O milho ocupa posição de destaque na agricultura brasileira, mas seu potencial produtivo pode ser comprometido por diferentes fatores ao longo do ciclo, entre eles a ocorrência de doenças foliares.
Nesse cenário, a mancha-branca se destaca pela ampla distribuição nas regiões produtoras e pelo potencial de causar perdas expressivas, especialmente em híbridos suscetíveis e sob condições ambientais favoráveis.
Ao longo deste conteúdo, você vai entender o que é a mancha-branca no milho, como identificar seus sintomas, conhecer os fatores que favorecem sua ocorrência, os principais prejuízos causados à cultura e as estratégias de manejo utilizadas para reduzir perdas na lavoura.
O que é a mancha-branca do milho?
A mancha-branca é uma doença foliar de grande importância para a cultura do milho no Brasil. Seus sintomas aparecem nas folhas e evoluem ao longo do ciclo, podendo comprometer o desempenho da lavoura.
O reconhecimento dessas lesões em campo é essencial para o diagnóstico correto da mancha-branca (Figura 1).

Durante muitos anos, a mancha-branca do milho foi atribuída exclusivamente ao fungo Phaeosphaeria maydis, motivo pelo qual também ficou conhecida como mancha-de-Phaeosphaeria.
Entretanto, estudos de patogenicidade e biologia molecular modificaram esse entendimento ao demonstrar que a bactéria Pantoea ananatis está diretamente associada ao desenvolvimento dos sintomas e é atualmente considerada o principal agente etiológico da mancha-branca.
Embora P. maydis e outros fungos também sejam encontrados nas lesões, o papel desses microrganismos ainda não está totalmente esclarecido.
As evidências indicam que esses fungos podem atuar como organismos oportunistas, colonizando tecidos previamente lesionados pela bactéria, embora alguns autores ainda considerem a possibilidade de participação em um complexo de microrganismos associado à mancha-branca.
Esse entendimento é importante do ponto de vista do manejo, porque a presença de um componente bacteriano ajuda a explicar por que o controle químico baseado apenas em fungicidas nem sempre apresenta a mesma eficiência observada em doenças estritamente fúngicas, reforçando a importância de medidas preventivas e do manejo integrado.
No Brasil, está presente de forma ampla há mais de quatro décadas e consolidou-se como uma das doenças foliares de maior importância para a cultura do milho.
Os primeiros relatos foram registrados na década de 1980, nos estados de Minas Gerais e São Paulo, e, desde então, a mancha-branca se disseminou para as principais regiões produtoras do país, com destaque para o Centro-Oeste, Sudeste e Sul.
Como identificar a mancha-branca?
Os principais sinais são lesões de formato circular a oval, com aproximadamente 0,3 a 1,0 cm de diâmetro. Essas lesões costumam surgir inicialmente nas folhas inferiores, com maior frequência nas pontas, e, à medida que os sintomas evoluem, podem avançar em direção à base dessas folhas e atingir também as folhas superiores.
Além do formato característico, as lesões apresentam inicialmente aspecto encharcado e coloração verde-clara. Com a evolução do processo infeccioso, tornam-se necróticas e adquirem coloração esbranquiçada a palha, típica da doença.
Em geral, os sintomas tendem a se intensificar na fase reprodutiva da cultura, sobretudo após o pendoamento, sendo pouco frequentes em plântulas.
A mancha-branca pode ser confundida com outras doenças foliares do milho. A cercosporiose, por exemplo, apresenta lesões estreitas e retangulares delimitadas pelas nervuras, enquanto a helmintosporiose produz manchas maiores e alongadas, de coloração marrom.
Já as ferrugens são facilmente identificadas pela presença de pústulas salientes que liberam esporos na superfície das folhas.
Por isso, o diagnóstico correto é essencial para diferenciar a mancha-branca de outras doenças foliares do milho e orientar a adoção das medidas de manejo mais adequadas.
Quais fatores favorecem a mancha-branca na lavoura?
A ocorrência da mancha-branca resulta da interação entre três fatores fundamentais: um agente causal capaz de provocar a infecção, um hospedeiro suscetível e condições ambientais favoráveis.
Essa relação é representada pelo triângulo da doença (Figura 2) e ajuda a explicar por que a severidade da mancha-branca pode variar entre regiões, safras e híbridos cultivados.

O desenvolvimento da mancha-branca no milho é favorecido por temperaturas amenas, geralmente entre 18 e 25°C, associadas à elevada umidade relativa do ar e ao molhamento foliar prolongado causado por chuvas, orvalho ou neblina. Nessas condições, a infecção é favorecida e a evolução dos sintomas tende a ser mais rápida na lavoura.
Além do ambiente, a permanência de restos culturais infectados na área também favorece a ocorrência da doença. Esses resíduos funcionam como fonte de inóculo para a safra seguinte e aumentam o risco de infecção quando a nova lavoura é implantada sob condições favoráveis.
A infecção ocorre principalmente pelas folhas, com entrada dos microrganismos pelos estômatos. Após a penetração, há um período de incubação variável conforme o híbrido e as condições ambientais, até o aparecimento dos primeiros sintomas na lavoura.
A intensidade da doença também é influenciada por características do sistema de cultivo, como a utilização de híbridos suscetíveis e a coincidência dos estádios mais sensíveis da cultura com períodos de maior umidade.
À medida que novas lesões se formam, a doença pode avançar na área por infecções sucessivas, aumentando sua severidade ao longo do ciclo.
Por isso, compreender os fatores que favorecem a mancha-branca — desde a sobrevivência do inóculo até as condições que estimulam novas infecções — é essencial para planejar estratégias preventivas e reduzir seu impacto sobre a produtividade.
Quais prejuízos a mancha-branca pode causar?
A mancha-branca pode causar perdas significativas na cultura do milho, principalmente quando ocorre de forma precoce. Quanto maior a severidade da doença, maiores tendem a ser os impactos sobre a produtividade e a rentabilidade da lavoura.
A magnitude das perdas depende principalmente do momento em que a infecção ocorre. Em situações de infecção precoce, associadas ao cultivo de híbridos suscetíveis e condições ambientais altamente favoráveis, a redução de produtividade pode ultrapassar 60%.
Em condições intermediárias de severidade, diferentes estudos relatam perdas variando aproximadamente entre 10% e 30%, dependendo da intensidade da doença, da suscetibilidade do material genético e da eficiência das medidas de manejo adotadas.
Entre os principais efeitos está a redução da área foliar verde disponível para a fotossíntese, o que limita a produção de energia e de fotoassimilados necessários ao desenvolvimento das plantas. Como consequência, o enchimento dos grãos pode ser prejudicado, resultando em menor peso e qualidade.
Além de reduzir o rendimento da cultura, pode elevar os custos de produção em função do monitoramento mais intensivo e da necessidade de adoção de medidas de controle ao longo da safra.
Manejo integrado da mancha-branca no milho
O manejo deve ser baseado na integração de diferentes estratégias, já que a doença resulta da interação entre agente causal, hospedeiro suscetível e ambiente favorável.
O objetivo é reduzir sua intensidade e limitar os impactos sobre a produtividade por meio de medidas preventivas e de controle adotadas ao longo do ciclo da cultura, entre elas:
- Escolha de híbridos mais tolerantes: Embora não existam híbridos completamente resistentes à mancha-branca, materiais com maior nível de tolerância tendem a apresentar menor severidade da doença e retardar seu progresso.
Essa resistência é parcial e de natureza quantitativa, ou seja, reduz o impacto problema, mas não impede completamente a infecção.
- Manejo cultural: As práticas culturais têm como objetivo reduzir a quantidade de inóculo presente na área e tornar o ambiente menos favorável ao desenvolvimento da doença.
Entre as principais recomendações estão a rotação de culturas com espécies não hospedeiras, a boa distribuição da palhada durante a colheita e, quando necessário, a trituração dos restos culturais para acelerar sua decomposição.
Também é importante realizar a semeadura dentro da janela recomendada para cada região, favorecendo o chamado escape da doença, de modo que os estádios mais suscetíveis da cultura não coincidam com períodos de maior umidade e temperaturas amenas, situação especialmente relevante em sistemas de safrinha conduzidos em regiões com maior frequência de chuvas ou elevada umidade.
Outro aspecto importante é manter o equilíbrio nutricional da lavoura por meio de adubação baseada em análise de solo. O adequado suprimento de potássio contribui para a manutenção da integridade dos tecidos vegetais, enquanto o excesso de nitrogênio pode favorecer maior suscetibilidade das plantas à doença.
- Monitoramento da lavoura: é indispensável para detectar precocemente os primeiros sintomas e acompanhar a evolução ao longo do ciclo da cultura.
- Controle biológico: Microrganismos dos gêneros Bacillus e Trichoderma apresentam potencial para estimular mecanismos naturais de defesa das plantas, favorecer o equilíbrio microbiológico da superfície foliar e reduzir a colonização por patógenos.
Embora promissor, o controle biológico deve ser utilizado como ferramenta complementar dentro do manejo integrado, e não como medida isolada.
- Controle químico: deve ser empregado de forma preventiva ou no início do desenvolvimento da doença, quando apresenta maior eficiência.
Os fungicidas dos grupos dos triazóis, estrobilurinas e carboxamidas, especialmente quando utilizados em misturas, estão entre os mais empregados no manejo da mancha-branca, pois essa associação pode ampliar o espectro de ação e contribuir para maior consistência de controle sobre os diferentes microrganismos associados às lesões.
Em áreas com histórico da doença e condições ambientais favoráveis, as aplicações são normalmente posicionadas entre os estádios V8 e VT, podendo ser necessária uma nova aplicação próxima ao florescimento (VT–R1), conforme a evolução dos sintomas, o híbrido utilizado e as condições climáticas.
No entanto, como a mancha-branca apresenta componente bacteriano associado à sua etiologia, a resposta ao controle baseado apenas em fungicidas pode ser limitada, o que reforça a importância da prevenção e da integração com outras estratégias de manejo.
- Tecnologia de aplicação: A eficiência do controle químico depende diretamente da qualidade da pulverização. A escolha adequada das pontas, o volume de calda, a regulagem dos equipamentos, a cobertura uniforme do dossel e as condições climáticas durante a aplicação influenciam diretamente a deposição do produto sobre as folhas.
Conclusão
A mancha-branca pode comprometer de forma significativa a produtividade do milho, especialmente quando ocorre precocemente. Por isso, compreender sua etiologia, reconhecer os sintomas, conhecer os fatores que favorecem sua ocorrência e adotar medidas integradas de manejo são etapas fundamentais para reduzir perdas e preservar o potencial produtivo da lavoura.
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Referências
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Sobre a autora:

Ana Rita Nunes Lemes
Pesquisadora
- Mestra e Doutora em Genética e Melhoramento de Plantas (UNESP/Jaboticabal)
- Engenheira Agrônoma (UNESP/Jaboticabal)



