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Solo saudável, solo doente, solo em recuperação ou solo adoecendo: como a BioAS classifica a saúde do solo

Como a BioAS combina enzimas e matéria orgânica para identificar um solo saudável, adoecendo, doente ou em recuperação, e quais decisões de manejo cabem em cada diagnóstico.
  • Publicado em 21/10/2026
  • Alice de Freitas Braga
  • Solos, Sustentabilidade
  • Publicado em 21/10/2026
  • Alice de Freitas Braga
  • Solos, Sustentabilidade
  • Atualizado em 16/10/2026
Solo saudável solo doente
Sumário

Pela metodologia BioAS, desenvolvida pela Embrapa, um solo saudável é aquele que apresenta alta atividade das enzimas β-glicosidase e arilsulfatase e alto teor de matéria orgânica na camada de 0 a 10 cm. Quando as enzimas caem e a matéria orgânica ainda se mantém, o solo está adoecendo. Quando as duas estão baixas, está doente. E quando as enzimas sobem antes da matéria orgânica, o solo está em recuperação.

Essa classificação resolve algo que a análise química não consegue mostrar: dois talhões com a mesma adubação e laudos químicos praticamente idênticos podem ter saúde muito diferente. Em um experimento de longa duração em Mato Grosso, só um deles manteve a produtividade quando veio o veranico.

Este conteúdo explica como os estados de saúde do solo são definidos, por que a parte química do laudo fica de fora da classificação e o que o diagnóstico indica para o manejo. As informações têm como base artigos científicos e a aula aberta ministrada pela pesquisadora Iêda de Carvalho Mendes, da Embrapa Cerrados, na pós-graduação em Fertilidade e Saúde do Solo da Agroadvance, em 22 de setembro de 2026.

Resposta rápida
– Solo saudável, na BioAS, combina alta atividade enzimática (β-glicosidase e arilsulfatase) e alto teor de matéria orgânica na camada de 0 a 10 cm.

– A classificação usa só duas funções do laudo: ciclagem (enzimas) e armazenamento (matéria orgânica e CTC). A função suprimento, que reúne a química tradicional, não entra.

– São cinco condições possíveis: saudável, adoecendo, doente, em recuperação e intermediário. As enzimas mudam antes da matéria orgânica. Por isso indicam perda de saúde antes da queda de produtividade e mostram a recuperação antes que o carbono do solo aumente.

– Boa produtividade não garante solo saudável. Em solos doentes, o problema costuma aparecer em anos de estresse, como um veranico.

O que é um solo saudável?

Um solo saudável é aquele capaz de funcionar como um sistema vivo, sustentando a produtividade biológica, mantendo a qualidade ambiental e promovendo a saúde de plantas, animais e pessoas. A definição remete aos trabalhos de John W. Doran e colaboradores e é próxima da adotada pela Soil Science Society of America, citada por Iêda Mendes na aula (DORAN; ZEISS, 2000).

Na prática, trata-se de um solo que armazena e disponibiliza água, recicla nutrientes, mantém estrutura estável, sequestra carbono e abriga comunidades biológicas ativas. Essas funções dependem ao mesmo tempo de atributos químicos, físicos e biológicos, que se influenciam mutuamente. Maiores detalhes sobre conceito, histórico e os principais métodos de avaliação estão detalhados no artigo sobre saúde do solo.

Por que falar em “saúde” e não em “qualidade” do solo?

Porque a metáfora da saúde comunica melhor o estado e a tendência do solo. Dizer que um solo está saudável, adoecendo, doente ou em recuperação traduz uma condição e uma direção, algo que as classes “alta, média e baixa qualidade” não fazem.

Janzen, Janzen e Gregorich (2021) discutiram se essa metáfora esclarece ou confunde. A conclusão dos autores é que ela é válida quando leva a mais cuidado com o solo, a uma compreensão mais profunda de seus processos e a formas mais adequadas de manejo. Segundo Iêda Mendes, a linguagem também facilita a conversa entre agrônomo e produtor.

Por que a análise química não mostra se o solo está saudável?

Porque a análise química mede acidez e disponibilidade de nutrientes, mas não mede a atividade biológica do solo. Até julho de 2020, a análise de rotina no Brasil cobria apenas atributos químicos e físicos, e o indicador mais próximo da biologia era o teor de matéria orgânica, que responde devagar às mudanças de manejo.

Esse limite ficou mais evidente com a evolução da agricultura brasileira. Grande parte das áreas produtivas hoje tem solos de fertilidade construída, isto é, solos originalmente ácidos e pobres que, depois de décadas de calagem e adubação, atingiram níveis adequados de nutrientes. Quando a química está corrigida em quase todas as áreas, ela deixa de diferenciar os sistemas de produção, e a biologia passa a ser o que distingue um talhão do outro. Os tipos de análise e o que cada uma mede estão descritos no artigo sobre análise de solo.

O que o experimento da Fundação MT mostrou?

Mostrou que solos quimicamente semelhantes podem ser biologicamente distintos, e que essa diferença aparece na produtividade em anos de estresse. O experimento de longa duração conduzido pela Fundação MT em Itiquira (MT), iniciado em 2008, compara rotações e sucessões de culturas com soja sob plantio direto e plantio convencional (MENDES et al., 2026).

Dois tratamentos ilustram o caso: soja seguida de pousio e soja seguida de braquiária. Ambos recebiam a mesma adubação, e os teores de pH, cálcio, potássio e fósforo eram praticamente iguais e acima dos níveis de referência para o solo da área. A matéria orgânica era cerca de 1,5 vez maior com braquiária, mas a diferença mais marcante estava nas enzimas: a atividade da β-glicosidase era quase quatro vezes maior, e a da arilsulfatase, cerca de oito vezes maior (Tabela 1), segundo os dados apresentados por Iêda Mendes na aula.

Tabela 1. Atributos químicos e atividade enzimática na camada de 0 a 10 cm dos tratamentos soja/pousio (T1) e soja/braquiária (T3) no experimento da Fundação MT

AtributoT1 (Soja/pousio)T3 (Soja/braquiária)Diferença
pH6,36,4Semelhante
Cálcio3,4 cmolc dm⁻³3,8 cmolc dm⁻³Semelhante
Potássio131 mg dm⁻³151 mg dm⁻³Semelhante
Fósforo15 mg dm⁻³16 mg dm⁻³Semelhante
Matéria orgânica2,83 g kg⁻¹4,24 g kg⁻¹1,5 vez mais
β-glicosidase62 mg p-nitrofenol233 mg p-nitrofenolCerca de 4 vezes
Arilsulfatase28 kg⁻¹ solo h⁻¹223 kg⁻¹ solo h⁻¹Cerca de 8 vezes
Fonte: Mendes (2026).

Nos primeiros seis anos, não houve diferença estatística de produtividade entre os tratamentos, e a manutenção do experimento chegou a ser questionada. Em uma dessas safras, por exemplo, a soja em sucessão com pousio produziu 61 sacas por hectare, e a soja em sucessão com braquiária, 64 sacas por hectare.

No sétimo ano, um veranico forte (período de estiagem dentro da estação chuvosa) durante a floração mudou o quadro: na safra 2014/2015, a soja em sucessão com braquiária produziu 59 sacas por hectare, contra 29 sacas da soja em sucessão com pousio, uma diferença de 30 sacas, segundo os dados apresentados pela pesquisadora. A cultivar era a mesma, não tolerante à seca, e não houve aplicação de nenhum produto biológico. A única diferença era a planta de cobertura em sucessão.

Depois daquele ano, os tratamentos com pousio não voltaram ao patamar anterior de produtividade. Mesmo nas safras seguintes, com chuvas regulares, a diferença em relação aos sistemas com planta de cobertura persistiu, enquanto o solo saudável manteve rendimentos elevados. Na média de 16 safras, segundo a pesquisadora, a soja/pousio produziu cerca de 3 t/ha, e a soja/braquiária, quase 4 t/ha. Essa capacidade de sustentar a produção mesmo sob condições adversas é chamada de estabilidade produtiva.

Por que mais atividade biológica resulta em mais resistência à seca?

Porque a atividade biológica está associada a uma melhor estrutura física do solo. A enzima, em si, não aumenta a produtividade: ela indica que a comunidade biológica está ativa. Microrganismos, raízes e seus produtos ajudam a unir as partículas e formar agregados estáveis, o que melhora a infiltração e o armazenamento de água.

No caso da Fundação MT, o solo com mais biologia tinha melhor estrutura, guardou mais água e permitiu que a soja atravessasse o período sem chuva com menor perda. Segundo Iêda Mendes, a relação entre biologia e física é tão consistente na literatura que atividade enzimática alta costuma indicar também boa condição física. O papel dos microrganismos nesse processo é tratado no artigo sobre microbiologia do solo.

Que outras características têm os solos com alta atividade enzimática?

Segundo Iêda Mendes, solos com níveis elevados de β-glicosidase e arilsulfatase tendem a reunir um conjunto de características favoráveis à produção:

  • Armazenam mais água, em razão da melhor agregação.
  • Têm populações menores de nematoides, associadas a comunidades biológicas mais diversas.
  • Usam os nutrientes com mais eficiência, produzindo mais com a mesma adubação.
  • Têm maior potencial de biorremediação, isto é, de degradar resíduos de agrotóxicos e outros compostos.
  • Produzem grãos com melhor qualidade nutricional.
  • Acumulam mais carbono, como observado em experimentos de longa duração.

Parte dessas associações ainda precisa ser quantificada em condições de lavoura. A própria pesquisadora reconhece, por exemplo, que faltam números sobre a redução de nematoides e doenças em solos saudáveis.

Como a BioAS avalia a saúde do solo?

A BioAS avalia a saúde do solo pela atividade de duas enzimas e pelo teor de matéria orgânica na camada de 0 a 10 cm, com interpretação calibrada em relação ao rendimento de grãos. As enzimas são a β-glicosidase, que atua na quebra de compostos de carbono derivados da celulose e está ligada ao ciclo do carbono, e a arilsulfatase, que libera sulfato a partir de ésteres de enxofre orgânico e está ligada ao ciclo do enxofre.

A tecnologia, chamada Bioanálise de Solo, foi lançada pela Embrapa em julho de 2020 e integra essas enzimas à análise de rotina de laboratórios comerciais. A faixa de 0 a 10 cm é a camada de diagnóstico: a profundidade mais influenciada pelas raízes e pelos resíduos vegetais, onde as mudanças de manejo aparecem primeiro. Amostrar de 0 a 20 cm dilui esse efeito. A análise existe em duas versões: a BioAS, só com as enzimas e a matéria orgânica, e a BioAS completa, chamada FertBio, que inclui a análise química e gera todas as funções e índices do laudo.

Como a BioAS foi desenvolvida?

A BioAS é resultado de cerca de 20 anos de pesquisa em solos do Cerrado, de 1999 até a apresentação da tecnologia no Congresso Brasileiro de Ciência do Solo de 2019, em Cuiabá. O ponto de partida foi um projeto da Embrapa conduzido entre 1999 e 2003 para caracterizar a biomassa e a atividade microbiana de solos do Cerrado sob vegetação nativa, plantio direto, pastagens e sistemas que integram lavoura e pecuária. Entre 2004 e 2008, um segundo projeto passou a testar parâmetros microbiológicos como bioindicadores da qualidade do solo e da sustentabilidade dos sistemas de produção, segundo a apresentação de Iêda Mendes.

De acordo com a pesquisadora, as duas enzimas foram escolhidas por reunir sensibilidade ao manejo, relação direta com a ciclagem de nutrientes, possibilidade de interpretação em classes (alto, médio e baixo), simplicidade analítica comprovada em testes entre laboratórios, custo acessível, reprodutibilidade e ausência de resíduos químicos na análise.

Dra Ieda Mendes pesquisadora responsável pelo BioAs da embrapa
Figura 1. A pesquisadora Iêda Mendes, da Embrapa Cerrados, em trincheira de solo durante o Showtec 2020. Fonte: Portal Showtec (2020).

Quais funções do solo aparecem no laudo?

O laudo da BioAS organiza os resultados em três funções do solo, cada uma pontuada de 0 a 1. A função ciclagem representa a capacidade de transformar e reciclar nutrientes; a função armazenamento, a capacidade de reter nutrientes e carbono, medida pela matéria orgânica e pela capacidade de troca de cátions (CTC); e a função suprimento, a capacidade de fornecer nutrientes às plantas. Só as duas primeiras são usadas para classificar a saúde do solo (Tabela 2).

Tabela 2. Funções do solo avaliadas no laudo da BioAS

FunçãoO que representaIndicadoresEntra na classificação?
CiclagemTransformação e reciclagem de nutrientesβ-glicosidase e arilsulfataseSim
ArmazenamentoRetenção de nutrientes e carbonoMatéria orgânica e CTC potencialSim
SuprimentoFornecimento de nutrientes às plantasAcidez (H+Al e Al), bases (K, Ca, Mg e saturação por bases), enxofre e fósforoNão
Fonte: elaborado com base em Mendes et al. (2021) e Mendes (2026).

As pontuações também compõem os índices de qualidade do solo (IQS), que resumem a condição do solo em um único valor. O IQS biológico corresponde à função ciclagem, o IQS químico combina armazenamento e suprimento, e o IQS FertBio reúne as três funções. A estrutura de funções e índices foi descrita por Mendes et al. (2021), em estudo que relacionou a qualidade do solo ao rendimento de grãos em latossolos argilosos do Cerrado.

As pontuações das funções e dos índices são interpretadas em cinco classes, parametrizadas em relação ao rendimento de grãos e à matéria orgânica do solo, e aparecem no laudo em escala de cores, do vermelho ao verde (Tabela 3).

Tabela 3. Classes de interpretação das pontuações das funções e dos índices de qualidade do solo na BioAS.

ClassePontuaçãoInterpretação
Muito alto0,81 a 1,00Sistemas de produção e práticas de manejo adequados.
Alto0,61 a 0,80Sistemas de produção e práticas de manejo adequados.
Médio0,41 a 0,60O manejo provavelmente precisa ser melhorado. É preciso avaliar se a área está em fase descendente (saindo do verde) ou ascendente (saindo do vermelho).
Baixo0,21 a 0,40Sistemas de produção e práticas de manejo inadequados.
Muito baixo0 a 0,20Sistemas de produção e práticas de manejo inadequados.
Fonte: elaborado com base em Mendes (2026).

Como os resultados do BioAs são interpretados?

Por calibração, com a mesma lógica usada há décadas para os nutrientes. O nível de atividade enzimática associado a 80% do rendimento máximo de grãos é considerado adequado, e o associado a 40%, baixo (LOPES et al., 2013).

As curvas obtidas tiveram bom ajuste. No caso da β-glicosidase, a relação com o rendimento relativo acumulado de grãos apresentou coeficiente de determinação (R²) de 0,71, e a relação com a matéria orgânica, de 0,73 (LOPES et al., 2013). Com base nessas curvas, a atividade enzimática é classificada como baixa quando corresponde a até 40% do rendimento relativo acumulado, média entre 41% e 80% e adequada acima de 80%. Para a arilsulfatase, a curva apresentada por Iêda Mendes na aula teve R² de 0,93.

A calibração foi feita em três experimentos de longa duração da Embrapa Cerrados, dos quais foram selecionados 24 tratamentos, com doses, fontes e modos de aplicação de fósforo, que geraram gradientes de produtividade e de matéria orgânica em parcelas lado a lado. Os valores de referência variam com o teor de argila e com o bioma: solos arenosos e argilosos têm faixas diferentes, e São Paulo e os estados do Sul usam algoritmos distintos dos aplicados aos estudos do Cerrado. A interpretação por textura e os limites da calibração são discutidos no artigo sobre indicadores biológicos do solo.

Por que essas duas enzimas foram escolhidas?

Porque são sensíveis ao manejo, não sofrem efeito de calagem e adubação e se correlacionam com os demais indicadores biológicos. Durante o desenvolvimento da tecnologia, a equipe da Embrapa testou cerca de 30 bioindicadores, como carbono da biomassa microbiana, respiração e diversas enzimas. Como esses parâmetros caminhavam juntos, foi possível reduzir a análise a dois indicadores e manter o custo baixo. As enzimas também não vêm só dos microrganismos: plantas e fauna do solo também as produzem, o que faz delas indicadores do componente biológico como um todo.

As fosfatases ficaram de fora porque respondem ao pH: com doses crescentes de calcário, a atividade da fosfatase ácida cai e a da alcalina aumenta. A β-glicosidase e a arilsulfatase não têm esse comportamento e podem ser analisadas em solo seco ao ar, como na análise química. Elas também registram a chamada memória do solo: parte das enzimas liberadas por células mortas fica adsorvida à argila e à matéria orgânica, guardando o histórico de plantas e microrganismos que passaram pela área.

Quais são os estados de saúde do solo na BioAS?

A BioAS classifica o solo em cinco estados, cruzando a pontuação da função ciclagem (enzimas) com a da função armazenamento (matéria orgânica e CTC). A química, representada pela função suprimento, não entra na classificação (Tabela 4).

Tabela 4. Estados de saúde do solo na BioAS

EstadoCiclagem (enzimas)Armazenamento (MO + CTC)Leitura agronômica
SaudávelAltaAltaManejo sustentando biologia e carbono.
AdoecendoBaixaAltaAlerta precoce: a biologia caiu antes da matéria orgânica.
DoenteBaixaBaixaPerda de biologia e de matéria orgânica.
Em recuperaçãoAltaBaixaO manejo começou a funcionar; a matéria orgânica responde depois.
IntermediárioMédiaMédiaCondição de transição.
Fonte: elaborado com base em Chaer et al. (2023) e Mendes (2026).

Os estados seguem uma dinâmica que se repete em diferentes solos e sistemas. Quando o solo começa a perder saúde, a atividade enzimática cai primeiro, enquanto a matéria orgânica ainda se mantém: é o estado adoecendo. Se o processo continua, a matéria orgânica também diminui e o solo passa a doente. Na recuperação, a ordem se inverte. As enzimas sobem antes, com a matéria orgânica ainda baixa, e só com o tempo o carbono acompanha e o solo volta a ser saudável.

Essa leitura tem origem em um modelo de quatro quadrantes proposto por Chaer et al. (2023) para latossolos argilosos do Cerrado. No modelo, o eixo vertical é o carbono orgânico do solo e o eixo horizontal é a atividade enzimática específica média (AEM), calculada pela média entre β-glicosidase e arilsulfatase dividida pelo carbono orgânico. Os quadrantes são descritos pela estabilidade do carbono, e não pela saúde do solo. Dois deles são estados de equilíbrio, com carbono estável em nível alto ou baixo. Os outros dois são estados transitórios: em um, a atividade enzimática baixa indica tendência de perda de carbono; no outro, a atividade alta indica tendência de ganho.

A Embrapa traduziu esse modelo para o laudo da BioAS e o validou em fazendas do Cerrado cujos manejos formavam um gradiente de solos saudáveis, adoecendo, doentes e em recuperação (MENDES et al., 2023). No laudo, os eixos passam a ser as pontuações das funções ciclagem e armazenamento, e cada estado corresponde a uma faixa de pontuação, conforme apresentado por Iêda Mendes.

O solo é saudável quando as duas pontuações estão acima de 0,6, e doente quando as duas ficam abaixo de 0,4. Fora da faixa central, com ciclagem abaixo de 0,6 e armazenamento acima de 0,4, o solo está adoecendo; com ciclagem acima de 0,4 e armazenamento abaixo de 0,6, está em recuperação. A faixa central, entre 0,4 e 0,6 nas duas funções, corresponde ao estado intermediário, que não existe no modelo original (Figura 2).

Para quem lê o laudo, a diferença prática entre as duas versões é uma só: a classificação usa a pontuação da função ciclagem, calculada a partir da atividade das enzimas. A AEM, que divide essa atividade pelo carbono, é a forma como o modelo foi construído e validado na pesquisa, e não é um dos valores apresentados no laudo.

Estados de saúde do solo na BioAS: solo saudável, solo doente, solo em recuperação e solo adoecendo,
Figura 2. Estados de saúde do solo na BioAS, definidos pelas pontuações das funções ciclagem e armazenamento, e tendência de carbono associada a cada estado. As setas indicam a trajetória mais comum de perda e de recuperação. Fonte: elaborado com base em Mendes (2026) e Mendes et al. (2023), a partir do modelo de quadrantes de Chaer et al. (2023).

A diferença de velocidade entre enzimas e carbono tem explicação. As enzimas estão ligadas ao componente vivo do solo, que reage em semanas ou meses. A matéria orgânica é um componente estrutural, que se acumula ou se perde ao longo de anos. Iêda Mendes compara as enzimas a sentinelas, que trazem as boas e as más notícias antes.

Por que a química não entra na classificação?

Porque um solo pode ter química excelente e estar doente. A função suprimento responde rápido à calagem e à adubação e, por isso, tende a aparecer em verde na maioria das áreas manejadas, independentemente da condição biológica.

Os laudos de fazendas apresentados na aula mostram esse padrão: áreas com suprimento todo em verde e ciclagem toda em vermelho. Uma propriedade em Mato Grosso, conduzida só com soja e algodão, aparecia como solo adoecendo. Outra, com ciclagem e armazenamento baixos, estava doente, embora a química estivesse adequada. Segundo Iêda Mendes, nessas situações o produtor, sem enxergar a biologia, tende a responder com mais adubo e mais defensivo, o que ela chama de remédio certo para a doença errada.

Isso não diminui a importância da fertilidade química. Calagem e adubação seguem indispensáveis, e a BioAS foi desenvolvida para complementar a análise química, não para substituí-la.

Todo solo produtivo é um solo saudável?

Não. Nas palavras de Iêda Mendes, todo solo saudável é produtivo, mas nem todo solo produtivo é saudável. Um solo doente pode manter boa produtividade por vários anos e só mostrar o problema diante de um estresse, como o veranico no experimento da Fundação MT.

No vocabulário da BioAS, doente significa baixa atividade enzimática e baixa matéria orgânica, e não necessariamente baixa produtividade. Entre as fazendas apresentadas na aula, as fazendas classificadas como adoecendo e doente produziam entre 3,7 e 3,9 t/ha de soja, rendimentos considerados bons pela pesquisadora. A utilidade do diagnóstico está em antecipar o problema antes que ele chegue ao rendimento.

Solos saudáveis produzem mais?

Os dados disponíveis indicam que sim, e que aproveitam melhor os nutrientes aplicados. A evidência mais robusta vem de uma meta-análise com 55 publicações, 33 locais e 173 comparações no Brasil. O cultivo de gramíneas tropicais de raiz profunda, como braquiárias e panicum, antes da soja aumentou a produtividade da oleaginosa em 15%, o equivalente a 515 kg/ha ou cerca de US$ 198 por hectare (BARBOSA et al., 2026). Os efeitos sobre os indicadores do solo estão na Tabela 5.

Tabela 5. Efeito de gramíneas de raiz profunda cultivadas antes da soja sobre indicadores do solo e produtividade

IndicadorVariação média
Produtividade da soja+15% (+515 kg/ha)
Arilsulfatase+35%
β-glicosidase+31%
Carbono da biomassa microbiana+24%
Carbono orgânico do solo+11%
Fonte: Barbosa et al. (2026).

Os laudos de fazendas apresentados por Iêda Mendes apontam na mesma direção, embora com menor peso científico. Em quatro propriedades comerciais, cada uma com um tipo de laudo predominante, a produtividade média de soja nos quatro anos anteriores foi de 4,35 t/ha na fazenda com solo saudável, 4,4 t/ha na fazenda em recuperação, 3,9 t/ha na fazenda com solo adoecendo e 3,7 t/ha na fazenda com solo doente. Em todas, a função suprimento aparecia em verde. As doses de adubo eram semelhantes, entre 80 e 90 kg/ha de P2O5 e entre 90 e 100 kg/ha de K2O, o que sugere maior eficiência de uso de nutrientes nos solos saudáveis. Trata-se de uma comparação observacional, sem controle experimental, útil como ilustração e não como prova.

O experimento da Fundação MT mostra o mesmo padrão em condições controladas. Somando a produtividade de todas as safras do experimento, os tratamentos classificados como saudáveis acumularam 999 sacas de soja por hectare; os adoecendo, 980; os em recuperação, 815; e os doentes, 781, segundo os dados apresentados na aula. O tratamento em recuperação, que só recebeu braquiária em 2020, já havia superado o que continuou doente.

Quanto tempo um solo doente leva para se recuperar?

Não há um prazo único. A recuperação do solo depende da textura, do clima, da posição na paisagem e, principalmente, da quantidade, da qualidade e da frequência dos resíduos vegetais que entram no sistema. O que se sabe é que as enzimas mostram a recuperação muito antes da matéria orgânica.

Em que ordem as funções do solo se recuperam?

Primeiro a química, depois a biologia e, por último, a matéria orgânica. Em um solo degradado, as três funções começam baixas. A correção da fertilidade eleva rapidamente a função suprimento, mas não altera de imediato as demais. Com boas práticas de manejo, a atividade biológica volta aos poucos, o que aparece na elevação da função ciclagem. Só depois o acúmulo de matéria orgânica eleva a função armazenamento (Tabela 6).

Tabela 6. Estágios de um solo degradado durante o processo de recuperação, segundo as funções do laudo da BioAS

EstágioCiclagemArmaze-namentoSupri-mentoO que acontece
Doente, sem correçãoBaixaBaixaBaixaSolo degradado e improdutivo.
Doente, após correçãoBaixaBaixaAltaCalagem e adubação elevam o suprimento; biologia e matéria orgânica seguem baixas.
Recuperação inicialMédiaBaixaAltaComeça a reativação da atividade biológica.
Recuperação intermediáriaAltaBaixaAltaA ciclagem já está elevada; a matéria orgânica ainda não respondeu.
Recuperação avançadaAltaMédiaAltaA atividade biológica começa a acumular matéria orgânica.
SaudávelAltaAltaAltaTodas as funções em condição ótima.
Fonte: elaborado com base em Mendes (2026).

O que aconteceu quando a braquiária entrou no solo doente?

O solo saiu da condição de doente e entrou em recuperação em poucos anos, com as enzimas e a produtividade subindo antes do carbono. Em março de 2020, a braquiária foi introduzida no tratamento soja/pousio sob plantio convencional, o mais degradado do experimento da Fundação MT. O tratamento soja/pousio sob plantio direto foi mantido sem alteração, como referência (MENDES et al., 2026).

A atividade enzimática aumentou de forma consistente na área que recebeu braquiária, com valores de duas a três vezes maiores em dois a três anos (MENDES et al., 2026). Em 2024, segundo os dados apresentados na aula, a área com braquiária já tinha 4,5 vezes mais atividade de β-glicosidase e quatro vezes mais de arilsulfatase que o tratamento mantido em pousio. A β-glicosidase respondeu mais rápido e, nesse ano, já alcançava o nível da soja/braquiária, enquanto a arilsulfatase seguia distante dos tratamentos com planta de cobertura.

O carbono orgânico na camada de 0 a 10 cm, por outro lado, permaneceu estável ao longo de cerca de quatro anos. A produtividade da soja acompanhou as enzimas e superou a do tratamento sem mudança já na safra seguinte à introdução da braquiária, enquanto a área mantida em pousio seguiu doente.

No gráfico de quadrantes, a trajetória é nítida. Antes da braquiária, as parcelas em pousio transitavam entre adoecendo e doente. A área com braquiária passou para a condição intermediária em 2021 e para em recuperação em 2022 e 2023 (MENDES et al., 2026).

Por que medir só a matéria orgânica pode levar a uma conclusão errada?

Porque a matéria orgânica pode levar anos para responder. No caso da Fundação MT, quem acompanhasse apenas o carbono do solo concluiria que a braquiária não teve efeito em quatro anos, quando as enzimas e a produtividade mostravam o contrário.

Isso tem implicações para programas de recuperação de pastagens degradadas e para sistemas de monitoramento, relato e verificação (MRV), que dependem de indicadores mensuráveis e verificáveis. Para a pesquisadora, as enzimas também têm um papel de motivação: mostram que o manejo está funcionando antes que o resultado apareça no carbono.

Com que frequência a saúde do solo deve ser monitorada?

Uma vez por ano, quando houve mudança de manejo. A coleta é feita após a colheita da cultura comercial, de preferência no fim da estação chuvosa e início da seca. Segundo Iêda Mendes, repetir a análise todos os anos em uma área onde nada mudou não traz informação nova: se o manejo continua o mesmo, o diagnóstico tende a se repetir.

O que fazer depois do laudo? Como manter o solo saudável

A BioAS apoia a decisão de manejo, mas não prescreve o que fazer. A escolha das práticas cabe ao agrônomo, de acordo com clima, solo, sistema de produção e recursos disponíveis em cada propriedade. A Tabela 7 resume a leitura mais comum para cada estado, com as prioridades apresentadas por Iêda Mendes.

Tabela 7. Direção de manejo para cada estado de saúde do solo

EstadoPrioridadeDireção do manejo
SaudávelManterPreservar o sistema que sustenta biologia e carbono e monitorar para detectar mudanças.
AdoecendoAtençãoCorrigir o manejo antes que a matéria orgânica caia. Nesse estágio a perda ainda é biológica e mais fácil de reverter.
DoenteAgir com urgênciaAumentar a entrada de carbono com plantas de cobertura, diversificação e menor revolvimento. A resposta aparece primeiro nas enzimas.
Em recuperaçãoContinuar melhorandoManter as práticas e monitorar anualmente até que a matéria orgânica acompanhe.
IntermediárioAcompanharVerificar se a tendência é de melhora ou de perda e ajustar o manejo.
Fonte: elaborado com base em Mendes (2026).

Para o solo doente, a pesquisadora usa a imagem de um paciente na UTI: além da perda biológica, já houve perda de matéria orgânica, que demora muito mais para ser recomposta. No solo adoecendo, ainda é possível agir antes que isso aconteça.

Quais práticas ajudam a manter o solo saudável?

As práticas associadas à recuperação medida pelas enzimas têm um ponto em comum: aumentam a entrada de carbono e reduzem a perturbação do solo.

  • Plantas de cobertura: braquiárias, panicum e mixes de espécies mantêm raízes ativas e alimentam a comunidade microbiana. Na meta-análise, as gramíneas de raiz profunda antes da soja elevaram a atividade enzimática e a produtividade (BARBOSA et al., 2026).
  • Rotação e diversificação de culturas: sistemas com uma única sucessão, como soja e algodão, tendiam a aparecer como adoecendo nos laudos apresentados na aula.
  • Plantio direto sem revolvimento: o revolvimento quebra os agregados e acelera a oxidação da matéria orgânica.
  • Cobertura viva o ano todo e palhada: protegem o solo contra altas temperaturas e erosão e mantêm a entrada contínua de resíduos. Em uma das imagens da aula, a diferença de temperatura do solo entre áreas com e sem braquiária chegava a cerca de 15 °C.
  • Integração lavoura-pecuária(-floresta): animais e árvores aumentam a diversidade e a entrada de carbono. A fazenda com melhor laudo entre os exemplos da aula, em Chapadão do Sul (MS), era conduzida em integração lavoura-pecuária. Segundo a pesquisadora, as duas propriedades, com cerca de 1.500 hectares, produziam em média 77 sacas de soja por hectare e, de acordo com o consultor da área, passaram de 80 sacas com redução da adubação.
  • Fontes orgânicas: esterco, cama de frango e composto podem ajudar onde plantas de cobertura não são viáveis. O efeito precisa ser verificado com monitoramento.

Entre as decisões apoiadas pelo laudo, a pesquisadora inclui ainda a fertilização e a gessagem, o uso de resíduos orgânicos e o manejo integrado de pragas e doenças. Insumos biológicos também podem fazer parte da estratégia, desde que integrados a essas práticas. A relação entre bioinsumos e saúde do solo é tratada no artigo específico.

Como ler o laudo de uma fazenda inteira?

Pelo laudo consolidado da Embrapa, em planilha, com uma linha por talhão e enzimas, matéria orgânica, teor de argila, funções e índices nas colunas. Segundo Iêda Mendes, esse formato permite avaliar a fazenda inteira em poucos minutos pela escala de cores e deve ser solicitado ao laboratório no lugar de laudos individuais por amostra.

Um exemplo apresentado na aula foi o de uma fazenda de cerca de 45 mil hectares, com talhões de aproximadamente 300 hectares. No mapa da função suprimento, a área inteira aparecia em verde. No mapa de saúde do solo, cerca de 40% dos talhões estavam doentes e 15% adoecendo. As áreas saudáveis coincidiam com os talhões onde havia braquiária no sistema.

O que os dados nacionais mostram sobre a saúde dos solos brasileiros?

Os dados da Plataforma Saúde do Solo, da Embrapa, indicam que a maior parte das amostras analisadas no país está saudável ou em recuperação, mas que uma parcela relevante já está adoecendo. A plataforma foi lançada na COP30, em Belém, em 2025, e reúne os resultados enviados pelos laboratórios da Rede BioAS (EMBRAPA, 2026).

Os laboratórios da rede passam por capacitação e por um teste interlaboratorial, e os resultados alimentam um banco de dados nacional. Os mapas são construídos por município, com a classe de saúde do solo predominante em cada um, ou seja, a moda das amostras.

Segundo os dados apresentados por Iêda Mendes, até 22 de julho de 2026 o banco reunia 74.123 amostras, de 27 unidades da federação e 1.758 municípios, analisadas por 33 laboratórios comerciais. Do total, 66% das amostras estavam saudáveis ou em recuperação, 22% adoecendo e 4% doentes. Em um retrato anterior do banco, com 72.459 amostras, a distribuição detalhada era de 59% saudáveis, 7% em recuperação, 9% intermediárias, 21% adoecendo e 4% doentes.

Os mapas repetem, em escala estadual, o padrão observado dentro das fazendas. Em Mato Grosso, estado com mais amostras no banco, um recorte de setembro de 2026 com 14.545 amostras da BioAS completa (FertBio) mostra o mapa da função suprimento predominantemente verde, enquanto o mapa de saúde do solo apresenta muitos municípios na classe adoecendo. A pesquisadora resume esse contraste como solos quimicamente excelentes e biologicamente comprometidos.

A plataforma pode ser consultada em saudedosolo.embrapa.gov.br. Ela permite ver lado a lado o mapa de saúde do solo e o número de amostras por município, com filtros por estado, município, ano, cultura e textura.

Quais são os limites da classificação?

A classificação tem limites que precisam ser considerados na interpretação do laudo:

  • Calibração original para culturas anuais: segundo a pesquisadora, os mesmos algoritmos têm funcionado em café, cana-de-açúcar, eucalipto e pastagens, mas calibrações específicas para essas culturas ainda estão em refinamento.
  • “Doente” não significa baixa produtividade: o termo descreve baixa atividade enzimática e baixa matéria orgânica, e não um nível de rendimento.
  • Enzimas são indicadores, não causa: um laudo saudável não garante ganho de produtividade, e a atividade enzimática alta não é, por si só, o que eleva o rendimento.
  • Bioma e textura importam: os valores de referência mudam com o bioma e o teor de argila, e laudos atípicos exigem leitura cuidadosa, tema tratado no artigo sobre indicadores biológicos do solo.

Considerações finais

Em solos de fertilidade construída, a química corrigida deixou de ser o que diferencia um sistema de produção do outro. A diferença passa a estar na biologia, e ela pode ser medida. A classificação da BioAS permite identificar um solo saudável, perceber quando ele começa a adoecer antes que a produtividade caia e acompanhar a recuperação quando o manejo muda, mesmo enquanto a matéria orgânica ainda não respondeu.

Para agrônomos e consultores, isso significa monitorar a biologia com a mesma regularidade com que já se monitora a química e usar esse diagnóstico para decidir onde investir em plantas de cobertura, diversificação e menor revolvimento.

Perguntas frequentes sobre solo saudável e BioAS

A arilsulfatase indica a disponibilidade de enxofre no solo?

Não. A arilsulfatase atua sobre ésteres de enxofre orgânico, e a principal fonte desses compostos no solo são os fungos, que os têm na parede celular. Por isso, a enzima não serve para avaliar a disponibilidade de sulfato. Segundo Iêda Mendes, a relação entre arilsulfatase e β-glicosidase está sendo estudada como indicador da proporção entre fungos e bactérias no solo.

A BioAS pode ser usada em café, cana, eucalipto e pastagem?

Pode. A BioAS foi calibrada para culturas anuais, mas, segundo Iêda Mendes, os mesmos algoritmos têm identificado corretamente solos saudáveis, adoecendo e doentes em café, cana-de-açúcar, eucalipto e pastagens. Calibrações específicas estão em refinamento. No café, a orientação apresentada na aula é amostrar em pontos equidistantes entre a projeção da copa e o meio da entrelinha.

Quanto custa a BioAS?

Segundo Iêda Mendes, na época da aula (setembro de 2026), a BioAS completa custava menos de R$ 4 por hectare. Os valores variam entre laboratórios da Rede BioAS.

Qual a diferença entre BioAS e FertBio?

A BioAS mede só a parte biológica e a matéria orgânica: β-glicosidase, arilsulfatase e matéria orgânica. A FertBio é a versão completa, que soma a análise química e entrega as três funções do solo (ciclagem, armazenamento e suprimento) e os índices de qualidade. No laudo da versão só biológica, aparece a pontuação da matéria orgânica no lugar da função armazenamento.

Áreas degradadas podem ser avaliadas pela BioAS?

Sim. A BioAS serve tanto para diagnosticar áreas degradadas quanto para acompanhar sua recuperação. No experimento da Fundação MT, o tratamento mais degradado passou de doente para em recuperação em poucos anos após a introdução da braquiária, e essa trajetória foi registrada pelas enzimas antes de qualquer mudança no carbono do solo (MENDES et al., 2026).

Solos doentes têm mais nematoides e doenças?

Há indícios, mas faltam números. Segundo Iêda Mendes, sistemas pouco diversificados, comuns em solos doentes, favorecem nematoides, enquanto a braquiária e a rotação estimulam microrganismos antagonistas. No caso da braquiária, a pesquisadora pondera que a planta pode aumentar a população de Pratylenchus, mas também estimula comunidades de microrganismos antagonistas aos fitonematoides. A própria pesquisadora ressalta que esse efeito ainda precisa ser quantificado, por exemplo comparando o uso de defensivos em áreas de solo saudável e de solo doente.

O laudo da BioAS ajuda a decidir se é preciso escarificar um solo compactado?

Pode ajudar. Um solo compactado, mas saudável e produtivo, não leva necessariamente à mesma decisão que um solo compactado, doente e com queda de rendimento. Segundo Iêda Mendes, o laudo é mais uma informação para decidir sobre escarificação ou subsolagem. Causas e manejo da compactação estão no artigo sobre solo compactado.

Como enviar a amostra de solo para a BioAS?

O mais rápido possível após a coleta, sem necessidade de refrigeração ou caixa térmica. A amostra é coletada como na análise química e, no laboratório, é seca ao ar e peneirada em malha de 2 mm. A orientação da pesquisadora é planejar o envio antes da coleta, para que as amostras não fiquem armazenadas por muito tempo.

Procedência

Este artigo é uma cobertura editorial da palestra “BioAS: um novo olhar sobre a fertilidade e a saúde do solo”, apresentada pela Dra. Iêda Mendes, pesquisadora da Embrapa Cerrados, em uma aula aberta da turma da Pós-Graduação em Fertilidade e Saúde do Solo, evento organizado pela Agroadvance no dia 22 de setembro de 2026.

O conteúdo foi reconstituído a partir da transcrição da palestra e dos slides, e complementado pelos artigos que a professora cita durante a aula.

Para aprofundar a interpretação integrada de atributos químicos, físicos e biológicos do solo, a Agroadvance oferece a Pós-Graduação em Fertilidade e Saúde do Solo, com aulas de pesquisadores e profissionais que atuam no desenvolvimento dessas ferramentas. Mais informações no banner abaixo.

Pós-graduação em Fertilidade e Saúde do Solo

Referências

BARBOSA, J. Z.; POGGERE, G.; VILELA, L.; FREITAS, P. L.; MENDES, I. C. Deep-rooted tropical grasses as preceding crops boost soil health and soybean yield in Brazil: a meta-analysis. Agronomy, v. 16, n. 7, 751, 2026. DOI: 10.3390/agronomy16070751.

CHAER, G. M.; MENDES, I. C.; DANTAS, O. D.; MALAQUIAS, J. V.; REIS JUNIOR, F. B.; OLIVEIRA, M. I. L. Evaluating C trends in clayey Cerrado Oxisols using a four-quadrant model based on specific arylsulfatase and β-glucosidase activities. Applied Soil Ecology, v. 183, 104742, 2023. DOI: 10.1016/j.apsoil.2022.104742.

DORAN, J. W.; ZEISS, M. R. Soil health and sustainability: managing the biotic component of soil quality. Applied Soil Ecology, v. 15, n. 1, p. 3-11, 2000. DOI: 10.1016/S0929-1393(00)00067-6.

EMBRAPA. Plataforma Saúde do Solo BR. Disponível em: https://saudedosolo.embrapa.gov.br. Acesso em: 30 de setembro de 2026.

JANZEN, H. H.; JANZEN, D. W.; GREGORICH, E. G. The “soil health” metaphor: illuminating or illusory? Soil Biology and Biochemistry, v. 159, 108167, 2021.

LOPES, A. A. C. et al. Interpretation of microbial soil indicators as a function of crop yield and organic carbon. Soil Science Society of America Journal, v. 77, n. 2, p. 461-472, 2013. DOI: 10.2136/sssaj2012.0191.

MENDES, I. C.; SOUSA, D. M. G.; DANTAS, O. D.; LOPES, A. A. C.; REIS JUNIOR, F. B.; OLIVEIRA, M. I.; CHAER, G. M. Soil quality and grain yield: a win-win combination in clayey tropical oxisols. Geoderma, v. 388, 114880, 2021. DOI:10.1016/j.geoderma.2020.114880

MENDES, I. C.; CHAER, G. M.; REIS JUNIOR, F. B.; OLIVEIRA, M. I.; SILVA, O. D. D.; MALAQUIAS, J. V. Fazendas de referência para a implementação do modelo de quatro quadrantes na avaliação de tendências do carbono do solo pela tecnologia BioAS. Planaltina, DF: Embrapa Cerrados, 2023. 41 p. (Documentos, 403).

MENDES, I. C.; ARAÚJO, I. M. M.; OLIVEIRA, M. I. L.; BERTOL, F. D. Z.; BORTOLO, L. S.; CASTRO, G. F.; ONO, F. B.; KAPPES, C.; ZANCANARO, L. Integrating soil enzyme activities, organic carbon, and soybean yield to assess soil health trajectories in a long-term crop rotation under no-tillage and conventional tillage. Soil & Tillage Research, v. 264, 107309, 2026. DOI: 10.1016/j.still.2026.107309.

Sobre a autora:

Alice Braga

Alice de Freitas Braga

Marketing de Conteúdo na Agroadvance

  • Doutora em Entomologia (ESALQ/USP)
  • Mestra em Produção vegetal (UFES/Alegre)
  • Engenheira Agrônoma (UFES/Alegre)
  • [email protected]
  • Perfil do Linkedin

Como citar este artigo

BRAGA, A. F. Solo saudável, solo doente, solo em recuperação ou solo adoecendo: como a BioAS classifica a saúde do solo. Blog Agroadvance. Publicado em: 21 Out. 2026. Disponível em: https://agroadvance.com.br/blog-solo-saudavel-doente-em-recuperacao-adoecendo-bioas/. Data de acesso: 21 out. 2026.

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