Bicudo da cana: 11 estratégias comprovadas para reduzir perdas no canavial

Descubra por que canaviais ainda perdem ATR para o bicudo da cana e quais estratégias realmente funcionam no manejo eficiente do Sphenophorus levis.
Bicudo da cana sphenophorus levis - fases
Sumário

O bicudo da cana (Sphenophorus levis) está entre as pragas mais destrutivas dos canaviais brasileiros. Em áreas infestadas, as perdas podem ultrapassar 20 toneladas por hectare, comprometendo a longevidade do canavial e a rentabilidade da operação.

O desafio é que, diferentemente de outras pragas, o bicudo passa grande parte do seu ciclo protegido dentro da planta, o que torna seu controle muito mais complexo e reduz a eficiência de estratégias baseadas apenas em aplicações químicas.

Por isso, produtores que seguem o manejo tradicional muitas vezes continuam observando falhas no estande, redução do perfilhamento e quedas de produtividade, mesmo após sucessivas intervenções.

A boa notícia é que décadas de pesquisa vêm mostrando que o controle do bicudo não depende de uma única ferramenta, mas da combinação correta entre monitoramento, conhecimento da biologia da praga, ou, como é chamado, do Manejo Integrado de Pragas (MIP).

Neste artigo, vamos resumir a aula gratuita da pesquisadora Dra. Leila Luciano Miranda, do Instituto Agronômico de Campinas (IAC), onde ela compartilhou conosco os principais avanços da pesquisa sobre Sphenophorus levis e o que realmente têm apresentado resultados consistentes no campo.

Então, antes de ler, assista à aula completa no nosso canal: Bicudo da cana: como reduzir perdas com manejo eficiente — Agroadvance no YouTube. Dito isso, vamos aos capítulos.

Por que o bicudo da cana é tão difícil de controlar?

O controle do bicudo da cana é um dos principais desafios no manejo da cultura, especialmente em áreas onde já foram realizadas aplicações de inseticidas no plantio, na soqueira, em drench ou em cortes, mas ainda assim houve perda de produtividade. Essa dificuldade está diretamente relacionada à biologia da praga.

O Sphenophorus levis passa a maior parte do ciclo protegido dentro do rizoma da cana-de-açúcar, o que reduz a eficiência das aplicações químicas. A fêmea deposita os ovos no colo da planta, a aproximadamente 1 cm de profundidade. Após a eclosão, a larva penetra nos tecidos da planta e pode atingir o 1º, 2º ou 3º entrenó da cana, ficando em uma posição de difícil alcance para os inseticidas.

Outros fatores também contribuem para a dificuldade de controle do bicudo da cana:

  • O adulto vive, em média, 270 dias, ou cerca de 9 a 10 meses, com registros raros de até 1.000 dias.
  • Os principais hospedeiros que permitem o fechamento do ciclo da praga são a cana-de-açúcar e o milho. Culturas como soja, amendoim e crotalária não são hospedeiras e podem ser utilizadas no vazio sanitário.
  • Em condições reais de campo, a eficiência média dos inseticidas químicos costuma variar entre 40% e 50%, independentemente da molécula utilizada. Índices de controle acima de 80% são incomuns.

Por esse motivo, não existe uma pulverização única capaz de resolver o problema em canaviais já instalados. O manejo eficiente do bicudo da cana exige uma estratégia integrada, voltada à interrupção do ciclo da praga e à redução gradual da população na área.

A seguir, confira um passo a passo para reduzir perdas com o manejo eficiente do bicudo da cana.

Calendário do controle de bicudo da cana

A Figura 1 apresenta um calendário anual de manejo do bicudo da cana, destacando os períodos mais adequados para cada prática de controle. Observa-se que o manejo integrado envolve:

  • um vazio sanitário prolongado entre agosto e fevereiro, associado à
  • erradicação mecânica na estação seca,
  • aplicações de inseticidas em corte de soqueira entre julho e outubro,
  • tratamentos via drench durante o período chuvoso (novembro a março) e
  • aplicações no plantio entre fevereiro e março.

A combinação dessas ações, realizada nos momentos de maior vulnerabilidade da praga, contribui para reduzir a infestação e minimizar perdas de produtividade.

Calendário anual de manejo do bicudo
Figura 1. Calendário anual de manejo do bicudo da cana. A sequência ideal de operações no canavial. Fonte:  Elaborado pelo autor.

1) A regra é amostrar bicudo antes de tratar

Quem não conhece o nível de infestação, não mede corretamente. E quem não mede, não consegue gerenciar. Por isso, a amostragem do bicudo da cana é uma etapa essencial para decidir se a área precisa ou não de controle.

O procedimento pode ser feito diretamente no campo, seguindo este passo a passo:

  • Arranque a touceira inteira.
    Em cada ponto de amostragem, avalie de 10 a 12 tocos. Se a touceira tiver apenas 4 ou 5 tocos, arranque uma touceira ao lado até completar a quantidade necessária.
  • Abra e avalie cada toco.
    Rache os tocos individualmente e registre a presença de formas biológicas do bicudo da cana, como adultos, larvas e pupas. Também observe e conte os danos encontrados.
  • Inicie com 2 pontos de amostragem por hectare.
    Se a praga for encontrada nesses primeiros pontos, a presença do bicudo já está confirmada e a amostragem pode ser encerrada.
    Se nada for encontrado, realize mais 2 pontos, totalizando 4 pontos por hectare. Caso a amostragem continue zerada, faça mais 2 pontos, chegando a 6 pontos por hectare.
  • Interprete o resultado.
    Se, após 6 pontos de amostragem por hectare, nenhuma forma biológica ou dano for encontrado, a infestação é considerada muito baixa ou nula. Nesse caso, o tratamento não é necessário.

E principalmente: amostre no mínimo dois momentos do ciclo:

  • Faça a amostragem no 1º corte.
    Essa avaliação ajuda a identificar o ponto de partida da infestação. O objetivo é saber se a área apresenta apenas 2% a 3% de tocos atacados ou se o bicudo da cana já atingiu níveis mais altos, como 15% a 20%. Essa informação é fundamental para definir a estratégia de manejo nas próximas soqueiras.
  • Repita a amostragem no penúltimo corte.
    Nessa fase, a avaliação serve para direcionar as áreas que deverão receber atenção prioritária na próxima soqueira. Os talhões com maior presença do bicudo da cana devem ser classificados para um manejo mais intensivo, com foco na redução da população da praga e na preservação da produtividade.

2) Faça a destruição mecânica + vazio sanitário

A destruição da soqueira é uma das medidas mais importantes para reduzir a população do bicudo da cana antes da reforma do canavial. No entanto, para que essa prática seja eficiente, alguns pontos precisam ser respeitados.

A destruição deve ser mecânica, preferencialmente com o uso de erradicador de soqueira. O uso de arado e grade não apresenta a mesma eficiência para esse objetivo, pois pode não eliminar adequadamente os rizomas e os insetos protegidos no interior da planta.

Outro ponto fundamental é a época de realização. A destruição deve ser feita, preferencialmente, no período seco do ano. Em meses de solo úmido, como novembro, a eficiência da operação tende a cair, reduzindo o impacto sobre a população remanescente da praga.

Para viabilizar esse manejo, recomenda-se antecipar a última colheita até meados de agosto. Assim, a soqueira pode ser destruída entre agosto e setembro, permitindo que o novo plantio seja realizado entre fevereiro e março.

Após a destruição da soqueira, o vazio sanitário deve ser mantido por, no mínimo, 6 meses, ou cerca de 180 dias. Períodos mais curtos, como 90 dias, tendem a ser insuficientes para eliminar os insetos remanescentes por inanição.

É importante destacar que o vazio sanitário não precisa ser um pousio absoluto. Culturas como soja, amendoim e crotalária podem ser utilizadas nesse intervalo, pois não permitem o fechamento do ciclo do bicudo da cana.

Por outro lado, deve-se evitar o uso do Sistema Meiosi em áreas destinadas ao vazio sanitário. Como a presença de cana na área interrompe o período sem hospedeiro, a prática compromete o efeito da destruição mecânica e reduz a eficiência do manejo.

Dados de campo reforçam a importância dessa estratégia. Quando o vazio sanitário longo é associado ao controle em cana-planta, os danos tendem a ser ainda menores: áreas com vazio superior a 180 dias apresentaram 3,5% de dano, contra 5,4% em áreas conduzidas apenas com vazio sanitário.

No ensaio E 393 do IAC, a soqueira foi destruída em 20/08/2012, o plantio ocorreu em 08/03/2013 e o primeiro corte foi realizado em 08/08/2014. Com um vazio sanitário de 7 meses, a cana-planta apresentou apenas 3,5% de dano e produtividade de 114 TCH.

Um ponto relevante desse ensaio é que o desempenho foi semelhante com ou sem inseticida no plantio. Isso indica que, nesse cenário, o principal fator de redução da praga foi o período de vazio sanitário, e não a aplicação química.

A figura 2 mostra o potencial de retorno do vazio sanitário no manejo do bicudo da cana. Na cana-planta, o percentual de tocos atacados cai de 10,5%, quando o vazio é inferior a 120 dias, para 5,4%, quando o período sem cana ultrapassa 180 dias.

Na prática, isso representa uma redução de quase metade dos danos apenas com o prolongamento do vazio sanitário. Além disso, quando bem planejada dentro da reforma do canavial, essa estratégia tem custo marginal no período e pode trazer ganhos importantes na redução da infestação e na preservação da produtividade.

vazio sanitario e impacto por hectare
Figura 2.  Vazio sanitário: o investimento de maior retorno por hectare.  Fonte: rede FITOCANA / CEPENFITO, apresentado na aula da Dra. Leila Luciano Miranda (Centro de Cana do IAC).

3) Plantio com mudas sadias

O uso de mudas contaminadas é uma das principais formas de disseminação do bicudo da cana para novas áreas. Quando o viveiro não é conduzido com critério, há risco de transportar adultos da praga junto com a muda, espalhando o Sphenophorus levis pelo canavial recém-plantado.

Por isso, a escolha das mudas deve fazer parte da estratégia de manejo. A recomendação é adotar alguns cuidados básicos:

• Implante e conduza viveiros com critério. O viveiro deve ser monitorado com o mesmo rigor utilizado nas áreas de produção.

• Amostre o viveiro antes da retirada das mudas. Essa etapa ajuda a identificar a presença do bicudo da cana e evita que material contaminado seja levado para áreas novas.

• Não utilize soca velha infestada como muda. Essa prática aumenta o risco de introdução da praga em áreas de reforma ou expansão.

• Em situações excepcionais, ajuste a altura de corte. Em anos de seca severa, quando o uso de material de áreas mais velhas for inevitável, recomenda-se elevar a altura de corte para tentar manter parte dos adultos no campo de origem e reduzir o transporte da praga junto com a muda.

4) Inseticida no plantio: o que esperar

O uso de inseticida no plantio pode contribuir para a redução dos danos causados pelo bicudo da cana, mas não deve ser tratado como solução isolada. A aplicação química só apresenta melhor resultado quando faz parte de uma estratégia integrada, associada à destruição mecânica da soqueira, ao vazio sanitário e ao uso de mudas sadias.

Também é importante deixar claro o que não esperar. A aplicação de inseticida em área total após a destruição da soqueira tende a apresentar baixa eficiência. Isso ocorre porque o inseto permanece protegido no solo, nos restos de rizoma ou sob a palhada, reduzindo o contato direto com o produto e, consequentemente, a mortalidade.

Ensaios de bancada ajudam a explicar essa limitação. Em caixas de 5 m², quando o Engeo Pleno foi aplicado diretamente sobre os insetos, a mortalidade chegou a 50% em quatro dias. No entanto, com apenas uma fina camada de palha sobre os adultos, a mortalidade caiu para zero.

Resultado semelhante foi observado na dissertação de mestrado de Marieli Nascimento, conduzida na UNESP/Jaboticabal em parceria com a Usina Alta Mogiana. Aos 14 dias após a aplicação sobre adultos, Regent Duo apresentou 35% de mortalidade e Engeo Pleno, 48%. Nesse mesmo período, a testemunha registrou 50% de mortalidade natural, indicando baixa contribuição efetiva dos produtos nessa condição.

Dessa forma, a recomendação é utilizar inseticidas de maneira estratégica:

  • Priorize a aplicação no sulco de plantio. O inseticida deve ser usado como complemento ao manejo, sempre associado à destruição mecânica da soqueira e ao vazio sanitário.
  • Utilize jato dirigido quando for viável. Essa modalidade pode reduzir o dano de 10,5% para 4,5%, o que representa uma redução populacional aproximada de 40% a 50%.
  • Considere moléculas já consolidadas no manejo. Entre as opções utilizadas estão fipronil, imidacloprido, tiametoxam e bifentrina, presentes em produtos como Regent, Actara, Capture e Talstar.

O inseticida no plantio pode ajudar a reduzir perdas, mas seu papel é complementar. O principal ganho no manejo do bicudo da cana vem da combinação entre vazio sanitário bem conduzido, destruição eficiente da soqueira e plantio com mudas livres da praga.

5) Soqueira infestada: priorize o canavial nobre

Em áreas com presença confirmada do bicudo da cana, o investimento em controle deve ser direcionado de forma estratégica. A prioridade deve estar nos canaviais com maior potencial produtivo e maior capacidade de retorno econômico.

Por isso, em situações de orçamento limitado, a recomendação é priorizar as soqueiras mais jovens, seguindo a ordem: 1ª soca, 2ª soca e 3ª soca. Esses cortes ainda apresentam maior potencial de produtividade e, portanto, justificam maior atenção no manejo da praga.

Canaviais mais velhos ou próximos da reforma devem ser avaliados com critério, considerando o nível de infestação, o potencial produtivo restante e o custo-benefício do tratamento.

A tabela 1 apresenta uma referência de tolerância de dano de acordo com o número de cortes do canavial.

Tabela 1.  Critérios de priorização para manejo do bicudo da cana em soqueiras infestadas, considerando o número de cortes, o nível de infestação por tocos danificados e a produtividade-alvo do canavial

SOCA / cortesInfestação (% tocos danificados)Produtividade alvo (t/ha)
1> 0> 110*
2> 2> 100*
3> 3> 90*
4> 4

6) Época de aplicação: corte de soqueira ou drench?

A escolha da modalidade de aplicação deve considerar, principalmente, a época do ano e as condições de umidade do solo e da planta. No manejo do bicudo da cana, aplicar o produto no momento errado pode reduzir drasticamente a eficiência do controle.

Época seca: julho a outubro

Durante a época seca, entre julho e outubro, a recomendação é priorizar a aplicação via corte de soqueira. Nesse período, o solo está seco e a planta apresenta baixa turgidez, o que limita a absorção de produtos aplicados em drench. Nessas condições, a calda tende a não descer adequadamente no perfil do solo e a absorção pelas raízes é reduzida.

Por isso, mesmo com maior custo operacional, envolvendo diesel, tempo e uso de máquina, o cortador de soqueira tende a entregar melhor resultado em áreas infestadas.

Alguns dados reforçam essa recomendação:

  • O Regent Duo é registrado pelo fabricante para aplicação via corte de soqueira.
  • No ensaio E 436 do IAC, considerando a média de 5 inseticidas, a redução de dano foi de 51% via corte de soqueira, contra 43% via drench na mesma área seca.

Época chuvosa: novembro a março

Na época chuvosa, entre novembro e março, a aplicação em drench passa a ser mais indicada. Com maior umidade no solo e melhor condição fisiológica da planta, os neonicotinoides são absorvidos pelas raízes e podem atingir larvas protegidas no rizoma, além de adultos presentes no solo.

Resultados de ensaios com cortador de soqueira

Os ensaios do IAC mostram que o controle químico pode reduzir os danos, mas com variações importantes entre áreas, épocas e condições ambientais.

No ensaio E 707, somado a outros 4 ensaios conduzidos em 2020/2021, a redução do dano aos 7 meses foi:

• Engeo Pleno (EP 2): 0%
• Regent Duo (RD 1,1): 38%
• Zeus (Ze) 2,3: 41%

No ensaio E 805, a redução do dano aos 3 meses foi:

• Engeo Pleno (EP 2): 18%
• Regent Duo (RD 1,1): 39%
• Regent Esperto (Sp 1,4): 51%

No ensaio E 972, com aplicação realizada em julho, a redução do dano aos 6 meses foi:

• Engeo Pleno (EP 2): 29%
• Regent Duo (RD 1,1): 23%
• Curbix (Cur 2): 34%

Em condições reais de campo, a média de controle costuma ficar entre 30% e 50% de redução de dano. Além disso, moléculas consolidadas, como Engeo Pleno, Regent Duo, Zeus, Regent Esperto e Curbix, tendem a apresentar desempenho relativamente semelhante. Por esse motivo, a rotação de moléculas é uma prática obrigatória para preservar a eficiência do manejo.

Por que alguns canaviais não respondem ao inseticida?

A baixa resposta ao inseticida em muitos canaviais está diretamente relacionada à seca. Em períodos secos, a planta reduz a absorção, e o produto aplicado pode não atingir adequadamente o alvo biológico.

Os ensaios E 975 e E 988, conduzidos na Usina Alta Mogiana, demonstram esse efeito. Quando a aplicação foi realizada em julho, com a planta sob estresse hídrico, a eficiência de controle nos três primeiros meses foi de 0%. Já quando a aplicação ocorreu em outubro, com maior umidade e melhor turgidez da planta, a eficiência chegou a 63%.

Ou seja, na mesma usina, com o mesmo produto e a mesma operação, a diferença de resultado foi determinada principalmente pela condição fisiológica da planta e pela disponibilidade de umidade.

Em anos secos, a estratégia deve ser ajustada. O controle químico isolado tende a apresentar baixa resposta, e a prioridade deve estar no vazio sanitário longo, na destruição mecânica da soqueira e no planejamento adequado da reforma do canavial.

comparacao corte e drech
Figura 3. Corte de soqueira na seca, drench na chuva. Fonte: ensaios IAC E 391, E 401, E 436, E 975 e E 988 — aula da Dra. Leila Luciano Miranda.

7) Volume de calda: mais litros não significam mais controle

Ao contrário do que muitos acreditam, aumentar o volume de calda não necessariamente melhora o controle do bicudo da cana. Os ensaios E 975 e E 988, conduzidos em parceria com a Alvo Consultoria, mostraram que a aplicação com 100 L/ha ou 300 L/ha apresentou desempenho semelhante (Tabela 2).

Tabela 2. Comparação da eficiência de controle do bicudo da cana com diferentes volumes de calda, com base nos ensaios E 975 e E 988

VolumeRedução de dano (3 meses)
100 L/ha62%
150 L/ha72%
200 L/ha65%
300 L/ha55%

Na prática, isso indica que o volume de calda, isoladamente, não é o fator decisivo para a eficiência da aplicação. O que realmente faz diferença é a qualidade operacional: equipamento bem regulado, aplicação uniforme, posicionamento correto da calda e escolha adequada da modalidade de aplicação para cada condição de campo.

Portanto, em vez de apenas aumentar o volume aplicado por hectare, a prioridade deve ser garantir uma operação bem ajustada e tecnicamente correta. No manejo do bicudo da cana, mais litros não compensam falhas de regulagem ou aplicação mal posicionada.

8) Manejo da palha: um aliado subutilizado

O manejo da palha pode ser uma ferramenta importante na redução da pressão do bicudo da cana. Ao afastar ou enleirar a palha, o solo fica mais exposto, reduzindo a umidade e eliminando parte do abrigo utilizado pelo Sphenophorus levis.

No entanto, essa prática exige critério. A mesma redução de umidade que desfavorece o bicudo também pode afetar o desenvolvimento da cana, especialmente em ambientes mais secos ou em períodos de déficit hídrico. Por isso, o manejo da palha deve ser avaliado de acordo com o histórico da área, o nível de infestação, o ambiente de produção e a disponibilidade de água.

Na tabela 3, são apresentados os resultados do Ensaio E 893, instalado em 25/07/2022, considerando o percentual de tocos atacados pelo bicudo da cana:

Tabela 3. Percentual de tocos atacados pelo bicudo da cana em áreas com palha enleirada e palha estendida, em diferentes momentos de avaliação no Ensaio E 893.

AvaliaçãoPalha enleiradaPalha estendida
Prévia3,23,4
3 meses2,14,7
6 meses2,75,6
Pós-colheita4,04,0

O enleiramento da palha pode reduzir o dano causado pelo bicudo da cana em até 55% nos primeiros meses após a operação. No entanto, esse efeito tende a diminuir ao longo do ciclo e, na avaliação pós-colheita, os resultados podem se igualar aos de áreas sem enleiramento.

Apesar do potencial da prática, a decisão deve considerar algumas limitações importantes: a operação nem sempre é bem executada no campo, pois geralmente exige duas ou três passadas do enleirador para alcançar um bom resultado. Isso aumenta o custo operacional, o consumo de diesel, o tempo de máquina e a complexidade da operação.

Além disso, ao retirar a palha da linha, também se reduz a conservação de umidade no solo, o que pode prejudicar a cana em condições de déficit hídrico. Outro ponto de atenção é o possível aumento da matocompetição nas linhas, já que o solo mais exposto favorece a emergência de plantas daninhas.

Por isso, o enleiramento da palha tende a fazer mais sentido em áreas nobres, com maior potencial produtivo e em anos de condição climática normal. Em anos secos, o custo-benefício da prática pode piorar, e a decisão deve ser tomada com ainda mais critério.

9) Vinhaça como veículo de inseticida: atenção ao custo-benefício

A aplicação de inseticida via vinhaça tem sido apresentada como uma alternativa de baixo custo para o manejo do bicudo da cana. No entanto, os resultados de campo indicam que essa estratégia deve ser avaliada com cautela.

Ensaios conduzidos na Usina Pedra em 2020, um ano de forte restrição hídrica, avaliaram a aplicação de inseticidas associados à vinhaça em 6 ensaios, com 4 repetições. Foram testados volumes elevados, variando de 30 a quase 48 m³/ha de vinhaça, com produtos como Engeo Pleno e Regent Duo.

Os resultados mostraram desempenho limitado da aplicação via vinhaça. Aos 3 a 4 meses após a aplicação, o corte de soqueira apresentou 25% de redução de dano, enquanto a aplicação via vinhaça resultou em apenas 11% de redução. De modo geral, a vinhaça empatou ou teve desempenho inferior ao corte de soqueira.

A principal exceção foi observada no Ensaio 800, em área com palha enleirada. Nessa condição, a aplicação via vinhaça apresentou resultado semelhante ao corte de soqueira, com cerca de 47% a 48% de redução de dano aos 5 meses.

Esse resultado sugere que a vinhaça só tende a se aproximar da eficiência do corte quando a palha já foi removida ou afastada da linha. Em áreas com palha sobre o solo, a calda pode ter maior dificuldade para atingir o alvo, reduzindo a eficiência do inseticida.

Portanto, a vinhaça não deve ser tratada como solução simples ou garantida para o controle do bicudo da cana. Seu uso como veículo de inseticida precisa considerar a presença de palha, a umidade do solo, a qualidade da aplicação e o nível de infestação da área.

10) Segunda aplicação: quando vale o investimento

Em canavial nobre (1ª e 2ª soca de alta produtividade), uma segunda aplicação em drench, 3 meses depois da primeira no cortador de soqueira, pode fazer diferença.

Confira a tabela do Ensaio E 996 — mostrando a dedução de dano:

Tabela 4. Redução de danos do bicudo da cana após uma ou duas aplicações de inseticida no Ensaio E 996, considerando diferentes momentos de avaliação.

Avaliação1 aplicação2 aplicações
3 MAC43%39%
6 MAC; 3 MAD10%47%

A primeira aplicação sozinha perde efeito em 6 meses. A segunda aplicação recupera a curva e segura o dano. Para canavial mais velho, o cálculo financeiro provavelmente não fecha.

11) E os produtos biológicos para controle de bicudo?

Os produtos biológicos também podem fazer parte do manejo do bicudo da cana, mas é importante alinhar a expectativa de resultado. Em geral, essas ferramentas devem ser vistas como parte de uma estratégia integrada, e não como solução imediata ou isolada.

Fungos entomopatogênicos, como Beauveria bassiana e Metarhizium anisopliae, podem ser utilizados em consórcio com inseticidas químicos. O objetivo principal, nesse caso, é favorecer a colonização da área e contribuir para o controle da praga no médio e longo prazo. Portanto, não se deve esperar resposta rápida ou redução imediata da infestação.

Entre os biológicos avaliados, os nematoides entomopatogênicos apresentaram resultados promissores. O produto Terranem, quando aplicado em drench na época chuvosa ou em condições de alta umidade, demonstrou eficiência comparável à do Regent Duo em ensaios de campo.

Esse desempenho reforça a importância da umidade para o sucesso da aplicação. Como os nematoides dependem de água para se movimentar no solo e alcançar o alvo, sua eficiência tende a ser maior em períodos chuvosos ou em áreas com boa disponibilidade hídrica.

A próxima fronteira da pesquisa é avaliar se a aplicação de nematoides com vinhaça, em volumes elevados entre 35 e 45 m³/ha, pode suprir a necessidade de água do biológico durante a época seca. Caso essa estratégia se confirme, ela poderá ampliar as possibilidades de uso dos nematoides no manejo do bicudo da cana.

Conclusão

O manejo eficiente do bicudo da cana depende de uma combinação de estratégias, e não de uma única solução. O inseticida pode contribuir para a redução dos danos, mas não resolve o problema sozinho. Em condições reais de campo, a média de controle no Brasil costuma ficar entre 40% e 50%, o que reforça a importância de alinhar expectativa, custo e eficiência.

Entre as práticas avaliadas, o vazio sanitário longo, com pelo menos 180 dias, associado à destruição mecânica da soqueira no período seco, aparece como uma das medidas de maior retorno por hectare. Essa estratégia atua diretamente sobre o ciclo da praga e reduz a população antes da implantação do novo canavial.

A época do ano também define a melhor tecnologia de aplicação. Em períodos secos, o corte de soqueira tende a ser mais eficiente. Já na época chuvosa, o drench apresenta melhor desempenho, principalmente pela maior umidade do solo e melhor absorção pela planta. Quando essa lógica é invertida, o risco de baixa resposta e desperdício de investimento aumenta.

Outro ponto importante é que aumentar o volume de calda não compensa falhas operacionais. A eficiência depende muito mais de equipamento bem regulado, aplicação bem posicionada, escolha correta da modalidade e rotação de moléculas do que simplesmente de mais litros por hectare.

Por fim, nenhum manejo se sustenta sem amostragem. Monitorar a área ao longo de todo o ciclo, seguindo a metodologia correta, é o que permite identificar o nível real de infestação, priorizar áreas de maior retorno e tomar decisões técnicas com mais segurança. Sem diagnóstico, o manejo do bicudo da cana fica no escuro.

Quer tomar decisões mais técnicas e reduzir perdas na cana-de-açúcar?

No campo, produtividade não se protege apenas com aplicação de produtos. Ela depende de diagnóstico correto, manejo integrado e capacidade de agir no momento certo para reduzir a pressão de pragas como o bicudo da cana.

A Pós-graduação em Cana-de-açúcar da Agroadvance foi desenvolvida para profissionais que desejam aprofundar seus conhecimentos sobre a cultura, aprimorar a tomada de decisão no campo e aplicar estratégias mais eficientes para aumentar a produtividade e a rentabilidade do canavial.

Conheça a Pós-graduação em Cana-de-açúcar e dê o próximo passo na sua evolução profissional. Clique em SAIBA MAIS!

Quer continuar se informando sobre o assunto no blog Agroadvance?

Esse artigo foi construído a partir da aula “Bicudo-da-cana: como reduzir perdas com manejo eficiente”, conduzida pela Dra. Leila Luciano Miranda, pesquisadora do Centro de Cana do Instituto Agronômico (IAC), e dos ensaios do IAC/CTC referenciados na palestra (E 393, E 436, E 707, E 805, E 893, E 972, E 975, E 988, E 996, Ensaio 800, Ensaio 950, entre outros). A aula completa está disponível no YouTube da Agroadvance.

Sobre o autor:

Felipe Wonrath

Felipe Wohnrath

Coordenador de Comunicação na Agroadvance

Como citar este artigo:

WOHNRATH, F. Bicudo da cana: 11 estratégias comprovadas para reduzir perdas no canavial. Blog Agroadvance. Publicado em: 26 Jun. 2026. Disponível em: https://agroadvance.com.br/bicudo-da-cana-sphenophorus-levis/. Acesso: 26 jun. 2026.

VOCÊ TAMBÉM PODE GOSTAR:

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *