Agricultura regenerativa: 5 perguntas sobre as práticas essenciais para o sucesso sustentável

Tire suas dúvidas sobre agricultura regenerativa: o que é, conceitos, benefícios, práticas e pilares utilizados, além da importância para mitigação das mudanças climáticas e sustentabilidade dos sistemas produtivos.
Agricultura regenerativa
Sumário

A agricultura regenerativa é um sistema ativo de restauro ecológico do solo, que visa melhorar, e não apenas preservar, a capacidade produtiva e ambiental ao longo do tempo.

A agricultura regenerativa vem ganhando destaque no mundo todo como uma alternativa capaz de unir produtividade, sustentabilidade e mitigação das mudanças climáticas. Mais do que preservar, ela busca restaurar ativamente a saúde do solo, da biodiversidade e dos sistemas agrícolas, garantindo alimentos mais nutritivos e maior resiliência das lavouras.

Neste artigo, você vai entender:

  • O que é agricultura regenerativa;
  • Suas origens e conceitos fundamentais;
  • Principais práticas e pilares;
  • Benefícios ambientais, econômicos e nutricionais;
  • Casos de sucesso no Brasil e no mundo;
  • Tendências para o futuro.

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O que é a agricultura regenerativa?

A agricultura regenerativa é um sistema de produção agrícola de baixo impacto, voltado para a restauração e melhoria contínua dos recursos naturais. Seu foco principal é o solo, mas os benefícios se estendem à biodiversidade, à água, ao clima e à qualidade dos alimentos.

Ao contrário da agricultura convencional, que frequentemente degrada o solo e aumenta a emissão de gases de efeito estufa, a agricultura regenerativa imita os processos naturais para regenerar ecossistemas agrícolas, promovendo:

  • Aumento da matéria orgânica;
  • Maior biodiversidade;
  • Sequestro de carbono da atmosfera;
  • Resiliência frente a eventos climáticos extremos.

O termo “agricultura regenerativa” foi cunhado pela primeira em 1979 por Gabel. Posteriormente várias definições foram sugeridas.

Ainda na década de 1980, o americano Robert Rodale, fundador do Rodale Institute, desenvolveu o conceito de agricultura orgânica regenerativa para incluir algumas opções que abrangem uma abordagem holística com foco em melhorias ambientais e sociais sem o uso de produtos químicos fertilizantes e pesticidas.

Apesar do interesse generalizado no assunto, nenhuma definição legal ou regulatória do termo “agricultura regenerativa” existe nem uma definição amplamente aceita surgiu no uso comum (Khangura et al. 2023).

A agricultura regenerativa tem sido proposta como um meio alternativo de produção de alimentos que podem ter impactos ambientais e/ou sociais menores – ou mesmo positivos – já que a prática tende a aumentar a sustentabilidade na produção de alimentos, inclusive, fazendo parte de estratégias para mitigar as mudanças climáticas.

Podemos dizer que o objetivo da agricultura orgânica regenerativa não é restaurar a ecologia e a função biológica pré-agrícola nativa, mas sim alavancar os processos ecológicos na natureza dentro de um sistema agrícola para melhorar a saúde do sistema agrícola.

Agricultura regenerativa
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Quais os benefícios da agricultura regenerativa?

Os principais benefícios associados são:

Estudos recentes e iniciativas globais apontam uma série de ganhos diretos:

  • 🌱 Ambientais:
    • Recuperação de solos degradados;
    • Redução da erosão e do escoamento poluído;
    • Sequestro de carbono e mitigação das mudanças climáticas;
    • Incremento da matéria orgânica
    • Aumento da biodiversidade na agricultura ou dos sistemas agrícolas.
  • 🍎 Nutricionais:
    • Alimentos com maior densidade de nutrientes;
    • Teores mais altos de minerais e gorduras saudáveis, segundo pesquisas comparativas.
  • 💰 Econômicos:
    • Redução no uso de insumos sintéticos;
    • Novas fontes de receita com sistemas diversificados;
    • Mais resiliência produtiva frente a estresses climáticos;
    • Estudos nos EUA apontam que a adoção ampla pode gerar até US$ 80 bilhões de retorno em 10 anos.

Agricultura regenerativa vantagens e desvantagens

A agricultura regenerativa tem se destacado como uma abordagem inovadora para restaurar a saúde do solo, aumentar a biodiversidade e contribuir para a sustentabilidade da produção agrícola. No entanto, assim como qualquer sistema de manejo, apresenta tanto vantagens quanto desvantagens que precisam ser consideradas pelo produtor antes da adoção.

Vantagens da agricultura regenerativa

  • Melhoria da fertilidade do solo: técnicas como cobertura vegetal e adubação verde aumentam a matéria orgânica e a capacidade de retenção de água.
  • Redução da dependência de insumos externos: práticas regenerativas diminuem o uso de fertilizantes sintéticos e defensivos químicos.
  • Aumento da biodiversidade: maior diversidade de plantas e integração de animais favorecem o equilíbrio ecológico.
  • Resiliência climática: solos estruturados e cobertos são menos suscetíveis à erosão, seca e eventos extremos.
  • Benefícios econômicos de longo prazo: com o tempo, há redução dos custos de produção e maior estabilidade da produtividade.

Desvantagens e desafios da agricultura regenerativa

  • Mercado e certificações: apesar do crescente interesse, ainda há barreiras para inserção diferenciada desses produtos no mercado.
  • Alto investimento inicial: práticas como integração lavoura-pecuária-floresta ou adoção de maquinário adaptado exigem capital.
  • Curva de aprendizado: demanda conhecimento técnico e capacitação para implementação correta das práticas.
  • Resultados a longo prazo: os benefícios no solo e na produtividade nem sempre são imediatos, podendo desmotivar produtores.
  • Limitações regionais: em algumas áreas, como solos muito degradados ou regiões com baixa disponibilidade de água, a aplicação pode ser mais difícil.

Como funciona a agricultura regenerativa? E o que são práticas regenerativas?

A agricultura regenerativa é uma agricultura de baixo impacto que visa a menor interferência possível nos sistemas agrícolas.

Para isso prega a não utilização de fertilizantes sintéticos e defensivos agrícolas, o não revolvimento do solo e a maior diversidade de plantas possíveis integradas com o ambiente como um todo, como com os animais, por exemplo.

Práticas regenerativas são técnicas utilizadas na agricultura regenerativa que visam promover a saúde do solo, a biodiversidade e a sustentabilidade dos sistemas produtivos. Destacam-se:

  • Rotação de culturas ou cultivo sucessivo de mais uma espécie na mesma área (ex: rotação de lavouras de cana-de-açúcar com soja, crotalária ou amendoim);
  • Plantio direto: envolve o não revolvimento do solo, manutenção da palhada na superfície do solo e rotação de culturas – amplamente difundido no Brasil.
  • Consórcios: cultivo intercalados de duas ou mais espécies ao mesmo tempo na área. Ex: milho-braquiária.
  • Tecnologias de fertilização – utilização de fertilizantes organominerais, pó de rochas, biochar, entre outros – em detrimento aos fertilizantes minerais;
  • Compostagem: uso de materiais orgânicos, como restos de plantas e esterco animal decompostos, para produzir um composto que é fonte de nutrientes.
  • Bioinsumos: São produtos naturais, como biofertilizantes e biopesticidas, que auxiliam no manejo de doenças e pragas de forma menos prejudicial ao meio ambiente. Esses produtos são derivados de micro-organismos benéficos e substâncias naturais.
  • Agroflorestas e permacultura: sistemas diversificados que unem árvores, lavouras e animais.

Os 5 pilares da agricultura regenerativa

Os cinco pilares ou princípios fundamentais desse modelo de cultivo, de acordo com Khangura et al (2023) são:

(1) minimizar a perturbação do solo: o manejo do solo deve minimizar as perturbações agrícolas. Para isso devem ser adotadas práticas agrícolas como o plantio direto, que minimiza as perturbações físicas, biológicas e químicas do solo;

(2) manter o solo coberto o ano todo: com a manutenção da vegetação e materiais naturais por meio de cobertura morta, culturas de cobertura e pastagens.

(3) manter plantas vivas e raízes no solo pelo maior tempo possível: manter as raízes vivas no solo garante que os solos nunca fiquem desprovidos de cobertura vegetal. Isso pode ser feito por meio de práticas agrícolas, como plantio de culturas de cobertura de inverno ou pastagens permanentes. Manter as raízes vivas no solo ajuda a estabilizá-lo, na retenção de água e no escoamento de nutrientes.

(4) incorporar a biodiversidade: a diversidade é um componente essencial na construção de solos saudáveis que retém o excesso de água e nutrientes. Pode ajudar os agricultores a obterem receita de outras fontes e é benéfico para outros animais selvagens e polinizadores.

(5) integrar os animais à fazenda: o esterco produzido pelo gado pode adicionar nutrientes valiosos ao solo reduzindo a necessidade de fertilizantes e aumentando a matéria orgânica. Solos saudáveis capturam grandes quantidades de carbono e água e reduzem a quantidade de escoamento poluído.

Diagrama esquemático do método de agricultura regenerativa para a saúde e vitalidade do solo. Princípios agrícolas educativos rotulados para reabilitar ou melhorar a camada superficial do solo e a biodiversidade das culturas. Ilustração vetorial.

A agricultura regerativa evita a erosão e o esgotamento do solo,  e resulta na construção de um solo mais estruturado e saudável, que ajuda na redução das emissões dos gases do efeito estufa, produzindo culturas saudáveis e melhorando a saúde humana (Tabela 1).

Tabela 1. Agricultura regenerativa (AR): Princípios, práticas, benefícios propostos e mecanismos para aumentar a saúde do solo.

Princípios da ARPráticas da ARBenefícios da ARMecanismos microbiológicos
– Minimizar a perturbação do solo
– Manter o solo coberto
– Preservar as raízes vivas no solo durante todo o ano,
– Aumentar a diversidade de espécies,
– Integração dos animais à fazenda.
– Revolvimento mínimo
– Manutenção da palhada
– Rotação de diversas culturas
– Consorciação
– Compostagem e uso de bioestimulantes
– Pastejo rotacionado
– Redução de entradas sintéticas
– Melhoria da saúde do solo através do: aumento do carbono do solo funções microbianas melhoradas e ciclagem de nutrientes associada umidade do solo melhorada melhor resistência a pragas e doenças,
– Alimentos ricos nutricionalmente
– Redução das emissões de gases de efeito estufa
– Via de carbono líquido
– Aumento na absorção e água e minerais
– Aumento na agregação do solo, crescimento das plantas e fotossíntese
Fonte: Khangura et al. (2023).

Qual a importância da agricultura regenerativa?

A agricultura regenerativa pode ajudar na sustentabilidade dos sistemas produtivos agrícolas à medida que seria uma aliada na redução dos impactos causados pelas mudanças climáticas.

A agricultura convencional, praticada atualmente na maior parte do mundo, faz parte do problema das mudanças climáticas.

Suas práticas destrutivas, como o uso de fertilizantes sintéticos, o desmatamento e a intensificação da produção pecuária, contribuem para a emissão de gases de efeito estufa.

Ao contrário disso, a agricultura regenerativa, por meio de práticas conhecidas e de baixo custo, tem o potencial de aumentar a matéria orgânica do solo e promover o sequestro de carbono, ou seja, a captura do CO2 da atmosfera e seu armazenamento no solo, contribuindo para uma agricultura sustentável.

O Project Drawdown afirma que “a regenerativa agricultura melhora e sustenta a saúde do solo restaurando seu conteúdo de carbono, o que, por sua vez, melhora a produtividade – exatamente o oposto da agricultura convencional”, e estima que o cultivo anual regenerativo poderia reduzir ou sequestrar de 14,5 a 22 gigatoneladas de CO2 até 2050 (Project Drawdown, 2020).

A abordagem da agricultura orgânica regenerativa não só beneficia o clima, mas também aborda questões relacionadas à água, à pobreza extrema e à segurança alimentar, protegendo e melhorando o meio ambiente para as gerações futuras.

A agricultura orgânica regenerativa é a chave para essa mudança e está pronta para ser adotada em larga escala como uma solução climática efetiva.

Veja no vídeo abaixo, o Professor Felipe Vitaliano explicando sobre o assunto:

Práticas sustentáveis da agricultura regenerativa no Brasil

No Brasil, algumas técnicas já são bastante utilizadas nas lavouras, como é o caso do plantio direto com a manutenção da palhada na superfície do solo, a consorciação de culturas (como fazemos com cana e crotalária ou cana e soja, entre outros), além da integração lavoura-pecuária.

Com o interesse cada vez mais pela sustentabilidade dos sistemas de cultivo, a tendência é que cada vez mais empresas e produtores adotem essas e outras medidas, visando à garantia de um futuro promissor para a agricultura. 

Existem alguns cases de sucesso já desenvolvidos no Brasil que adotam a agricultura regenerativa no país, como por exemplo:

  • Rizoma Agro, empresa fundada por Pedro Diniz e seu sócio Fábio Sakamoto, que produz grãos em sistemas regenerativos orgânicos e citricultura em sistemas agroflorestais. Um ótimo case de sucesso para mostrar que a produção de grãos orgânicos em escala é possível.
  • Fazenda da Guima Café: fazenda de produção de café que está iniciando o processo de agricultura regenerativa e monitorando os impactos ambientais da sua produção.
  • Integração lavoura-pecuária-floresta (ILPF) – difundida em várias regiões, promove diversificação e recuperação de áreas degradadas.

Futuro da Agricultura Orgânica Regenerativa

No setor privado, várias empresas de alto perfil estão se envolvendo com o conceito de agricultura regenerativa. Em artigo sobre o assunto, Newton et al. (2020), listam uma série de ações que mostram o movimento no setor:

  • A Regenerative Organic Alliance (uma colaboração de agricultores, empresas e especialistas) estabeleceu um programa de certificação para agricultura regenerativa.
  • A General Mills se comprometeu a promover a agricultura regenerativa em 1 milhão de acres de terras agrícolas até 2030.
  • No setor sem fins lucrativos, várias organizações de alimentos e agricultura estão desenvolvendo e defendendo a agricultura regenerativa. Por exemplo, a Regeneration International trabalha “para promover, facilitar e acelerar a transição global para alimentos regenerativos, agricultura e gestão da terra.
  • Da mesma forma, o Savory Institute trabalha para disseminar conhecimento e promover a adoção de sistemas de produção que incorporem a agricultura regenerativa em pastagens.

Tudo isso mostra que é agricultura regenerativa a possível responsável para uma solução para o problema mundial das mudanças climáticas.

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Conclusões 

A agricultura regenerativa não é apenas uma tendência, mas uma necessidade estratégica para garantir segurança alimentar, resiliência climática e sustentabilidade dos sistemas produtivos.

Ao adotar práticas regenerativas, agricultores, empresas e consumidores contribuem para:

  • Restaurar solos;
  • Produzir alimentos mais saudáveis;
  • Reduzir emissões;
  • Construir um futuro mais equilibrado entre produção e meio ambiente.

Referências 

Gabel, M. Ho-ping: Um cenário mundial para a produção de alimentos; World Game Institute: Filadélfia, PA, EUA, 1979.

KHANGURA, R.; FERRIS, D.; WAGG, C.; BOWYER, J. Renegerative agriculture – A literature review on the practices and mechanisms used to improve soil health. Sustainability, v. 15, 2338, 2023. DOI: 10.3390/su15032338.

NEWTON, P.; CIVITA, N.; FRANKEL-GOLDWATER, L.; BERTEL, C.; JOHNS, C; GROSSMAN, J. What rs regenerative agriculture? A review of scholar and practitioner definitions based on processes and outcomes. Frontiers in Sustainable Food Sysytems, v. 4, 2020. DOI: 10.3389/fsufs.2020.577723.

Sobre a autora:

Beatriz Nastaro Boschiero

Especialista em Conteúdo na Agroadvance

Como citar este artigo:

BOSCHIERO, B.N. Agricultura regenerativa: 5 perguntas sobre as práticas essenciais para o sucesso sustentável. Blog Agoadvance. 2023. Disponível em: https://agroadvance.com.br/blog-agricultura-regenerativa-praticas/. Acesso em: 08 abr. 2026.

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