A produção de laranja tornou-se um indicador estratégico da fruticultura global. O fruto abastece o mercado in natura, a indústria de sucos, a formulação de bebidas e uma cadeia de ingredientes que envolve óleos essenciais, pectina e subprodutos destinados à nutrição animal.
De acordo com o Departamento Americano de Agricultura (USDA, 2025), a produção de laranja na safra 2024/2025 foi de 45,22 milhões de toneladas métricas. A laranja, responde por mais da metade da produção mundial de citrus (que inclui o grupo inteiro de frutas cítricas: laranja, limão, lima ácida, tangerina, grapefruit, pomelo, cidra, etc) que é de 76 milhões de toneladas.
O Brasil ocupa posição de liderança. O país é o maior produtor mundial de laranja e o principal exportador de suco concentrado, respondendo por algo em torno de 70 a 75% das exportações globais de suco de laranja, com embarques que giraram em torno de 1,3 milhão de toneladas e receita próxima de 2 bilhões de dólares em 2022 (USDA, 2025).
No território brasileiro, a laranja segue fortemente cultivada no cinturão citrícola de São Paulo e Triângulo/Sudoeste Mineiro, apoiada em uma infraestrutura industrial consolidada e em logística orientada à exportação.
Estudos recentes de Embrapa, IBGE e parceiros mostram, porém, uma realocação interna dos polos, motivada por doenças, clima e preço da terra (Embrapa, 2025; IBGE, 2025).
Este conteúdo apresenta um panorama técnico dos maiores produtores de laranja do mundo, discute a concentração territorial da citricultura brasileira, destaca o impacto do greening e descreve tendências de mercado e de inovação que devem orientar o posicionamento da cadeia nos próximos ciclos.
Boa leitura!
Citricultura de laranja no contexto global
A citricultura dedicada à laranja compreende sistemas de produção voltados à colheita de frutos para consumo in natura, para processamento industrial ou para ambas as finalidades.
Os arranjos tecnológicos envolvem desde pomares convencionais de sequeiro até plantios irrigados com alta densidade, manejo nutricional ajustado e integração direta com plantas industriais.
Dados consolidados pela FAO e por relatórios de mercado apontam que a produção global de laranja se mantém em patamar elevado, apesar da tendência de queda de 0,44% ao ano ao longo dos últimos 10 anos (Figura 1), com oscilações associadas a clima, pragas, doenças e preços internacionais.

Ranking dos 10 maiores produtores de laranja do mundo
Brasil, China, União Europeia, México, Egito, Estados Unidos, África do Sul, Peru, Vietnã e Marrocos são os dez principais produtores mundiais de laranja, respondendo por 97% da produção mundial (o equivalente a 43,11 milhões de toneladas métricas em 2024/2025, do total estimado de 45,22 milhões).
Há, portanto, participação expressiva de países do Mediterrâneo e da África do Norte, que abastecem nichos sazonais de exportação para a Europa e para a Rússia (FAO, 2024; USDA, 2025).
A Figura 2 mostra os maiores produtores de laranja do mundo, bem como suas respectivas produções em 2024/2025, de acordo com dados da USDA (2025). Os principais destaques entre os principais produtores de laranja na safra 2024/2025 foram:
- 1º) Brasil: 13 milhões de toneladas métricas (29% da produção mundial)
- 2º) China: 7,62 milhões de toneladas métricas (17% da produção mundial)
- 3º) União Europeia: 5,66 milhões de toneladas métricas (13% da produção mundial)

A laranja domina o “mix” de citros comercializados. Entre as espécies cultivadas, as laranjas representaram mais de metade do volume mundial de citros em 2022, condição que reforça o peso deste fruto na segurança alimentar e na oferta de vitamina C, fibras e compostos bioativos à população urbana (FAO, 2024).
A laranja contém um conjunto de compostos bioativos associados ao funcionamento adequado dos sistemas imunológico, metabólico e cardiovascular. A literatura descreve que o teor elevado de vitamina C exerce papel direto na neutralização de radicais livres e na proteção de estruturas celulares.
A fração de fibras insolúveis e solúveis contribui para o trânsito intestinal e para a modulação pós-prandial da glicemia, além de favorecer a microbiota colônica.
O potássio atua na regulação osmótica e na manutenção do ritmo cardíaco, enquanto o folato e a vitamina A participam de rotas bioquímicas ligadas à integridade epitelial, síntese de DNA e desenvolvimento visual.
Produção de laranja no Brasil e o mercado mundial de laranja e de suco
No Brasil, a laranja consolidou uma plataforma de negócio baseada em grandes grupos citrícolas, cooperativas e milhares de produtores independentes.
O país lidera o ranking de produção e, sobretudo, o de exportação de suco de laranja, produto que responde por parcela significativa da receita cambial da fruticultura.
Relatórios de CitrusBR e de instituições ligadas ao agronegócio mostram que o país responde por mais de 70% do suco de laranja exportado no planeta, tendo como principais destinos a União Europeia, os Estados Unidos e o Japão.

Mesmo em safras com menor volume de fruta, marcadas por estiagens e por maior pressão de doenças, o valor exportado permanece elevado em razão dos preços internacionais do suco, o que mantém a citricultura como ativo estratégico da agenda de comércio exterior brasileiro (Cepea, 2023; Datamar, 2025).
Maiores produtores de laranja no Brasil: Visão territorial da produção
A distribuição territorial da citricultura no Brasil é assimétrica. A maior parte da produção está concentrada em São Paulo, seguido por Minas Gerais e, em menor escala, por estados do Nordeste, com destaque para Sergipe, que se projeta como polo emergente na região (Sergipe, 2025).

Nas últimas safras, análises da Embrapa e de veículos especializados em economia agrícola evidenciaram um reposicionamento interno do cultivo dentro do próprio estado de São Paulo.
Regiões tradicionais, como Araraquara, Jaboticabal e São José do Rio Preto, vêm perdendo área e peso relativo, enquanto novos polos se consolidam em direção ao centro-oeste paulista e ao sudoeste mineiro.
Os dados da plataforma Macrologística Agropecuária mostram que quatro microrregiões paulistas passaram a responder por uma fatia expressiva da colheita nacional de laranja. Levantamentos recentes indicam que os municípios de Avaré, Bauru, Botucatu e São João da Boa Vista são os maiores produtores de laranja do Brasil e concentram cerca de um quarto da produção brasileira, reforçando o caráter concentrado da cadeia.
A Tabela 2 apresenta o volume produzido e a área colhida em cinco microrregiões paulistas com maior expressão na citricultura.
Tabela 2. Os cinco maiores municípios produtores de laranja no Brasil (ano atualizado de 2023) em toneladas/ha e área (ha)
| Município | Quantidade Produzida (t ou m³) | Área (ha) |
| Avaré / SP | 1.370.575 | 33.647 |
| Bauru / SP | 1.147.782 | 28.357 |
| Botucatu / SP | 1.101.940 | 21.530 |
| São João da Boa Vista / SP | 982.549 | 23.438 |
| Moji Mirim / SP | 849.843 | 21.813 |
A leitura conjunta dos dados revela um perfil de alta intensidade de uso da terra, com pomares tecnificados e vínculo direto com plantas industriais de suco.
Essa concentração territorial otimiza a logística de colheita e transporte, mas amplia a exposição do sistema a riscos climáticos e sanitários localizados.
Doenças, clima e reconfiguração do cinturão citrícola
O redesenho da geografia da laranja em São Paulo guarda forte relação com a doença do greening (Huanglongbing, HLB). Estudos apontam que quase 48% do cinturão citrícola brasileiro apresenta áreas afetadas pelo patógeno, o que implica perda de frutos, queda de produtividade econômica dos pomares e necessidade constante de erradicação de plantas (Fundecitrus, 2025).

A incidência progressiva de greening em regiões tradicionais estimulou a migração de plantios para áreas com menor pressão da doença, principalmente em direção a Avaré, Bauru, Botucatu e São João da Boa Vista.
Variações de altitude, temperatura, regime de chuvas e isolamento relativo em relação a focos antigos explicam parte deste movimento, associado também à busca por terras com valores mais competitivos.
Além do greening, episódios de seca, ondas de calor e eventos extremos, como estiagens prolongadas durante o enchimento dos frutos, vêm afetando o desempenho médio dos pomares.
Relatórios do USDA projetam oscilações significativas na produção brasileira de laranja para 2024/25, com safra em torno de 230,9 milhões de caixas de 40,8 kg, seguida de recuperação na temporada seguinte, caso as condições climáticas se normalizem (USDA, 2025; Fundecitrus, 2025).
Mesmo com o avanço do greening (a doença que mais desafia a citricultura mundial) o Brasil mantém a liderança global na produção de laranja graças à combinação entre escala produtiva, capacidade de reposicionamento territorial e alto nível tecnológico das propriedades comerciais.
O deslocamento gradual do cinturão citrícola para regiões menos pressionadas pela doença, aliado ao manejo cada vez mais rigoroso do vetor e à integração eficiente com a indústria de suco, sustenta volumes que nenhum outro país consegue igualar.
Essa reorganização espacial explica por que, mesmo sob um cenário fitossanitário adverso, o Brasil segue responsável por parcela majoritária da produção mundial.
Indústria de suco e comércio internacional
A cadeia de valor da laranja está fortemente alinhada à indústria de sucos. O Brasil estrutura uma das mais complexas redes de processamento de frutas do mundo, com unidades industriais próximas aos pomares e integração logística com terminais portuários especializados.
O mix de produtos inclui suco concentrado congelado (FCOJ) e sucos prontos para consumo (NFC), além de óleo essencial extraído da casca, d-limoneno e polpa cítrica peletizada, utilizada em rações. Cada hectare de pomar alimenta um pipeline industrial que gera receita em diferentes elos, do produtor rural ao setor de serviços de transporte, armazenamento e exportação.
Dados da CitrusBR e de instituições de mercado indicam que, entre 2022 e 2023, o país exportou mais de 750 mil toneladas de suco em equivalente FCOJ em algumas janelas de análise, com receita superior a 1,5 bilhão de dólares no período de julho a fevereiro (Cepea, 2023; CitrusBR, 2024).
A União Europeia permanece como principal destino, seguida pelos Estados Unidos e pelo Japão.
O ambiente geopolítico recente, com discussões sobre tarifas adicionais sobre importações brasileiras, reforça a necessidade de monitoramento constante de riscos regulatórios e comerciais pelo setor exportador (Reuters, 2025).

Novas fronteiras citrícolas e oportunidades de diferenciação
Enquanto São Paulo preserva a liderança, outros estados passam por trajetória de consolidação na citricultura. No Nordeste, Sergipe aparece como player relevante, combinando bons índices de produtividade agrícola com vocação exportadora, ancorada em investimentos em irrigação, tecnologia de colheita e acordos com a indústria de sucos (Sergipe, 2025).
Na literatura observa-se o avanço de modelos de negócio que conectam laranja a cadeias de alimentos saudáveis e rastreáveis, com foco em certificações de boas práticas agrícolas, rastreabilidade por lote e uso intensivo de bioinsumos no manejo nutricional e fitossanitário.
O objetivo é atender nichos de alto valor agregado no varejo e em serviços de alimentação, principalmente na Europa e na Ásia.
Outra frente em consolidação é a diversificação de cultivares, com uso de porta-enxertos e combinações copa-porta-enxerto mais tolerantes ao greening, à seca e a solos com diferentes níveis de saturação por bases.
Embora nenhuma cultivar elimine o risco da doença, experimentos conduzidos por centros de pesquisa e empresas privadas buscam alongar a vida útil do pomar e reduzir a vulnerabilidade ao patógeno.
Desafios estruturais e agenda de pesquisa
Apesar da relevância econômica, a citricultura brasileira enfrenta um conjunto de desafios estruturais:
- Elevada dependência de poucos mercados de exportação e de um número restrito de grupos industriais;
- Pressão de doenças, com destaque para greening e cancro cítrico;
- Necessidade de renovação de pomares envelhecidos em regiões tradicionais;
- Carência de mão de obra qualificada em algumas fases da cadeia;
- Custos crescentes com insumos, fretes e energia;
Pesquisas indicam que a agenda tecnológica para os próximos anos deve priorizar:
- Sistemas de monitoramento fitossanitário de alta resolução, com uso de sensoriamento remoto, inteligência artificial e armadilhas inteligentes para psilídeo;
- Linhas de manejo nutricional e hídrico mais resilientes a extremos climáticos;
- Bioinsumos microbianos e extratos vegetais voltados à redução da pressão de doenças e à melhoria da qualidade de fruto para indústria e mercado interno;
- Desenho de arranjos cooperativos que permitam a pequenos e médios citricultores integrar contratos de fornecimento para suco e canais de venda de fruta fresca.
Conclusão
A produção de laranja ocupa posição estratégica no agronegócio global e no portfólio exportador brasileiro. O domínio de mercado no segmento de suco, a concentração geográfica em São Paulo e Minas Gerais e a emergência de novos polos no Nordeste configuram um cenário em que decisões de investimento, pesquisa e políticas públicas têm impacto direto na competitividade da cadeia.
Ao mesmo tempo, a disseminação do greening, a variabilidade climática e as pressões comerciais externas demandam respostas em termos de inovação, gestão de risco e diversificação de mercados. A consolidação de novos polos citrícolas, o uso intensivo de dados para apoio à decisão e a ampliação de práticas de manejo de baixo impacto ambiental tendem a definir quais regiões permanecerão na linha de frente da citricultura.
Para o Brasil, manter a liderança na produção e nas exportações de laranja implica combinar excelência agronômica, inteligência de mercado e capacidade institucional de coordenar os diversos atores da cadeia, do produtor familiar às grandes agroindústrias.
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Referências
BRAZILIAN FARMERS. Exportações brasileiras de suco de laranja. Brasília, DF, 2023.
CEPEA. Mercado de suco de laranja: desempenho das exportações brasileiras em 2022/23. Piracicaba, 2023.
CITRUSBR. Relatórios de exportação de suco de laranja. São Paulo, 2024.
EMBRAPA. Plataforma Macrologística Agropecuária: painel citros. Brasília, DF, 2025.
FAO. Citrus: markets and trade. Rome, 2024.
FAOSTAT. Orange production statistics 1961–2022. Rome, 2024.
FUNDECITRUS. Levantamento de greening no cinturão citrícola. Araraquara, 2025.
IBGE. Produção de laranja no Brasil: séries históricas e mapas temáticos. Rio de Janeiro, 2025.
SERGIPE. Bioeconomy and agrifood systems. Aracaju: Governo de Sergipe, 2025.
USDA. Citrus: world markets and trade. Washington, DC: Foreign Agricultural Service, 2025.
Sobre o autor:

Alasse Oliveira da Silva
Doutorando em Produção Vegetal (ESALQ/USP)
- Engenheiro agrônomo (UFRA) e Técnico em agronegócio
- Mestre e especialista em Produção Vegetal (ESALQ/USP)
Como citar este artigo:
SILVA, A. O. Maiores produtores de laranja do mundo e a liderança brasileira mesmo diante do avanço do greening. Blog Agroadvance. Publicado: 27 Nov. 2025. Disponível em: https://agroadvance.com.br/blog-maiores-produtores-de-laranja-do-mundo/. Data de acesso: 27 maio. 2026.



