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Diplodia no milho: da caracterização ao manejo da doença com eficiência

A diplodia no milho provoca perdas de até 40% na produção de grãos, associadas à sobrevivência do inóculo em sementes e restos culturais. O manejo deve incluir rotação de culturas, uso de sementes sadias e híbridos com resistência parcial.
  • Publicado em 17/04/2026
  • Alasse Oliveira da Silva
  • Milho
  • Publicado em 17/04/2026
  • Alasse Oliveira da Silva
  • Milho
  • Atualizado em 17/04/2026
Diplodia no milho
Sumário

A diplodia no milho, causada por fungos do gênero Stenocarpella, está diretamente associada à redução de produtividade do milho e, principalmente, à perda de qualidade de grãos, principalmente em sistemas com alta presença de inóculo no Brasil.

Os patógenos das espécies Stenocarpella maydis e Stenocarpella macrospora infectam sementes, colmos, espigas e folhas, além de persistirem em restos culturais, sendo responsáveis pela chamada podridão branca da espiga.

Além das perdas produtivas, a doença compromete o valor comercial do milho, uma vez que resulta na formação de grãos ardidos, frequentemente rejeitados por agroindústrias quando ultrapassam 6% de tolerância no lote.

Em sistemas com alta presença de inóculo, especialmente sob monocultura e plantio direto sem rotação, o risco de ocorrência da doença é elevado.

A densidade de inóculo em resíduos culturais pode atingir até 3,4 × 10⁶ conídios m⁻², o que sustenta ciclos sucessivos da doença em sistemas com sucessão milho–milho.

Nesse cenário, o manejo da diplodia exige abordagem técnica e integrada, com ênfase na redução do inóculo inicial e na limitação da colonização da planta.

O que é a Diplodia no milho?

A diplodia, também conhecida como podridão branca da espiga, é uma doença fúngica de grande importância econômica, principalmente por afetar diretamente o enchimento de grãos e a qualidade da produção.

Os grãos infectados apresentam redução de densidade, menor valor nutricional, menor palatabilidade, além de risco de contaminação por micotoxinas. Essas toxinas, como diplodiatoxina e diplodiol, são prejudiciais à saúde animal, podendo causar micotoxicoses em aves, bovinos e ovinos.

Os patógenos envolvidos pertencem ao gênero Stenocarpella, com destaque para S. maydis e S. macrospora, responsáveis por infecções em diferentes órgãos da planta (FERNANDES; OLIVEIRA, 2000). Eles promovem a morte celular dos tecidos vegetais para posterior colonização.

A persistência do inóculo no sistema produtivo está associada a dois fatores centrais: a sobrevivência desses patógenos em restos culturais infectados e a transmissão via sementes infectadas. Esses fatores favorecem tanto a manutenção quanto a disseminação da doença dentro das áreas de cultivo.

A densidade de conídios pode atingir valores superiores a 3,4 × 10⁶ unidades por metro quadrado, o que favorece infecções sucessivas ao longo do ciclo da cultura (REIS; MARIO, 2003).

comparação de peso médio de espigas após inoculação com Stenocarpella maydis
Figura 1. Diferença no peso médio de espigas de milho sob condição sanitária e após inoculação com Stenocarpella maydis. Fonte: Rodrigo Veras da Costa – (Embrapa, 2013).

As perdas de produtividade variam entre 15 e 30%, podendo alcançar até 40% em condições favoráveis ao patógeno, especialmente sob alta umidade e alta pressão contínua de inóculo, o que evidencia a necessidade de estratégias eficazes de manejo (BREVANT, 2024).

Etiologia da doença

A diplodia é causada por:

  • Stenocarpella maydis
  • Stenocarpella macrospora

Ambos são fungos necrotróficos que induzem morte celular e posteriormente colonizam os tecidos vegetais. Eles sobrevivem como micélio ou conídio em restos culturais, sementes e também no solo (no caso de S. maydis).

Os picnídios, estruturas reprodutivas dos fungos, são formados nos tecidos infectados e atuam como fonte de disseminação.

Esses patógenos infectam múltiplos órgãos da planta, incluindo sementes, colmos, espigas e folhas, com capacidade de causar podridões e manchas foliares.

A infecção pode ocorrer por penetração direta ou via estruturas naturais, como estômatos e ferimentos.

A capacidade de colonizar diferentes órgãos da planta amplia o potencial de dano e dificulta o controle quando a doença já está estabelecida.

Fontes de inóculo na lavoura

As principais fontes de inóculo são os restos culturais e as sementes infectadas. Os resíduos de milho constituem ambiente favorável para a formação de picnídios, estruturas responsáveis pela produção de conídios (CASA et al., 2006).

Reis & Mario (2003) demonstraram elevada densidade de conídios nos resíduos culturais, com valores podendo atingir até 3,4 × 10⁶ conídios m⁻² para D. maydis. Essa densidade favorece a infecção inicial e a disseminação do patógeno. Sementes infectadas desempenham fator relevante na disseminação a longa distância, permitindo a introdução do patógeno em novas áreas de cultivo.

Estruturas conidiais de Stenocarpella maydis e Conídios observados em Stenocarpella macrospora
Figura 2. Estruturas conidiais de Stenocarpella maydis (esquerda) e Conídios observados em Stenocarpella macrospora (Direita). Fonte: Rodrigo Veras da Costa – (Embrapa, 2013).

Epidemiologia da diplodia no milho

A disseminação dos conídios ocorre por ação do vento e da chuva, com transporte a curta distância por respingos e a longa distância via sementes.

A germinação dos conídios ocorre entre 23 e 28 °C sob alta umidade relativa, condição necessária para infecção (CASA et al., 2006).

A infecção pode ocorrer desde a fase de emergência até o enchimento de grãos.

A presença contínua de inóculo no sistema produtivo favorece ciclos sucessivos da doença, especialmente em áreas de monocultura.

Sintomatologia

Os sintomas variam conforme o órgão afetado. Em folhas, observam-se lesões necróticas alongadas. Em colmos, ocorre podridão interna, com comprometimento da sustentação da planta. Em espigas, verifica-se crescimento micelial branco entre os grãos, associado à redução do peso e alteração da coloração.

A podridão branca da espiga apresenta características bastante específicas (Figura 3), como:

  • grãos marrons, leves e de baixo peso;
  • presença de micélio branco entre os grãos em condições de alta umidade;
  • sintomas iniciando pela base ou ponta da espiga;
  • espigas com palhas aderidas e aspecto seco em infecções precoces.

Em infecções tardias, os sintomas podem não ser visíveis externamente, sendo identificados apenas após a abertura da espiga.

Micélio branco
Figura 3. Micélio branco de Stenocarpella maydis com desenvolvimento inicial na base da espiga e colonização total dos tecidos ao longo do processo. Fonte: Rodrigo Veras da Costa – (Embrapa, 2013).

Sementes infectadas apresentam baixa germinação e vigor reduzido, o que compromete o estabelecimento da lavoura. A diplodia reduz a produtividade por afetar a área fotossintética e interferir na translocação de assimilados. Brevant (2024) indicou perdas de até 30% na produtividade e 40% nos grãos.

Além disso, a doença compromete a qualidade dos grãos, com aumento da incidência de grãos ardidos e redução do valor comercial.

Em folhas, as lesões apresentam formato alongado a elíptico, com coloração inicialmente parda evoluindo para tons acinzentados, frequentemente com margens bem definidas. Em condições favoráveis, podem coalescer, reduzindo a área fotossintética ativa.

Em colmos, a infecção resulta em degradação dos tecidos internos, com coloração marrom a escura e perda de integridade estrutural, favorecendo o acamamento. A colonização ocorre de forma progressiva, comprometendo a condução de água e assimilados (Casa et al., 2006)

O impacto agronômico está associado à redução da taxa fotossintética, comprometimento do transporte de assimilados e menor enchimento de grãos.

Lesões necróticas alongadas em folhas de milho
Figura 4. Lesões necróticas alongadas em folhas de milho associadas à infecção por Stenocarpella spp., com halo clorótico e coalescência de lesões sob condição favorável ao patógeno. Fonte: Brevant Sementes (2024).

Em casos severos, observa-se acamamento, dificuldade na colheita mecanizada e aumento de perdas operacionais. Além disso, a formação de grãos ardidos compromete a classificação comercial e limita a destinação industrial do lote.

Fatores que aumentam a severidade da diplodia

Segundo a Embrapa (2006), a doença é favorecida por:

  • excesso de nitrogênio e baixo potássio;
  • drenagem deficiente;
  • danos mecânicos ou por insetos;
  • alta densidade de plantio;
  • cultivares suscetíveis.

Manejo e controle da diplodia no milho

O manejo da diplodia em milho exige a combinação de estratégias que atuam em diferentes etapas do ciclo do patógeno, desde a redução da fonte de inóculo até a limitação da colonização dos tecidos da planta.

A eficiência dessas estratégias depende da interação entre o sistema de cultivo, a pressão de inóculo e a suscetibilidade dos híbridos utilizados.

Nesse contexto, o controle da doença deve ser estruturado a partir de práticas complementares, que incluem resistência genética, rotação de culturas, controle químico, tratamento de sementes, manejo nutricional e ajuste do sistema de cultivo, como veremos a seguir.

Uso de sementes sadias

A utilização de sementes certificadas é essencial para evitar a introdução do patógeno na área.

Tratamento de sementes

O tratamento de sementes atua na redução da infecção inicial, impedindo a transmissão do patógeno para a plântula. Como Stenocarpella spp. são transmitidos via sementes, essa prática reduz a ocorrência de podridão de sementes e morte de plântulas (Fernandes & Oliveira, 2000) .

A eliminação do inóculo presente na semente reduz a infecção sistêmica e diminui a formação de focos iniciais da doença na lavoura. Essa prática apresenta maior efeito em áreas com baixa a moderada pressão de inóculo.

Resistência genética

A resistência genética constitui o eixo principal do manejo da diplodia, pois atua diretamente na redução da colonização do patógeno nos tecidos da planta.

Rodrigues et al. (2021/22) avaliaram 36 híbridos em delineamento com 800 parcelas e observaram variação na severidade da doença entre genótipos, o que confirma a existência de resistência parcial utilizável em programas de melhoramento.

A resistência não elimina o patógeno, mas reduz a taxa de progresso da doença, o que diminui a colonização da espiga e a formação de grãos ardidos. Esse efeito ocorre devido à limitação da expansão micelial nos tecidos e à menor suscetibilidade durante o enchimento de grãos.

A escolha de híbridos deve considerar histórico da área, presença de palhada infectada e sistema de cultivo. Em áreas com alta pressão de inóculo, o uso de materiais suscetíveis resulta em aumento da severidade, independentemente de outras práticas de manejo.

Rotação de culturas

A rotação de culturas reduz a principal fonte de inóculo primário. Os fungos Stenocarpella spp. sobrevivem em restos culturais de milho, onde formam picnídios que liberam conídios na safra seguinte (Casa et al., 2006). Recomenda-se a rotação por pelo menos dois anos, sob condições que favoreçam a decomposição da palhada.

picnídios de Stenocarpella spp.
Figura 5. À esquerda: formação de picnídios de Stenocarpella spp. na palha da espiga e nos grãos. À direita: produção de picnídios de Stenocarpella macrospora em lesões foliares no milho. Fonte: Rodrigo Veras da Costa – (Embrapa, 2013).

Reis & Mario (2003) demonstraram densidade de até 3,4 × 10⁶ conídios m⁻² em resíduos, valor suficiente para iniciar epidemias mesmo na ausência de fontes externas de inóculo. A permanência da palhada no sistema mantém o patógeno viável entre safras.

A substituição do milho por culturas não hospedeiras interrompe o ciclo do patógeno e reduz a quantidade de inóculo disponível. Sistemas com sucessão milho–milho mantêm alta pressão de doença, enquanto rotações com soja ou outras culturas reduzem a incidência.

Sistema de cultivo e plantio direto

O sistema de plantio direto mantém os restos culturais na superfície do solo, o que favorece a sobrevivência do patógeno entre safras. A permanência da palhada permite a formação contínua de estruturas reprodutivas e a liberação de conídios.

Esse sistema aumenta a pressão de inóculo, especialmente em áreas sem rotação de culturas. A combinação de plantio direto com monocultura de milho resulta em ambiente favorável à manutenção da doença.

A adoção de rotação e manejo adequado da palhada reduz esse efeito, ao diminuir a quantidade de substrato disponível para o patógeno.

Seção transversal de espiga de milho com presença de picnídios
Figura 6. Seção transversal de espiga de milho com presença de picnídios escuros associados à infecção por Stenocarpella spp. Fonte: M. Romero (2019).

Fungicidas

O controle químico apresenta efeito limitado quando utilizado de forma isolada, pois não elimina o inóculo presente nos resíduos culturais. A aplicação deve ocorrer antes da infecção da espiga, com foco nos estádios pré-pendoamento e R2, quando há maior risco de colonização.

Os fungicidas atuam na inibição da germinação dos conídios e no crescimento micelial. No entanto, a eficiência depende da cobertura da planta e das condições ambientais. A presença de alta densidade de inóculo reduz a eficácia do controle químico.

Estudos indicam eficiência variável do controle químico, dependente do estádio fenológico, cobertura da aplicação e pressão de inóculo, com necessidade de associação com outras práticas de manejo para obtenção de redução consistente da severidade da doença.

Nutrição mineral

O desequilíbrio entre nitrogênio e potássio aumenta a suscetibilidade à infecção à diplodia. O equilíbrio entre nitrogênio e potássio afeta a estrutura dos tecidos e a resistência mecânica do colmo.

Altos níveis de nitrogênio sem suprimento adequado de potássio favorecem tecidos mais suscetíveis à colonização do patógeno. O potássio contribui para a integridade celular e reduz a progressão da infecção.

Casa et al. (2006) indicaram que a adubação equilibrada reduz a infecção, ao limitar condições favoráveis ao desenvolvimento do patógeno.

Integração das estratégias

O manejo da diplodia exige integração de práticas. Nenhuma estratégia isolada apresenta eficiência suficiente para controle da doença em áreas com alta pressão de inóculo.

A combinação de resistência genética, rotação de culturas, tratamento de sementes e manejo nutricional reduz a severidade da doença ao atuar em diferentes etapas do ciclo do patógeno:

  • redução da fonte de inóculo
  • limitação da infecção inicial
  • redução da colonização da planta
  • diminuição da progressão da doença

Conclusão 

A diplodia reduz a produtividade e a qualidade dos grãos em sistemas com alta presença de inóculo, com impacto direto sobre produtividade e qualidade dos grãos.

A persistência do patógeno em restos culturais e sementes exige abordagem integrada de manejo.

A combinação de resistência genética e práticas culturais constitui a base para o controle da doença.

A ampliação do conhecimento sobre epidemiologia e eficiência de controle químico contribui para o aprimoramento das estratégias de manejo.

—

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Referências 

BREVANT. Diplodia no milho e podridão de grãos: estratégias de controle e biologia. 2024.

CASA, R. T.; REIS, E. M.; ZAMBOLIM, L. Doenças do milho causadas por fungos do gênero Stenocarpella. Fitopatologia Brasileira, v. 31, p. 427-439, 2006.

COSTA, Rodrigo Veras da; COTA, Luciano Viana; SILVA, Dagma Dionísia da. Doenças causadas por fungos do gênero Stenocarpella spp. (Diplodia spp.) em milho. Sete Lagoas: Embrapa Milho e Sorgo, 2013. 15 p. (Circular Técnica, 197).

FERNANDES, F. T.; OLIVEIRA, E. Diplodia macrospora em milho. Embrapa, 2000.

MARIO, J. L.; REIS, E. M. Método simples para diferenciar Diplodia macrospora de D. maydis. Fitopatologia Brasileira, v. 26, p. 670-672, 2001.

REIS, E. M.; MARIO, J. L. Quantificação do inóculo de Diplodia em restos culturais. Fitopatologia Brasileira, 2003.

RODRIGUES, A.; PELEGRINI, L. L. Avaliação de diplodia em híbridos de milho na região centro-sul. 2022.

PINTO, N. F. J. de A. Podridão branca da espiga de milho. Sete Lagoas: Embrapa Milho e Sorgo, 2006. 6 p. (Embrapa Milho e Sorgo. Comunicado técnico, 141).

Sobre o autor:

Alasse Oliveira

Alasse Oliveira da Silva

Doutorando em Produção Vegetal (ESALQ/USP)

  • Engenheiro agrônomo (UFRA) e Técnico em agronegócio
  • Mestre e especialista em Produção Vegetal (ESALQ/USP)
  • alasse.oliveira77@gmail.com
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Como citar este artigo:

SILVA, A. O. da. Diplodia no milho: da caracterização ao manejo da doença com eficiência. Blog Agroadvance. Publicado: 17 Abr. 2026. Disponível em: https://agroadvance.com.br/blog-diplodia-no-milho-podridao-branca-espiga/. Acesso em: 17 abr. 2026.

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