Os nematoides estão entre os principais desafios fitossanitários enfrentados por produtores de grandes culturas no Brasil. Estima-se que causem perdas anuais que superam R$ 35 bilhões, sendo R$ 16,2 bilhões apenas na soja (Embrapa, 2023).
O manejo adequado dessas pragas é determinante para garantir produtividade e estabilidade econômica na lavoura. Com o avanço tecnológico, o mercado oferece diversas opções de nematicidas, produtos destinados ao controle de nematoides. Porém, é comum a dúvida entre adotar nematicidas químicos, conhecidos pela ação rápida, ou bionematicidas, que se destacam por menor impacto ambiental e segurança no campo.
Como escolher o produto ideal? Quais fatores devem ser considerados antes da aplicação? Qual o custo médio e a eficiência de cada grupo de nematicida?
Neste artigo, você vai entender a diferença entre os tipos de nematicidas, seus modos de ação, vantagens, limitações e como integrá-los às demais práticas do manejo integrado de nematoides.
Vamos entender um pouco mais sobre o assunto? Boa leitura!
O que são nematoides e quais os principais tipos?
Nematoides fitoparasitas (ou fitonematoides) são vermes microscópicos que vivem no solo e atacam as raízes de plantas cultivadas. Sua ação compromete a absorção de nutrientes, reduz a eficiência fisiológica e interfere diretamente no crescimento e produtividade das lavouras.

Estima-se que mais de 100 espécies estejam associadas a perdas econômicas em diferentes culturas. No Brasil, os gêneros mais relevantes são Meloidogyne, Pratylenchus, Heterodera, Rotylenchulus e Helicotylenchus, cada um com mecanismos distintos de infecção e reprodução.
- O gênero Meloidogyne (nematoide das galhas) é o mais frequente. Ele induz a formação de nódulos nas raízes, o que prejudica a fisiologia da planta.
- Já Pratylenchus (nematoide das lesões radiculares) penetra e se move dentro dos tecidos, formando canais necróticos.
- Heterodera (nematoide de cisto) e Rotylenchulus (semiendoparasita) apresentam estruturas que resistem no solo por anos.

Figura 2. Raízes de plantas de soja com sintomas visuais de ataque por fitonematoides, evidenciando galhas formadas por Meloidogyne spp. (A) e redução do volume e ramificação das raízes secundárias (B), características frequentemente associadas à presença de nematoides das galhas e das lesões radiculares. Fonte: Santos, P. S.; Bellé, C.; Verssiani, J. B. S. (2025).
Você sabia?
O tipo de solo influencia diretamente a ocorrência de nematoides! Em solos arenosos, a mobilidade dos nematoides é maior, favorecendo infestações severas, especialmente por Meloidogyne. Já em solos argilosos, a movimentação é limitada, mas a eficácia de nematicidas e bioinsumos pode ser reduzida pela alta retenção nos colóides do solo. Por isso, o manejo deve ser adaptado conforme a textura do solo para garantir controle efetivo (LOPES et al., 2021; EMBRAPA, 2023).
Espécies de nematoides e os prejuízos invisíveis
As principais espécies associadas à diminuição da produtividade da cultura da soja são:
- nematoide-do-cisto-da-soja (Heterodera glycines),
- nematoides-das-galhas (Meloidogyne javanica e M. incognita),
- nematoide-das-lesões-radiculares (Pratylenchus brachyurus),
- nematoide-reniforme (Rotylenchulus reniformis).
Algumas espécies emergentes, como Helicotylenchus dihystera, Scutellonema brachyurus, Tubixaba tuxaua e Aphelenchoides besseyi, têm sido relatadas, embora com informações ainda limitadas sobre seu parasitismo e nível de dano econômico (Castro et al., 2024).
Esses nematoides causam perdas produtivas expressivas. Estima-se que os danos econômicos provocados por nematoides na soja brasileira cheguem a R$ 27,7 bilhões por ano, podendo alcançar até R$ 374 bilhões em menos de uma década, caso o problema não seja controlado adequadamente (Syngenta Brasil, 2022).
A maioria dessas espécies encontra-se disseminada em quase todas as regiões produtoras do país. Seus danos podem variar entre 10% e 90% de acordo com o nível de infestação.
Como o parasitismo ocorre de forma subterrânea, muitos sintomas são atribuídos a outros fatores como compactação, encharcamento ou deficiência nutricional, dificultando o diagnóstico correto.
Os sintomas nas raízes incluem galhas, lesões escuras, redução no volume e crescimento das raízes secundárias. Na parte aérea, observa-se amarelecimento, reboleiras de plantas enfraquecidas e murchamento em períodos secos.

O que são nematicidas e como atuam no controle de nematoides?
Nematicidas são produtos fitossanitários, geralmente químico ou biológico, desenvolvidos para controlar ou eliminar nematoides fitoparasitas do solo. Esses organismos microscópicos atacam principalmente as raízes das plantas, interferindo na absorção de água e nutrientes, comprometendo o crescimento e a produtividade das culturas.
Os diferentes modos de ação variam conforme o grupo químico ou biológico. Produtos de contato (I) agem diretamente sobre o nematoide no solo. Já os sistêmicos (II) são absorvidos pela planta e atingem o parasita durante sua alimentação. Fumigantes (III) atuam em forma de gás e os protetores biológicos criam barreiras ou ativam defesas nas raízes.
O alvo principal dos nematicidas são as fases juvenis infectantes (J2) e os adultos, que promovem a reprodução e disseminação. Controlar esses estágios reduz a densidade populacional e a pressão da praga nas fases seguintes do ciclo.
Nematicidas químicos: eficácia, cuidados e quando usar
Nematicidas químicos são largamente utilizados por produtores que enfrentam altos níveis de infestação. Seu principal diferencial é a velocidade de ação, proporcionando alívio imediato à pressão dos nematoides.
Eles se dividem em dois grupos principais:
- Os fumigantes, como o 1,3-dicloropropeno e a cloropicrina, volatilizam no solo, atingindo organismos em diferentes profundidades.
- Já os não fumigantes, como o oxamyl e o fluopiram, atuam por contato direto ou são absorvidos pelas raízes, exercendo ação sistêmica.
Esses compostos interferem em processos químicos e bioquímicos dos nematoides. Alguns inibem a enzima acetilcolinesterase, gerando paralisia. Outros bloqueiam canais de íons e vias respiratórias, resultando em morte celular e falência do organismo.
Entretanto, o uso desses produtos requer cautela. Por serem tóxicos, exigem equipamentos de proteção individual (EPIs) e atenção quanto à carência para reentrada. Além disso, podem afetar organismos benéficos do solo e causar contaminação ambiental se mal utilizados.
O custo médio por hectare para controle com nematicidas químicos varia de R$ 300 a R$ 600 (preço médio como referência o ano de 2024), a depender da formulação, dose, tipo de aplicação e cultura envolvida. Produtos à base de fluopiram, como o Velum®, são mais caros, porém oferecem alta eficácia mesmo em baixas dosagens.
Entre os princípios ativos mais comuns no mercado estão: fluopiram, oxamyl, fostiazato e abamectina. Esses produtos são indicados em momentos estratégicos, como no pré-plantio, tratamento de sementes ou aplicação no sulco, para garantir proteção das raízes no início do desenvolvimento da lavoura.
Nematicidas biológicos: vantagens, limitações e custo-benefício
Nematicidas biológicos (bionematicidas) têm ganhado espaço no mercado nacional como alternativa segura e com menor impacto ambiental.
Utilizam microrganismos vivos ou seus compostos para atuar contra nematoides, promovendo proteção das raízes e contribuindo com o equilíbrio biológico do solo.
A Figura 4 apresenta a diversidade de microrganismos utilizados como ingredientes ativos em bionematicidas registrados no Brasil, destacando o predomínio das bactérias do gênero Bacillus. Entre os mais recorrentes estão B. amyloliquefaciens e B. subtilis, seguidos pelos fungos Purpureocillium lilacinum e Trichoderma harzianum, evidenciando sua utilização no controle biológico de fitonematoides.

As bactérias do gênero Bacillus, como B. subtilis e B. amyloliquefaciens, estão presentes em 70% dos bionematicidas comerciais. Elas formam biofilmes protetores nas raízes e produzem metabólitos tóxicos que inibem a penetração e desenvolvimento dos nematoides.
Fungos como Trichoderma harzianum, Purpureocillium lilacinum e Pochonia chlamydosporia atuam parasitando ovos e juvenis. Também liberam enzimas que degradam a parede celular do nematoide, reduzindo sua capacidade reprodutiva e disseminação.
Esses agentes biológicos atuam melhor em estratégias preventivas, especialmente em áreas com baixa a média infestação. Podem ser aplicados via tratamento de sementes, sulco de plantio ou fertirrigação, sempre com umidade adequada no solo para garantir sobrevivência e eficácia.
As principais vantagens dos bionematicidas incluem baixa toxicidade, ausência de resíduos, compatibilidade com a vida no solo e menor risco de surgimento de resistência. Também são mais seguros para o aplicador e o ambiente agrícola.
Entretanto, os desafios incluem menor rapidez de ação, sensibilidade a variações ambientais e necessidade de armazenagem adequada. Em alguns casos, exigem reaplicações para manutenção da população microbiana ativa na rizosfera.
Os custos por hectare variam de R$ 200 a R$ 500. Produtos como Rizotec®, Biovalens®, Nemacontrol® e as formulações da Biotrop têm se destacado por apresentarem resultados em diversas culturas.

Comparativo técnico entre nematicidas químicos e biológicos: qual o melhor?
1. Espectro de ação e eficiência de controle
Os nematicidas químicos, como fluopiram, oxamyl e fenamifos, têm sido utilizados por apresentarem ação rápida e elevada toxicidade sobre juvenis infectantes (J2), promovendo uma redução imediata na população do solo.
No entanto, a persistência limitada no solo e a possível seleção de populações resistentes são desvantagens recorrentes em sistemas intensivos.
Por outro lado, os bionematicidas apresentam múltiplos modos de ação, o que dificulta a resistência. Segundo a Embrapa (2023), cerca de 70% dos produtos biológicos utilizam bactérias do gênero Bacillus, principalmente B. amyloliquefaciens e B. subtilis, que atuam formando barreiras físico-químicas nas raízes, além de liberar metabólitos tóxicos que desorientam os nematoides.
Além disso, fungos como Trichoderma harzianum e Purpureocillium lilacinum apresentam ação por parasitismo direto dos ovos, juvenis e até adultos, o que proporciona controle prolongado e efeito residual relevante (SANTIN, 2008; ISAAC et al., 2024).
2. Segurança ao aplicador e ao meio ambiente
Nematicidas químicos apresentam risco toxicológico elevado e restrições de uso em áreas próximas a mananciais, pela possibilidade de lixiviação e contaminação do lençol freático.
Já os produtos biológicos, por serem à base de microrganismos naturais, apresentam menor risco ambiental e são considerados seguros ao aplicador, desde que respeitadas as boas práticas de transporte e armazenamento (Embrapa, 2023).
3. Disponibilidade comercial e registro
Atualmente o Brasil conta com 116 bionematicidas comerciais registrados, contra apenas 39 nematicidas químicos (AGROFIT, Ago/2024). Isso reflete não apenas a expansão do mercado biológico, que cresceu de 6% para 37% do faturamento total de nematicidas entre 2015 e 2022, como também o aumento da confiança na eficácia de agentes biológicos validados cientificamente.
Além disso, as formulações biológicas têm se diversificado, com consórcios de microrganismos, como a combinação de B. subtilis + B. licheniformis + P. lilacinus, aumentando a amplitude de ação sobre espécies como Meloidogyne incognita, Pratylenchus brachyurus e Heterodera glycines (Embrapa, 2023).
4. Custo-benefício e persistência no solo
Embora os químicos apresentem impacto rápido, sua reaplicação é frequente e os custos por hectare podem ultrapassar R$ 500, especialmente em áreas com alta pressão de infestação.
Já os bionematicidas, embora apresentem custo médio menor (R$ 150 a R$ 350/ha dependendo da formulação e empresa), exigem condições adequadas de temperatura, umidade e solo biológico ativo para garantir rapida ação.
Microrganismos como Pochonia chlamydosporia e Pasteuria nishizawae permanecem ativos por longos períodos no solo, especialmente quando aplicados de forma preventiva, o que reduz a necessidade de reaplicações sazonais e permite maior equilíbrio do agroecossistema.
5. Adequação ao Manejo Integrado de Nematoides (MIP)
A principal recomendação é que o controle químico ou biológico não deve ser adotado de forma isolada. O sucesso no controle dos nematoides depende da integração de estratégias, como:
- Uso de cultivares resistentes.
- Rotação de culturas com espécies não hospedeiras.
- Adubação verde com plantas antagonistas.
- Diagnóstico laboratorial para identificação da espécie.
Produtos biológicos, principalmente os com ação endofítica como Trichoderma sp., têm potencial para ativar defesas na planta e complementar o controle químico em áreas com histórico severo, promovendo um manejo mais adequado, a depender da situação.
Dúvidas comuns sobre nematicidas
Para que serve o nematicida?
Nematicidas são produtos que reduzem ou eliminam populações de nematoides no solo, protegendo as raízes das plantas contra os danos causados por esses parasitas.
Qual o melhor veneno para nematoides?
Depende da espécie de nematoide, cultura, tipo de solo e histórico da área. Nematicidas químicos são mais indicados para infestações severas, enquanto os bionematicidas (nematicidas biológicos) são eficazes em manejo preventivo.
Qual o melhor nematicida do mercado?
Não existe o “melhor” produto. Existem muitos produtos bons e ruins no mercado e tudo depende do nematoide presente na área e do registro do produto. O nematicida químico é registrado para a cultura, mas o nematicida biológico é registrado por nematoide. O controle eficiente do nematoide, exige o manejo adequado do sistema, conforme vídeo da professora Angelica Miamoto.
Conclusão
O uso de nematicidas, sejam eles químicos ou biológicos, representa uma ferramenta indispensável no manejo moderno de nematoides em grandes culturas.
A escolha entre um nematicida químico, com ação rápida e direta, ou um bionematicida, com efeito mais gradual e ecológico, deve considerar fatores como o tipo de nematoide presente, nível de infestação, cultura cultivada, tipo de solo e viabilidade econômica.
Os químicos oferecem resposta imediata em áreas com alta pressão, mas exigem cautela quanto ao impacto ambiental e à saúde. Já os biológicos, quando bem-posicionados, entregam resultados consistentes com menor risco ecológico e promovem uma interação mais equilibrada com o agroecossistema.
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Referências
ROSA, J. M. O.; WESTERICH, J. N.; WILCKEN, S. R. S. Nematoides das galhas em áreas de cultivo de olerícolas no estado de São Paulo. Nematologia Brasileira, Piracicaba , v. 37, n. 1-2, p. 15-19, 2013.
COSTA MANSO, E.; TENENTE, R.C.V.; FERRAZ , L.C.C.B.; OLIVEIRA, R.S.; MESQUITA, R. Catálogo de nematóides fitoparasitos encontrados associados a diferentes tipos de plantas no Brasil. Brasília: Embrapa–SPI, 1994.
Sobre o autor:

Alasse Oliveira da Silva
Doutorando em Produção Vegetal (ESALQ/USP)
- Engenheiro agrônomo (UFRA) e Técnico em agronegócio
- Mestre e especialista em Produção Vegetal (ESALQ/USP)
Como citar este artigo:
SILVA, A.O. Nematicidas para o controle de nematoides: como escolher entre químicos e biológicos? Blog Agroadvance. 2025. Disponível em: https://agroadvance.com.br/blog-nematicidas-quimicos-ou-biologicos/. Data de acesso: 01 abr. 2026.



