das culturas.

Existe uma relação Ca:Mg ideal?

A resposta é não. Apesar de esse tema ainda gerar discussões, não existe uma relação universal entre cálcio e magnésio capaz de atender todas as culturas, tipos de solo e sistemas de produção.

Na prática, utilizar uma razão fixa como critério isolado pode levar a interpretações equivocadas da fertilidade.

Um solo pode apresentar uma relação Ca:Mg considerada “ideal” e, ainda assim, possuir teores insuficientes de magnésio para atender à demanda da cultura.

Da mesma forma, solos com relações diferentes podem apresentar excelente disponibilidade nutricional quando os teores absolutos dos nutrientes são adequados.

Por esse motivo, as recomendações atuais priorizam dois parâmetros principais:

  • teor absoluto de magnésio (mmolc/dm³);
  • percentual de magnésio na CTC.

Esses indicadores refletem de forma mais consistente a disponibilidade real do nutriente para as plantas do que uma simples relação matemática entre cálcio e magnésio.

Critérios para escolha da fonte de magnésio

A primeira medida de correção da deficiência de magnésio no solo está dentro da própria calagem, na escolha do calcário. O critério recomendado é optar por calcário com mais de 12% de MgO, já que o magnésio é atualmente o nutriente mais deficitário nas lavouras.

Para culturas exigentes (soja, milho, café, citros) e quando o objetivo for corrigir deficiência de magnésio, recomenda-se priorizar calcário com mais de 12% de MgO — idealmente acima de 15% —, evitando o calcítico nesse cenário específico.

De acordo com a legislação brasileira, os calcários podem ser classificados como:

  • Calcítico: menos de 5% de MgO;
  • Magnesiano: entre 5 e 12% de MgO;
  • Dolomítico: acima de 12% de MgO.

Essa classificação, entretanto, não significa que o calcário dolomítico seja sempre a melhor opção. A escolha deve considerar o diagnóstico obtido na análise de solo. Quando os teores de magnésio já são adequados, diferentes tipos de calcário podem atender satisfatoriamente às necessidades da área.

Por outro lado, quando a análise indica deficiência de magnésio, especialmente em culturas de elevada exigência nutricional, como soja, milho, café, algodão e citros, recomenda-se priorizar materiais com mais de 12% de MgO, preferencialmente superiores a 15%.

Nessas situações, a utilização exclusiva de calcário calcítico tende a ampliar ainda mais o desequilíbrio entre cálcio e magnésio ao longo dos anos.

Além do teor de MgO, outro aspecto importante é avaliar simultaneamente: PRNT; custo por tonelada; custo por unidade de PRNT; disponibilidade regional; logística de aplicação.

Entretanto, em áreas com deficiência confirmada de magnésio, o teor de MgO deve ser considerado um dos principais critérios de seleção, mesmo que a fonte escolhida apresente custo ligeiramente superior.

Um exemplo citado durante a aula ilustra bem essa estratégia.

Em uma usina que possuía sete diferentes fontes de calcário, os materiais apresentavam valores de PRNT variando entre 70 e 98%, teores de CaO entre 25 e 44% e MgO entre 8 e 19%.

Antes mesmo da comparação de preços, todas as fontes com menos de 12% de MgO foram descartadas, priorizando aquelas capazes de contribuir efetivamente para a correção da deficiência de magnésio observada na área.

Eficiência real da calagem: por que a resposta no campo pode ser menor que a esperada?

Outro ponto que merece atenção é que a eficiência prática da calagem nem sempre corresponde aos valores estimados teoricamente.

Nos cálculos tradicionais de recomendação, costuma-se assumir que determinado volume de calcário elevará os teores de cálcio e magnésio no solo de forma proporcional ao seu Poder Relativo de Neutralização Total (PRNT). Entretanto, avaliações conduzidas em condições de campo mostram que essa resposta frequentemente é inferior ao previsto.

Em experimento conduzido por Douglas Gitti, da Fundação MS, em três ambientes com diferentes classes texturais — Maracaju (solo argiloso), Campo Grande (textura média) e Aurilândia (solo arenoso) — foram avaliadas doses de 3, 6, 9 e 12 t/ha de calcário dolomítico (PRNT 100%), com medições realizadas aproximadamente um ano após a aplicação.

Pela estimativa teórica, cada tonelada de calcário deveria elevar o teor de cálcio em aproximadamente 4 mmolc/dm³. No entanto, o incremento observado foi próximo de 2 mmolc/dm³ por tonelada, representando cerca de 54% da eficiência esperada.

Embora a magnitude dessa resposta possa variar conforme o tipo de solo, incorporação, regime hídrico, granulometria do corretivo e tempo de reação, o estudo evidencia que a resposta agronômica da calagem pode ser significativamente menor do que aquela prevista apenas pelos cálculos teóricos.

Por esse motivo, em áreas de abertura ou em sistemas onde o corretivo será incorporado, alguns consultores utilizam fatores de ajuste entre 1,8 e 2 vezes a dose inicialmente estimada, especialmente quando o objetivo é elevar rapidamente os níveis de cálcio e magnésio.

Esse comportamento também foi observado em trabalhos conduzidos pela Fundação MT, reforçando que a eficiência da calagem deve ser interpretada sob condições reais de campo e não apenas com base no PRNT informado pelo fabricante.

Além disso, é importante lembrar que diferentes corretivos apresentam capacidades distintas de neutralização da acidez.

Como referência geral:

FontePRNT aproximado
Calcário agrícola~80%
Óxido de Ca/Mg~160%
Hidróxido de Ca/Mg~150%

O óxido apresenta elevada reatividade e rápida neutralização da acidez, enquanto o hidróxido possui comportamento semelhante, porém com menor abrasividade operacional durante a aplicação.

Essas diferenças devem ser consideradas tanto na recomendação quanto na expectativa de resposta agronômica. Para mais detalhes sobre os tipos de calcário e como escolher, há material específico no blog.

Fontes de magnésio além do calcário

Embora o calcário permaneça como principal corretivo da acidez do solo, nem sempre ele consegue suprir sozinho a demanda de magnésio em sistemas agrícolas de alta produtividade.

Quando a análise de solo evidencia deficiência desse nutriente, torna-se necessário complementar a adubação utilizando fontes mais solúveis e com maior velocidade de disponibilização.

De maneira geral, quanto maior a solubilidade da fonte, mais rapidamente o magnésio estará disponível para absorção pelas plantas.

As principais fontes alternativas de magnésio incluem: óxido de magnésio, oxissulfatos de magnésio, sulfatos de magnésio, cloretos e nitratos de magnésio.

Fontes de magnésio no solo
Figura 3. Fontes de magnésio por solubilidade, teor e dose. Elaborado pelo autor. Fonte: aula Prof. Rafael Otto e Tiago Tezotto (USP/ESALQ).

O calcário atua como base de correção, mas o aumento efetivo da disponibilidade de magnésio depende de fontes com maior solubilidade. O óxido de magnésio (≈50% de Mg, PRNT ~160) é a opção mais utilizada para essa complementação; o oxissulfato granulado e os sulfatos solúveis são indicados quando se busca magnésio prontamente disponível em solução; cloreto e nitrato ficam reservados à aplicação foliar.

Em áreas de abertura, uma estratégia utilizada é substituir 2 toneladas de calcário por 1 tonelada de óxido de Ca/Mg (por exemplo, aplicar 10 t de calcário em vez de 12, mais 1 t de óxido), o que proporciona resposta rápida e bom residual de magnésio.

Outras combinações utilizadas incluem 1/3 calcário + 1/3 gesso + 1/3 óxido de magnésio, ou calcário + gesso + 400 kg/ha de óxido — arranjos que corrigem Ca, S e Mg simultaneamente.

Dose de magnésio por hectare

Definida a fonte mais adequada, as referências de dose via solo são:

  • Via calcário dolomítico: fornecimento aproximado de 200–400 kg/ha de dolomita [CaMg(CO3)2], considerando o efeito corretivo e o aporte gradual de magnésio.
  • Via óxido de magnésio: aplicações entre 150–200 kg/ha de MgO;
  • Via oxissulfato granulado (~30% Mg): ~100 kg/ha do produto, o que entrega ~30 kg de Mg/ha, além de enxofre;
  • Via fonte solúvel (sulfato, kieserita, K-Mag/langbeinita, polissulfato): 10 a 15 kg/ha de Mg, equivalente a aproximadamente 17 a 25 kg/ha de MgO.

É importante destacar que essas recomendações constituem referências gerais e devem sempre ser ajustadas conforme as condições específicas de cada área, levando em consideração a análise de solo, a cultura, o histórico de manejo e a expectativa de produtividade.

Em sistemas altamente produtivos, onde a adubação com nitrogênio, fósforo e potássio já se encontra bem ajustada, nutrientes como magnésio, enxofre, boro e zinco frequentemente passam a representar os fatores mais limitantes à expressão do potencial produtivo.

Nessas situações, o reequilíbrio desses nutrientes tende a proporcionar maior retorno agronômico do que simplesmente aumentar as doses de NPK, seguindo o princípio da Lei do Mínimo, segundo a qual o desenvolvimento da cultura é limitado pelo nutriente que se encontra em menor disponibilidade relativa.

Magnésio foliar: quando faz sentido complementar a nutrição?

Assim como em outras culturas, a adubação foliar de magnésio funciona como estímulo fisiológico complementar, não como substituto da nutrição via solo: a nutrição de base ocorre pela raiz, e a foliar reforça pontualmente.

No manejo foliar de magnésio, a frequência de aplicação é mais determinante que a quantidade por aplicação. As doses recomendadas ficam entre 150 e 200 g de Mg por entrada; ao longo da safra, o total varia entre 400 e 500 g em culturas anuais e 600 e 800 g em perenes como o café, raramente ultrapassando 1 kg de magnésio por temporada.

O papel do magnésio na fisiologia da planta explica a relevância desse manejo: o nutriente é o átomo central da clorofila, ativa a RuBisCO (sem Mg não há fixação de CO2) e carrega a sacarose no floema, etapa necessária ao transporte de açúcares da folha até a raiz e o grão.

A capacidade de penetração de uma fonte foliar está associada ao seu ponto de deliquescência — a umidade relativa abaixo da qual a gota seca, cristaliza e o nutriente para de penetrar. Quanto menor esse ponto, mais tempo a gota fica líquida na folha:

Ponto de deliquescência das fontes foliares de Magnésio
Figura 4. Ponto de deliquescência das fontes foliares de Mg. Elaborado pelo autor.

Cloreto e nitrato entregam mais magnésio por gota do que o sulfato, embora este último seja a fonte mais utilizada na prática. Essa diferença técnica pode alterar o resultado da aplicação sem impactar o custo do programa foliar.

Antagonismo entre potássio e magnésio

O antagonismo entre magnésio e potássio é responsável por boa parte dos casos de deficiência não identificada em campo. Em sistemas de alta produtividade, reduzir o potássio não é uma opção viável, pois a cultura depende desse nutriente; o problema é que o excesso de potássio inibe a absorção e o transporte de magnésio na planta.

Ambos são absorvidos predominantemente na forma de cátions (K⁺ e Mg²⁺) e competem, em diferentes graus, por mecanismos de transporte localizados nas membranas das células radiculares.

Quando há excesso de potássio na solução do solo, ocorre redução competitiva da absorção de magnésio, fenômeno conhecido como antagonismo nutricional.

Trata-se de uma indução de deficiência: o magnésio está presente no sistema, mas o excesso de potássio impede sua absorção pela planta.

Em outras palavras, trata-se de uma deficiência induzida, e não necessariamente de uma deficiência decorrente da ausência do nutriente no ambiente.

Esse mecanismo é frequentemente observado em:

  • cana-de-açúcar manejada com elevadas cargas de vinhaça;
  • cafezais altamente adubados com potássio;
  • áreas irrigadas com histórico de adubações potássicas intensivas.

Nessas situações, reduzir a dose de potássio normalmente não constitui uma solução viável, pois esse nutriente continua sendo essencial para a produtividade.

A estratégia mais eficiente consiste em:

  • aumentar a disponibilidade de magnésio no solo;
  • complementar a nutrição foliar quando necessário;
  • parcelar a aplicação de potássio ao longo do ciclo;
  • manter equilíbrio entre os nutrientes na solução do solo.

Essa abordagem reduz a intensidade da competição e favorece a absorção simultânea dos dois elementos.

Quanto ao momento de aplicação, na soja recomenda-se iniciar cedo: o nódulo é o principal dreno de carboidrato no início do desenvolvimento da cultura, e o magnésio contribui para direcionar açúcares para o nódulo e para o sistema radicular.

No café, a aplicação deve anteceder a granação e o período de veranico (janeiro/fevereiro), como proteção contra a escaldadura. De forma geral, o enchimento de grãos depende de suprimento adequado de magnésio, e sua deficiência compromete diretamente esse processo.

Caso de campo: pivô de 103 ha e o efeito do calcário calcítico

Os conceitos discutidos até aqui podem ser observados de forma bastante clara em um caso apresentado pelo professor Rafael Otto durante a aula.

Uma área, localizada no estado de Mato Grosso, era composta por um pivô irrigado de 103 hectares e vinha sendo manejada por uma consultoria anterior com sucessivas aplicações de corretivos ao longo dos anos. Entre 2017 e 2020, foram aplicados aproximadamente:

  • 6 t/ha de calcário calcítico;
  • 5 t/ha de calcário dolomítico;
  • 7,5 t/ha de gesso agrícola.

Sob o ponto de vista da correção da acidez, o investimento era expressivo e indicava um manejo criterioso da fertilidade. No entanto, os resultados obtidos na safra seguinte chamaram atenção.

O talhão que recebeu o maior volume de corretivos apresentou desempenho inferior ao restante da propriedade.

Na safra 2021/22, foram registradas produtividades de:

ÁreaSojaMilho
Talhão corrigido48 sc/ha90 sc/ha
Restante da fazenda70 sc/ha118 sc/ha

Ou seja, justamente a área onde houve maior investimento em correção apresentou os menores rendimentos.

Esse exemplo evidencia que elevar o pH do solo ou aumentar a saturação por bases não garante, por si só, o equilíbrio nutricional necessário para expressar o potencial produtivo das culturas.

Para compreender a causa da redução de produtividade, foi realizada uma amostragem em grid no mês de setembro de 2021.

Os resultados mostraram que diversos parâmetros tradicionalmente utilizados para avaliar a fertilidade estavam dentro das metas recomendadas.

Entre eles:

  • pH em CaCl₂ entre 6,0 e 7,0;
  • saturação por bases (V%) entre 82 e 100%;
  • saturação por cálcio entre 63 e 83%.

À primeira vista, esses valores indicavam um solo adequadamente corrigido.

Entretanto, a avaliação detalhada revelou outro cenário.

Os teores de magnésio permaneciam abaixo da faixa considerada adequada:

Camada de 0–20 cm

  • saturação de magnésio entre 9 e 12%.

Camada de 20–40 cm

  • saturação entre 7 e 8%.

Esses valores estavam abaixo da faixa recomendada para sistemas de alta produtividade, situada entre aproximadamente 15 e 18% da CTC.

Além da deficiência de magnésio, também foram observados:

  • baixos teores de boro;
  • compactação do solo a partir de aproximadamente 15 cm de profundidade.

Essa camada compactada restringia o aprofundamento das raízes e dificultava tanto o movimento de água quanto a redistribuição de nutrientes para o subsolo.

Efeito da deficiência de magnésio no solo na produtividade de soja e milho.
Figura 5. Produtividade do talhão ‘corrigido’ com calcítico × restante da fazenda (safra 21/22). Elaborado pelo autor. Fonte: caso apresentado por Prof. Rafael Otto (USP/ESALQ).

O sintoma visível na lavoura foi a ausência de grãos na ponta da espiga de milho — conhecida como “chupeta” —, sintoma que pode ter diversas causas (falha de polinização, aborto de grãos, estresse hídrico ou térmico, compactação, pragas, entre outras) e que, neste caso, foi associado à deficiência severa de magnésio agravada pela carência de boro, diante do quadro nutricional identificado na análise de solo.

A causa principal apontada para esse quadro nutricional foi o uso de calcário calcítico: a meta de V% e de saturação de cálcio foi atingida, mas o magnésio permaneceu abaixo do nível crítico, o que pode ter comprometido o enchimento de grãos.

A correção aplicada envolveu subsolagem associada a magnésio solúvel via solo e via foliar. O caso evidencia que atingir a meta de V% não equivale a suprir adequadamente a nutrição: o teor absoluto de magnésio é um dos parâmetros importantes para o enchimento de grãos, ao lado de outros fatores como disponibilidade de água, temperatura, polinização, sanidade e compactação.

Síntese: pontos-chave da adubação de magnésio

1. O calcário sozinho não supre magnésio em alta produtividade. Muitas vezes, o problema é solubilidade e balanço, e não quantidade aplicada.

2. Após a calagem, o cálcio sobe e o magnésio trava (dolomita perto de pH 6,2), o que indica a necessidade de verificar o Mg na análise antes de repetir a dose.

3. O parâmetro de referência é o teor absoluto: Mg ≥ 12 mmolc/dm³ em argilosos, ou 18% da CTC, sem perseguir uma relação cálcio:magnésio ideal fixa.

4. Quando o objetivo for corrigir deficiência de magnésio, a escolha deve recair sobre calcário com >12% de MgO, evitando o calcítico, com aplicação do fator de correção (eficiência ~54% → praticamente dobrar a dose em abertura).

5. A inclusão de uma fonte adicional de magnésio (óxido, oxissulfato, sulfato/kieserita/K-Mag), na dose adequada por via, é recomendada.

6. A complementação foliar (frequência > dose; cloreto e nitrato penetram mais) deve acompanhar a manutenção do potássio, com aumento da disponibilidade de magnésio.

Em suma, a adubação de magnésio eficaz depende menos da quantidade total aplicada e mais da escolha da fonte correta, na dose adequada, com base no teor absoluto identificado na análise de solo.

Quer tomar decisões mais precisas na correção do solo e evitar que nutrientes limitantes comprometam a produtividade?

Mesmo após a calagem, o magnésio pode permanecer em níveis críticos, limitando a produtividade e revelando que corrigir o pH não significa, necessariamente, equilibrar a nutrição do solo.

Por isso, interpretar o teor absoluto de magnésio, escolher fontes adequadas e ajustar o manejo nutricional são etapas essenciais para transformar a análise de solo em decisões mais técnicas, rentáveis e sustentáveis.

Quer aprofundar seus conhecimentos sobre fertilidade, nutrição de plantas e saúde do solo? Participe do Simpósio Brasileiro de Saúde do Solo e acompanhe discussões técnicas sobre diagnóstico, manejo e agricultura sustentável. Clique em saiba mais:

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1. Deficiência de magnésio nas plantas: 6 processos afetados

2. Calcário agrícola: o que é, como aplicar e impacto na produtividade

3. Gessagem: importância e 4 diferenças para a calagem

Perguntas frequentes sobre deficiência de magnésio no solo (FAQ)

1. O calcário fornece magnésio suficiente para a lavoura?

Nem sempre. Embora o calcário dolomítico contenha magnésio, a disponibilidade desse nutriente depende da dissolução da dolomita no solo. Em sistemas de alta produtividade, é comum que o magnésio permaneça abaixo dos níveis adequados mesmo após a calagem, tornando necessária a complementação com fontes mais solúveis.

2. Por que os teores de cálcio aumentam e os magnésio não, mesmo após a calagem?

Porque a calcita e a dolomita apresentam velocidades de dissolução diferentes. A calcita dissolve-se mais rapidamente, liberando cálcio para a solução do solo logo após a aplicação. Já a dolomita reduz sua velocidade de dissolução conforme o pH aumenta, retardando a liberação de magnésio. Além disso, a calagem normalmente fornece muito mais cálcio do que magnésio, favorecendo o desequilíbrio entre esses nutrientes ao longo do tempo.

3. Calcário calcítico ou dolomítico para corrigir magnésio no solo?

Quando o objetivo é corrigir deficiência de magnésio, priorize o calcário dolomítico, com mais de 12% de MgO, preferencialmente acima de 15%. Já o calcário calcítico possui baixo teor de magnésio e, embora seja eficiente para fornecer cálcio e corrigir a acidez, normalmente não é a melhor alternativa quando o objetivo é elevar os níveis de Mg no solo.

4. Quanto de MgO o calcário deve ter?

Para áreas com deficiência de magnésio, recomenda-se utilizar calcários contendo pelo menos 12% de MgO, sendo desejáveis materiais com teores superiores a 15%. Entretanto, a escolha da fonte deve sempre considerar os resultados da análise de solo e a recomendação técnica para cada situação.

5. Quais as fontes de magnésio além do calcário?

Por ordem crescente de solubilidade: silicato/serpentinito, calcário dolomítico [CaMg(CO3)2], óxido de magnésio (~50% Mg), oxissulfato granulado (~30% Mg), sulfato/kieserita/K-Mag/polissulfato (solúveis) e cloreto/nitrato (foliar).

6. Qual a dose de magnésio por hectare (solo e foliar)?

Via solo: ~150–200 kg/ha de MgO; ~100 kg/ha de oxissulfato (≈30 kg Mg/ha); 10–15 kg/ha de Mg (equivalente a ~17–25 kg/ha de MgO) em fontes solúveis. Via foliar: 150–200 g de Mg por entrada, 400–500 g/safra em anuais e 600–800 g em perenes. Na adubação foliar, também podem ser empregados cloreto e nitrato de magnésio. A escolha depende da velocidade de resposta desejada, da cultura e das condições da área.

7. Qual a relação cálcio-magnésio ideal?

Não há uma relação Ca:Mg fixa universal aplicável a todos os solos e culturas. A referência adotada é o teor absoluto e o % na CTC: Mg ≥ 12 mmolc/dm³ (argilosos) ou 18% da CTC. O teor absoluto é mais determinante que a proporção.

8. O excesso de potássio causa deficiência de magnésio?

Sim. O K em excesso inibe a absorção e o transporte de Mg. A correção não é reduzir K (penaliza produtividade), e sim aumentar a disponibilidade de magnésio e parcelar o potássio.

9. Qual o nível crítico de magnésio no solo por textura?

Os níveis críticos variam conforme a textura: 8 mmolc/dm³ em arenosos, 10 mmolc/dm³ em solos de textura média e 12 mmolc/dm³ em argilosos (≥35% argila); Como referência complementar, recomenda-se que o magnésio represente aproximadamente 18% da CTC. Para sistemas de alta produtividade, normalmente trabalha-se com valores superiores aos níveis críticos.

10. Adubação foliar de magnésio funciona? Qual fonte penetra melhor?

Funciona como complemento (estímulo fisiológico), não como substituto da nutrição via raiz. Cloreto (deliquescência 30%) e nitrato (55%) penetram mais que o sulfato (90%), porque mantêm a gota líquida por mais tempo.

11. Falta de magnésio afeta o enchimento de grão?

De forma indireta: sem magnésio suficiente, a sacarose não é adequadamente carregada no floema, o que pode comprometer o enchimento de grãos e, consequentemente, a produtividade. Entretanto, esse processo depende também de outros fatores, como disponibilidade hídrica, sanidade da cultura, polinização e equilíbrio nutricional.

12. Magnésio para soja e milho: quando começar?

Na soja, cedo: o nódulo é o principal dreno de carboidrato no início e o magnésio direciona açúcar para ele e para a raiz. Em geral, a aplicação deve começar nas fases iniciais e manter frequência ao longo do enchimento de grão.

Referências

Este artigo é baseado na aula gratuita “Magnésio no solo: por que o calcário nem sempre resolve e como corrigir”, com Dr. Rafael Otto e Dr. Tiago Tezotto (USP/ESALQ) e mediação de Felipe Wohnrath (Agroadvance) — disponível em https://www.youtube.com/watch?v=vvLqqKs2xHs.Sobre o autor:

Sobre o autor:

Felipe Wonrath

Felipe Wohnrath

Coordenador de Comunicação na Agroadvance

  • Engenheiro Agrônomo (ESALQ/USP)
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Como citar este artigo:

WOHNRATH, F. Deficiência de magnésio no solo: por que o calcário nem sempre resolve e como corrigir. Blog Agroadvance. Publicado em: 17 Jul. 2026. Disponível em: https://agroadvance.com.br/blog-deficiencia-de-magnesio-no-solo/. Acesso em: 17 jul. 2026.

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