Você sabia que o Brasil produz cerca de 7,8 milhões de toneladas de cama de aviário e 105 milhões de m³ de dejetos líquidos de suínos por ano? Esses resíduos poderiam gerar até 680 mil toneladas de N, 660 mil de P₂O₅ e 440 mil de K₂O, o que representa cerca de 27%, 21% e 12% dos nutrientes consumidos pela agricultura brasileira (Embrapa).
Entretanto, menos que 50% dos resíduos de fósforo (P) são reciclados de volta ao sistema alimentar global (Brownlie et al., 2021).
Vale ressaltar que o Brasil ainda depende da importação de macronutrientes, como o P. Um exemplo marcante é o fato de que o Marrocos detém cerca de 70 % das reservas globais de fosfato, estimada em cerca de 50 bilhões de toneladas (NMIC, 2024).
Isso nos leva a uma reflexão: a reutilização desses resíduos poderia substituir uma parte significativa da importação de fertilizantes minerais, reduzindo custos e impactos ambientais.
Para tanto, os fertilizantes organominerais surgem como uma alternativa técnica e de economia circular. Uma associação de fertilizantes minerais com matéria orgânica que proporciona diversos benefícios ao solo e a microbiota.
Quer saber o que são os fertilizantes organominerais, como são produzidos, sua composição e classificação, vantagens e desvantagens? Continue lendo.
O que é fertilizante organomineral?
Os fertilizantes organominerais resultam da combinação de fontes orgânicas e minerais, atuando como fornecedores de nutrientes e de matéria orgânica ao solo.
Por apresentarem características de liberação gradual, esses insumos favorecem maior sincronização entre a disponibilidade de nutrientes no solo e a demanda metabólica das plantas (Figura 1).
A utilização de fertilizantes organominerais é uma tecnologia que vem ganhando espaço na agricultura brasileira, por permite a ciclagem dos nutrientes contidos nos dejetos da produção de suínos e aves, por exemplo, associado ao enriquecimento de nutrientes na forma mineral.
Possibilita produzir fórmulas comerciais específicas para cada cultura, aumentando a uniformidade nas concentrações e a disponibilidade de nutrientes.

No caso do P, a utilização do adubo organomineral tem se mostrado uma alternativa promissora para incrementar a eficiência de absorção pelas culturas.
Diferentemente dos fertilizantes fosfatados solúveis convencionais, que disponibilizam o P de forma imediata na solução do solo e, consequentemente, estão mais sujeitos a perdas por erosão, escoamento superficial ou fixação, os fertilizantes organomineral liberam o nutriente de forma mais controlada.
Isso é particularmente relevante em solos altamente intemperizados, nos quais as frações minerais, principalmente as argilas com elevada atividade, apresentam alta capacidade de adsorção do P por meio de ligações de forte energia, muitas vezes irreversíveis, restringindo a disponibilidade do nutriente para as plantas.
Diferença entre fertilizantes: mineral, orgânico e organomineral?
Os fertilizantes minerais são produzidos de forma sintética, onde são fabricados nas industriais, com altas concentrações de nitrogênio, fosforo e potássio. Tem a vantagem de possuir uma ação rápida, mas que possuem um impacto ambiental considerável, tornando uma prática agrícola pouco sustentável.
Os fertilizantes orgânicos são aqueles que possuem somente materiais orgânicos, oriundos de restos vegetais como lodo de esgoto, compostagem, bagaço da cana, cama de ovinos, dentre outros. Tem a vantagem de melhorar na biodiversidade e estrutura do solo, contribuindo para o aproveitamento de resíduos, redução de contaminantes do solo e da água, além de tornar as práticas agrícolas sustentáveis.
Por fim, os fertilizantes organominerais são compostos de um material orgânico e o adubo mineral, onde possui a vantagem de liberação lenta dos nutrientes, melhora a saúde do solo tornando-a opção de adubação mais indicada, ao contribuir eficientemente na aplicação tornando as práticas agrícolas sustentáveis, também possui uma maior eficácia em relação aos demais.
Eles apresentam características distintas na velocidade e forma de liberação de nutrientes, no impacto na estrutura, retenção e saúde do solo, na eficiência agronômica e ambiental e na sustentabilidade e potencial de uso de resíduos. Vejamos a seguir:
Velocidade e forma de liberação dos nutrientes
- Fertilizantes minerais: atuam rapidamente, sendo vantajosos para correções urgentes. Contudo, sua ação rápida pode levar à lixiviação e causar desequilíbrio do solo.
- Fertilizantes orgânicos: liberam nutrientes de forma gradual via decomposição microbiológica, promovendo nutrição prolongada.
- Fertilizantes organominerais: fornecem nutrientes rapidamente (graças à fração mineral) e mantêm liberação prolongada (via matéria orgânica), reduzindo perdas e aumentando eficiência ao longo da estação.
Impacto na estrutura, retenção e saúde do solo
- Fertilizantes minerais: não melhoram a estrutura do solo. Seu uso contínuo pode resultar em compactação, salinização e redução da atividade biológica.
- Fertilizantes orgânicos: enriquecem o solo com matéria orgânica, melhoram a estrutura dos agregados, aumentam a porosidade e retêm água de forma eficaz.
- Fertilizantes organominerais: combinam os benefícios estruturais dos adubos orgânicos com os nutrientes disponíveis dos minerais, promovendo saúde e produtividade do solo.
Eficiência agronômica e ambiental
- Fertilizantes minerais: ainda que eficazes de imediato, pode acarretar perdas significativas de nutrientes por lixiviação, volatilização e fixação, além de impactos ambientais como eutrofização.
Fertilizantes organominerais: têm demonstrado melhor eficiência no uso de nutrientes, redução dessas perdas e menor emissão de gases de efeito estufa, além de promover sequestro de carbono no solo.
Sustentabilidade e potencial de uso de resíduos
Os fertilizantes organominerais podem ser produzidos a partir de resíduos agroindustriais (como cama de aves, dejetos de animais ou biomassa), alinhando-se às práticas de economia circular e às políticas de resíduos sólidos.
Esse modelo não só reduz custos como também diminui a dependência de fertilizantes industriais, contribuindo para a sustentabilidade do setor agrícola.
A combinação estratégica desses fertilizantes possibilita um manejo mais eficiente e sustentável da adubação, especialmente para solos tropicais como os do Brasil, onde a matéria orgânica é fundamental para manter a produtividade e a saúde do solo.
Assim, conhecer a composição do solo, as necessidades da cultura e os objetivos da produção é essencial para decidir o fertilizante mais adequado.
Como é produzido o fertilizante organomineral?
O fertilizante organomineral é produzido em duas fases:
- Em um primeiro momento é obtido um composto orgânico por meio da compostagem do resíduo orgânico ou pirólise;
- Posteriormente ocorre o balanceamento dos nutrientes que é feito de acordo com a exigência da cultura e da quantidade que o solo pode fornecer.
A formulação do adubo organomineral depende das propriedades físico-químicas dos materiais utilizados.
É importante considerar alguns fatores na escolha da matéria prima para sua produção: matéria orgânica barata e disponível localmente, maior teor de C orgânico, maior CTC, estrutura porosa,
A figura 2 apresenta o fluxo de produção de fertilizantes organominerais a partir da integração de resíduos orgânicos tratados e fertilizantes minerais.

O processo tem início com a utilização de resíduos orgânicos potencialmente perigosos (como lodo de esgoto e resíduos industriais), que passam por um processo de tratamento para eliminação de riscos, resultando em um resíduo seguro. Este material pode ser incorporado juntamente a fontes de carbono (composto, esterco, biochar, turfa) e a fertilizantes inorgânicos (minerais), como ureia, fosfatos e potássicos.
Na etapa seguinte, os materiais orgânicos e inorgânicos são submetidos a um processo de moagem individual, garantindo granulometria adequada, e posteriormente são misturados com adição de materiais aglutinantes (binders), que conferem coesão ao produto.
Essa mistura passa pela fase de granulação, em que se formam grânulos homogêneos, seguidos pela secagem, etapa essencial para reduzir a umidade e assegurar estabilidade durante o armazenamento e transporte.
O produto é o fertilizante organomineral granulado, que apresenta maior uniformidade, facilidade de aplicação mecanizada e reúne as vantagens tanto dos fertilizantes minerais (nutrientes de alta solubilidade e imediata disponibilidade) quanto dos orgânicos (melhoria das propriedades físicas, químicas e biológicas do solo).
O adubo organomineral apresenta pequenas concentrações de N, P, K, portanto, a suplementação com fontes minerais é necessária.
Além disso, o uso de matéria orgânica isolada nas lavouras dificulta o manejo agrícola, pois é um material instável, com alto teor de umidade, composição variável e formato indefinido.
A possibilidade de usar fertilizante organomineral granulado em plantadeiras como é feito para fertilizantes minerais abriu uma porta de entrada para tecnologias associadas aos fertilizantes organominerais.
Na figura 3 é possível ver o panorama das empresas de fertilizantes no Brasil.

Composição e classificação dos organominerais
A legislação estabelece algumas garantias mínimas que um adubo organomineral deve apresentar em sua composição para ser considerado organomineral.
Composição
De acordo com o Art. 9º da Instrução Normativa n.º 61, de 8 de julho de 2020, do Mapa (Ministério da Agricultura Pecuária e Abastecimento), a aplicação dos fertilizantes organominerais sólidos ou fluídos no solo ou fertirrigação, deve atender as exigências:
- Carbono orgânico: mínimo de 8% (oito por cento) para produto sólido e 3% (três por cento) para produto fluído;
- Umidade: máximo de 20% (vinte por cento) para produto sólido;
- CTC: mínimo de 80 (oitenta) mmolc/kg para produto sólido;
- Nitrogênio (N), fósforo (P2O5), potássio (K2O), cálcio (Ca), magnésio (Mg) e enxofre (S) de no mínimo 1%, dentre os micronutrientes.
Classificação
A legislação brasileira estabelece uma classificação específica para os fertilizantes organominerais, de acordo com as matérias-primas empregadas em sua fabricação. Essa classificação é definida pela Instrução Normativa e contempla duas categorias principais:
- Classe A: fertilizantes produzidos a partir de matérias-primas oriundas de atividades extrativas, agropecuárias, industriais, agroindustriais ou comerciais, desde que isentas de contaminantes ou resíduos com risco sanitário;
- Classe B: fertilizantes elaborados com inclusão, em qualquer proporção, de matérias-primas orgânicas provenientes de atividades urbanas, industriais ou agroindustriais, cujo uso seja previamente autorizado pelo órgão ambiental competente.
A normativa também estabelece restrições quanto à aplicação de fertilizantes organominerais da Classe A, bem como de outros produtos que contenham resíduos de origem animal, em áreas destinadas a pastagens, com o objetivo de reduzir potenciais riscos sanitários e ambientais.
Vantagens e desvantagens do adubo organomineral
Os fertilizantes organominerais pode ser uma estratégia principalmente em solos arenosos. Abaixo apresentamos um quadro com as principais vantagens e desvantagens da sua utilização.
| Vantagens | Desvantagens |
| Promove a atividade microbiana | Altas doses do adubo para suprir a demanda nutricional das recomendações |
| Aumenta CTC do solo | Ciclagem do P ligado a fonte orgânica é lenta |
| Incremento de matéria orgânica | A depender da fonte orgânica utilizada na produção, pode conter metais pesados |
| Melhora agregação e estrutura do solo | O custo pode ser mais elevado do que os fertilizantes minerais em algumas situações |
| Aumenta capacidade de retenção de água do solo | Variação da composição nutricional |
| Melhora a porosidade do solo | Altas doses do adubo para suprir a demanda nutricional das recomendações |
| Reduz a densidade do solo | – |
| Melhor desenvolvimento radicular | – |
| Disponibilidade gradual de nutrientes | – |
Quais são as principais culturas que utilizam fertilizantes organominerais?
Culturas de ciclo curto, como milho e soja, o organomineral não ganha do mineral. Quais culturas o organomineral costuma ganhar do mineral?
Apesar das vantagens do uso de fertilizantes organominerais na agricultura, o maior consumo desse tipo de fertilizante no Brasil ocorre em fruticultura, floricultura e culturas perenes, com apenas uma pequena parte destinada à cultura de grãos.
Dentre essas culturas merecem destaque: café, citrus e cana. Que são culturas que irão permanecer por maior tempo no campo, portanto, o organomineral nesse caso é viável.
Por outro lado, o cultivo de grãos, como soja e milho, é o setor que mais consome fertilizantes no Brasil. Assim, essas culturas precisam receber atenção especial no desenvolvimento de produtos, como os adubos organominerais, que aumentem a eficiência dos insumos utilizados em larga escala.
Aplicações práticas e recomendação técnica
O adubo organomineral pode ser aplicado de uma só vez, enquanto para os fertilizantes minerais recomenda-se o fracionamento da aplicação com objetivo de reduzir perdas e aumentar eficiência de uso.
O principal fator limitante no uso do fertilizante organomineral é a sua concentração de nutrientes, que é duas vezes menor que o adubo mineral na maioria das formulações.
O fertilizante organomineral é um adubo mais caro, mas produz mais. Entretanto, o produtor tem o benéfico da matéria orgânica no solo, que melhora a eficiência do P.
As recomendações práticas consideram:
- Granulometria adequada para operação com máquinas de aplicação.
- Dosagem baseada em análise de solo e demanda da cultura, considerando teor de nutrientes e disponibilidade real.
- Período de aplicação, preferencialmente no pré-plantio
- Integração com microrganismos solubilizadores de fósforo, para potencializar a eficiência.
- Adoção de princípios da agricultura de precisão, com monitoramento de solo e uso segmentado do produto.
Esta figura 4 representa, de forma esquemática e técnica, o mecanismo de ação de fertilizantes organominerais no solo, mostrando como eles contribuem para a redução de perdas de nutrientes e aumento da eficiência da adubação.

Estudo de caso
Um estudo realizado por Espinoza et al. (2025), ressalta que a mistura de lodo de esgoto compostado com adição de fosfato solúvel (MAP) resultou em adubo organomineral mais eficiente no fornecimento de P, o que aumentou a produção de biomassa de Urochloa (Figura 5).

Segundo os autores, o lodo de esgoto + MAP proporciona liberação gradual de P no solo, garantindo maior crescimento inicial e efeito de adubação residual, capaz de atender às demandas de P no estabelecimento da cultura e sinalizar seu potencial como alternativa aos fertilizantes fosfatados solúveis, mesmo em culturas de ciclo curto.
De acordo com Crusciol et al. (2020), o fertilizante organomineral apresentou maior eficiência econômica na cana planta, sendo de 12% em média. E 7% mais rentável do que o fertilizante mineral ao longo das duas safras combinadas.
Perspectivas de utilização de fertilizantes no Brasil
Na figura 6 e 7 é possível ver o panorama dos fertilizantes no Brasil.

A expectativa é de que as vendas de fertilizantes organominerais fluidos e sólidos em 2025 apresentem um desempenho superior ao observado em 2024, com aumento projetado de aproximadamente 21 % e 22 %, respectivamente (Figura 7).

Conclusões
Nesse artigo você viu que resíduos orgânicos podem ser tratados (compostagem, produção de biochar etc.), transformando-se em materiais ricos em carbono.
Esses materiais, quando misturados a fertilizantes minerais, geram fertilizantes organominerais comerciais (na forma de grânulos ou pellets).
O uso desses produtos melhora o solo (propriedades físicas, químicas e biológicas), reduz perdas, aumenta a disponibilidade de nutrientes e a capacidade de retenção de água.
Como consequência, ocorre maior absorção de nutrientes pelas plantas, resultando em melhor crescimento e maior produtividade agrícola.
Eles proporcionam ciclagem de insumos, eficiência agronômica compatível com fertilizantes minerais, ganhos na estrutura e biodiversidade do solo, além de reduzir a dependência externa por macronutrientes.
Entretanto, seu uso ainda é limitado a culturas perenes e olerícolas, com pouca adoção em culturas como soja e milho.
Lembre-se que é importante consultar um engenheiro agrônomo para realizar as recomendações.
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Referências
ABISOLO. Anuário brasileiro de tecnologia em nutrição vegetal. 2025. 152 p.
BRASIL. Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Secretaria de Defesa Agropecuária. Instrução Normativa nº 61, de 8 de julho de 2020. Estabelece as regras sobre definições, exigências, especificações, garantias, tolerâncias, registro, embalagem e rotulagem dos fertilizantes orgânicos e dos biofertilizantes, destinados à agricultura.
BROWNLIE, W.J.; SUTTON, M.A.; REAY, D.S.; HEAL, K.V.; HERMANN, L.; KABBE, C.; SPEARS, B.M. Global Actions for a Sustainable Phosphorus Future. Nat. Food, v. 2, p. 71–74, 2021.
CRUSCIOL, C. A. C.; et al. Organomineral Fertilizer as Source of P and K for Sugarcane. Scientific Reports, v. 10, n. 5398, 2020. https://doi.org/10.1038/s41598-020-62315-1
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Sobre o autor:

João Paulo Marin Sebim
Doutorando em fitotecnia (ESALQ/USP)
- Mestre em Produção Vegetal (UFAC)
- Engenheiro Agrônomo (UFAC)
Como citar este artigo:
SEBIM, J.P.M. Fertilizante organomineral: o que é, características e como realizar a recomendação. Blog Agroadvance. 2025. Disponível em: https://agroadvance.com.br/blog-fertilizante-organomineral/. Acesso em: 13 jun. 2026.



