O desafio de empreender em um país de contrastes
Em minhas conversas, seja com jovens que estão começando uma startup ou com executivos de grandes corporações, uma pergunta sempre retorna: por que é tão difícil empreender no Brasil?
Tive o privilégio de viver essa questão de todos os lados do balcão — na indústria, na distribuição e com o pé na terra, como agricultor.
Hoje, quero compartilhar a reflexão de quem primeiro aprendeu a ler os mapas de navegação dentro de grandes companhias, para depois ter que construir o próprio barco em meio a uma tempestade mostrando os principais desafios de empreender no agro.
A Escola Corporativa: Aprendendo a Ler os Mapas
Por anos, minha carreira foi forjada no coração de gigantes como Syngenta, Bayer e Albaugh. Ali, atuei como um “intraempreendedor”: um inovador com a segurança e o sobrenome de uma grande corporação.
A missão era ousar, mas dentro de uma estrutura com processos claros, orçamentos robustos e um “pai rico” para amparar as quedas.
Foi uma escola fundamental. Aprendi a disciplina dos processos, a importância da gestão de recursos por “gates” e a calcular riscos.
Esse período me deu o mapa. O que ele não poderia me ensinar era como navegar sem um navio pronto.
O Salto para a arena: O desafio de construir o próprio barco
Após anos sob esse amparo, a chama de construir algo com minha própria assinatura falou mais alto. E a transição para o empreendedorismo é uma experiência de honestidade brutal.
A rede de segurança desaparece. É aqui que o debate abstrato sobre as dificuldades de empreender se torna uma realidade diária e implacável.
Empreender em nosso país é um ato de resiliência quase teimosa. É como ser um agricultor que decide plantar em um solo incrivelmente fértil, mas sob um clima imprevisível, com secas inesperadas e tempestades regulatórias que podem destruir tudo.
O “Custo Brasil” e o tempo perdido com burocracia
O primeiro grande desafio que salta do papel para a vida real é o “Custo Brasil“.
E não falo apenas da carga tributária, um labirinto por si só. Falo do custo do tempo. O tempo que perdemos com burocracia, com exigências que mudam a cada novo governo e com uma insegurança jurídica que transforma qualquer planejamento de longo prazo em um ato de fé.
Enquanto o empreendedor lá fora foca 100% em produto, mercado e cliente, nós gastamos uma energia preciosa apenas tentando entender as regras de um jogo que muda constantemente.
O abismo entre ideia e capital: o funil do investimento
O segundo desafio é o abismo entre a ideia e o capital.
Temos um ecossistema de inovação pulsante, mas o acesso a investimento, especialmente para o agronegócio, ainda é um funil estreito.
O capital de risco muitas vezes parece mais avesso ao risco do que deveria, buscando modelos já validados em outros mercados. Conectar a Faria Lima com a poeira do campo ainda é nossa grande missão.
Como empreendedor, você sente na pele a dificuldade de vender um sonho quando o interlocutor só quer ver planilhas que o nosso ambiente de negócios torna quase impossíveis de garantir.
Nessa arena, o especialista que eu era precisou dar lugar a um generalista por pura necessidade. Fluxo de caixa, captação, marketing e cultura organizacional se tornaram pautas diárias, e o orçamento, antes um dado, virou uma meta suada.
A Colheita em Solo Desafiador: Por que Continuamos Plantando?
Então, por que insistir? A resposta está na outra ponta da balança: empreendemos porque a terra é fértil demais para ser ignorada.
O Brasil não é um país de problemas; é um continente de oportunidades. As dores do nosso mercado — logística, crédito, gestão — são convites abertos para a inovação.
E é aqui que entra o nosso maior diferencial: o fator humano. O empreendedor brasileiro é forjado no fogo. A criatividade que nasce da escassez e a resiliência para recomeçar após um revés são ativos que não se ensinam em nenhuma escola de negócios do mundo.
Hoje, percebo que minha trajetória não foi uma ruptura, mas uma evolução.
- A disciplina da Bayer organiza o caos das minhas startups.
- A visão global da Syngenta me ajuda a posicionar os negócios.
- Sinto-me como o agricultor, o herói da minha jornada: aquele que planta, assume os riscos, luta contra um sistema que nem sempre ajuda e, apesar de tudo, sente que está cumprindo seu papel.
Empreender aqui não é para amadores. É uma maratona. É difícil, complexo e, por vezes, frustrante. Mas a colheita, quando vem, justifica cada gota de suor. E é por isso que, apesar de tudo, continuamos plantando.

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Sobre o autor:

Renato Seraphim
Especialista em Estratégia e Gestão para o Agronegócio de Alta Performance
- Especializações em agronegócio pelo PENSA - USP, FDC, INSEAD e Purdue University.
- Pós-Graduação em Marketing (FGV)
- Engenheiro Agrônomo (UNESP/Jaboticabal) com mais de 30 anos de experiência.
Como citar este artigo:
SERAPHIM, R. A. O Desafio de Empreender no Brasil: a arte de construir um barco em meio à tempestade. Blog Agroadvance. Publicado em: 05 Nov. 2025. Disponível em: https://agroadvance.com.br/blog-o-desafio-de-empreender-no-brasilade/. Acesso: 13 jun. 2026.



