A segunda safra deixou de ser complementar. Hoje, o milho safrinha 2025/2026 representa, em muitas propriedades, o principal componente de resultado econômico do ano agrícola.
Se voltarmos para o ano de 2005 no Mato Grosso, a decisão de plantar a segunda safra era quase uma formalidade. Muitos produtores destinavam apenas 30% da área para o milho, focando mais na formação de palhada do que no lucro financeiro direto. Naquela época, colher 70 sacas de milho por hectare já era considerado um excelente resultado operacional.
Hoje, o cenário mudou. Com os custos de produção em alta, taxas de juros pesando no bolso e um crédito cada vez mais seletivo, o milho safrinha 2025/2026 precisa ser tratada como um pilar central do resultado anual da propriedade.
A decisão de como e o que plantar acontece muito cedo, geralmente entre janeiro e fevereiro, exigindo um planejamento detalhado talhão por talhão, que precisa considerar clima, solo, mercado, estrutura operacional e capacidade de gestão.
Diante da volatilidade climática e das margens cada vez mais apertadas, você já parou para avaliar se a sua propriedade está realmente preparada para os desafios do próximo ciclo?Como manter a rentabilidade quando as chuvas são irregulares e o custo de oportunidade do capital atua quase como um novo “sócio” do seu negócio?
Neste artigo vamos explorar os 5 pilares técnicos e estratégicos (que podem ser traduzidos em 5 passos) fundamentais da gestão agrícola de alta performance para conduzir o milho safrinha 2025/2026 com segurança agronômica e rentabilidade econômica.
Inteligência climática e janela de semeadura
A safrinha sempre foi dependente de janela de semeadura. O que mudou foi o nível de risco: maior irregularidade pluviométrica, maior frequência de ondas de calor e a concentração das chuvas em eventos intensos reduzem a previsibilidade do ciclo. A previsão indica probabilidade; não é garantia de chuva no talhão.
O aumento da irregularidade pluviométrica aumentou consideravelmente nos últimos anos. Muitas vezes, até mesmo dentro de uma única propriedade, observa-se uma variação enorme de chuvas de um talhão para o outro. Além disso, os volumes de água frequentemente chegam em forma de fortes pancadas, o que atrapalha a distribuição ideal ao longo do ciclo da planta.
O ano de 2024 foi registrado como o mais quente desde o início das medições em 1850. E não para por aí, as previsões para 2026 também são ponto de atenção, com previsão de clima seco e temperaturas acima da média no início da Safrinha (Figura 1). Esse aumento de temperatura impacta diretamente o campo: acelera o ciclo das culturas, encurta as janelas operacionais e intensifica a proliferação de pragas.

Olhando pelo “para-brisa” do planejamento rural, é vital usar o “retrovisor” dos dados históricos. A safra 2023/2024, que apresentou chuvas escassas no início e volumes concentrados entre dezembro e janeiro, tem sido um excelente modelo de comparação para a safrinha 2025/2026.
Quando a chuva atrasa e empurra a janela de semeadura, a dependência de precipitações perfeitamente encaixadas nos meses de fevereiro, março e abril aumenta drasticamente.
Nesse cenário de janela curta, a escolha da cultura deve ser estritamente baseada na necessidade hídrica e no risco assumido (Tabela 1).
Em janela ideal, o milho permanece como principal alternativa pela capacidade de retorno. No entanto, nas áreas onde o plantio ocorre fora da janela segura, o agricultor deve diversificar! A diversificação reduz risco sistêmico.
Culturas alternativas como sorgo, milheto granífero (com forte demanda de granjas locais), gergelim e pulses (como o feijão-mungo) surgem como soluções inteligentes. A regra de ouro aqui é evitar plantar qualquer cultura que não tenha liquidez comercial garantida, para não trocar o risco agronômico pelo risco de mercado.
Tabela 1. Necessidade hídrica e tolerância à seca por cultura
| Cultura | Necessidade Hídrica (mm) | Tolerância à Seca | Observação Estratégica |
| Milho | 400 – 700 | Baixa/Média | Alto potencial, alta demanda hídrica. Ideal para janela cedo. |
| Sorgo | 380 – 600 | Alta | Melhor performance que o milho em condições de seca. |
| Gergelim | ~535 | Alta | Resistente, mas exige contratos de venda bem amarrados. |
| Feijão Mungo | 300 – 500 | Alta | Implantação mais barata, ótimo para sucessão rápida. |
A regra é clara: não substituir risco climático por risco comercial. Toda cultura alternativa deve ter liquidez previamente garantida.
Construção de perfil de solo e a “terceira safra”
Em anos de estresse hídrico, o diferencial produtivo está no perfil do solo. Um solo bem construído é o maior seguro que um produtor rural pode ter.Não se trata de arriscar mais, mas sim de ter muito mais controle sobre os resultados.
E o que é um solo com bom perfil? Áreas com:
- Boa estrutura física que permitem que o sistema radicular da planta desça em busca de água nas camadas mais profundas.
- Boa estrutura química, com calagem ajustada e com adequada saturação por bases.
A palhada, por sua vez, deixou de ser um detalhe e tornou-se um ativo central do sistema produtivo. Com as temperaturas em constante elevação, a palha funciona como um isolante térmico, segurando a umidade do solo e reduzindo o estresse nas plantas.
Consórcios de milho ou sorgo com braquiária, além dos sistemas de Integração Lavoura-Pecuária Floresta (ILPF), devem ser vistos como proteção patrimonial da fertilidade. Muitos especialistas já consideram a palhada a verdadeira “terceira safra” do Brasil.
Na hora de nutrir essa safrinha, o gestor de alta performance não pensa apenas no resultado imediato, mas na herança do solo para a próxima safra de verão.
Além disso, o perfil do solo tem que ser construído para ser capaz de fornecer os nutrientes necessários ao crescimento e desenvolvimento das culturas. Cada nutriente, por sua vez, possui comportamentos diferentes de extração e exportação (Tabela 2).
Tabela 2. Taxas de extração e exportação de nutrientes (kg/t de grãos)
| Cultura | Dinâmica | N | P2O5 | K2O | Ca | Mg |
| Soja | Extração | 79,4 | 16,7 | 38,5 | 13,1 | 7,1 |
| Exportação | 51,0 | 10,0 | 20,0 | 3,0 | 2,0 | |
| Milho | Extração | 24,9 | 9,9 | 21,8 | 3,9 | 4,4 |
| Exportação | 15,8 | 8,7 | 5,8 | 0,5 | 1,5 |
Grande parte do fósforo aplicado na cultura do milho é rapidamente exportado nos grãos. Por outro lado, o potássio costuma deixar um residual riquíssimo na palhada.
Uma estratégia avançada de adubação considera focar no potássio durante a safrinha, visando mitigar e economizar os custos desse nutriente no próximo plantio de soja.
Além disso, a calagem, antes tratada como um evento esporádico, hoje deve entrar anualmente nas planilhas como um insumo básico de manutenção.
Gestão financeira, custos e comercialização
O terceiro pilar que o produtor deve olhar é, atualmente, um dos que mais pesa no custo. Trata-se da gestão financeira, e o principal ponto aqui é entendermos o chamado “custo de oportunidade”. Eis que o capital investido na lavoura se tornou um novo “sócio” implacável do agricultor.
Investir em tecnologia e adubação, requer uma análise em base aos princípios de potencial de retorno em face aos pilares descritos neste texto, pois compõem boa parte do custo de produção. Um estudo do IMEA para o Mato Grosso aponta que o custo de produção do milho de alta tecnologia atingiu a marca de R$ 6.730,00/ha para a segunda safra. Confira os fatores que compõe essa conta na tabela abaixo:

Com um capital tão exposto por 6 meses de ciclo, o retorno mínimo aceitável mudou. Produtores que tomam crédito com taxas anuais próximas de 20% a 23% sofrem uma pressão imensa. Se a safrinha não for bem calculada, o custo financeiro devora toda a margem de lucro.
A saída estratégica para esse cenário é garantir a proteção dos custos antes mesmo de a plantadeira ir a campo. A regra de ouro comercial é calcular exatamente quantas sacas de grãos pagam os custos básicos de sementes, fertilizantes e químicos. Depois travar parte dessa produção via barter, venda futura e contratos regionais, deixando apenas o excedente exposto ao mercado.
Ferramentas como o barter (troca de insumos por sacas físicas) e a venda programada no mercado futuro devem ser usadas para travar essa parcela do custo. Por exemplo, se uma bolsa de 60 mil sementes de milho equivale a 15 ou 16 sacas do grão, isso pode representar um bom negócio de proteção.
O barter deve ser visto como um mecanismo inteligente de segurança, não como um jogo de especulação financeira para tentar adivinhar topos de mercado. Essa disciplina reduz a dependência de “acertar na mosca” os preços de colheita e dá extrema tranquilidade operacional para executar o trabalho no campo.
O que sobrar dessa proteção inicial é o volume que o gestor deixará para aproveitar as oportunidades de alta e gerar caixa líquido para a fazenda.
Eficiência tecnológica do parque de máquinas
O quarto pilar para uma safrinha perfeitamente encaixada na janela e bem planejada é a eficiência do seu parque de máquinas.
Ela pode atuar como um excelente diluidor dos altos custos do parque, afinal, colheitadeiras e tratores geram despesas de depreciação e manutenção quer estejam rodando na roça, quer estejam parados no barracão.
O dimensionamento correto exige controle rigoroso de métricas de índice: cavalos‑vapor por hectare (Cv/Ha) nos tratores, hectares por linha nas semeadoras e hectares por máquina nas colhedoras. Utilizar essas máquinas por mais tempo no ano otimiza a rentabilidade sobre o capital imobilizado.
Porém, quando os atrasos climáticos empurram a semeadura para o limite final da janela, a estratégia operacional deve mudar drasticamente. Se a chuva falhar, colocar mais nitrogênio ou dobrar a dose de fósforo não fará a cultura produzir mais.
Nesse momento crítico, a decisão correta e operacionalmente defensiva é focar 100% no capricho da plantabilidade. Garantir um estande uniforme e uma semeadura de altíssima precisão protege o rendimento muito mais do que investir pesado em adubo para uma janela de risco.
Além de dentro da porteira, a logística externa tem consumido a margem de forma assustadora. A expectativa de aumentos contínuos no frete obriga o produtor a olhar de forma cirúrgica para as suas rotas de escoamento.
Regiões com acesso às rotas do Arco‑Norte têm vantagens logísticas, mas ainda sofrem desafios de malha rodoviária e tributação interestadual.
Uma enorme oportunidade atual é o boom das usinas de etanol de milho. Com 24 usinas operando, 16 autorizadas e mais 16 anunciadas, criou‑se uma demanda interna colossal e de curta distância. Essas indústrias reduzem fretes longos e oferecem estabilidade regional de preços, algo que o produtor deve aproveitar estrategicamente.
Gestão de pessoas e parcerias estratégicas
Por trás do maquinário moderno, sementes de biotecnologia avançada e gestão de fertilidade, estão as pessoas. E manter uma equipe capacitada é um dos ativos mais subestimados do agronegócio.
O custo de rotatividade (turnover) é altíssimo. Desmontar um time ao final da safra e tentar remontá‑lo depois custa muito dinheiro devido à escassez de mão de obra e ao longo tempo de treinamento.
Plantar a segunda safra também tem um propósito gerencial profundo: manter o Quadro de Lotação de Pessoas (QLP) ativo e engajado durante todo o ano.
A seguir, confira o meu perfil do quadro de lotação de pessoas (QLP). Esse exemplo real pode te ajudar a manter seu time engajado o ano todo:
- Distribuição Física: 87% da força de trabalho alocada diretamente no campo (nas fazendas).
- Gênero e Idade: 67% homens, 33% mulheres. Uma grande força jovem (65% entre 18 e 35 anos).
- Educação: 43% possuem ensino superior e 18% já contam com pós-graduação.
- Distribuição por função: A maior concentração está em Operadores de Máquinas Agrícolas (34%), Operadores de Pulverizador (18%) e Auxiliares (18%).
Com uma equipe tão qualificada, o produtor passa a exigir parceiros comerciais de alto nível. O tempo do RTV visto como “vendedor de veneno” está acabando. Hoje, um RTV de elite precisa ter empatia, entender contexto, solo, janelas de cultivo, maquinário e desafios específicos da propriedade antes de propor soluções.
Os anos difíceis — como a safrinha atual — são aqueles em que as parcerias verdadeiras são testadas e consolidadas.
Uma boa negociação agrícola é aquela em que os dois lados saem satisfeitos, não feridos. Empresas fornecedoras que ajudam o produtor em momentos críticos, antecipando riscos como alta pressão de pragas (ex.: cigarrinha), ganham fidelidade de longo prazo.
Por último: coragem para inovar e competência para executar
A safrinha 2025/2026 não perdoará a ineficiência. Como costuma dizer a antiga diretora de RH Ivone Campos, o produtor precisará ter:
“Coragem para ser diferente e competência para fazer a diferença”.
Ter coragem significa estar aberto a apostar em culturas fora do padrão quando a janela exigir, adotar novas tecnologias de precisão, travar vendas antecipadamente ou mudar a estratégia de adubação priorizando a sustentabilidade a longo prazo.
Já a competência reside na humildade de buscar conhecimento constante, monitorar os dados técnicos das lavouras diariamente, contar com bons consultores e executar as operações de plantabilidade de forma impecável.
Quer aprofundar sua estratégia para a Safrinha 2025/2026?
Se você atua na cadeia produtiva e percebeu que a safrinha de hoje exige uma visão 360 graus que une mercado, finanças, clima e biologia de forma indissociável, o próximo passo lógico na sua evolução profissional é aprofundar esses temas.
Assista à aula completa e gratuita sobre Safrinha 2025/26: Gerenciando Riscos e Aumentando Rentabilidade, disponível no YouTube da Agroadvance. Nela, eu aprofundo mais detalhes os pilares abordados neste artigo:
Para quem precisa ir além da teoria
Se você é gestor, produtor ou profissional técnico que precisa tomar decisões rápidas em janelas cada vez mais curtas, o próximo passo é estruturar essa visão de forma completa. Conheça a Pós-graduação em Soja e Milho da Agroadvance, na qual eu sou professor. No curso, eu ministro a aula “Aprimoramento do rendimento operacional” dentro do módulo de “Tecnologias e Práticas no Manejo Agrícola”.
O conhecimento aprofundado para conectar estratégia de planejamento, mercado e excelência de campo você só encontra praticando no dia a dia e conhecendo profissionais de alto padrão. Não conte apenas com a chuva para fechar a conta da Safrinha. Invista tempo naquilo que ninguém tira de você: seu conhecimento. É só ele que te fará assumir o controle do seu sistema produtivo.
Sobre os autores:

Edson Rodrigo Oliveira Vendruscolo
Fundador e CEo do grupo velho tata
- MBA em Liderança em Gestão Operacional (Franklin Covey)
- MBA em Gerenciamento de projetos (FGV)
- Engenheiro Agrônomo (UFSM)

Felipe Wohnrath
Coordenador de Comunicação na Agroadvance
- Engenheiro Agrônomo (ESALQ/USP)
Como citar este artigo:
VENDRUSCOLO, E.R.O. Milho safrinha 2025/2026: como aumentar a rentabilidade e reduzir riscos. Blog Agroadvance. Publicado em: 06 Mar. 2026. Disponível em: https://agroadvance.com.br/blog-milho-safrinha-2025-2026-rentabilidade/. Acesso em: 27 jun. 2026



