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Ácido abscísico (ABA): o hormônio vegetal que coordena  estresse, dormência e define produtividade

Entenda como o ácido abscísico (ABA) antecipa o estresse nas plantas, regula dormência, fechamento estomático e impacta diretamente a produtividade nas lavouras
  • Publicado em 29/06/2026
  • Deyvid Bueno
  • Fisiologia vegetal
  • Publicado em 29/06/2026
  • Deyvid Bueno
  • Fisiologia vegetal
  • Atualizado em 26/06/2026
ácido abscísico
Sumário

Você já chegou a um talhão de soja em R2 e encontrou flores e estruturas jovens caídas no solo, mesmo com umidade boa, adubação conferida, nenhuma praga ou doença aparente que explicasse a perda? Quem não trabalha com fisiologia vegetal hormonal procura a causa no que consegue ver. Mas, nesse caso, a decisão já havia sido tomada dias antes.

Quem toma essa decisão é o ácido abscísico (ABA). Sah et al. (2016) documentaram que seus níveis podem aumentar até 40 vezes nas primeiras horas de exposição a déficit hídrico, antes que qualquer redução de turgor se torne visível na folha. A planta já respondeu; o técnico ainda não viu o problema.

É essa antecipação que torna o ABA diferente dos demais reguladores hormonais. Diferentemente dos outros fitormônios que a fisiologia vegetal descreve, ele não promove crescimento nem divisão celular.

Em vez disso, avalia o estado do sistema e decide o que preservar, o que suspender e o que descartar. Vishwakarma et al. (2017) documentaram funções do ABA que vão muito além da resposta à seca: regulação da dormência de sementes, controle do enchimento de grãos, coordenação da antese em café e modulação da abscisão floral em soja.

Este artigo percorre a biossíntese do ABA, a cascata que converte o hormônio em resposta celular, os mecanismos específicos de cada cultura e as ferramentas de manejo com suporte experimental. O objetivo é que você leia os sinais da lavoura sabendo o que o ABA está coordenando, e não apenas o que ele representa conceitualmente.

O que é o ácido abscísico (ABA) e por que o nome engana

O nome “ácido abscísico” tem origem em duas frentes de pesquisa dos anos 1960. O grupo de F. Addicott isolou uma substância que induzia abscisão de frutos de algodão, chamada abscisina II.

Outro grupo, liderado por P. Wareing, isolou de folhas de Acer pseudoplatanus uma substância que induzia dormência de gemas, batizada de dormina. Eram a mesma molécula. O nome ficou com “abscísico”, mas o papel principal na abscisão de órgãos pertence ao etileno, não ao ABA.

O ABA é um sesquiterpeno de 15 carbonos sintetizado predominantemente nos plastídeos de folhas maduras e raízes. Seu transporte ocorre tanto pelo floema quanto pelo xilema, com velocidade muito superior ao transporte polar das auxinas. Um sinal gerado nas raízes chega à parte aérea em poucas horas, bem antes que qualquer resposta baseada em síntese proteica se instale.

Quatro processos concentram a maior parte das respostas documentadas em culturas agrícolas: fechamento estomático sob déficit hídrico, manutenção e quebra da dormência em sementes, regulação do enchimento de grãos e coordenação de interações hormonais durante o desenvolvimento reprodutivo.

Cada um tem janela temporal específica e magnitude de resposta que varia com genótipo, estádio e ambiente.

O ABA está presente em todas as plantas vasculares, em musgos e em alguns fungos. Para o agrônomo, o ponto central é que ele age antes do sintoma. Reconhecer quando e por que é produzido muda o diagnóstico.

Como a planta sintetiza o ABA: a rota dos carotenoides e a enzima NCED

A biossíntese do ABA em plantas superiores não parte de uma molécula simples. Parte de carotenoides C40, especificamente 9-cis-epoxicarotenoides, que sofrem clivagem oxidativa dentro dos plastídeos. A enzima responsável por essa etapa é a 9-cis-epoxicarotenoide dioxigenase (NCED), e ela controla a taxa de produção do hormônio inteiro.

Li et al. (2017), por análise transcriptômica em folhas de milho, mostraram que a indução de genes NCED começa nas primeiras horas de exposição ao estresse e precede o aumento mensurável de ABA no xilema.

O sinal molecular ocorre antes da resposta hormonal, que por sua vez ocorre antes do sintoma visível. Essa sequência é o que torna a NCED o alvo mais relevante para quem pensa em tolerância à seca via melhoramento ou biotecnologia.

Li et al. (2025) identificaram que a proteína ZmCAAX interage diretamente com a enzima ZmNCED3 em milho, modulando os níveis de ABA e a resposta à seca. Genótipos com variações nessa interação exibem diferenças no comportamento estomático sob mesmo déficit hídrico.

Em soja, Molinari et al. (2020) avaliaram linhagens com superexpressão do gene AtNCED3 de Arabidopsis em condições de campo: as plantas mostraram fechamento estomático mais rápido e produtividade 20 a 30% superior em anos com déficit hídrico moderado, sem custo produtivo em safras bem irrigadas.

O mutante viviparous14 (vp14) em milho ilustra o papel da NCED pelo caminho inverso. A mutação desativa a enzima, impede a síntese de ABA e resulta em sementes sem dormência, que germinam dentro da espiga antes da colheita.

O mesmo mecanismo que mantém a semente dormente no armazenamento é o que produz ABA sob estresse hídrico em campo.

Rota biossintética do ácido abscísico
Figura 1. Rota biossintética do ácido abscísico nos plastídeos, com indicação da enzima NCED como etapa limitante. Fonte: elaborado pelo autor.

Como a planta percebe o ABA: receptores PYR/PYL e resposta ao estresse

Produzir ABA não é suficiente. A planta precisa converter a presença do hormônio em resposta celular. Esse sistema, descrito em detalhes na última década, explica por que dois genótipos com mesmo nível de ABA se comportam de formas completamente diferentes sob seca.

A cascata funciona por regulação negativa, em três componentes centrais. Na ausência do hormônio, as fosfatases PP2C (Protein Phosphatase 2C) mantêm as quinases SnRK2 inativas por desfosforilação contínua.

Quando o ABA está presente, ele se liga aos receptores PYR/PYL/RCAR e induz mudança conformacional que inibe as PP2C. Sem a desfosforilação contínua, as SnRK2 se autofosforilam e ativam fatores de transcrição da família ABF, que coordenam respostas ao estresse. Vishwakarma et al. (2017) descrevem essa cascata como o núcleo de sinalização mais bem caracterizado entre os fitormônios.

Em soja, foram identificados 23 genes GmPYL, 82 GmPP2C e 20 GmSnRK2. A combinação de padrões de expressão tecido-específicos e responsividade diferencial ao ABA gera variações no comportamento estomático entre cultivares que não têm relação com a quantidade de hormônio produzida.

Dois genótipos podem acumular o mesmo nível de ABA no xilema e fechar os estômatos em velocidades e magnitudes diferentes, porque a sensibilidade dos receptores PYR/PYL varia. Essa distinção tem impacto direto na seleção de cultivares para regiões com veranicos recorrentes.

Para mais sobre como os hormônios vegetais interagem e se regulam em conjunto, incluindo ABA, etileno e giberelinas, a Agroadvance tem conteúdo específico detalhando as interações hormonais:

  • Etileno
  • Hormônios vegetais: auxina, giberelina, citocinina, etileno, ácido abscísico, brassinosteroides, ácido salicílico, estrigolactonas e ácido jasmônico.

Para uma abordagem sobre o comportamento do ABA nos primeiros estádios vegetativos, o Agrotécnico detalha o ácido abscísico no desenvolvimento das plantas.

Cascata de percepção do ABA via receptores PYR/PYL/RCAR
Figura 2. Cascata de percepção do ABA via receptores PYR/PYL/RCAR: mecanismo de regulação negativa e ativação das quinases SnRK2. Fonte: elaborado pelo autor.

ABA e fechamento estomático: onde K e Ca entram na equação

O fechamento estomático mediado por ABA é o mecanismo mais estudado do hormônio e o mais diretamente observável no campo. Mas a eficiência desse fechamento depende do status nutricional da planta, especificamente de potássio e cálcio.

Gong et al. (2025) confirmaram que o ABA chega às células-guarda dos estômatos via xilema e desencadeia efluxo de íons K⁺ dessas células. A saída de K⁺ reduz o turgor e fecha o poro. O Ca²⁺ atua como segundo mensageiro na cascata intracelular que ativa os canais de K⁺ responsáveis por esse efluxo.

Lavouras com macro e micronutrientes mal supridos comprometem esse mecanismo em dois pontos precisos. A deficiência de K reduz o gradiente que o hormônio precisa reverter: menos K nas células-guarda significa fechamento mais lento e menos completo, mesmo com ABA circulante em concentração adequada.

A deficiência de Ca compromete a transdução intracelular do sinal, porque sem Ca²⁺ disponível no apoplasto foliar a cascata que ativa os canais iônicos opera com eficiência reduzida.

Castro et al. (2019) demonstraram em soja que o ABA acumulado no xilema das folhas é o principal regulador da condutância estomática, não o potencial hídrico foliar diretamente.

A planta pode responder ao ABA das raízes antes de a folha detectar qualquer mudança de turgor. O fechamento visível no campo não é resposta ao estresse instalado. É antecipação de um déficit que as raízes detectaram primeiro.

Atenção técnica. Quando a condutância estomática cai mais do que o esperado para o nível de déficit hídrico observado, antes de concluir por resposta excessiva ao ABA, avalie o status de K e Ca foliares. A eficiência do mecanismo depende do substrato nutricional que a planta tem para executá-lo.

Sinalização radicular sob déficit hídrico: o sinal que antecede o sintoma

Puértolas et al. (2025) monitoraram em soja a exportação de fitormônios pelo xilema de raízes em solo seco e solo úmido durante secagem parcial da zona radicular. Raízes em solo seco exportaram ABA em concentrações até três vezes maiores do que raízes em solo úmido, sem necessidade de sinal de retorno da parte aérea.

A biossíntese local, nas raízes expostas ao déficit, é suficiente para gerar o sinal que regula os estômatos das folhas antes que qualquer redução de turgor foliar seja detectável.

Essa dinâmica é a base fisiológica da técnica de secagem parcial da zona radicular (PRD). A metade seca da zona radicular sinaliza via ABA para fechamento estomático parcial, reduzindo a transpiração. A metade úmida mantém absorção hídrica adequada.

Estudos em videira com PRD documentaram economia de água de 30 a 50% sem comprometer a qualidade dos frutos. A técnica não engana a planta. Ela usa o sistema de sinalização de ABA para ajustar o balanço hídrico com menor demanda de irrigação.

Silva et al. (2018) avaliaram enxertia recíproca entre clones de café com tolerância contrastante à seca. Porta-enxertos tolerantes conferiram maior resistência às copas suscetíveis, independentemente do genótipo da copa.

Sinalização raiz-parte aérea mediada pelo ABA
Figura 3. Sinalização raiz-parte aérea mediada pelo ABA: biossíntese nas raízes, transporte via xilema e fechamento estomático antes do sintoma foliar visível. Fonte: elaborado pelo autor.

Ainda conforme o trabalho de Silva et al. (2018), o mecanismo foi a sinalização via ABA, onde as raízes mais eficientes na produção e exportação do hormônio preparavam os estômatos da copa para responder mais rápido ao déficit. O porta-enxerto enviava o sinal antes de a copa precisar produzir o próprio.

Para o diagnóstico de campo, esse ponto reposiciona a interpretação. Estômatos parcialmente fechados com solo ainda úmido não são sinal de resposta errada da planta.

A pergunta certa é: o que as raízes detectaram em profundidade ou em regiões específicas do perfil que a parte aérea ainda não registrou?

Ácido abscísico (ABA) e dormência de sementes: impacto na germinação e vigor

Shu et al. (2015) descrevem a dormência como resultado de um balanço entre dois sinais hormonais opostos:

  1. ABA, que mantém o embrião em estado latente, e as giberelinas (GA), que promovem a germinação ao ativar enzimas hidrolíticas que mobilizam as reservas armazenadas.
  2. A semente germina quando a queda de ABA e o aumento de GA ultrapassam um limiar que varia entre espécies e cultivares.

Meng et al. (2016) estudaram o efeito de karrikins (moléculas derivadas de fumaça) sobre a germinação de soja sob sombreamento. Os karrikins retardaram a germinação ao estimular a biossíntese de ABA e suprimir a de GA, reduzindo a razão GA/ABA abaixo do limiar de germinação.

O mecanismo confirma que a dormência não é uma condição binária. É uma posição contínua no balanço entre os dois hormônios, que pode ser deslocada por estresses e por compostos externos.

Para qualidade de sementes no campo, isso significa que estresses durante a formação e maturação alteram o balanço ABA/GA e comprometem o vigor. Chuvas na colheita elevam os níveis de GA e reduzem o ABA, favorecendo germinação pré-colheita.

Altas temperaturas durante o enchimento interferem com a biossíntese normal de ABA nos embriões, comprometendo a maturação e a tolerância à dessecação. O vigor não começa no beneficiamento. Começa na regulação hormonal durante o enchimento de grãos.

Os metabólitos secundários das plantas que acumulam nas sementes durante a maturação têm relação com esse balanço hormonal, protegendo estruturas celulares e sinalização durante a dessecação.

Quando o ABA está nos níveis adequados, a expressão de proteínas de armazenamento e de enzimas antioxidantes é coordenada junto com esses compostos.

Como o ácido abscísico influencia o enchimento de grãos e a produtividade

Yang et al. (2019) avaliaram a atividade de enzimas de síntese de amido em grãos de milho ceroso sob déficit hídrico pós-floração. O déficit reduziu a atividade da ADP-glucose pirofosforilase (AGPase), enzima-chave da rota, e alterou os níveis hormonais nos grãos.

O ABA se correlacionou positivamente com a atividade da AGPase, enquanto o etileno mostrou correlação negativa. Mais ABA no grão, mais amido. Mais etileno, menos amido.

Yu et al. (2024) testaram ABA exógeno em milho cultivado em alta densidade de plantio, condição que naturalmente reduz o enchimento nas posições basais da espiga. O ABA aumentou a atividade das enzimas de síntese de amido nas posições com menor competição por assimilados e reduziu o gradiente de enchimento entre grãos apicais e basais.

O peso de grãos ao longo da espiga ficou mais uniforme. O mecanismo não foi o aumento de oferta de carbono, mas a melhora da capacidade enzimática de converter o carbono disponível em amido.

Guo et al. (2022) documentaram o efeito de baixas temperaturas pós-floração em milho ceroso. Temperaturas abaixo de 15°C suprimiram a síntese de ABA nos grãos, reduziram a atividade da AGPase e resultaram em menor acúmulo de amido. O efeito foi reversível com aplicação exógena de ABA. Os autores identificaram o ABA como regulador metabólico direto do enchimento, independente da disponibilidade de carbono.

Para o campo, o ponto prático é que estresses durante o enchimento não comprometem a produtividade apenas por reduzir a oferta de carbono. Eles alteram o balanço hormonal dentro dos grãos, comprometendo a capacidade enzimática de converter os açúcares disponíveis em amido. Retomar a irrigação depois que o estresse alterou esse balanço não recupera o peso de grãos perdido.

Interações hormonais: como o ABA se relaciona com etileno e giberelinas

O ABA raramente age em isolamento. A resposta final depende do contexto hormonal do tecido, e três interações concentram as implicações mais diretas para as culturas de interesse.

López et al. (2022) documentaram em café que o ABA e o ACC (precursor do etileno) coordenam a antese floral após períodos de restrição hídrica. Durante o déficit, o ABA mantém os botões florais em dormência. Com a reidratação, a queda de ABA e o aumento de etileno sincronizam a abertura floral. O ACC acumula nos botões e funciona como sinal independente do etileno final, modulando a resposta ao ABA antes mesmo da conversão em hormônio gasoso.

Azevedo et al. (2025) confirmaram, em Coffea arabica, que o crosstalk entre giberelina, ABA e etileno durante o estágio reprodutivo define a uniformidade de maturação dos frutos, com implicação direta na qualidade pós-colheita.

Em soja, Tan et al. (2025) mapearam o transcriptoma da abscisão floral sob sombreamento e identificaram genes mediados por ABA e etileno como centrais no processo.

O desequilíbrio entre auxinas, etileno e ABA determina quando a planta ativa a zona de abscisão. Virág et al. (2025) monitoraram as redes de sinalização hormonal durante o desenvolvimento floral de soja em campo e identificaram o ABA como modulador dos estádios R1 a R3, com padrão de expressão temporal específico por estádio.

No artigo sobre etileno nas plantas deste blog, a interação ABA × etileno foi detalhada pelo ângulo do etileno. Vista pelo ângulo do ABA, ela revela que abscisão e antese não são disparadas por um hormônio único. São resultados de um balanço que o técnico pode influenciar indiretamente ao manejar o ambiente que gera esses sinais.

Kim et al. (2015) mostraram que linhagens de soja tolerantes ao alagamento mantinham padrões hormonais distintos das suscetíveis, com modulação diferente do balanço ABA/etileno. Kim et al. (2018) confirmaram que etileno exógeno em soja alagada induziu aerênquima e raízes adventícias, aliviando o estresse.

O ABA integra essa resposta coordenando o fechamento estomático e a conservação de energia enquanto o etileno reorganiza a arquitetura radicular. São rotas complementares operando em paralelo, não em competição.

Ferramentas de manejo: priming, ABA exógeno e limites práticos

O priming de sementes com ABA é a aplicação com maior número de culturas avaliadas e resultados mais consistentes. Yao et al. (2025) mostraram em milho que o tratamento pré-plantio com ABA induziu maior deposição de cutícula nas plântulas, reduzindo a perda de água transpiratória sob déficit hídrico.

A análise transcriptômica revelou reprogramação da expressão de genes ligados à síntese de cera cuticular, com efeito que persistiu nas primeiras semanas após germinação.

Luhua et al. (2025) avaliaram priming com ABA em sorgo doce sob estresse salino-alcalino e identificaram o crosstalk ABA × auxina como mecanismo central. O ABA exógeno modulou a distribuição de auxina nas raízes, favorecendo crescimento direcional mesmo sob estresse salino.

Já Fu et al. (2021) documentaram o fenômeno de memória de seca em soja e milho. Plantas com estresse moderado precoce seguido de recuperação mostraram maior tolerância a estresses posteriores, com o ABA como mediador central dessa memória fisiológica.

He et al. (2019) testaram aplicação foliar de ABA em soja sob déficit hídrico. O ABA melhorou as relações hídricas foliares e reduziu a condutância estomática, mas não resultou em ganho de produtividade em relação ao controle. O resultado é tecnicamente relevante: melhorar a eficiência do uso de água não equivale automaticamente a ganho de produção. A soja sob estresse severo já havia comprometido o número de vagens antes da aplicação. A janela havia fechado.

Dois limites aparecem de forma consistente na literatura. A concentração determina a resposta. Concentrações entre 10 e 100 µM para priming de sementes mostram resultados positivos, enquanto doses mais altas podem induzir dormência excessiva e comprometer a emergência.

O timing é o segundo limite: aplicação preventiva, antes do pico de estresse ou nos primeiros sinais, tem eficiência documentada. Em plantas com estresse severo instalado, a cascata de danos é difícil de reverter com intervenção hormonal exógena.

Protocolo de priming de sementes com ABA
Figura 4. Protocolo de priming de sementes com ABA e efeito fisiológico documentado por Yao et al. (2025) em milho. Fonte: elaborado pelo autor.

A metionina é o ponto de partida para o SAM, precursor do etileno e das poliaminas. ABA e etileno atuam em crosstalk na regulação da abscisão e da antese, e o suprimento de aminoácidos com enxofre em fases críticas tem implicação prática sobre esse balanço hormonal. A biossíntese do ABA segue rota independente, pelos carotenoides, como descrito na seção anterior.

O papel de cada aminoácido essencial nessa sinalização está detalhado no Agrotécnico. Ao selecionar bioestimulantes para manejo da via hormonal, o referencial sobre classes de bioestimulantes agrícolas do Agrotécnico oferece critérios baseados em mecanismo de ação.

Como interpretar os sinais do ácido abscísico (ABA) no campo

A tabela 1 organiza situações observáveis, a relação fisiológica com o ABA e o próximo passo técnico. Não é diagnóstico fechado: o campo é multifatorial e o ABA age em conjunto com outros hormônios em todas as situações descritas.

Tabela 1. Situações de campo, relação com ABA e próximo passo técnico.

Situação observadaRelação com ABAPróximo passo técnico
Flores e estruturas jovens de soja caídas sem causa aparenteEstresse por sombreamento, nutricional ou térmico pode elevar ABA e ativar zonas de abscisãoAvaliar índice de área foliar, competição por luz e estado nutricional antes de R1
Germinação irregular em soja com semente de alto IG aparenteDesequilíbrio ABA/GA por estresse durante maturação ou armazenamento inadequadoSolicitar análise de vigor por envelhecimento acelerado; verificar histórico climático no período de colheita
Nodulação fraca sem falha do inoculantePico de etileno por estresse precoce suprime Bradyrhizobium; ABA elevado por compactação contribui para o quadroInvestigar compactação, alagamento temporário e déficit entre V1 e V4
Peso de grãos abaixo do esperado sem acamamento ou doença aparenteEstresse pós-floração comprometeu biossíntese de ABA nos grãos e atividade da AGPaseRastrear temperatura e déficit hídrico entre R3 e R6; avaliar análise de grão
Maturação irregular em café por talhão ou ramoDiferença de sensibilidade ao ABA entre frutos e posições do ramo; variação de porta-enxertoAvaliar uniformizadores de maturação registrados; investigar variação genética do porta-enxerto
Germinação de sementes dentro da espiga antes da colheitaNíveis de ABA insuficientes no embrião para manter dormência por chuvas ou temperatura alta no final de cicloAntecipar colheita; monitorar previsão climática nas últimas duas semanas de maturação

O ácido abscísico, como os demais fitormônios, não atua como causa única de nenhuma dessas situações. Ele é ponto de entrada no diagnóstico fisiológico. Para aprofundar o funcionamento geral do ácido abscísico nas plantas, o Agrotécnico tem conteúdo detalhado.

Linha do tempo da resposta ao déficit hídrico em soja
Figura 5. Linha do tempo da resposta ao déficit hídrico em soja: sequência de eventos hormonais e a janela de intervenção agronômica eficaz. Fonte: elaborado pelo autor.

Conclusão

O ácido abscísico não é apenas o hormônio que fecha estômatos quando falta água. É o sistema de antecipação da planta. Age antes do sintoma, toma decisões antes da crise e coordena respostas que definem produtividade antes que o técnico tenha dados suficientes para intervir.

Entender que a biossíntese de ABA começa nas raízes por ativação da NCED, que o sinal percorre o xilema até as células-guarda, que a cascata PYR/PYL converte esse sinal em resposta gênica e que a eficiência de todo esse sistema varia entre cultivares é o que muda a forma de ler o campo. Não é apenas fisiologia vegetal. É diagnóstico aplicado.

Para soja, o ABA aparece no timing do abortamento floral de R1 a R3, na nodulação comprometida por estresse precoce e na dormência das sementes. Para milho, na regulação do enchimento de grãos e na resposta ao alagamento. Para café, na antese sincronizada e na maturação uniforme dos frutos. Em cada cultura, a pergunta é a mesma: onde a planta está nessa rota, o que a levou até ali e qual é a janela de intervenção ainda disponível?

Na prática, compreender o papel do ácido abscísico (ABA) no estresse hídrico, na dormência e na produtividade agrícola permite decisões mais assertivas, antecipando perdas e otimizando o manejo fisiológico das culturas no campo.

Quer tomar decisões mais precisas e antecipar perdas na lavoura?

No campo, produtividade não se define apenas quando o problema aparece. Ela depende da capacidade de interpretar sinais fisiológicos, entender o que a planta está priorizando e agir no momento certo diante de estresses como déficit hídrico, abortamento floral e falhas no enchimento de grãos.

A Pós-graduação em Fisiologia e Nutrição de Plantas da Agroadvance foi desenvolvida para profissionais que desejam aprofundar o entendimento sobre hormônios como o ácido abscísico (ABA), aprimorar o diagnóstico no campo e aplicar estratégias mais eficientes para aumentar a produtividade e a rentabilidade das culturas.

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Referências

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Sobre o autor:

Deyvid Bueno

Deyvid Rodrigues Bueno

Gerente de Produtos na ICL América do Sul

  • Gestão de produtos (Business Bihavior Institute)
  • MBA em Gestão, Empreendedorismo e Marketing (PUCRS)
  • Especialista em Solos e Nutrição de Plantas (FAZU)
  • Engenheiro Agrônomo (UFMT)
  • Técnico Agrícola (IFRO)
  • [email protected]
  • Perfil do Linkedin
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Como citar este artigo

BUENO, D. R. Ácido abscísico (ABA): o hormônio vegetal que coordena estresse, dormência e define produtividade. Blog Agroadvance. Publicado: 29 Jun. 2026. Disponível em: https://agroadvance.com.br/blog-acido-abscisico-aba-hormonio-vegetal/. Acesso: dd Mmm. Aaaa

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