Avaliar a saúde do solo, entendida como a capacidade contínua do solo de desempenhar suas funções, exige integrar indicadores físicos, químicos e biológicos. Fazer isso apenas em laboratório esbarra em três gargalos: logística, tempo e custo. O Kit SOHMA®, desenvolvido na ESALQ/USP, propõe fazer essa leitura integrada direto no talhão, com sete indicadores avaliados numa mini-trincheira e reunidos num único índice.
A dificuldade está em dois pontos. Nenhum indicador isolado mede saúde do solo, e um método de campo só tem valor se o que ele mede corresponder ao que o laboratório mede. Para quem avalia a ferramenta, as perguntas são: o que o kit mede, quão confiável ele é e onde ele não chega?
No Simpósio Brasileiro de Saúde do Solo (SBSS) 2026, organizado pela Agroadvance, a pesquisadora Bruna Schiebelbein, pós-doutoranda do CCARBON/USP e do Grupo SOHMA (ESALQ/USP) e uma das desenvolvedoras do kit, abriu o painel de ferramentas de diagnóstico e estratégias de manejo apresentando como a ferramenta foi construída, como é aplicada e o que a validação mostrou.
Este artigo reúne o conteúdo da palestra e o complementa com o artigo científico de validação (Schiebelbein et al., 2025) e com o capítulo 19 do livro Saúde do solo em ecossistemas tropicais (Schiebelbein et al., 2025, cap. 19): indicadores, amostragem, cálculo do índice, validação contra o laboratório, casos de campo e limites da ferramenta.
O que é o Kit SOHMA e por que ele foi criado?
O Kit SOHMA® é um conjunto de campo desenvolvido pelo Grupo SOHMA, da ESALQ/USP, que avalia sete indicadores físicos, químico e biológicos do solo em até cerca de duas horas por ponto e os integra num Índice de Saúde do Solo (ISS). Foi lançado em abril de 2024, tem pedido de patente da USP e guia do usuário gratuito.
O kit foi desenvolvido por Bruna E. Schiebelbein e Maurício R. Cherubin no Soil Health & Management Research Group (SOHMA), do Departamento de Ciência do Solo da ESALQ/USP, com apoio do CCARBON/USP. O projeto começou em 2021 e o anúncio oficial ocorreu em abril de 2024, no CCarbon Soil Health Symposium (Schiebelbein et al., 2025, cap. 19).
A construção seguiu três etapas. A primeira foi uma revisão de literatura não sistemática (Scopus, Web of Science e Google Scholar, 1990 a 2021) em busca de métodos aplicáveis integralmente no campo, baratos, rápidos, confiáveis, reprodutíveis e sensíveis ao manejo (Schiebelbein et al., 2025). Métodos que levavam cerca de 24 horas ficaram de fora.
A segunda foi a seleção e adaptação dos indicadores, com o custo como critério eliminatório: um sensor de nutrientes foi descartado pelo preço, e parte dos itens do kit piloto não chegou à versão final. Três métodos partem de adaptações do Soil Quality Test Kit do USDA (2001), ferramenta descontinuada (Schiebelbein et al., 2025). A terceira foi a validação a campo, para verificar se o kit distingue manejos e se corresponde aos métodos de laboratório.
A lógica de uso se resume em quatro verbos: medir, integrar, interpretar e manejar. Na síntese da própria pesquisadora:
“A nossa ideia é medir integrar isso em um índice de saúde do solo depois interpretar e entender quais indicadores estão limitando a saúde do solo pra manejar” — Bruna Schiebelbein (SBSS, 2026).
O processo de avaliação é objeto do pedido de patente BR 10 2024 015629-3, depositado pela Universidade de São Paulo no INPI em 30/07/2024 (Universidade de São Paulo, 2024). O guia do usuário é gratuito (Schiebelbein; Cherubin, 2024). Em 15/10/2025, a ESALQ/USP recebeu pela ferramenta o FAO80 Global Technical Recognition, na categoria “Land, soil and water resource management for resilient agriculture and food security”. A disponibilização do kit físico está em estruturação.
Segundo levantamento do próprio grupo, o kit já foi aplicado em mais de 20 cidades de 7 estados, com mais de 200 avaliações e mais de 2.000 downloads do guia.

Quais indicadores o Kit SOHMA avalia?
O Kit SOHMA avalia sete indicadores: três físicos (infiltração de água, estabilidade de agregados e avaliação visual da estrutura, a VESS), um químico (pH em água) e três biológicos (atividade biológica pelo teste de catalase, macrofauna e separação visual de agregados biogênicos). No índice final, cada grupo pesa um terço, qualquer que seja o número de indicadores.
No artigo de validação, a atividade biológica aparece como teste da enzima catalase, e a separação visual dos agregados, como avaliação de agregados biogênicos. Este artigo usa os nomes do kit.
Tabela 1. Os sete indicadores do Kit SOHMA, a base de cada método e o método de laboratório usado na validação
| Grupo | Indicador (nome no kit) | O que avalia | Base do método no kit | Método de referência na validação |
| Físico | Infiltração de água no solo | Entrada de água no solo | Anel de PVC, adaptado de USDA (2001) | Infiltração pelo método Beerkan |
| Físico | Estabilidade de agregados | Resistência dos agregados à desagregação pela água | Umedecimento rápido (slaking) com contagem de agregados intactos, adaptado de USDA (2001) | Peneiramento úmido (Elliott, 1986) |
| Físico | Avaliação visual da estrutura (VESS) | Qualidade estrutural do solo | Notas de 1 (alta qualidade) a 5 (baixa qualidade) (Guimarães et al., 2011) | Não consta na análise de correlação |
| Químico | pH em água | Acidez do solo | Água engarrafada e sensor portátil, adaptado de USDA (2001) | pH em água destilada |
| Biológico | Atividade biológica (catalase) | Atividade enzimática do solo | Formação de espuma após adição de água oxigenada 10 volumes | Atividade da arilsulfatase |
| Biológico | Macrofauna | Organismos do solo visíveis a olho nu | Classificação por padrões visuais e índice de macrofauna | Coleta pelo método de Anderson e Ingram (1989) e índice de diversidade de Shannon |
| Biológico | Separação visual dos agregados (agregados biogênicos) | Origem biológica ou física dos agregados | Padrões visuais e lupa de bolso de 5×, adaptado de Pereira et al. (2021) | Separação de agregados biogênicos por método padrão |
Indicadores físicos
O passo a passo do teste de infiltração e da avaliação visual da estrutura (VESS) já foi detalhado no blog. Vale fixar a distinção: a VESS avalia estrutura, com notas de 1 (melhor) a 5 (pior); a estabilidade de agregados é outro teste, feito por umedecimento rápido (slaking) com contagem dos agregados que permanecem intactos.
O slaking partiu do teste de umedecimento rápido do USDA (2001), mas a versão do kit foi desenvolvida pelo grupo porque não havia metodologia estabelecida para avaliar estabilidade de agregados diretamente no campo (Schiebelbein et al., 2025, cap. 19).
Indicador químico
O único indicador químico do Kit SOHMA é o pH em água, medido com sensor portátil a partir do método padrão adaptado para água engarrafada (USDA, 2001). A suspensão de solo repousa cerca de meia hora antes da leitura, e esse intervalo é aproveitado para avaliar outros indicadores.
Indicadores biológicos
Na atividade biológica, o sinal lido no campo é a espuma formada após a adição de água oxigenada 10 volumes ao solo, que expressa a atividade da enzima catalase (Schiebelbein et al., 2025). A macrofauna é classificada por padrões visuais e convertida num índice de macrofauna.
A separação visual dos agregados distingue os biogênicos, formados pela atividade de organismos engenheiros do ecossistema, dos fisicogênicos, formados por ciclos de umedecimento e secagem ou por compactação (Pereira et al., 2021). Com a catalase e a macrofauna, completa o grupo de indicadores biológicos do kit.
Como é feita a avaliação com o Kit SOHMA no campo?
A avaliação com o Kit SOHMA é feita numa mini-trincheira, em talhões homogêneos percorridos em zigue-zague, na época das águas e com o solo friável. Os indicadores cobrem a camada de 0–10 cm, exceto a VESS, que avalia uma camada mais profunda, e seguem uma ordem que aproveita os tempos de espera para fechar cada ponto em até cerca de duas horas.
Onde e quando amostrar?
Os talhões devem ter mesma classe de solo e mesma declividade, e quanto mais pontos avaliados, menor o erro associado. O solo não pode estar nem muito seco, nem muito úmido; o artigo de validação descreve a condição como próxima da capacidade de campo, na estação chuvosa (Schiebelbein et al., 2025).
Como cada avaliação leva de 1,5 a 2 horas, o número de repetições é limitado, e o artigo recomenda escolher com cuidado um local de amostragem representativo. Além da caixa do kit, basta pá reta ou cortadeira e água.
Em que ordem avaliar os indicadores?
A ordem otimizada é infiltração → pH → atividade biológica → estabilidade de agregados → separação visual dos agregados → VESS → macrofauna, com o pH em repouso enquanto os demais são avaliados. O artigo de validação registra cerca de 120 minutos por ponto com duas pessoas e 1,5 a 2 horas por avaliação (Schiebelbein et al., 2025); mais avaliadores reduzem o tempo.

Como o Kit SOHMA calcula o índice de saúde do solo?
Cada valor medido pelo Kit SOHMA vira um escore de 20 a 100 em tabelas de interpretação que consideram a classe textural. Os escores formam subíndices físico, químico e biológico, cada um com peso de 33,33%, e a soma ponderada gera o Índice de Saúde do Solo, lido em cinco classes, de muito baixa a muito alta, junto com o indicador que está limitando.
Do valor medido ao escore
As tabelas de interpretação combinam classe textural, limiares da literatura e opinião de especialistas. O artigo científico expressa o escore de 0 a 1; o guia e o diagnóstico usam a escala de 20 a 100, com a mesma lógica. A estabilidade de agregados ilustra o peso da textura. Em solo de textura arenosa ou média, mais de 70% de agregados estáveis recebe escore 100, e menos de 30%, escore 20. Em solo argiloso, os mesmos escores exigem mais de 80% e menos de 40%, respectivamente (Schiebelbein; Cherubin, 2024).
Do escore ao índice de saúde do solo
O índice é calculado pela abordagem aditiva ponderada, ISS = Σ SiWi, em que cada grupo de indicadores (físico, químico e biológico) pesa 33,33%, independentemente de quantos indicadores o compõem (Cherubin et al., 2016).
O resultado é lido em cinco classes: 0–20 muito baixa; 20–40 baixa; 40–60 moderada; 60–80 alta; e 80–100 muito alta. A escala de cinco cores segue o modelo do Cornell Assessment of Soil Health (Schiebelbein et al., 2025).
Como identificar o indicador limitante?
Os indicadores limitantes são apontados no próprio diagnóstico do Kit SOHMA, ao lado do ISS, e são eles, mais do que o valor do índice, que orientam o manejo. Os resultados de campo são enviados por formulário online, e o usuário recebe por e-mail valor medido, escore e condição de cada indicador, subíndices, ISS e indicadores limitantes. Os cálculos também podem ser feitos à mão, com as tabelas do guia, e cada envio alimenta o banco de dados usado para refinar as tabelas.
A seção final do diagnóstico traz práticas de manejo em termos gerais, como plantas de cobertura, que atuam sobre infiltração, estrutura, ciclagem, matéria orgânica e vida do solo. A escolha da espécie fica com o técnico ou o produtor: o kit não indica espécie.
Tabela 2. Exemplo de diagnóstico emitido pelo Kit SOHMA: escores por indicador, subíndices, índice de saúde do solo e indicadores limitantes
| Indicador | Valor medido | Escore | Condição |
| Infiltração de água | 0,01 | 40 | Baixa (limitante) |
| Estabilidade de agregados | 30,00 | 40 | Baixa (limitante) |
| VESS | 1,50 | 100 | Muito alta |
| pH em água | 6,69 | 100 | Muito alta |
| Atividade biológica | 25,00 | 60 | Moderada |
| Macrofauna | 0,60 | 60 | Moderada |
| Separação visual dos agregados | 67,58 | 100 | Muito alta |
| Subíndice físico | — | 60,00 | Alta |
| Subíndice químico | — | 100,00 | Muito alta |
| Subíndice biológico | — | 73,33 | Alta |
| Índice de Saúde do Solo | — | 77,00 | Alta |
No exemplo, o ISS está na classe alta, mas infiltração e estabilidade de agregados aparecem como limitantes: é para eles que o manejo deve se voltar.
O que a validação do Kit SOHMA com laboratório mostra?
Em dois experimentos no Cerrado (n = 27), cinco dos seis indicadores do Kit SOHMA comparados correlacionaram significativamente com métodos de laboratório, do pH (r = 0,876) à estabilidade de agregados (r = 0,400). A macrofauna não correlacionou (r = 0,021; p = 0,917), e o índice do kit teve associação moderada com o índice laboratorial (r = 0,444).
O kit mede o mesmo que o laboratório?
Na maior parte dos indicadores, o Kit SOHMA acompanha o laboratório, com intensidade variável. Depois de uma validação inicial no campus da USP, em Piracicaba, o kit foi comparado com métodos de laboratório pela correlação de Pearson (n = 27) em Latossolo Vermelho, em dois experimentos de longa duração: Rio Verde (GO), com 5 anos, e Rondonópolis (MT), com 9 anos, amostrados em fevereiro de 2024 (Schiebelbein et al., 2025).
Além do pH, correlacionaram a infiltração (r = 0,712), a atividade biológica com a arilsulfatase (r = 0,615) e os agregados biogênicos (r = 0,599), todos com p ≤ 0,001; a estabilidade de agregados teve associação moderada (r = 0,400; p = 0,038).

A macrofauna foi o único indicador sem correspondência com o método padrão, o que pede cautela na leitura isolada desse indicador; a fonte publicada não atribui causa ao resultado.
A correlação de 0,444 entre os índices tem um detalhe de construção: o ISS de laboratório usou outro conjunto mínimo de indicadores (estabilidade de agregados, densidade do solo, pH, P, K, β-glicosidase e carbono orgânico), integrados por curvas SMAF (Andrews et al., 2004). A comparação é entre índices construídos com indicadores diferentes. Arilsulfatase e β-glicosidase são as enzimas da bioanálise do solo.
O kit teve maior variabilidade que os métodos padrão nos dois locais, e a VESS não consta na análise de correlação.
O kit detecta diferenças de manejo?
Em parte. Em Rio Verde (GO), o ISS do Kit SOHMA passou de 52 no pousio para 70 com mix de cobertura (+35%), com evidência estatística fraca (p = 0,08) e sem diferença no componente biológico. Em Rondonópolis (MT), nenhum método detectou mudança no ISS entre tratamentos. Os casos do Rio Grande do Sul comparam talhões de fazendas diferentes, sem repetição experimental.
Em Rio Verde, o pousio foi comparado a um mix de plantas de cobertura com milheto, Crotalaria spectabilis e Urochloa ruziziensis, e o artigo adota α = 0,10 para evidência fraca. O ganho veio sobretudo dos componentes físico (28% → 33%) e químico (7% → 13%); o componente biológico não diferiu. O mesmo artigo registra que o pH medido pelo kit não diferiu entre tratamentos (Schiebelbein et al., 2025).
No experimento de Rio Verde, a infiltração medida pelo kit superou a do pousio em 164% a 246%, conforme o tratamento; pelo método Beerkan, o aumento foi de até 30% (Schiebelbein et al., 2025).
Em Rondonópolis, o pousio com plantas espontâneas teve ISS maior que os tratamentos com cobertura, e o laboratório registrou o mesmo padrão. O aumento de +8% do capítulo 19 compara o mix de quatro espécies com a crotalária solteira (ISS de 74 para 80), não cobertura com pousio, e não configura diferença estatística (Schiebelbein et al., 2025).
No Rio Grande do Sul, o capítulo 19 reporta quatro talhões comerciais avaliados em julho de 2024. Nos arenosos, o ISS foi de 65 (compactado por pisoteio animal) a 80 (levemente compactado), +23%; nos argilosos, de 62 (compactado convencionalmente) a 88 (maior diversidade vegetal, sem compactação), +42%. As maiores diferenças apareceram em infiltração, VESS e macrofauna (Schiebelbein et al., 2025, cap. 19).
São comparações entre talhões de fazendas diferentes, sem repetição experimental declarada: servem como estudo de caso, não como ensaio. Na palestra, Bruna Schiebelbein ressaltou que alguns indicadores não mostraram sensibilidade ao manejo, algo que também ocorre no laboratório, e esse é o argumento do grupo para avaliar os sete em conjunto.
Tabela 3. Índice de saúde do solo medido pelo Kit SOHMA em quatro situações de manejo e o grau de evidência de cada comparação
| Local | O que foi comparado | ISS pelo kit | Diferença | Status da evidência |
| Rio Verde (GO), 5 anos | Pousio × mix de cobertura (milheto + C. spectabilis + U. ruziziensis) | 52 → 70 | +35% | Evidência fraca (p = 0,08); componente biológico não diferiu |
| Rondonópolis (MT), 9 anos | Crotalária × mix de cobertura (4 espécies) | 74 → 80 | +8% | Sem diferença estatística; compara mix × crotalária, não cobertura × pousio |
| RS, solos arenosos | Compactado por pisoteio animal × levemente compactado | 65 → 80 | +23% | Estudo de caso entre talhões de fazendas diferentes, sem repetição |
| RS, solos argilosos | Compactado convencionalmente × maior diversidade vegetal, sem compactação | 62 → 88 | +42% | Estudo de caso entre talhões de fazendas diferentes, sem repetição |
Quando a análise de solo em laboratório continua indispensável?
O Kit SOHMA não substitui a análise de solo em laboratório: avalia só a camada superficial, não mede matéria orgânica nem nutrientes disponíveis, tem variabilidade maior que a dos métodos padrão e interpreta o solo por funções, não por resposta da cultura. Funciona como suporte à decisão, triagem e monitoramento, complementar à análise laboratorial de rotina.
O que o kit SOHMA não mede?
O Kit SOHMA não mede matéria orgânica, nutrientes disponíveis nem o subsolo: seus indicadores cobrem a camada superficial, e para processos de subsuperfície o artigo de validação sugere o SubVESS (Schiebelbein et al., 2025).
Para matéria orgânica e nutrientes, o artigo recomenda usar a análise de solo de fertilidade de rotina. Quando ela já existe, é possível reduzir o conjunto de indicadores avaliados no campo, desde que se mantenham representantes físicos, químicos e biológicos.
A interpretação do kit é feita por função do solo, e não por curva de resposta da cultura. Isso limita o uso do índice para recomendação direta de manejo ou de dose.
A pesquisadora delimitou esse papel na sua palestra no SBSS:
“Nosso objetivo não é substituir a análise laboratorial mas dar um suporte na tomada de decisão” — Bruna Schiebelbein (SBSS, 2026).
Tabela 4. O que o Kit SOHMA e a análise de laboratório respondem na avaliação da saúde do solo
| Critério | Kit SOHMA | Análise de laboratório |
| O que mede | Infiltração, estabilidade de agregados, VESS, pH, atividade biológica (catalase), macrofauna e agregados biogênicos | Matéria orgânica e nutrientes disponíveis (fertilidade de rotina) e indicadores laboratoriais de saúde do solo, como densidade, enzimas e carbono orgânico |
| O que não mede | Matéria orgânica, nutrientes disponíveis e processos do subsolo | Depende das análises solicitadas |
| Profundidade | 0–10 cm; VESS em camada mais profunda | Definida na amostragem |
| Tempo até o resultado | No mesmo dia, em 1,5 a 2 h por ponto | Depende do prazo do laboratório |
| Precisão e variabilidade | Variabilidade maior que a dos métodos padrão; exige avaliador treinado nos indicadores visuais | Referência usada na validação do kit, com menor variabilidade |
| Tipo de interpretação | Por função do solo, com escore, índice e indicador limitante; não por resposta da cultura | Na fertilidade de rotina, base para recomendação de manejo e dose |
| Uso recomendado | Suporte à decisão, triagem, monitoramento e antecipação de problemas | Quantificação de matéria orgânica e nutrientes, complementar ao kit |
Que cuidados garantem um diagnóstico confiável?
Um diagnóstico confiável com o Kit SOHMA depende de três cuidados: avaliador treinado nos indicadores visuais, umidade adequada do solo e leitura do conjunto dos sete indicadores, já que avaliar um único indicador leva a decisões precipitadas.
A VESS e a macrofauna dependem de julgamento visual, e o artigo de validação indica treinamento básico para eles; avaliações de pessoas diferentes precisam de calibração antes de serem comparadas. A umidade também é crítica para esses indicadores: a condição recomendada é o solo friável.
Os próximos passos do grupo incluem refinar as tabelas de interpretação com dados dos usuários, incluir novos indicadores, desenvolver um aplicativo e expandir o uso para outros países, solos e sistemas, como pastagens e vegetação nativa.
O que você leva pro campo amanhã?
- Saúde do solo não se lê num indicador só: o Kit SOHMA integra sete (físicos, químico e biológicos) num índice, e cada grupo pesa um terço.
- A avaliação cabe em até cerca de duas horas por ponto, desde que o solo esteja friável, o talhão seja homogêneo e a ordem otimizada seja seguida.
- O valor do índice importa menos que o indicador limitante: é ele que orienta o manejo.
- pH, infiltração, catalase e agregados biogênicos acompanharam o laboratório; a estabilidade de agregados, de forma moderada; a macrofauna do kit, não. Leia esse último indicador com cautela.
- A sensibilidade ao manejo apareceu, mas com evidência fraca ou em estudo de caso: use o kit como monitoramento, com avaliadores calibrados e solo em umidade adequada.
- Matéria orgânica, nutrientes e subsolo continuam exigindo análise de solo em laboratório.
Perguntas frequentes sobre o Kit SOHMA
O que é o Kit SOHMA?
É um kit de campo desenvolvido pelo Grupo SOHMA, da ESALQ/USP, que avalia sete indicadores físicos, químico e biológicos do solo e os integra num Índice de Saúde do Solo. Foi lançado em 2024 e tem pedido de patente depositado pela USP.
Quais indicadores o Kit SOHMA avalia?
Infiltração de água, estabilidade de agregados e avaliação visual da estrutura (VESS), no grupo físico; pH em água, no químico; atividade biológica (catalase), macrofauna e separação visual de agregados biogênicos, no biológico.
Quanto tempo leva uma avaliação com o Kit SOHMA?
Até cerca de duas horas por ponto. O artigo de validação registra aproximadamente 120 minutos com duas pessoas, e mais avaliadores reduzem o tempo.
O Kit SOHMA substitui a análise de solo em laboratório?
Não. O Kit SOHMA é suporte à decisão, triagem e monitoramento: avalia só a camada superficial, não mede matéria orgânica nem nutrientes e tem variabilidade maior que os métodos laboratoriais.
Como é calculado o índice de saúde do solo do Kit SOHMA?
Cada indicador recebe um escore de 20 a 100 conforme tabelas de interpretação que consideram a textura. Os grupos físico, químico e biológico pesam 33,33% cada, e a soma ponderada gera o índice, classificado de muito baixo a muito alto.
Onde baixar o guia do Kit SOHMA, e o kit está à venda?
O guia do usuário do Kit SOHMA é gratuito e foi publicado pela ESALQ/USP (DOI: https://doi.org/10.11606/9786587391557). A disponibilização do kit físico está em estruturação.
Medir é a primeira etapa. Transformar o indicador limitante em plano de manejo exige base sólida em física, química e biologia do solo. Você está preparado para fazer essa leitura integrada, do diagnóstico no campo à decisão de manejo? A Pós-Graduação em Fertilidade e Saúde do Solo da Agroadvance prepara você para esse passo. Clique em SAIBA MAIS e conheça a pós:
Procedência
Este artigo é uma cobertura editorial da palestra “Kit SOHMA®: ferramenta para avaliação e manejo da saúde do solo”, apresentada por Bruna Emanuele Schiebelbein (Grupo SOHMA, ESALQ/USP; CCARBON/USP) no Dia 2 do Simpósio Brasileiro de Saúde do Solo (SBSS) 2026, evento organizado pela Agroadvance, em 06/08/2026, na abertura do painel de ferramentas de diagnóstico e estratégias de manejo.
O conteúdo foi reconstituído a partir da transcrição da palestra e dos slides, e complementado pelo artigo de validação (Schiebelbein et al., 2025) e pelo capítulo 19 do livro Saúde do solo em ecossistemas tropicais (Schiebelbein et al., 2025, cap. 19). O desenvolvimento do kit teve financiamento declarado pelo grupo da FAPESP (CCARBON, processo 2021/10573-4, e bolsas), da Bayer Crop Science (projeto ProCarbono), da Fundação Agrisus (processo 3161/21) e do CNPq.
Conflito de interesse declarado no artigo de validação: “Bruna Emanuele Schiebelbein has patent #BR102024015629-3 pending to University of Sao Paulo – USP” (a autora tem pedido de patente pendente, em nome da Universidade de São Paulo).
Referências
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UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO. Pedido de patente BR 10 2024 015629-3. Depositante: Universidade de São Paulo. Depósito: 30 jul. 2024. Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI).
USDA — UNITED STATES DEPARTMENT OF AGRICULTURE. Soil quality test kit guide. Washington, DC: USDA-ARS/NRCS, Soil Quality Institute, 2001.
Sobre a autora

Beatriz Nastaro Boschiero
Especialista em Conteúdo na Agroadvance
- Pós-doutora pelo CTBE/CNPEM e CENA/USP
- Mestra e Doutora em Solos e Nutrição de Plantas (ESALQ/USP)
- Engenheira Agrônoma (UNESP/Botucatu)
Como citar este artigo
BOSCHIERO, B. N. Kit SOHMA®: como avaliar a saúde do solo no campo. Blog Agroadvance. Publicado em: 05 Out. 2026. Disponível em: https://agroadvance.com.br/blog-kit-sohma/. Data de acesso: 05 out. 2026.



