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Cultivo do trigo em regiões tropicais: : desafios nutricionais e fisiológicos

Trigo tropical: entenda como o Brasil transforma desafios climáticos em oportunidade com inovação, manejo e cultivares adaptadas no cultivo do trigo em regiões tropicais.
  • Publicado em 16/05/2025
  • João Paulo Marim Sebim
  • Trigo
  • Publicado em 16/05/2025
  • João Paulo Marim Sebim
  • Trigo
  • Atualizado em 16/05/2025
cultivo do trigo em regiões tropicais
Sumário

A cultura do trigo (Triticum spp.) é uma das culturas alimentares mais importantes do mundo, servindo como base da dieta de bilhões de pessoas.

De acordo com a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO, 2022), o consumo médio mundial de trigo varia entre 90 e 100 kg por pessoa por ano. No Brasil, esse consumo é de aproximadamente 40,62 kg per capita anualmente, conforme dados da ABITRIGO/IBGE.

Historicamente, o cultivo do trigo no Brasil esteve concentrado nas regiões Sul, especialmente nos estados do Paraná e Rio Grande do Sul, devido às condições climáticas favoráveis.

No entanto, nas últimas décadas, houve uma expansão significativa para outras regiões, incluindo o Cerrado e partes do Nordeste, impulsionada por avanços tecnológicos e pela adaptação de cultivares ao clima tropical, permitindo o cultivo do trigo em regiões tropicais.

Neste artigo, você compreenderá os principais desafios nutricionais e fisiológicos do cultivo do trigo em regiões tropicais do Brasil, destacando as exigências da cultura, as características dos solos, o ciclo fenológico da planta e as estratégias para mitigar os estresses térmicos e hídricos.

Panorama atual da produção de trigo no Brasil  

Segundo dados recentes, a estimativa de produção de trigo no Brasil é de que sejam colhidas 8,47 milhões de toneladas na safra 2024/25, com produtividade média de 3.056 kg/ha, representando um aumento de 7,4% em relação à safra anterior (CONAB, 2025).

Esse crescimento é impulsionado por avanços tecnológicos e pela adaptação de cultivares ao clima tropical.

Produção de trigo no Brasil e contribuição de cada região.
Figura 1. Produção de trigo no Brasil e contribuição de cada região. Fonte: Conab, 2025.

Das regiões produtoras de trigo no Brasil, o Sul é responsável pela maior parte da produção nacional e pela maior área plantada nos últimos 14 anos, em especial nos estados do Paraná e Rio Grande do Sul (Figuras 1 e 2).

Área plantada de trigo no Brasil e principais regiões produtoras.
Figura 2. Área plantada de trigo no Brasil e principais regiões produtoras. Fonte: Conab, 2025.

Com relação à produtividade, o Nordeste se destaca, embora o cultivo do trigo na região seja majoritariamente familiar e não realizado em larga escala.

As demais regiões apresentam produtividade média compatível com a média nacional, que tem variado, nos últimos 14 anos, entre 2,5 e 3,5 t ha⁻¹ (Figura 3).

Produtividade do trigo no brasil e por região
Figura 3.  Produtividade do trigo a nível de região e nacional. Fonte: Conab, 2025.

Regiões produtoras de trigo no Brasil

Apesar da região Sul se destacar, o Cerrado vem ganhando espaço com o lançamento de cultivares de trigo tropical adaptadas às condições climáticas da região (Figura 4).

Formada pelo Distrito Federal e pelos estados de Minas Gerais, Goiás, parte da Bahia e do Mato Grosso, essa região permite o cultivo de trigo no inverno, durante a estação seca, com ou sem irrigação; em sistema de sequeiro, no final da estação das águas; ou ainda em sucessão à safra de verão, no período da “safrinha”.

Um aspecto que vem despertando o interesse dos pesquisadores é a qualidade da farinha do trigo tropical, que tem sido comparada à da Argentina, um dos principais fornecedores do Brasil.

A área considerada apta para o cultivo do trigo tropical no Brasil é de aproximadamente 4 milhões de hectares. Desse total, cerca de 1,5 milhão de hectares são indicados para a produção irrigada, enquanto os outros 2,5 milhões são destinados ao cultivo de sequeiro, segundo dados da Embrapa (2016). No entanto, apenas 12,5% dessa área com potencial produtivo vem sendo efetivamente utilizada para o plantio do cereal. As lavouras de trigo tropical se concentram em estados como Minas Gerais, Goiás, Distrito Federal, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, São Paulo e Bahia.

O direcionamento das regiões mais indicadas para o cultivo é feito com base no Zoneamento Agrícola de Risco Climático (ZARC), que é atualizado anualmente com base em pesquisas técnicas.

regiões produtoras de trigo no brasil
Figura 4. Regiões homogêneas de adaptação de cultivares de trigo no Brasil. Fonte: Cunha et al. (2006); Brasil (2008).

Sistema de cultivo de trigo em regiões tropicais

Em regiões de clima tropical, como o Brasil, o trigo pode ser cultivado em dois sistemas distintos: o de sequeiro, também conhecido como safrinha, com plantio de trigo a partir de março; ou o sistema irrigado, com uso de pivô central, cuja semeadura geralmente ocorre a partir da primeira quinzena de abril.

Nos últimos anos, o cultivo de sequeiro tem ganhado destaque e hoje representa cerca de 80% da área plantada com trigo tropical (Figura 5). Os rendimentos nessa modalidade variam entre 2 e 3 toneladas por hectare, e o cereal tem se consolidado como uma excelente opção na rotação com soja e milho, principalmente por seu efeito supressor sobre plantas daninhas.

Já o trigo irrigado ocupa aproximadamente 20% da área cultivada e vem sendo utilizado como alternativa em sistemas de rotação com culturas de alto valor agregado, como feijão, cenoura, cebola, alho e batata.

sistemas de cultivo de trigo no brasil: sequeiro e irrigado
Figura 5. Comparativo entre os sistemas de cultivo do trigo no Brasil com porcentagem de área ocupada e rendimento de cada um. Fonte: Embrapa Trigo.

Avanços tecnológicos

Dentre os principais avanços na triticultura destaca-se:

  • Melhoramento genético de cultivares
  • Agricultura de precisão
  • Sistemas de irrigação
  • Uso de bioinsumos e controle biológico
  • Plantio direto
  • Zoneamento agrícola de risco climático – ZARC
  • Integração lavoura-pecuária
  • Cultivares adaptadas ao Cerrado

Mudanças climáticas

A elevação das temperaturas médias e a ocorrência de secas prolongadas comprometem o cultivo do trigo, especialmente durante as fases críticas de florescimento e enchimento de grãos.

Chuvas intensas e inundações, como as registradas no Rio Grande do Sul, têm causado perdas substanciais nas lavouras de trigo, além de afetar a infraestrutura agrícola e logística de escoamento da produção.

Condições de alta umidade e temperaturas elevadas favorecem o surgimento de doenças como a brusone, causada pelo fungo Magnaporthe oryzae.

Exigências edafoclimáticas da cultura do trigo

Clima ideal vs. realidade tropical

O cultivo do trigo é melhor em temperaturas entre 15 °C e 20 °C, com umidade relativa do ar em torno de 70%. No entanto, em regiões tropicais, as temperaturas frequentemente ultrapassam os 26 °C, o que pode comprometer o crescimento e o desempenho da planta.

A superação dessas condições adversas requer o uso de cultivares adaptadas e a adoção de práticas de manejo adequadas.

Tipos de solo e correções recomendadas

O trigo se desenvolve melhor em solos:

  • Bem drenados;
  • Boa capacidade de retenção de água;
  • Boa disponibilidade de nutrientes;
  • Ausência de camadas compactadas;
  • Presença de alumínio;
  • Baixa susceptibilidade a erosão;
  • Boa topografia para facilitar a mecanização;
  • pH entre 5,5 e 6,5.

Em regiões tropicais, os solos geralmente apresentam acidez elevada, exigindo a aplicação de corretivos como o calcário para alcançar o pH ideal para o cultivo do trigo.

Além disso, a adubação deve ser balanceada, considerando as exigências nutricionais de acordo com a fenologia do trigo, com base em análises de solo e recomendações técnicas.

Principais nutrientes exigidos

A Figura 6 apresenta os principais nutrientes requeridos para o cultivo do trigo, evidenciando aqueles com maior demanda para o desenvolvimento da planta e maior produtividade.

É importante destacar que, quando o trigo é cultivado após gramíneas como milho ou sorgo, a dose recomendada de nitrogênio no plantio deve ser ajustada para 40 kg/ha.

Embora os micronutrientes sejam requeridos em menores quantidades, de acordo com a Lei do Mínimo, a produtividade de uma cultura é limitada pelo nutriente disponível em menor quantidade, mesmo que todos os outros estejam em níveis adequados. Portanto, a deficiência de micronutrientes pode comprometer o rendimento das lavouras de trigo.

Principais nutrientes exigidos pelo trigo de sequeiro, com base em teores adequados no solo.
Figura 6. Principais nutrientes exigidos pelo trigo de sequeiro, com base em teores adequados no solo. Foto: João Paulo Marim Sebim (2025).

Entendendo o ciclo e a fenologia do trigo

O ciclo do trigo pode variar de 100 a 170 dias, dependendo da cultivar e das condições ambientais (Figura 7). As principais etapas do desenvolvimento são:

  • Germinação e emergência: ocorre de 5 a 7 dias após o plantio.
  • Perfilhamento: formação de brotos laterais, entre 15 e 17 dias.
  • Alongamento: crescimento do colmo, dura de 15 a 18 dias.
  • Espigamento: emergência da espiga, floração e início do enchimento dos grãos, entre 12 e 16 dias.
  • Maturação: fase final, com duração de 30 a 40 dias, onde os grãos atingem a maturidade.

Descrição dos estágios fenológicos de crescimento do trigo da escala decimal de Zadoks

Figura 7. Descrição dos estágios de crescimento do trigo da escala decimal de Zadoks (1974). Adaptado: Cunha e Caierão (2023).

Influência de estresses térmicos e hídricos em cada fase

Altas temperaturas e déficit hídrico durante as fases de espigamento e enchimento de grãos podem comprometer a produtividade do trigo.

Para mitigar esses impactos, é importante adotar o manejo adequado da irrigação, quando possível, e utilizar cultivares com maior tolerância ao estresse térmico e hídrico.

Desafios e estratégias para o cultivo do trigo em regiões tropicais

  • Tolerância ao calor

O principal desafio para o cultivo do trigo em regiões tropicais é o estresse térmico e hídrico. Temperaturas elevadas podem comprometer a fertilidade do pólen e prejudicar o enchimento dos grãos, resultando em perdas de produtividade.

A adoção de práticas conservacionistas, como o plantio direto e a manutenção da cobertura do solo, contribui para a redução da temperatura do solo e para a conservação da umidade, favorecendo o desempenho da cultura.

  • Cultivares adaptadas

A Embrapa tem desenvolvido cultivares de trigo adaptadas às condições tropicais, como a BRS 404, que se destaca por apresentar ciclo mais curto e maior tolerância ao calor e à seca.

Essas características permitem a expansão do cultivo para novas áreas, como o Cerrado e regiões da Mata Atlântica.

Perspectivas para o cultivo de trigo no Brasil tropical

A produção de trigo em regiões tropicais tende a crescer de forma contínua, impulsionada por avanços tecnológicos e pelo aumento da demanda por alimentos.

Com o desenvolvimento de cultivares adaptadas através da EMBRAPA e a adoção de práticas de manejo sustentáveis, o Brasil avança rumo à autossuficiência na produção desse cereal.

Apesar do potencial produtivo, o cultivo do trigo em ambientes tropicais impõe desafios específicos, principalmente relacionados às condições climáticas adversas, como altas temperaturas e irregularidade na distribuição de chuvas.

Além disso, os solos dessas regiões frequentemente demandam correções e manejos específicos para atender às exigências nutricionais da cultura. Esses fatores tornam o desenvolvimento de estratégias agronômicas e genéticas voltadas às particularidades das condições tropicais essenciais.

Importância da palha deixada pelo trigo para os sistemas tropicais

O cultivo do trigo em regiões tropicais não deve ser analisado apenas sob a ótica da produção de grãos, mas também pelo seu papel no fornecimento de palhada para os sistemas de plantio direto.

A palha residual do trigo, quando bem manejada, torna-se um componente estratégico para a conservação do solo, o controle de plantas daninhas e o sucesso da cultura subsequente, como a soja.

A produção de massa seca pelo trigo é expressiva, essa palhada apresenta decomposição lenta, o que favorece uma cobertura prolongada do solo, sobretudo durante o início da estação chuvosa.

Dentre os principais benefícios agronômicos da palha deixada pelo trigo, destacam-se:

  • Proteção física do solo: evita o impacto direto das gotas de chuva, reduz a compactação superficial e minimiza a erosão hídrica, um problema comum em áreas tropicais com chuvas intensas.
  • Supressão de plantas daninhas: a cobertura espessa dificulta a emergência de espécies daninhas, reduzindo a pressão de infestação e a necessidade de herbicidas pré-plantio na cultura seguinte.
  • Melhor retenção de umidade: a palhada funciona como uma barreira que retarda a evaporação da água do solo, favorecendo o estabelecimento da soja mesmo em anos com chuvas irregulares no início da safra.
  • Modulação térmica: reduz a amplitude térmica do solo, o que proporciona melhores condições para o desenvolvimento radicular da soja, principalmente nas primeiras semanas após a semeadura.
  • Estímulo à atividade biológica: a palha do trigo é fonte de energia para organismos do solo, contribuindo para o aumento da biodiversidade microbiana e da ciclagem de nutrientes.

plantio de soja na palhada de trigo
Figura 8. Plantio da soja na palhada do trigo cv. TBIO Ponteiro. Fotos: Antônio Britto.

Em regiões como o Cerrado, esse sistema tem se mostrado altamente eficiente, promovendo maior estabilidade produtiva e sustentabilidade a longo prazo.

Conclusão

Nesse artigo você viu que o cultivo do trigo em regiões tropicais do Brasil representa uma fronteira agrícola promissora, capaz de contribuir para a autossuficiência na produção desse cereal.

A análise dos desafios nutricionais e fisiológicos enfrentados nessas regiões revela a necessidade de abordagens integradas que considerem as especificidades climáticas e edáficas.

A adaptação de cultivares ao clima tropical, aliada a práticas de manejo adequadas, como correções de solo, adubação balanceada e estratégias para mitigar estresses térmicos e hídricos, é fundamental para o sucesso da triticultura nessas áreas.

Além disso, o entendimento aprofundado do ciclo fenológico do trigo permite intervenções mais precisas, otimizando o uso de recursos e aumentando a produtividade.

A introdução do trigo em ambientes tropicais desponta como uma alternativa promissora para a produção de palhada, contribuindo para a sustentabilidade das culturas sucessoras.

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Referências 

CUNHA, G. R.; CAIERÃO, E.; INFORMAÇÕES TÉCNICAS PARA TRIGO E TRITICALE: SAFRA 2023. 15ª Reunião da Comissão Brasileira de Pesquisa de Trigo e Triticale; Embrapa, 2023. Disponível em: < https://www.conferencebr.com/conteudo/arquivo/informacoestecnicastrigotriticalesafra2023-1683736866.pdf >, acesso em: 07/05/2025.

CONAB – COMPANHIA NACIONAL DE ABASTECIMENTO. Acompanhamento da Safra Brasileira de Grãos, Brasília, DF, v. 12, safra 2024/25, n. 7 sétimo levantamento, abril 2025.

Sobre o autor:

João Paulo Marim Sebim

Doutorando em fitotecnia (ESALQ/USP)

  • Mestre em Produção Vegetal (UFAC)
  • Engenheiro Agrônomo (UFAC)
  • [email protected]
  • Perfil do Linkedin
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Como citar este artigo:

SEBIM, J.P.M. Cultivo do trigo em regiões tropicais: desafios nutricionais e fisiológicos. Blog Agroadvance. 2025. Disponível em: https://agroadvance.com.br/blog-cultivo-do-trigo-em-regioes-tropicais/. Data de acesso: xx Xxx 20xx.

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