A cultura do milho é um dos pilares do agronegócio nacional. Segundo a Conab, a produção brasileira superou 119 milhões de toneladas na safra 2023/24, consolidando o país como um dos maiores exportadores mundiais do cereal.
O milho está presente em diversas cadeias produtivas, como a alimentação humana, ração animal e indústria de etanol.
Esse grão abastece setores que vão desde a segurança alimentar da população até segmentos industriais ligados à energia renovável, ao processamento de alimentos e à exportação de commodities. Além disso, auxilia no sistema de produção integrado com a soja e outras culturas de verão.
Apesar da importância econômica e da ampla adaptabilidade, o milho está sujeito a diversos desafios sanitários, como o surgimento das doenças do milho. Doenças de origem fúngica, bacteriana e viral podem comprometer o potencial produtivo das lavouras, principalmente em áreas de safrinha e sob plantio direto no Brasil.
De acordo com dados da Embrapa, essas doenças são capazes de reduzir a produtividade em até 19 a 32% em casos severos, afetando diretamente o número e a qualidade dos grãos. Entre os fatores que intensificam o problema estão o cultivo intensivo, a ausência de rotação de culturas e o uso repetido de híbridos suscetíveis.
Neste artigo, você confere as 3 principais doenças que afetam o milho no Brasil, seus sintomas característicos, os agentes causais envolvidos, as condições que favorecem sua disseminação e as melhores práticas de controle.
Boa leitura!
A importância do milho no Brasil
A importância do milho no Brasil vai além de sua contribuição econômica. A cultura ocupa mais de 21 milhões de hectares, segundo dados da Conab (Maio de 2025), sendo importante para a estabilidade da balança comercial agrícola e a segurança alimentar nacional.
Com produtividade média superior a 5.900 kg/ha, o milho é também peça-chave na geração de empregos no campo e no desenvolvimento de cadeias como a suinocultura, avicultura e indústria de biocombustíveis.
O Brasil ocupa posição de destaque no cenário global como um dos maiores produtores e exportadores de milho.

A produção é distribuída em duas grandes janelas: a primeira safra (verão), tradicional nas regiões Sul e Sudeste, e a segunda safra (safrinha), que responde por mais de 70% do volume total produzido, especialmente nos estados do Centro-Oeste, como Mato Grosso, Goiás e Mato Grosso do Sul.
De acordo com os dados mais recentes da Conab para a 1ª safra de milho 2024/25, a área plantada foi estimada em 3,75 milhões de hectares, representando uma redução de 5,5% em relação ao ciclo 2023/24.
Apesar da retração na área, a produtividade média aumentou, passando de 5.784 kg/ha para 6.583 kg/ha, o que corresponde a um incremento de 13,8%.

O impacto das doenças e a necessidade do MID
As doenças do milho podem comprometer seriamente a produtividade das lavouras brasileiras, com perdas que ultrapassam 50% da produção, em cenários críticos.
Esses danos afetam diretamente a qualidade dos grãos, a viabilidade econômica da safra e a sustentabilidade do sistema de produção, principalmente em áreas de safrinha sob plantio direto.

Diante desse cenário, a adoção do Manejo Integrado de Doenças (MID) torna-se importante para preservar o potencial produtivo do milho (Figura 3).
O MID inclui:
- Uso de híbridos com resistência genética a patógenos prevalentes na região;
- Monitoramento constante da lavoura desde os estágios iniciais;
- Eliminação de plantas voluntárias e restos culturais contaminados;
- Rotação de culturas com espécies não hospedeiras;
- Aplicação preventiva de fungicidas, respeitando o estádio fenológico da cultura;
- Integração com controle biológico, utilizando agentes como Trichoderma e Bacillus subtilis, entre outros microrganimos.

3 principais doenças no milho
As 3 principais doenças que acometem a cultura do milho são causadas por fungos: antracnose, cercosporiose e mancha branca.
Outras doenças que merecem destaques, mas não serão abordadas neste artigo são as causadas por vírus: enfezamento vermelho, enfezamento pálido e risca do milho, todos transmitidos pela cigarrinha do milho.
Outras doenças causadas por fungos que ainda que merece destaque são as ferrugens. Caso queira ler mais sobre, acesse:
Vejamos a seguir, informações detalhadas de cada uma das 3 principais doenças fúngicas na cultua do milho, com informações sobre agente causal, etiologia, sintomas, condições favoráveis e estratégias de manejo.
Antracnose do milho
A antracnose do milho, provocada pelo fungo Colletotrichum graminicola, representa um desafio fitossanitário recorrente nas principais regiões produtoras do Brasil, especialmente em áreas com clima quente e úmido, características predominantes no Cerrado e em partes da região Sul durante o verão.
Essa doença é capaz de afetar o milho em diferentes estágios fenológicos, com manifestações nos tecidos foliares, nos colmos e, em casos mais severos, interferindo diretamente na emergência e no vigor inicial das plântulas.
Nas folhas, a infecção se caracteriza pela formação de lesões de formatos irregulares, com coloração castanho-claro a marrom, podendo apresentar bordas escuras bem definidas.

Normalmente, os sintomas iniciam-se nas folhas do baixeiro, onde a umidade e o sombreamento favorecem a germinação dos esporos, e progridem em direção ao ápice da planta conforme o desenvolvimento vegetativo avança.
Em cultivares suscetíveis, as lesões podem coalescer, formando grandes áreas necrosadas que comprometem a fotossíntese e aceleram a senescência foliar.
O colmo é outro alvo crítico da antracnose, sendo comum observar, especialmente em estádios mais avançados da lavoura, a presença de lesões de aspecto encharcado, coloração marrom-escura e textura deprimida.

Essas infecções comprometem a integridade estrutural da planta, facilitando o acamamento em períodos de ventos fortes ou após chuvas intensas.
O sintoma mais grave, nesse caso, é a podridão do colmo, que surge como resultado da colonização interna pelos micélios do fungo, interrompendo o fluxo de seiva e provocando o colapso da parte aérea.
O sistema de plantio direto, amplamente adotado em áreas tecnificadas do Brasil, tem sido associado a maior incidência da antracnose, não por falha técnica, mas em função da presença de altos volumes de palha e resíduos de colheita, que funcionam como importantes reservatórios de inóculo do C. graminicola.
O fungo sobrevive nos restos culturais por longos períodos, facilitando a reinfecção nas safras subsequentes, sobretudo em situações de pouca rotação de culturas ou onde a decomposição da palhada é lenta.
Estudos apontam que o fungo possui alta variabilidade genética, o que favorece a adaptação a diferentes híbridos e sistemas de cultivo, dificultando o controle por meio exclusivo da genética.

Além disso, períodos de alta umidade relativa (acima de 85%) e temperaturas médias entre 25 °C e 30 °C criam um microclima ideal para a esporulação e disseminação do patógeno, especialmente nas fases V4 a R1 da cultura.
Em lavouras com pressão elevada da doença e ausência de manejo adequado, reduções de até 40% no rendimento de grãos já foram documentadas, sobretudo quando a doença compromete simultaneamente as folhas e os colmos.
Prevenção e controle da antracnose no milho
- Tratamento de sementes com fungicidas sistêmicos e protetores, especialmente os à base de tiofanato-metílico, piraclostrobina, fludioxonil ou carboxamidas, para inibir infecção inicial.
- Uso de sementes de alta qualidade fisiológica e certificadas, garantindo ausência de patógenos internos e maior vigor de emergência.
- Destruição e incorporação de restos culturais da safra anterior, reduzindo a fonte de inóculo no solo.
- Rotação de culturas com espécies não hospedeiras do Colletotrichum graminicola, como leguminosas e crotalárias.
- Evitar plantio em solos com drenagem deficiente, pois o excesso de umidade favorece o patógeno.
- Monitoramento constante nas fases iniciais da lavoura, visando identificação precoce e tomada de decisão quanto à reentrada de tratamento em áreas de alta incidência.
Cercosporiose do milho
A cercosporiose do milho é uma doença foliar distribuída nas regiões produtoras do Brasil, especialmente em áreas de clima tropical e subtropical, onde as condições de alta umidade relativa e temperaturas entre 25 °C e 30 °C favorecem o avanço do patógeno.
Seu agente causal é o fungo Cercospora zeae-maydis, responsável por severas perdas na área foliar fotossintética, principalmente quando a infecção ocorre nas fases de pendoamento e enchimento de grãos (Casa et al., 2021).

O fungo é necrotrófico, penetrando pelos estômatos das folhas e provocando a degradação dos tecidos com produção de toxinas e enzimas.
A infecção inicial geralmente parte das folhas mais velhas, evoluindo em sentido ascendente, em condições favoráveis. As lesões típicas são manchas retangulares, alongadas, com coloração que varia do cinza ao marrom-avermelhado, com margens bem definidas, frequentemente paralelas às nervuras (Embrapa, 2023).
Com o tempo, essas lesões coalescem, resultando em grandes áreas necrosadas, levando à senescência precoce da planta.
No campo, o produtor deve ficar atento a sintomas que se iniciam geralmente após o estágio V10, sobretudo em lavouras com alta densidade populacional e ausência de manejo preventivo. Quando a doença se instala antes ou durante o pendoamento, o prejuízo é mais severo, pois o milho depende de sua máxima capacidade fotossintética nesse período.
As perdas podem ultrapassar 50% da produtividade, especialmente em cultivares suscetíveis e em anos com veranicos intercalados por chuvas rápidas (Cota et al., 2022).

A presença de neblinas matinais, orvalho persistente e a condução de lavouras em áreas de monocultura contínua, sem rotação e com alta carga de resíduos culturais, favorecem a preservação do inóculo de uma safra para outra (Vieira et al., 2020).
A semeadura escalonada, comum em sistemas intensivos, também amplia a janela de infecção e eleva o risco epidemiológico.
Prevenção e Controle da cercosporiose no milho
- Escolha de híbridos com tolerância genética à cercosporiose, especialmente para cultivos em regiões úmidas (Agrianual, 2023).
- Rotação de culturas e manejo de restos culturais com incorporação ao solo, reduzindo a fonte de inóculo (Embrapa Milho e Sorgo, 2023).
- Aplicação preventiva de fungicidas, com uso de misturas triazol + estrobilurina ou triazol + carboxamida, a partir do estádio V8/V10, com reforço no estádio R1 (florescimento) (Fancelli & Dourado Neto, 2022).Monitoramento constante das folhas do terço médio, que são os primeiros alvos da doença (Rodrigues et al., 2021).
- Uso de semeadura em épocas de menor risco climático, evitando plantios tardios que coincidem com condições mais favoráveis à infecção (MAPA, 2023).
Mancha branca
A mancha branca causada por Bipolaris maydis, é uma das doenças foliares com importância crescente na cultura do milho no Brasil, especialmente em regiões tropicais com altas temperaturas, umidade moderada a elevada e manejo intensivo.
O agente causal, o fungo Bipolaris maydis (Nisikado & Miyake) Shoemaker, pertence à classe Dothideomycetes e apresenta comportamento necrotrófico, sobrevivendo e se disseminando por meio de resíduos culturais infectados e condições ambientais favoráveis à esporulação (Casela et al., 2020).

O fungo é altamente adaptado ao ambiente tropical e sobrevive no solo e nos restos culturais de milho por meio de estruturas como conídios e micélios dormentes.
Sua infecção ocorre, em geral, por meio de esporos que penetram passivamente pela cutícula da folha ou através dos estômatos, aproveitando microlesões formadas por estresse abiótico.
A colonização é rápida sob condições de estresse hídrico ou baixa disponibilidade de potássio, que comprometem a integridade dos tecidos foliares.
As manifestações visuais da doença se iniciam com lesões pequenas, de coloração marrom-clara, que evoluem para manchas elípticas ou oblongas, com o centro pálido e bordas mais escuras, normalmente com até 2 cm de comprimento.

As lesões são inicialmente isoladas, mas podem coalescer e formar áreas necrosadas extensas, promovendo o secamento precoce do limbo foliar, especialmente nas folhas do terço inferior e médio da planta.
A severidade dos sintomas depende da fase fenológica, da densidade de semeadura, da arquitetura foliar do híbrido e do nível de inóculo presente na área.
O impacto fisiológico da mancha branca causada por Bipolaris maydis está diretamente relacionado à redução da área foliar fotossintética ativa, antecipando a senescência das folhas e comprometendo os processos de enchimento de grãos.
Esse efeito pode acarretar redução no peso de mil grãos (PMG) e na formação de espigas, resultando em lavouras com produtividade abaixo do esperado.
Em condições severas, as perdas podem ultrapassar 30%, principalmente em híbridos sensíveis ou em lavouras com alto índice de estresse (cota et al., 2022; vieira et al., 2019).
A disseminação da doença é favorecida pela irrigação por aspersão, ventos constantes e chuvas localizadas. O plantio direto mal manejado, com acúmulo de resíduos na superfície, também aumenta a persistência do inóculo entre safras.
O diagnóstico pode ser confundido com deficiências nutricionais, especialmente de potássio ou magnésio, ou ainda com fitotoxicidade por herbicidas, dificultando ações de controle em tempo hábil.
Prevenção e Controle da mancha branca no milho
- Utilização de cultivares com maior tolerância à mancha branca causada por Bipolaris maydis. Diversos híbridos comerciais possuem algum nível de resistência genética, sendo essa uma das principais medidas profiláticas (Embrapa milho e sorgo, 2023).
- Eliminação ou incorporação de resíduos culturais de milho, minimizando a fonte de inóculo. O uso de culturas não hospedeiras, como leguminosas ou gramíneas tropicais não afetadas pelo patógeno, é altamente recomendado em sistemas de rotação (Casela et al., 2020).
- Adoção de práticas de manejo que reduzam o estresse fisiológico da planta, como adubação equilibrada (especialmente potássio e zinco), espaçamento adequado entre linhas e densidade populacional ajustada à cultivar.
- Aplicação preventiva de fungicidas foliares, principalmente quando há histórico da doença na área ou previsão de condições climáticas favoráveis.
- As misturas comerciais com piraclostrobina + epoxiconazol, difenoconazol e tebuconazol têm mostrado alta eficiência no controle da mancha branca causada por Bipolaris (Fancelli & Dourado Neto, 2022). Veja abaixo na tabela técnica 1 com os principais princípios ativos:
Tabela 1. Fungicidas no manejo de doenças do milho
| Ingrediente Ativo | Doenças-Alvo |
| Fludioxonil | Podridão de Fusarium |
| Protioconazol | Podridão de Fusarium |
| Azoxistrobina + Tebuconazol | Ferrugem comum, mancha foliar, cercosporiose |
| Clorotalonil | Mancha branca (ou mancha de Phaeosphaeria |
| Mancozebe | Mancha branca, ferrugem comum |
| Fluazinam | Mancha branca (ou mancha de Phaeosphaeria |
| Tebuconazol | Ferrugem comum, ferrugem polissora, mancha foliar |
| Piraclostrobina + Epoxiconazol | Ferrugem polissora, cercosporiose |
| Difenoconazol | Mancha branca, cercosporiose |
- Monitoramento das folhas inferiores e médias, a partir do estádio V8, com atenção redobrada em períodos de estiagem ou variações bruscas de temperatura.
- Evitar a semeadura em janelas climáticas de alto risco e adotar práticas integradas dentro de programas de Manejo Integrado de Doenças (MID) para garantir maior longevidade das moléculas utilizadas e menor pressão de seleção para resistência fúngica.
Conclusão
As doenças antracnose, cercosporiose e mancha branca representam riscos frequentes à lavoura de milho no Brasil, especialmente em ambientes úmidos e sob plantio direto.
Essas enfermidades reduzem a área foliar ativa, comprometem colmos e espigas e podem causar perdas expressivas de produtividade.
Para reduzir esses impactos, o produtor deve adotar o Manejo Integrado de Doenças (MID), que combina práticas como rotação de culturas, uso de híbridos menos suscetíveis, monitoramento da lavoura e aplicação preventiva de fungicidas.
A ação conjunta dessas medidas é essencial para proteger a lavoura e garantir maior regularidade na produção.
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Referências
AMORIM, L.; BERGAMIN FILHO, A.; REZENDE, J. A. M. (Orgs.). Manual de Fitopatologia – Doenças das Plantas Cultivadas. Vol. 2, 5. ed. São Paulo: Agronômica Ceres, 2016.
AMORIM, L.; BERGAMIN FILHO, A. Doenças do milho. In: VALE, F. X. R. do; ZAMBOLIM, L. (Orgs.). Epidemiologia de doenças de plantas: princípios e aplicações. Viçosa: UFV, 1999.
Sobre o autor:

Alasse Oliveira da Silva
Doutorando em Produção Vegetal (ESALQ/USP)
- Engenheiro agrônomo (UFRA) e Técnico em agronegócio
- Mestre e especialista em Produção Vegetal (ESALQ/USP)
Como citar este artigo:
SILVA, A.O. 3 Principais doenças do milho: identificação e controle. Blog Agroadvance. 2025. Disponível em:https://agroadvance.com.br/blog-principais-doencas-do-milho/. Acesso: xx XXX 20xx.



