A presença de plantas de milho no campo ao longo de grande parte do ano, especialmente em sistemas de segunda safra, ampliou a exposição da cultura a diferentes insetos-praga e agentes associados a doenças.
Nesse contexto, os insetos sugadores ganham destaque por interferirem diretamente na fisiologia vegetal e, em alguns casos, atuarem como vetores de viroses que afetam o desempenho produtivo da lavoura.
Entre essas espécies, o pulgão-do-milho (Rhopalosiphum maidis), tem ocorrência frequente em áreas comerciais e merece atenção pelo rápido crescimento populacional e pela sucção de seiva.
Além disso, a infestação pode comprometer o desenvolvimento das plantas e interferir em fases sensíveis da cultura, como pendoamento e polinização.
Na cultura do milho, em que cada planta contribui diretamente para a formação das espigas e para o rendimento final, qualquer fator que limite o desenvolvimento individual pode refletir de forma direta na produtividade.
Por isso, compreender a biologia da espécie, seus danos fisiológicos e as medidas de monitoramento e manejo é etapa fundamental para a tomada de decisão no campo.
Neste artigo, você vai entender o que é o pulgão-do-milho, como identificar sua presença na lavoura, quais danos estão associados à infestação e quais práticas podem ser adotadas para o manejo da praga.
Boa leitura!
O que é o pulgão-do-milho?
O pulgão-do-milho (Rhopalosiphum maidis) é um inseto pertencente à ordem Hemiptera e à família Aphididae. A espécie é distribuída em regiões produtoras de gramíneas e apresenta ocorrência frequente em culturas como:
- milho (Zea mays),
- sorgo (Sorghum bicolor) e
- trigo (Triticum aestivum).
Esses insetos apresentam aparelho bucal do tipo sugador, adaptado à retirada de seiva diretamente dos vasos do floema.
Durante a alimentação, grandes volumes de solução rica em açúcares são ingeridos, permitindo o desenvolvimento rápido das colônias.

Uma característica marcante da espécie é a alta capacidade reprodutiva, típica dos pulgões, o que favorece a formação de populações numerosas em curtos períodos de tempo quando as condições ambientais são favoráveis.
Biologia do pulgão-do-milho
O pulgão-do-milho é um inseto de pequeno porte, com comprimento variando aproximadamente entre 0,9 e 2,2 mm. Os indivíduos podem apresentar formas aladas ou ápteras (sem asas).
A coloração do corpo geralmente varia entre tons amarelo-esverdeados e azul-esverdeados. As formas aladas apresentam asas hialinas e estrutura corporal ligeiramente menor em comparação às formas sem asas.

Reprodução e ciclo de vida do pulgão do milho
A reprodução do pulgão-do-milho ocorre predominantemente por partenogênese telítoca, processo no qual as fêmeas geram descendentes sem a participação de machos.
Dessa forma, novas fêmeas são continuamente geradas a partir das fêmeas adultas.
Outra característica importante é que os pulgões não realizam postura de ovos durante o ciclo ativo.
As ninfas são liberadas já formadas a partir do corpo da mãe (fêmea adulta), o que contribui para rápida instalação de colônias nas plantas hospedeiras.
O ciclo biológico geralmente ocorre entre 20 e 30 dias, podendo variar de acordo com as condições ambientais.
Cada fêmea pode originar dezenas de descendentes ao longo do ciclo:
- cerca de 80 descendentes em indivíduos ápteros
- Aproximadamente 50 ninfas em fêmeas aladas

Condições que favorecem a praga
A dinâmica populacional da espécie está diretamente relacionada às condições ambientais, principalmente à temperatura. Intervalos térmicos entre 10°C e 35°C favorecem o desenvolvimento das ninfas e a manutenção das colônias.
Valores fora dessa faixa térmica, bem como períodos prolongados de baixa umidade, podem interromper o desenvolvimento dos indivíduos.
Classificação taxonômica e hospedeiros do pulgão-do-milho
A coloração do pulgão adulto pode variar do verde-azulado ao preto. As formas aladas possuem asas hialinas e normalmente apresentam menor tamanho corporal quando comparadas às formas ápteras. Em condições favoráveis, os indivíduos vivem agrupados em colônias e concentram-se nas áreas de maior fluxo de seiva da planta.

Durante a alimentação, ocorre a excreção de substâncias açucaradas conhecidas como honeydew, que se depositam sobre a superfície das folhas.
Esse material favorece o desenvolvimento de fungos saprófitas responsáveis pela formação da fumagina, camada escura que reduz a interceptação de luz e compromete a atividade fotossintética da planta.
Além disso, a espécie pode atuar como vetor de vírus associados à cultura do milho.

Alimentação e efeitos fisiológicos nas plantas
O pulgão-do-milho apresenta aparelho bucal adaptado para sucção de seiva do floema. Durante o processo alimentar, o inseto ingere grandes volumes de solução rica em açúcares.
O sistema digestivo possui uma estrutura denominada câmara filtro, responsável por concentrar compostos nitrogenados e eliminar o excesso de açúcares presentes na seiva.
Como consequência desse processo, ocorre a excreção de uma substância açucarada. Esse material deposita-se sobre a superfície das folhas e cria um ambiente propício para a colonização de fungos saprófitas responsáveis pela formação da fumagina, caracterizada por uma película escura sobre os tecidos foliares.

Essa camada interfere na interceptação luminosa e na atividade fotossintética das folhas.
Além do efeito direto relacionado à sucção de seiva, o pulgão-do-milho também atua como vetor de vírus que afetam a cultura.
Entre eles destaca-se o vírus do mosaico comum do milho, cuja manifestação ocorre por meio de áreas cloróticas nas folhas, evoluindo posteriormente para padrões de mosaico com tonalidades verde-claras intercaladas com regiões normais do tecido foliar.
Interação entre plantas e pulgões
A relação entre pulgões e plantas hospedeiras envolve um conjunto complexo de interações fisiológicas e moleculares. Esses insetos apresentam aparelho bucal especializado para acessar os vasos do floema e extrair nutrientes diretamente da seiva.
Durante esse processo, os pulgões liberam compostos presentes na saliva que podem interferir nas respostas de defesa das plantas, permitindo a continuidade da alimentação e o estabelecimento das colônias.
Nas plantas, o reconhecimento do ataque ocorre por meio de mecanismos que detectam sinais associados à presença do inseto. Esses sinais podem ativar diferentes vias de defesa, incluindo respostas hormonais que regulam a produção de compostos envolvidos na proteção dos tecidos vegetais.
Em ataques de pulgões, observa-se frequentemente a ativação de respostas relacionadas ao ácido salicílico, enquanto as vias associadas ao ácido jasmônico, mais comuns em herbivoria mastigadora, tendem a ser menos expressivas.
Além das respostas hormonais, plantas também podem produzir metabólitos secundários com função defensiva. Entretanto, a eficiência desses compostos contra pulgões pode ser limitada por características do modo de alimentação do inseto.

Como o estilete penetra diretamente até o floema causando danos estruturais mínimos, muitas barreiras físicas e químicas presentes nos tecidos vegetais têm ação reduzida durante o processo alimentar.
A adaptação dos pulgões às plantas hospedeiras envolve ainda outros fatores, como a capacidade de tolerar compostos tóxicos produzidos pela planta, o ajuste do comprimento do estilete para alcançar o floema e a presença de microrganismos simbiontes que auxiliam na nutrição e na tolerância a diferentes condições ambientais.
Como identificar o pulgão-do-milho?
A identificação do pulgão-do-milho (Rhopalosiphum maidis) na lavoura é uma etapa importante para o acompanhamento da dinâmica populacional da praga e para a tomada de decisão em programas de manejo.
A observação periódica das plantas permite detectar precocemente a presença das colônias e acompanhar a evolução da infestação ao longo do ciclo da cultura.
Os pulgões costumam se concentrar em regiões de crescimento ativo das plantas, principalmente no cartucho, na face inferior das folhas e nas proximidades do pendão. Em fases mais avançadas da cultura, também podem ser observados em pedúnculos e folhas adjacentes às estruturas reprodutivas.
Nessas áreas, os insetos se agrupam formando colônias, geralmente compostas por indivíduos ápteros e, em determinadas condições, também por formas aladas. Visualmente, os pulgões apresentam pequeno tamanho, variando aproximadamente entre 0,9 e 2,2 mm de comprimento. A coloração pode variar entre tons de verde-amarelado, verde-azulado ou levemente escurecido.

As formas aladas possuem asas transparentes e geralmente surgem quando há aumento da densidade populacional ou alterações nas condições ambientais.
Danos na fase reprodutiva da cultura
Embora a infestação possa ocorrer em diferentes estádios da cultura, os maiores prejuízos tendem a ser observados durante o período de pendoamento e polinização. Colônias estabelecidas no pendão podem interferir na liberação do pólen, prejudicando a fecundação das espigas.
Em situações de infestação intensa, pulgões podem se concentrar no pendão, pedúnculo e folhas adjacentes, dificultando o processo de polinização. Em condições de déficit hídrico, o acúmulo do honeydew sobre os estigmas da espiga pode formar uma camada que impede a deposição adequada dos grãos de pólen.
Plantas severamente atacadas podem apresentar sintomas como encarquilhamento foliar, clorose e murcha, além da formação de espigas mal granadas ou estéreis. Esses efeitos refletem diretamente na formação dos grãos e no desempenho produtivo da lavoura.
Dispersão do pulgão na lavoura
A presença de formas aladas ocorre principalmente em situações associadas à densidade populacional elevada ou a alterações ambientais.
Essas formas permitem a dispersão para novas plantas hospedeiras e contribuem para a colonização de áreas ainda não infestadas.
Períodos chuvosos e ambientes com alta densidade de pulgões favorecem o surgimento de indivíduos alados, que podem se deslocar entre plantas e iniciar novas colônias em diferentes pontos da lavoura.
Métodos de manejo do pulgão-do-milho
Controle biológico do pulgão
O pulgão-do-milho apresenta diversos inimigos naturais associados ao agroecossistema do milho, que podem ser utilizados no controle biológico. Entre eles destacam-se:
- Parasitoides do gênero Aphidius,
- Predadores como joaninhas (Coccinellidae),
- Larvas de sirfídeos,
- Crisopídeos e
- Tesourinhas.
Os parasitoides depositam ovos no interior das ninfas de pulgões, levando à formação das chamadas múmias, estágio em que o pulgão parasitado deixa de se desenvolver.
A presença desses organismos exerce pressão natural sobre as populações da praga e pode contribuir para a estabilização das colônias em níveis menos expressivos.
Monitoramento da lavoura e escolha de híbridos
A inspeção periódica das plantas permite detectar a presença inicial da praga e acompanhar sua evolução populacional. A inspeção deve priorizar: cartucho, folhas superiores e pendões.
O monitoramento constitui etapa central do manejo, pois possibilita a tomada de decisão baseada na intensidade de infestação observada.
A escolha de híbridos com menor sensibilidade ao ataque do pulgão também pode contribuir para reduzir o impacto da praga em determinadas regiões produtoras.
Controle químico
Em situações de infestação elevada, aplicações de inseticidas podem ser consideradas. Produtos à base de neonicotinoides apresentam registros de uso no controle de pulgões em milho.
Em campo, aplicações costumam ser recomendadas quando a infestação ultrapassa aproximadamente 100 pulgões por planta em grande proporção da lavoura.
Condições de déficit hídrico e baixa umidade relativa do ar podem intensificar os efeitos da infestação, justificando intervenções quando a população atinge níveis elevados.

Conclusão
O pulgão-do-milho (Rhopalosiphum maidis) está entre os insetos sugadores frequentemente registrados em lavouras de milho e pode provocar impactos agronômicos relevantes quando ocorre em elevadas densidades populacionais.
A compreensão da biologia da espécie, de sua dinâmica populacional e dos fatores ambientais que favorecem sua multiplicação constitui elemento central para o manejo adequado da praga. A identificação precoce das colônias na lavoura permite acompanhar a evolução da infestação e direcionar a tomada de decisão com maior precisão.
Nesse contexto, o monitoramento periódico das plantas, a conservação de inimigos naturais presentes no agroecossistema e a escolha de híbridos adaptados às condições regionais contribuem para reduzir o impacto da praga.
Em situações de infestações elevadas, o uso criterioso de inseticidas registrados para a cultura pode ser considerado como ferramenta complementar dentro de programas de manejo.
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Referências
AGROFIT – Sistemas de agrotóxicos fitossanitários. Ministério da Agricultura e Pecuária. Disponível em: https://agrofit.agricultura.gov.br/agrofit_cons/principal_agrofit_cons. Acesso em: 11 mar. 2026.
SILVA, O. C. da; SCHIPANSKI, C. A. Manual de Identificação e Manejo das Doenças do Milho. 3ª ed. Castro: Fundação ABC, 2011
IOWA STATE UNIVERSITY. Corn Field Guide. 2009.
CRUZ, Ivan. Manual de Identificação de Pragas do Milho e de seus Principais Agentes de Controle Biológico. Brasília: Embrapa, 2008.
Embrapa Trigo. Pulgão-do-milho (Rhopalosiphum maidis). 2006, Disponível em: https://ainfo.cnptia.embrapa.br/digital/bitstream/item/74021/1/Pulgao-do-milho.pdf
TOBIAS, L. H. et al. Incidência do pulgão-do-milho em resposta ao tratamento de sementes com inseticidas químicos. XII Jornada Acadêmica da Embrapa Soja, 2017.
Sobre o autor:

Alasse Oliveira da Silva
Doutorando em Produção Vegetal (ESALQ/USP)
- Engenheiro agrônomo (UFRA) e Técnico em agronegócio
- Mestre e especialista em Produção Vegetal (ESALQ/USP)
Como citar este artigo:
SILVA, A. O. Pulgão do milho: o que é, danos e como controlar essa praga? Blog Agroadvance. Publicado: 18 Mar. 2026. Disponível em: https://agroadvance.com.br/blog-pulgao-do-milho-rhopalosiphum-maidis/. Acesso: 18 mar. 2026.



