A soja ocupa posição de destaque no agronegócio brasileiro, consolidando-se como principal commodity agrícola em volume produzido e exportado. Para a safra 2025/26, projeções de consultorias especializadas indicam produção situada entre 176 e 182 milhões de toneladas, com cenários mais otimistas apontando um novo recorde histórico.
Nesse contexto, o enchimento de grãos da soja representa o último momento do ciclo da soja em que o manejo técnico ainda consegue alterar, de forma direta, o peso individual e a qualidade final dos grãos.
Enquanto nas fases iniciais do ciclo são definidos população, arquitetura de plantas e número potencial de estruturas reprodutivas, o estádio R5 concentra processos fisiológicos altamente intensos, dependentes de energia, água, equilíbrio nutricional e manutenção da área foliar ativa.
Nesse intervalo, a planta passa a operar sob máxima demanda metabólica. Há pico simultâneo de fotossíntese, fixação biológica de nitrogênio, translocação de carboidratos e redistribuição de nutrientes acumulados ao longo do ciclo.
Com isso, qualquer restrição imposta nesse período se traduz diretamente em grãos mal formados, redução do peso individual e comprometimento da qualidade fisiológica.
Compreender o que ocorre dentro da planta durante o enchimento de grãos, identificar corretamente o início do R5 a campo e ajustar o manejo nutricional, hídrico e fitossanitário são práticas que separam lavouras medianas de lavouras tecnicamente bem conduzidas.
Boa leitura!
Enchimento de grãos como síntese do manejo da lavoura
O desempenho da soja em R5–R6 não é um evento isolado. Ele representa a soma de decisões tomadas desde o planejamento do plantio, correção do solo, escolha da cultivar e condução do manejo vegetativo.
No enchimento, a planta deixa de investir em novas estruturas e passa a mobilizar tudo o que foi construído anteriormente. Nesse estágio, o produtor não cria mais potencial. Ele apenas preserva ou perde aquilo que já foi definido. Por isso, o foco técnico do enchimento de grãos está associado à eficiência fisiológica, à continuidade do funcionamento metabólico e à ausência de estresses evitáveis.

Identificação correta do estádio R5 a campo
Critério prático de diagnóstico
No fluxo fenológico da soja, o R5 se posiciona entre a consolidação reprodutiva e a definição do peso final dos grãos. Antes dele, em R3 ocorre o início da formação das vagens, seguido por R4, fase em que o número de vagens é efetivamente definido e a lavoura se torna altamente sensível a estresses.
O R5 marca a virada do ciclo, quando se inicia o enchimento de grãos dentro da vagem e a planta intensifica a alocação de água, fotoassimilados e nutrientes para os órgãos reprodutivos.

Após essa etapa, o avanço para R6 consolida o grão cheio e determina grande parte do peso final, enquanto R7 e R8 representam a transição para a maturação fisiológica e a preparação para a dessecação e colheita, em R7.2 e R7.3 (a depender da região).
A correta leitura do R5 a campo é o ponto de inflexão para decisões de manejo fino e sincronização das últimas intervenções técnicas.
O início do enchimento de grãos ocorre quando se identifica, em um dos quatro nós superiores do caule principal, pelo menos uma vagem contendo grãos com aproximadamente 3 mm, perceptíveis ao tato. Esse critério é mais confiável do que contagem de dias após florescimento, especialmente em cultivares de crescimento indeterminado.

A avaliação deve ser feita sempre na haste principal, do ápice para a base, priorizando nós plenamente desenvolvidos. A correta identificação do R5 é determinante para o posicionamento de manejos nutricionais e sanitários, como veremos a seguir.
Subdivisão do R5 e implicações práticas
O estádio R5 pode ser subdividido em cinco subestádios, que representam diferentes intensidades de demanda fisiológica. Nos estágios iniciais, há maior sensibilidade ao abortamento e “chochamento”. A partir de agora, iremos detalhar cada uma dessas subdivisões.
Em R5.1, observa-se o início da granação, com até 10% da granação máxima nas vagens localizadas no terço superior da haste principal, indicando transição efetiva da fase de formação para enchimento.
O R5.2 corresponde ao avanço inicial do processo, quando a maioria das vagens desse terço atinge entre 10 e 25% da granação máxima, sinalizando elevação consistente da demanda metabólica.
Em R5.3, a granação média, entre 25 e 50%, caracteriza um período de alta exigência fisiológica, com forte direcionamento de assimilados aos grãos. Já em R5.4, com 50 a 75% da granação máxima, consolida-se o enchimento e intensifica-se a definição do peso individual dos grãos.

Por fim, o R5.5 representa o final da granação, quando a maioria das vagens no terço superior atinge entre 75 e 100% da granação máxima, antecedendo a transição para o R6.
Fisiologia do enchimento de grãos da soja
Relação fonte–dreno
Durante o enchimento, as folhas maduras atuam como fontes, enquanto os grãos em formação representam os principais drenos metabólicos. A eficiência dessa relação depende diretamente da manutenção da área foliar ativa, da integridade do floema e da disponibilidade de energia para o transporte de assimilados.
Folhas perdidas precocemente, seja por estresse hídrico, deficiência nutricional ou doenças, reduzem a oferta de carboidratos aos grãos. Esse desequilíbrio se manifesta em falhas de enchimento, redução do peso individual e heterogeneidade de grãos na colheita.
Importância da área foliar por terço da planta
Cada terço da planta contribui preferencialmente para as vagens localizadas na mesma posição. A perda de folhas do baixeiro compromete o enchimento das vagens inferiores. Já a perda de folhas do terço médio e superior impacta diretamente o peso médio dos grãos.
A manutenção da área foliar até o final de R6 é um dos pontos mais críticos do manejo do enchimento.

Dinâmica hídrica no enchimento de grãos
Exigência de água em R5–R6
O maior consumo hídrico da soja ocorre entre o florescimento e o completo enchimento dos grãos. Nesse período, a demanda diária situa-se, em média, entre 7 e 8 mm de água por dia, podendo variar conforme ambiente, solo e arquitetura da planta.
O déficit hídrico nesse intervalo reduz o fluxo de assimilados para os grãos, encurta a duração do enchimento e compromete o peso final. Trata-se de um estresse com efeito direto e irreversível sobre o rendimento.

O gráfico evidencia que a demanda hídrica da soja se intensifica rapidamente a partir do fechamento do dossel, atingindo seu ponto crítico entre R1 e R5, quando a evapotranspiração diária se aproxima de 7 a 8 mm dia⁻¹ e o coeficiente de cultura (Kc) atinge o valor máximo.
Na prática, esse intervalo define a janela de maior risco agronômico, em que qualquer limitação de água ou falha de manejo se converte diretamente em perda de grãos viáveis, menor enchimento e penalização do peso final.
É o momento em que o sistema produtivo precisa estar rodando sem gargalos, com solo bem estruturado, perfil explorável e disponibilidade hídrica contínua.
A partir de R5–R6, observa-se redução gradual da evapotranspiração, apesar de o Kc ainda permanecer elevado, indicando que a cultura segue fisiologicamente ativa, porém com menor capacidade de compensar estresses. Operacionalmente, isso reforça que o manejo hídrico e nutricional precisa ser antecipado, não reativo.
Consequências fisiológicas do déficit hídrico
A restrição de água em R5 provoca fechamento estomático, redução da fotossíntese, queda da atividade nodular e limitação do transporte via floema. O resultado prático é o chochamento, caracterizado por grãos leves, mal-formados ou parcialmente preenchidos.

Nutrição mineral no enchimento de grãos
Nitrogênio e Fixação Biológica de Nitrogênio
Durante o enchimento, a soja atinge o ponto mais alto de atividade da fixação biológica de nitrogênio. O nitrogênio fornecido via nódulos sustenta a síntese de proteínas dos grãos, além de manter o metabolismo foliar ativo.
Qualquer fator que comprometa a nodulação ou a atividade das bactérias simbióticas impacta diretamente a qualidade do enchimento.
Fósforo, potássio e magnésio e metabolismo energético
O fósforo participa da geração de ATP e do fluxo energético necessário à fotossíntese e ao transporte de assimilados. Em R5–R6, sua presença adequada sustenta a alta taxa metabólica exigida pela planta.
Potássio e translocação de assimilados
O potássio é um dos nutrientes mais diretamente associados ao enchimento de grãos. Ele atua na regulação estomática, na fotossíntese e, principalmente, no transporte de carboidratos pelo floema. Áreas com baixo suprimento de potássio apresentam maior acúmulo de açúcares nas folhas e menor direcionamento aos grãos, refletindo em menor peso individual.

Magnésio e eficiência fotossintética
O magnésio é componente estrutural da clorofila. Durante o enchimento, quando a fotossíntese opera em alta intensidade, sua presença garante eficiência na captura e conversão de energia luminosa.
Cálcio e boro na integridade reprodutiva
O cálcio atua na estabilidade das paredes celulares, enquanto o boro participa do transporte de açúcares e da integridade das estruturas reprodutivas. A deficiência desses nutrientes está associada à má formação de grãos e falhas no enchimento.
Antagonismos nutricionais e equilíbrio na CTC
O enchimento de grãos responde mais ao equilíbrio nutricional do que a aplicações isoladas. Interações entre potássio, magnésio e cálcio devem ser consideradas, especialmente em solos com saturações desbalanceadas.
Relações inadequadas na CTC limitam a absorção e a redistribuição dos nutrientes, mesmo quando eles estão presentes no solo em teores considerados adequados.

Manejo nutricional foliar no enchimento de grãos da soja
Papel do manejo foliar
O manejo foliar não substitui a construção nutricional via solo, mas funciona como ferramenta de ajuste fino em situações específicas. Sua eficiência depende do estado nutricional da lavoura, do estádio fenológico e da mobilidade dos nutrientes aplicados.

Época, dose e fonte
Aplicações tardias ou doses elevadas podem gerar respostas inconsistentes ou efeitos fisiológicos indesejáveis. O sucesso do manejo foliar está diretamente ligado ao posicionamento correto, especialmente no início do enchimento.
Pragas no enchimento de grãos
Os percevejos representam o maior risco econômico durante o enchimento. O dano ocorre pela sucção direta dos grãos, resultando em redução de peso, má formação, alteração da composição e retenção foliar.
O monitoramento com pano de batida deve ser intensificado em R5, com decisões baseadas em nível de ação, não apenas em observação visual.
Outras pragas relevantes
Lagartas e nematoides também interferem no enchimento ao comprometerem folhas, vagens ou o sistema radicular, reduzindo a eficiência de absorção e translocação.
Doenças no período de enchimento
Manutenção da área foliar
O objetivo do manejo sanitário em R5–R6 é preservar a área foliar ativa até o final do enchimento. Doenças como ferrugem asiática, antracnose e doenças de final de ciclo reduzem drasticamente a capacidade fotossintética quando não manejadas adequadamente.
Planejamento fitossanitário
Programas de controle devem considerar rotação de mecanismos de ação, uso de multissítios e atenção a misturas com potencial de fitotoxicidade, especialmente em um período de alto fluxo metabólico.
Transição para a maturação fisiológica
Ao avançar para R7–R8, a planta encerra a absorção de água e nutrientes. Os grãos atingem o máximo acúmulo de matéria seca e iniciam o processo de secagem. Nesse momento, o manejo passa a ter foco em qualidade e colheita, especialmente em áreas destinadas à produção de sementes.
Enchimento de grãos em diferentes sistemas produtivos
Em regiões com estação seca bem definida, práticas como dessecação antecipada são adotadas para reduzir riscos climáticos no final do ciclo. Em ambientes sujeitos a excesso hídrico, a escolha de cultivares tolerantes à umidade assume papel decisivo.
A integração com sistemas de cobertura do solo contribui para a ciclagem de nutrientes e estabilidade do sistema produtivo.
Conclusão
O enchimento de grãos da soja é a fase em que a fisiologia da planta opera no limite.
Trata-se do período mais sensível do ciclo, no qual água, nutrição, sanidade e eficiência metabólica precisam atuar de forma sincronizada.
O manejo técnico do R5–R6 exige diagnóstico preciso, decisões bem-posicionadas e compreensão clara dos processos internos da planta. Quando conduzido com critério, o enchimento se traduz em grãos mais pesados, uniformes e com melhor qualidade fisiológica.
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Referências
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Sobre o autor:

Alasse Oliveira da Silva
Doutorando em Produção Vegetal (ESALQ/USP)
- Engenheiro agrônomo (UFRA) e Técnico em agronegócio
- Mestre e especialista em Produção Vegetal (ESALQ/USP)
Como citar este artigo:
SILVA, A. O. Enchimento de Grãos da Soja (R5–R6): Fisiologia, Nutrição e Manejo. Blog Agroadvance. Publicado: 09 Fev. 2026. Disponível em: https://agroadvance.com.br/blog-enchimento-de-graos-da-soja-r5r6/. Acesso: 09 fev. 2026



