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Indução de resistência em plantas: como funciona a defesa contra patógenos?

Entenda o que é indução de resistência em plantas, as diferenças entre Resistência Sistêmica Adquirida (SAR) e Resistência Sistêmica Induzida (ISR) e como essa estratégia pode auxiliar no manejo de doenças.
  • Publicado em 01/09/2026
  • Jessica Maria Israel Jesus
  • Bioinsumos, Fisiologia vegetal
  • Publicado em 01/09/2026
  • Jessica Maria Israel Jesus
  • Bioinsumos, Fisiologia vegetal
  • Atualizado em 01/09/2026
indução de resistência nas plantas SAR e ISR
Sumário

A indução de resistência em plantas é o processo pelo qual um estímulo ativa ou prepara os mecanismos naturais de defesa vegetal, aumentando a capacidade da planta de responder ao ataque de fitopatógenos.

Essa resposta pode ocorrer por diferentes vias. Entre as principais estão a Resistência Sistêmica Adquirida (SAR), geralmente associada à infecção localizada ou a determinados elicitores e à sinalização por ácido salicílico, e a Resistência Sistêmica Induzida (ISR), frequentemente ativada por microrganismos benéficos e relacionada, de forma predominante, às vias de ácido jasmônico e etileno.

O principal efeito da indução de resistência é estimular ou preparar as respostas de defesa da própria planta, como produção de compostos antimicrobianos, proteínas relacionadas à patogênese e reforço de barreiras estruturais.

A eficiência dessa estratégia pode variar conforme a cultura, o patógeno-alvo, o agente indutor, as condições ambientais, o estado nutricional da planta e a pressão de inóculo.

Neste artigo, serão abordados como funciona a indução de resistência, as diferenças entre SAR e ISR, os principais mecanismos de defesa vegetal, os fatores que interferem na eficiência dos indutores e sua integração ao manejo de doenças.

Como funciona a indução de resistência nas plantas?

A indução de resistência ocorre quando um estímulo ativa ou prepara os mecanismos naturais de defesa da planta, aumentando sua capacidade de responder ao ataque de um patógeno. Esse estímulo pode ser provocado pela própria interação com microrganismos, por organismos benéficos ou por diferentes compostos capazes de atuar como elicitores.

Após reconhecer o estímulo, a planta desencadeia uma rede de sinalização que pode envolver hormônios vegetais, espécies reativas de oxigênio e alterações na expressão de genes relacionados à defesa. Como resultado, podem ser ativadas respostas como:

  • produção de proteínas relacionadas à patogênese (PR-proteínas);
  • síntese de fitoalexinas e outros compostos antimicrobianos;
  • aumento da atividade de enzimas relacionadas à defesa;
  • deposição de calose e lignina;
  • reforço da parede celular;
  • alterações no metabolismo e na sinalização hormonal.

Essas respostas ajudam a dificultar a penetração, a colonização ou a disseminação do patógeno nos tecidos vegetais.

SAR e ISR são a mesma coisa?

Não, SAR e ISR não são a mesma coisa. Ambos estão relacionados à ativação ou ao preparo das defesas vegetais, mas diferem quanto ao estímulo inicial, às vias hormonais envolvidas e ao tipo de resposta predominante (Figura 1).

indução de resistência em plantas: Resistência sistêmica adquirida (SAR) e resistência sistêmica induzida (ISR) em plantas.
Figura 1. Resistência sistêmica adquirida (SAR) e resistência sistêmica induzida (ISR) em plantas. A SAR é geralmente ativada após infecção localizada e envolve sinalização por ácido salicílico (SA) e proteínas relacionadas à patogênese (PRs). A ISR é frequentemente ativada por microrganismos benéficos nas raízes e envolve principalmente ácido jasmônico (JA) e etileno (ET), preparando a planta para uma resposta de defesa mais rápida. Fonte: adaptado de Pieterse et al. (2009).

De forma geral, a SAR está mais associada à via do ácido salicílico (AS) e a respostas desencadeadas após infecção localizada ou aplicação de elicitores químicos. Já a ISR é frequentemente ativada pela interação da planta com microrganismos benéficos, especialmente aqueles associados às raízes, e está classicamente relacionada às vias do ácido jasmônico (AJ) e do etileno (ET).

Essa separação, porém, deve ser interpretada com cautela. A ativação de uma ou outra resposta depende do agente indutor, da planta, do patógeno-alvo e das condições ambientais. Além disso, a relação entre a natureza do agente indutor e a via hormonal ativada ainda é objeto de pesquisas.

Por isso, SAR e ISR são categorias importantes para compreender a imunidade sistêmica das plantas, mas não devem ser tratadas como respostas simples.

A seguir, são detalhadas as principais características da SAR e da ISR.

O que é SAR?

A Resistência Sistêmica Adquirida (SAR) é uma resposta de defesa sistêmica que pode ser ativada após uma infecção localizada ou pelo uso de determinados elicitores químicos. Depois do primeiro estímulo, sinais internos são transportados para outras partes da planta, preparando tecidos ainda não infectados para responder melhor a novos ataques.

Esse mecanismo é fortemente associado ao acúmulo de ácido salicílico (AS) e à ativação de genes relacionados à defesa. Entre as respostas envolvidas estão:

  • a produção de proteínas PR (Proteínas Relacionadas à Patogênese),
  • a ativação de enzimas de defesa,
  • a deposição de lignina e
  • a síntese de compostos antimicrobianos produzidos após a percepção do patógeno.

De maneira geral, a via do ácido salicílico é frequentemente relacionada a respostas contra patógenos biotróficos, ou seja, organismos que dependem de tecidos vivos do hospedeiro para completar seu ciclo de vida. No entanto, essa relação não deve ser usada como regra absoluta, pois a resposta final depende da interação entre planta, patógeno, ambiente e agente indutor.

Entre os indutores mais estudados na SAR estão compostos capazes de mimetizar, ou seja, “imitar” sinais associados à infecção, como análogos do ácido salicílico. Um exemplo é o acibenzolar-S-metil (ASM), frequentemente citado na literatura como ativador de respostas de defesa em plantas. Também há estudos com quitosana, extratos vegetais, extratos de fungos e polissacarídeos de algas, como a laminarina.

O que é ISR?

A Resistência Sistêmica Induzida (ISR) é uma resposta de defesa frequentemente ativada por microrganismos benéficos associados às raízes. Diferentemente da SAR, a ISR não depende necessariamente de uma infecção por patógeno para ser iniciada. Ela pode ser estimulada pela colonização da rizosfera por microrganismos promotores de crescimento ou agentes de biocontrole.

Entre os microrganismos mais associados à ISR estão rizobactérias promotoras de crescimento, especialmente espécies dos gêneros Pseudomonas e Bacillus, além de fungos como Trichoderma, endofíticos e micorrizas. Esses organismos podem induzir resistência por meio de diferentes sinais, incluindo flagelos, lipopolissacarídeos, exopolissacarídeos, sideróforos, lipopeptídeos, compostos voláteis e outros metabólitos microbianos.

A ISR está mais associada às vias hormonais do ácido jasmônico e do etileno. Essas vias também são frequentemente relacionadas a respostas contra patógenos necrotróficos, insetos herbívoros e situações que envolvem danos celulares mais intensos. Entretanto, essa associação também precisa ser contextualizada: rizobactérias benéficas, mesmo sem causar necrose ou sintomas de doença, podem ativar respostas dependentes de ácido jasmônico e etileno.

Em muitos casos, a ISR não mantém as defesas da planta continuamente ativadas em alto nível. Em vez disso, deixa a planta em um estado de alerta fisiológico, conhecido como priming, permitindo uma resposta mais rápida e intensa quando ocorre o ataque de um patógeno.

Por isso, a ISR é uma estratégia importante dentro do manejo integrado de doenças (MID), especialmente quando associada ao uso de bioinsumos, controle biológico, nutrição equilibrada e boas práticas de manejo. No entanto, sua eficiência depende da interação entre microrganismo, planta, ambiente, patógeno-alvo e pressão de inóculo. A Tabela 1 sintetiza as principais diferenças na indução de resistência por SAR e ISR.

Tabela 1. Principais diferenças entre SAR e ISR na indução de resistência em plantas

CaracterísticaSARISR
DefiniçãoResposta sistêmica de defesa geralmente ativada após infecção localizada ou aplicação de elicitores químicosResposta sistêmica frequentemente ativada por microrganismos benéficos associados às raízes.
Estímulo inicialInfecção localizada, reconhecimento de elicitores ou aplicação de compostos indutoresColonização ou interação com microrganismos benéficos da rizosfera
Agentes indutores comunsAcibenzolar-S-metil (ASM), ácido salicílico, quitosana, laminarina e outros elicitores químicos ou naturais Bacillus spp., Pseudomonas spp., Trichoderma spp., micorrizas e outros microrganismos benéficos
Via hormonal predominanteÁcido salicílicoÁcido jasmônico e etileno
Relação com patógenosFrequentemente associada a respostas contra patógenos biotróficos e hemibiotróficosAssociada a respostas contra patógenos necrotróficos

Quais são os mecanismos de defesa das plantas contra patógenos?

As plantas possuem diferentes mecanismos naturais de defesa capazes de dificultar a entrada, a colonização e o avanço de fitopatógenos. Essas defesas podem estar presentes antes mesmo do contato com o agente causal da doença ou ser ativadas após o reconhecimento do patógeno ou de sinais associados à infecção.

De forma geral, os mecanismos de defesa são classificados em:

  • pré-formados, quando já estão presentes nos tecidos vegetais antes da infecção, e
  • pós-formados, quando são produzidos ou intensificados em resposta ao ataque.

Nos dois casos, as defesas podem ser estruturais, relacionadas principalmente a barreiras físicas, ou bioquímicas, envolvendo substâncias e reações capazes de limitar o desenvolvimento do patógeno (Figura 2).

O que são mecanismos de defesa pré-formados?

Os mecanismos pré-formados, também chamados de constitutivos, fazem parte das características naturais da planta e estão presentes antes da chegada do patógeno. Por isso, representam uma das primeiras barreiras que o microrganismo precisa superar para iniciar o processo de infecção.

Essas defesas podem atuar tanto pela estrutura dos tecidos quanto pela presença de compostos químicos naturalmente produzidos pela planta.

indução de resistência em plantas: Síntese dos principais mecanismos de defesa pré-formados e pós-formados das plantas contra fitopatógenos, incluindo barreiras estruturais e respostas bioquímicas associadas à prevenção da entrada, limitação da colonização e ativação de mecanismos de defesa
Figura 2. Síntese dos principais mecanismos de defesa pré-formados e pós-formados das plantas contra fitopatógenos, incluindo barreiras estruturais e respostas bioquímicas associadas à prevenção da entrada, limitação da colonização e ativação de mecanismos de defesa. Fonte: Adaptado de Pascholati e Dalio (2018) e Kaur et al. (2022).

Quais são as defesas estruturais pré-formadas?

As defesas estruturais pré-formadas correspondem às características físicas e anatômicas que dificultam a penetração ou a colonização dos tecidos vegetais.

Entre os principais exemplos estão a cutícula, os tricomas, características dos estômatos, a organização e espessura das paredes celulares e outras estruturas dos tecidos vegetais que podem funcionar como barreiras à entrada e à movimentação do patógeno.

A eficiência dessas estruturas depende da interação planta-patógeno. Espessura, composição química, distribuição e características anatômicas podem tornar determinados tecidos mais ou menos favoráveis ao estabelecimento da infecção.

A parede celular, por exemplo, constitui uma importante barreira física e precisa ser superada por muitos fitopatógenos durante a colonização do hospedeiro.

Quais são as defesas bioquímicas pré-formadas?

Além das barreiras estruturais, as plantas apresentam compostos químicos produzidos normalmente pelo seu metabolismo que podem exercer atividade antimicrobiana ou tornar o ambiente vegetal menos favorável ao patógeno.

Entre eles estão diferentes compostos fenólicos, saponinas, glicosídeos, alcaloides e outros metabólitos secundários, além de proteínas e peptídeos com atividade antimicrobiana.

Nesse grupo destacam-se as fitoantecipinas, substâncias antimicrobianas que já estão presentes na planta antes da infecção ou que podem ser rapidamente disponibilizadas a partir de precursores existentes nos tecidos.

A composição dessas defesas varia entre espécies, cultivares e tecidos, contribuindo para diferenças naturais na capacidade das plantas de restringir determinados fitopatógenos.

O que são mecanismos de defesa pós-formados?

Os mecanismos pós-formados são ativados ou intensificados após o reconhecimento do patógeno, de moléculas associadas ao microrganismo ou de alterações provocadas nos tecidos durante a interação.

Diferentemente das barreiras constitutivas, essas respostas dependem da percepção do estímulo e da ativação de processos celulares e bioquímicos de defesa.

A planta pode, então, reforçar estruturas existentes, produzir novas barreiras e alterar seu metabolismo para dificultar a penetração, a colonização e a disseminação do patógeno.

Quais são as defesas estruturais pós-formadas?

Entre as principais respostas estruturais desencadeadas após a infecção está o reforço da parede celular nas regiões próximas ao ponto de entrada do patógeno.

Esse processo pode envolver a deposição de calose, lignina, suberina, compostos fenólicos e outros materiais, aumentando a resistência física dos tecidos à penetração e à ação de enzimas produzidas pelos fitopatógenos.

Também podem ocorrer a formação de papilas, deposições localizadas entre a membrana plasmática e a parede celular que contribuem para dificultar a penetração do patógeno, além da formação de outras barreiras estruturais, como camadas de cortiça, tiloses e deposição de materiais nos tecidos.

Essas modificações ajudam a restringir o avanço do agente infeccioso e podem contribuir para manter a infecção limitada a uma região da planta.

Quais são as defesas bioquímicas pós-formadas?

O reconhecimento do patógeno também desencadeia uma ampla reorganização do metabolismo vegetal, com produção ou aumento da atividade de compostos e enzimas relacionados à defesa.

Uma das respostas iniciais pode envolver a produção de espécies reativas de oxigênio (ROS), que participam da sinalização celular e das respostas de defesa. Paralelamente, podem ocorrer alterações na atividade de enzimas como peroxidases, polifenoloxidases e fenilalanina amônia-liase, além da produção de diferentes metabólitos secundários.

Outro importante mecanismo é a síntese de fitoalexinas, compostos antimicrobianos produzidos de novo após a percepção de determinados estímulos. Diferentemente das fitoantecipinas, portanto, as fitoalexinas não estão presentes constitutivamente nos tecidos em concentrações relevantes antes da indução da resposta.

Também podem ser produzidas proteínas relacionadas à patogênese (PR-proteínas). Entre elas estão enzimas como quitinases e β-1,3-glucanases, capazes de participar da defesa contra determinados patógenos por atuarem sobre componentes de suas estruturas ou contribuírem para outras etapas da resposta vegetal.

Esses mecanismos não atuam isoladamente. Durante a interação planta-patógeno, alterações estruturais, produção de compostos antimicrobianos, atividade enzimática e sinalização celular podem ocorrer de forma integrada, determinando a intensidade e a eficiência da resposta de defesa.

Quais são as diferenças entre defesas pré-formadas e pós-formadas?

A principal diferença está no momento em que esses mecanismos estão disponíveis. Enquanto as defesas pré-formadas já fazem parte da constituição da planta antes do contato com o patógeno, as pós-formadas dependem do reconhecimento de um estímulo e da ativação da resposta vegetal.

Tabela 2. Síntese dos principais mecanismos de defesa pré-formados e pós-formados das plantas contra fitopatógenos

Mecanismo de defesaTipoPrincipais exemplosPapel na defesa
Pré-formadoEstruturalCutícula, tricomas, características dos estômatos, paredes e organização dos tecidosDificulta a penetração e a colonização inicial pelo patógeno
Pré-formadoBioquímicoFitoantecipinas, compostos fenólicos, saponinas, glicosídeos, alcaloides, proteínas e peptídeos antimicrobianosPode inibir ou limitar o desenvolvimento do patógeno antes ou logo após o contato com o tecido
Pós-formadoEstruturalPapilas, deposição de calose, lignificação, suberização, reforço da parede celular, camadas de cortiça e tilosesReforça barreiras físicas e restringe a penetração e o avanço do patógeno
Pós-formadoBioquímicoROS, fitoalexinas, PR-proteínas, quitinases, β-1,3-glucanases, peroxidases, polifenoloxidases e fenilalanina amônia-liaseParticipa da sinalização, da atividade antimicrobiana e de diferentes respostas induzidas de defesa
Fonte: Elaborado com base em Pascholati e Dalio (2018) e Kaur et al. (2022).

Como a planta reconhece o patógeno e ativa seus mecanismos de defesa?

Para ativar suas defesas, a planta precisa primeiro reconhecer sinais associados ao patógeno ou aos danos provocados durante a infecção. A partir desse reconhecimento, são ativadas vias de sinalização que desencadeiam respostas estruturais e bioquímicas de defesa.

Entre os sinais percebidos estão os PAMPs ou MAMPs, moléculas características de microrganismos, e os DAMPs, moléculas associadas a danos nos próprios tecidos vegetais.

Como ocorre o reconhecimento do patógeno pela planta?

Esses sinais podem ser reconhecidos por receptores de reconhecimento de padrões (PRRs) presentes nas células vegetais. Quando ocorre o reconhecimento, é ativada a chamada imunidade desencadeada por padrões (PTI).

A PTI pode resultar em respostas como:

  • produção de espécies reativas de oxigênio;
  • fechamento de estômatos;
  • deposição de calose e reforço da parede celular;
  • ativação de genes e enzimas de defesa;
  • produção de compostos antimicrobianos.

Alguns patógenos, porém, produzem moléculas chamadas efetores, capazes de interferir nas defesas da planta e favorecer a infecção. Quando determinados efetores ou suas ações são reconhecidos por proteínas de resistência da planta, pode ocorrer a imunidade ativada por efetores (ETI), geralmente associada a uma resposta de defesa mais intensa.

PTI e ETI não funcionam de forma totalmente independente. Atualmente, são compreendidas como respostas interligadas que contribuem para a ativação coordenada dos mecanismos de defesa da planta.

Esse reconhecimento é também a base da indução de resistência, pois microrganismos benéficos, compostos químicos e outros elicitores podem ativar ou preparar essas redes de defesa, permitindo que a planta responda de forma mais rápida ou intensa quando desafiada por um patógeno.

Quais fatores interferem na eficiência da indução de resistência?

A eficiência da indução de resistência pode variar entre culturas, cultivares, patógenos e condições de cultivo. Por isso, o uso de indutores não deve ser considerado uma estratégia de resposta fixa ou universal.

Entre os principais fatores que podem interferir na resposta estão:

  • Genótipo da planta: cultivares de uma mesma espécie podem apresentar diferentes capacidades de percepção do estímulo e ativação dos mecanismos de defesa.
  • Estado fisiológico e estádio de desenvolvimento: a capacidade de resposta pode variar conforme a idade dos tecidos, o crescimento e as condições fisiológicas da planta.
  • Nutrição: deficiências ou desequilíbrios nutricionais podem alterar a expressão das respostas de defesa e os custos metabólicos associados à resistência.
  • Condições ambientais: temperatura, disponibilidade de água e outros estresses podem interferir nas vias de sinalização e modificar a intensidade da resposta.
  • Agente indutor e forma de aplicação: a natureza do elicitor, sua concentração, o momento e o número de aplicações influenciam a ativação das defesas.
  • Patógeno-alvo: o resultado depende da espécie, do estilo de vida e da capacidade do patógeno de superar ou suprimir as respostas de defesa.
  • Pressão de inóculo: em situações de elevada pressão da doença, a resistência induzida pode não ser suficiente para impedir o estabelecimento ou o progresso da infecção.

Em condições de campo, a resposta pode ser ainda mais variável, porque as plantas já estão continuamente expostas a microrganismos, alterações ambientais e diferentes tipos de estresse. Assim, algumas plantas podem apresentar mecanismos de defesa previamente ativados ou permanecer em estado de priming antes mesmo da aplicação de um indutor.

Por isso, a eficiência da indução de resistência depende da interação entre planta, indutor, patógeno e ambiente, e seus resultados devem ser considerados dentro do contexto específico de cada sistema de produção.

Quais são exemplos de indução de resistência contra fitopatógenos?

A indução de resistência já foi observada em diferentes culturas e contra diversos grupos de fitopatógenos. Os resultados incluem respostas contra bactérias, fungos, oomicetos, vírus e nematoides, desencadeadas tanto por agentes bióticos quanto por compostos capazes de ativar ou preparar as defesas da planta.

Os exemplos também mostram que SAR e ISR podem ser ativadas por estímulos distintos. Na SAR, destacam-se infecções localizadas e compostos associados à sinalização por ácido salicílico, como o acibenzolar-S-metil (ASM). Na ISR, são frequentes as interações com microrganismos benéficos, como Bacillus, Pseudomonas, fungos micorrízicos e outros organismos associados às raízes.

As tabelas a seguir apresentam alguns exemplos descritos na literatura.

Quais são exemplos de Resistência Sistêmica Adquirida (SAR) e de Resistência Sistêmica Induzida (ISR)?

Como visto anteriormente a SAR pode ser desencadeada após uma infecção localizada ou pela aplicação de determinados elicitores. Após a indução, tecidos distantes do local inicialmente estimulado podem apresentar maior capacidade de resposta a uma infecção posterior.

Já a ISR é frequentemente associada à interação das plantas com microrganismos benéficos. A colonização das raízes ou a percepção de compostos produzidos por esses organismos pode preparar tecidos locais e distantes para responder mais rapidamente a um ataque posterior.

A tabela 3 apresentam alguns exemplos descritos na literatura de SAR e ISR.

Tabela 3. Exemplos de Resistência Sistêmica Adquirida (SAR) e Resistência Sistêmica Induzida (ISR) em plantas contra fitopatógenos

Hospedeiro/ Patógeno alvoIndutorResposta de defesa associadaReferências
Resistência Sistêmica Adquirida (SAR)
Arabidopsis thaliana / Pseudomonas syringae pv. tomato DC3000P. syringae pv. tomato DC3000Genes de defesa induzíveis ao AS (PR-1, WRKY6 e WRKY53); modificação de histonasLuna et al. (2012)
Arroz (Oryza sativa) / Xanthomonas oryzae pv. oryzaeASMAcúmulo de compostos fenólicos; QUI, GLU, PR5Mohan Babu et al. (2003)
Tomate (Solanum lycopersicum) / X. vesicatoriaASMPOX e PFO; deposição de lignina em tecidos foliares; atividade antimicrobianaCavalcanti et al. (2006)
Resistência Sistêmica Induzida (ISR)
Arabidopsis thaliana/ Pseudomonas syringae pv. tomatoPseudomonas fluorescens WCS417r;  P. fluorescens SS101Priming da resposta sistêmica associado à interação com rizobactéria benéficaPieterse et al. (2000); Van de Mortel et al. (2012)
Tomate (Solanum lycopersicum) / Ralstonia solanacearumDiferentes isolados de Bacillus spp.Indução de resistência mediada por rizobactérias promotoras de crescimentoJetiyanon e Kloepper (2002); Hyakumachi et al. (2013)
Pimenta (Capsicum spp.) / Phytophthora capsiciFungos micorrízicos arbuscularesProteção associada à colonização micorrízica e indução das defesas da plantaAlejo-Iturvide et al. (2008)
Abeto-da-Noruega (Picea abies) / Botrytis cinereaStreptomyces sp. GB 4-2Redução da infecção após tratamento prévio com actinobactéria associada à plantaLehr et al. (2008)
* ASM, acibenzolar-S-metil.

Indutor de resistência substitui fungicida?

De modo geral, indutores de resistência não substituem diretamente os fungicidas. Enquanto os fungicidas atuam sobre o patógeno, os indutores estimulam ou preparam os mecanismos naturais de defesa da planta.

A resistência induzida também não costuma proporcionar proteção completa contra doenças. Sua eficiência varia conforme a cultura, o patógeno, o agente indutor, as condições ambientais e a pressão de inóculo. Além disso, resultados obtidos em condições controladas podem ser superiores aos observados no campo.

Por isso, os indutores devem ser utilizados como ferramentas complementares ao Manejo Integrado de Doenças (MID), em associação com cultivares resistentes, controle químico e biológico, práticas culturais e monitoramento das condições favoráveis à doença.

Outro benefício potencial está relacionado ao manejo da resistência a fungicidas. Como os indutores atuam principalmente sobre as respostas de defesa da planta, sua integração ao programa de manejo pode reduzir a dependência exclusiva do controle químico e contribuir para diminuir a pressão de seleção exercida por aplicações sucessivas de fungicidas sobre as populações do patógeno.

A diversificação das estratégias de controle pode, assim, ajudar a retardar a seleção de populações resistentes e preservar a eficiência dos fungicidas por mais tempo. Esse benefício, entretanto, não substitui práticas específicas de manejo da resistência, como a alternância e a combinação adequada de mecanismos de ação.

Como integrar indutores ao manejo de doenças?

Os indutores de resistência devem ser utilizados como parte de um programa integrado de manejo de doenças, em conjunto com outras estratégias capazes de reduzir a ocorrência e o progresso da doença.

Na prática, a integração pode envolver a associação com cultivares resistentes, tratamento de sementes, controle biológico, práticas culturais, monitoramento da lavoura e uso racional de fungicidas, conforme as características de cada cultura e patossistema.

Para que a estratégia seja eficiente, alguns pontos precisam ser considerados:

  • patógeno-alvo e histórico da área, para definir o risco de ocorrência da doença;
  • momento de aplicação, já que a planta precisa de tempo para perceber o estímulo e ativar ou preparar seus mecanismos de defesa;
  • tipo de indutor, pois diferentes produtos ou microrganismos podem ativar respostas distintas;
  • condições ambientais e nutricionais, que interferem na capacidade de resposta da planta;
  • pressão de inóculo, que pode determinar se a resistência induzida será suficiente como componente do programa;
  • compatibilidade com outras medidas de controle, especialmente produtos químicos e agentes biológicos.

A resistência induzida tende a apresentar melhores resultados quando é utilizada de forma preventiva e planejada, antes que a doença esteja amplamente estabelecida. Isso ocorre porque seu principal objetivo não é eliminar diretamente o patógeno, mas aumentar a capacidade da planta de responder ao processo de infecção.

Assim, a inclusão de indutores pode contribuir para diversificar os mecanismos de controle, reduzir a dependência de uma única estratégia e tornar o manejo mais sustentável. Em programas que também utilizam fungicidas, essa diversificação pode auxiliar na preservação da eficiência das moléculas químicas e no manejo do risco de seleção de populações resistentes.

Entretanto, a definição do programa deve considerar resultados comprovados para a cultura, o patógeno e as condições de produção, já que a eficiência da indução de resistência pode variar entre diferentes sistemas.

FAQ Indução de Resistência

O que é indução de resistência em plantas?

A indução de resistência é uma estratégia em que determinados estímulos ativam ou preparam os mecanismos naturais de defesa da planta, aumentando sua capacidade de responder ao ataque de fitopatógenos.

Qual é a diferença entre SAR e ISR?

A Resistência Sistêmica Adquirida (SAR) está classicamente associada à sinalização por ácido salicílico e pode ser desencadeada após infecção localizada ou por determinados elicitores químicos. Já a Resistência Sistêmica Induzida (ISR) é frequentemente ativada por microrganismos benéficos, como rizobactérias e fungos associados às raízes, e está predominantemente relacionada às vias de ácido jasmônico e etileno.

O que é priming em plantas?

O priming é um estado de preparação da planta para a defesa. Nesse estado, os mecanismos de resistência não precisam permanecer constantemente ativados, mas podem responder de forma mais rápida e intensa quando a planta é posteriormente desafiada por um patógeno.

Quais produtos podem atuar como indutores de resistência?

Os indutores podem ser de origem biótica ou abiótica. Entre os exemplos estudados estão microrganismos benéficos, extratos e compostos naturais, moléculas sinalizadoras e produtos químicos capazes de estimular ou preparar as respostas de defesa da planta.

Indutores de resistência matam o patógeno?

Nem sempre. O principal efeito de um indutor de resistência ocorre sobre a planta, por meio da ativação ou preparação de seus mecanismos de defesa. Alguns produtos, entretanto, também podem apresentar efeitos diretos sobre determinados patógenos, dependendo de sua composição e modo de ação.

Indutor de resistência substitui fungicida?

De forma geral, não. Os indutores são mais bem utilizados como ferramentas complementares ao manejo integrado de doenças, associados ao controle químico, biológico, genético e cultural conforme as características de cada patossistema.

Quando o indutor de resistência deve ser aplicado?

A estratégia tende a ser mais eficiente quando utilizada de forma preventiva e planejada, permitindo que a planta tenha tempo para ativar ou preparar suas respostas de defesa antes de uma elevada pressão de infecção. O momento ideal, entretanto, depende do produto, da cultura e da doença-alvo.

Indutores de resistência podem ajudar no manejo da resistência a fungicidas?

Quando integrados a outras estratégias, os indutores podem contribuir para reduzir a dependência exclusiva do controle químico e diversificar os mecanismos utilizados no manejo da doença. Essa integração pode auxiliar no manejo da pressão de seleção sobre populações de patógenos, mas não substitui práticas específicas de manejo da resistência a fungicidas.

A indução de resistência pode ser utilizada no manejo integrado de doenças?

Sim. A indução de resistência pode compor programas de Manejo Integrado de Doenças (MID) juntamente com cultivares resistentes, práticas culturais, controle biológico, tratamento de sementes, monitoramento e uso racional de produtos químicos.

Considerações finais

A indução de resistência representa uma estratégia importante para ampliar a capacidade natural de defesa das plantas contra fitopatógenos. Seu funcionamento envolve o reconhecimento de estímulos, a ativação de vias de sinalização e a mobilização de mecanismos estruturais e bioquímicos capazes de limitar o processo de infecção.

Apesar do potencial, a indução de resistência não deve ser vista como uma solução isolada ou de eficiência constante. Seus resultados dependem da interação entre genótipo, patógeno, agente indutor, ambiente, nutrição e pressão de inóculo, o que reforça a necessidade de estratégias ajustadas a cada sistema de produção.

Quando integrada ao Manejo Integrado de Doenças, a indução de resistência pode contribuir para diversificar as formas de controle, reduzir a dependência de uma única ferramenta e tornar o manejo mais sustentável e durável.

Assim, mais do que substituir outras estratégias, os indutores de resistência ampliam as possibilidades de manejo ao utilizar a própria capacidade de resposta da planta como parte do sistema de proteção contra doenças.

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Referências

BADEL, J. L., GUIMARÃES, L. M. S., MÖLLER, P. A., FERRAZ, H. G. M., & MONTEIRO, A. L. R. (2018). Resistência genética de plantas a bactérias. In L. J. DALLAGNOL (Org.), Resistência genética de plantas a patógenos (pp. 194–254). Editora UFPel.

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Sobre a autora:

Jéssica Jesus

Jéssica Maria Israel de Jesus

Doutora em Fitopatologia (Esalq/USP)

  • Mestra em Agronomia - Fitossanidade (UFG)
  • Especialista em Agronegócios (Esalq/USP)
  • Engenheira Agrônoma (IF Goiano/Campus Ceres)
  • [email protected]
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Como citar este artigo:

JESUS, J.M.I. Indução de resistência em plantas: como funciona a defesa contra patógenos? Blog Agroadvance. Publicado: 01 Set. 2025. Disponível em: https://agroadvance.com.br/blog-inducao-de-resistencia-em-plantas-sar-isr/. Data de acesso: 01 set. 2026

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