A cultura do trigo (Triticum spp.) é uma das culturas alimentares mais importantes do mundo, servindo como base da dieta de bilhões de pessoas.
De acordo com a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO, 2022), o consumo médio mundial de trigo varia entre 90 e 100 kg por pessoa por ano. No Brasil, esse consumo é de aproximadamente 40,62 kg per capita anualmente, conforme dados da ABITRIGO/IBGE.
Historicamente, o cultivo do trigo no Brasil esteve concentrado nas regiões Sul, especialmente nos estados do Paraná e Rio Grande do Sul, devido às condições climáticas favoráveis.
No entanto, nas últimas décadas, houve uma expansão significativa para outras regiões, incluindo o Cerrado e partes do Nordeste, impulsionada por avanços tecnológicos e pela adaptação de cultivares ao clima tropical, permitindo o cultivo do trigo em regiões tropicais.
Neste artigo, você compreenderá os principais desafios nutricionais e fisiológicos do cultivo do trigo em regiões tropicais do Brasil, destacando as exigências da cultura, as características dos solos, o ciclo fenológico da planta e as estratégias para mitigar os estresses térmicos e hídricos.
Panorama atual da produção de trigo no Brasil
Segundo dados recentes, a estimativa de produção de trigo no Brasil é de que sejam colhidas 8,47 milhões de toneladas na safra 2024/25, com produtividade média de 3.056 kg/ha, representando um aumento de 7,4% em relação à safra anterior (CONAB, 2025).
Esse crescimento é impulsionado por avanços tecnológicos e pela adaptação de cultivares ao clima tropical.

Das regiões produtoras de trigo no Brasil, o Sul é responsável pela maior parte da produção nacional e pela maior área plantada nos últimos 14 anos, em especial nos estados do Paraná e Rio Grande do Sul (Figuras 1 e 2).

Com relação à produtividade, o Nordeste se destaca, embora o cultivo do trigo na região seja majoritariamente familiar e não realizado em larga escala.
As demais regiões apresentam produtividade média compatível com a média nacional, que tem variado, nos últimos 14 anos, entre 2,5 e 3,5 t ha⁻¹ (Figura 3).

Regiões produtoras de trigo no Brasil
Apesar da região Sul se destacar, o Cerrado vem ganhando espaço com o lançamento de cultivares de trigo tropical adaptadas às condições climáticas da região (Figura 4).
Formada pelo Distrito Federal e pelos estados de Minas Gerais, Goiás, parte da Bahia e do Mato Grosso, essa região permite o cultivo de trigo no inverno, durante a estação seca, com ou sem irrigação; em sistema de sequeiro, no final da estação das águas; ou ainda em sucessão à safra de verão, no período da “safrinha”.
Um aspecto que vem despertando o interesse dos pesquisadores é a qualidade da farinha do trigo tropical, que tem sido comparada à da Argentina, um dos principais fornecedores do Brasil.
A área considerada apta para o cultivo do trigo tropical no Brasil é de aproximadamente 4 milhões de hectares. Desse total, cerca de 1,5 milhão de hectares são indicados para a produção irrigada, enquanto os outros 2,5 milhões são destinados ao cultivo de sequeiro, segundo dados da Embrapa (2016). No entanto, apenas 12,5% dessa área com potencial produtivo vem sendo efetivamente utilizada para o plantio do cereal. As lavouras de trigo tropical se concentram em estados como Minas Gerais, Goiás, Distrito Federal, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, São Paulo e Bahia.
O direcionamento das regiões mais indicadas para o cultivo é feito com base no Zoneamento Agrícola de Risco Climático (ZARC), que é atualizado anualmente com base em pesquisas técnicas.

Sistema de cultivo de trigo em regiões tropicais
Em regiões de clima tropical, como o Brasil, o trigo pode ser cultivado em dois sistemas distintos: o de sequeiro, também conhecido como safrinha, com plantio de trigo a partir de março; ou o sistema irrigado, com uso de pivô central, cuja semeadura geralmente ocorre a partir da primeira quinzena de abril.
Nos últimos anos, o cultivo de sequeiro tem ganhado destaque e hoje representa cerca de 80% da área plantada com trigo tropical (Figura 5). Os rendimentos nessa modalidade variam entre 2 e 3 toneladas por hectare, e o cereal tem se consolidado como uma excelente opção na rotação com soja e milho, principalmente por seu efeito supressor sobre plantas daninhas.
Já o trigo irrigado ocupa aproximadamente 20% da área cultivada e vem sendo utilizado como alternativa em sistemas de rotação com culturas de alto valor agregado, como feijão, cenoura, cebola, alho e batata.

Avanços tecnológicos
Dentre os principais avanços na triticultura destaca-se:
- Melhoramento genético de cultivares
- Agricultura de precisão
- Sistemas de irrigação
- Uso de bioinsumos e controle biológico
- Plantio direto
- Zoneamento agrícola de risco climático – ZARC
- Integração lavoura-pecuária
- Cultivares adaptadas ao Cerrado
Mudanças climáticas
A elevação das temperaturas médias e a ocorrência de secas prolongadas comprometem o cultivo do trigo, especialmente durante as fases críticas de florescimento e enchimento de grãos.
Chuvas intensas e inundações, como as registradas no Rio Grande do Sul, têm causado perdas substanciais nas lavouras de trigo, além de afetar a infraestrutura agrícola e logística de escoamento da produção.
Condições de alta umidade e temperaturas elevadas favorecem o surgimento de doenças como a brusone, causada pelo fungo Magnaporthe oryzae.
Exigências edafoclimáticas da cultura do trigo
Clima ideal vs. realidade tropical
O cultivo do trigo é melhor em temperaturas entre 15 °C e 20 °C, com umidade relativa do ar em torno de 70%. No entanto, em regiões tropicais, as temperaturas frequentemente ultrapassam os 26 °C, o que pode comprometer o crescimento e o desempenho da planta.
A superação dessas condições adversas requer o uso de cultivares adaptadas e a adoção de práticas de manejo adequadas.
Tipos de solo e correções recomendadas
O trigo se desenvolve melhor em solos:
- Bem drenados;
- Boa capacidade de retenção de água;
- Boa disponibilidade de nutrientes;
- Ausência de camadas compactadas;
- Presença de alumínio;
- Baixa susceptibilidade a erosão;
- Boa topografia para facilitar a mecanização;
- pH entre 5,5 e 6,5.
Em regiões tropicais, os solos geralmente apresentam acidez elevada, exigindo a aplicação de corretivos como o calcário para alcançar o pH ideal para o cultivo do trigo.
Além disso, a adubação deve ser balanceada, considerando as exigências nutricionais de acordo com a fenologia do trigo, com base em análises de solo e recomendações técnicas.
Principais nutrientes exigidos
A Figura 6 apresenta os principais nutrientes requeridos para o cultivo do trigo, evidenciando aqueles com maior demanda para o desenvolvimento da planta e maior produtividade.
É importante destacar que, quando o trigo é cultivado após gramíneas como milho ou sorgo, a dose recomendada de nitrogênio no plantio deve ser ajustada para 40 kg/ha.
Embora os micronutrientes sejam requeridos em menores quantidades, de acordo com a Lei do Mínimo, a produtividade de uma cultura é limitada pelo nutriente disponível em menor quantidade, mesmo que todos os outros estejam em níveis adequados. Portanto, a deficiência de micronutrientes pode comprometer o rendimento das lavouras de trigo.

Entendendo o ciclo e a fenologia do trigo
O ciclo do trigo pode variar de 100 a 170 dias, dependendo da cultivar e das condições ambientais (Figura 7). As principais etapas do desenvolvimento são:
- Germinação e emergência: ocorre de 5 a 7 dias após o plantio.
- Perfilhamento: formação de brotos laterais, entre 15 e 17 dias.
- Alongamento: crescimento do colmo, dura de 15 a 18 dias.
- Espigamento: emergência da espiga, floração e início do enchimento dos grãos, entre 12 e 16 dias.
- Maturação: fase final, com duração de 30 a 40 dias, onde os grãos atingem a maturidade.

Figura 7. Descrição dos estágios de crescimento do trigo da escala decimal de Zadoks (1974). Adaptado: Cunha e Caierão (2023).
Influência de estresses térmicos e hídricos em cada fase
Altas temperaturas e déficit hídrico durante as fases de espigamento e enchimento de grãos podem comprometer a produtividade do trigo.
Para mitigar esses impactos, é importante adotar o manejo adequado da irrigação, quando possível, e utilizar cultivares com maior tolerância ao estresse térmico e hídrico.
Desafios e estratégias para o cultivo do trigo em regiões tropicais
- Tolerância ao calor
O principal desafio para o cultivo do trigo em regiões tropicais é o estresse térmico e hídrico. Temperaturas elevadas podem comprometer a fertilidade do pólen e prejudicar o enchimento dos grãos, resultando em perdas de produtividade.
A adoção de práticas conservacionistas, como o plantio direto e a manutenção da cobertura do solo, contribui para a redução da temperatura do solo e para a conservação da umidade, favorecendo o desempenho da cultura.
- Cultivares adaptadas
A Embrapa tem desenvolvido cultivares de trigo adaptadas às condições tropicais, como a BRS 404, que se destaca por apresentar ciclo mais curto e maior tolerância ao calor e à seca.
Essas características permitem a expansão do cultivo para novas áreas, como o Cerrado e regiões da Mata Atlântica.
Perspectivas para o cultivo de trigo no Brasil tropical
A produção de trigo em regiões tropicais tende a crescer de forma contínua, impulsionada por avanços tecnológicos e pelo aumento da demanda por alimentos.
Com o desenvolvimento de cultivares adaptadas através da EMBRAPA e a adoção de práticas de manejo sustentáveis, o Brasil avança rumo à autossuficiência na produção desse cereal.
Apesar do potencial produtivo, o cultivo do trigo em ambientes tropicais impõe desafios específicos, principalmente relacionados às condições climáticas adversas, como altas temperaturas e irregularidade na distribuição de chuvas.
Além disso, os solos dessas regiões frequentemente demandam correções e manejos específicos para atender às exigências nutricionais da cultura. Esses fatores tornam o desenvolvimento de estratégias agronômicas e genéticas voltadas às particularidades das condições tropicais essenciais.
Importância da palha deixada pelo trigo para os sistemas tropicais
O cultivo do trigo em regiões tropicais não deve ser analisado apenas sob a ótica da produção de grãos, mas também pelo seu papel no fornecimento de palhada para os sistemas de plantio direto.
A palha residual do trigo, quando bem manejada, torna-se um componente estratégico para a conservação do solo, o controle de plantas daninhas e o sucesso da cultura subsequente, como a soja.
A produção de massa seca pelo trigo é expressiva, essa palhada apresenta decomposição lenta, o que favorece uma cobertura prolongada do solo, sobretudo durante o início da estação chuvosa.
Dentre os principais benefícios agronômicos da palha deixada pelo trigo, destacam-se:
- Proteção física do solo: evita o impacto direto das gotas de chuva, reduz a compactação superficial e minimiza a erosão hídrica, um problema comum em áreas tropicais com chuvas intensas.
- Supressão de plantas daninhas: a cobertura espessa dificulta a emergência de espécies daninhas, reduzindo a pressão de infestação e a necessidade de herbicidas pré-plantio na cultura seguinte.
- Melhor retenção de umidade: a palhada funciona como uma barreira que retarda a evaporação da água do solo, favorecendo o estabelecimento da soja mesmo em anos com chuvas irregulares no início da safra.
- Modulação térmica: reduz a amplitude térmica do solo, o que proporciona melhores condições para o desenvolvimento radicular da soja, principalmente nas primeiras semanas após a semeadura.
- Estímulo à atividade biológica: a palha do trigo é fonte de energia para organismos do solo, contribuindo para o aumento da biodiversidade microbiana e da ciclagem de nutrientes.

Em regiões como o Cerrado, esse sistema tem se mostrado altamente eficiente, promovendo maior estabilidade produtiva e sustentabilidade a longo prazo.
Conclusão
Nesse artigo você viu que o cultivo do trigo em regiões tropicais do Brasil representa uma fronteira agrícola promissora, capaz de contribuir para a autossuficiência na produção desse cereal.
A análise dos desafios nutricionais e fisiológicos enfrentados nessas regiões revela a necessidade de abordagens integradas que considerem as especificidades climáticas e edáficas.
A adaptação de cultivares ao clima tropical, aliada a práticas de manejo adequadas, como correções de solo, adubação balanceada e estratégias para mitigar estresses térmicos e hídricos, é fundamental para o sucesso da triticultura nessas áreas.
Além disso, o entendimento aprofundado do ciclo fenológico do trigo permite intervenções mais precisas, otimizando o uso de recursos e aumentando a produtividade.
A introdução do trigo em ambientes tropicais desponta como uma alternativa promissora para a produção de palhada, contribuindo para a sustentabilidade das culturas sucessoras.
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Referências
CUNHA, G. R.; CAIERÃO, E.; INFORMAÇÕES TÉCNICAS PARA TRIGO E TRITICALE: SAFRA 2023. 15ª Reunião da Comissão Brasileira de Pesquisa de Trigo e Triticale; Embrapa, 2023. Disponível em: < https://www.conferencebr.com/conteudo/arquivo/informacoestecnicastrigotriticalesafra2023-1683736866.pdf >, acesso em: 07/05/2025.
CONAB – COMPANHIA NACIONAL DE ABASTECIMENTO. Acompanhamento da Safra Brasileira de Grãos, Brasília, DF, v. 12, safra 2024/25, n. 7 sétimo levantamento, abril 2025.
Sobre o autor:

João Paulo Marim Sebim
Doutorando em fitotecnia (ESALQ/USP)
- Mestre em Produção Vegetal (UFAC)
- Engenheiro Agrônomo (UFAC)
Como citar este artigo:
SEBIM, J.P.M. Cultivo do trigo em regiões tropicais: desafios nutricionais e fisiológicos. Blog Agroadvance. 2025. Disponível em: https://agroadvance.com.br/blog-cultivo-do-trigo-em-regioes-tropicais/. Data de acesso: xx Xxx 20xx.



