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Enchimento de Grãos da Soja (R5–R6): Fisiologia, Nutrição e Manejo

O que realmente define o peso do grão da soja em R5? Entenda a fisiologia do enchimento de grãos da soja, o papel da água, dos nutrientes e do manejo no período mais sensível da produtividade.
  • Publicado em 09/02/2026
  • Alasse Oliveira da Silva
  • Soja
  • Publicado em 09/02/2026
  • Alasse Oliveira da Silva
  • Soja
  • Atualizado em 09/02/2026
Enchimento de grãos da soja
Sumário

A soja ocupa posição de destaque no agronegócio brasileiro, consolidando-se como principal commodity agrícola em volume produzido e exportado. Para a safra 2025/26, projeções de consultorias especializadas indicam produção situada entre 176 e 182 milhões de toneladas, com cenários mais otimistas apontando um novo recorde histórico.

Nesse contexto, o enchimento de grãos da soja representa o último momento do ciclo da soja em que o manejo técnico ainda consegue alterar, de forma direta, o peso individual e a qualidade final dos grãos.

Enquanto nas fases iniciais do ciclo são definidos população, arquitetura de plantas e número potencial de estruturas reprodutivas, o estádio R5 concentra processos fisiológicos altamente intensos, dependentes de energia, água, equilíbrio nutricional e manutenção da área foliar ativa.

Nesse intervalo, a planta passa a operar sob máxima demanda metabólica. Há pico simultâneo de fotossíntese, fixação biológica de nitrogênio, translocação de carboidratos e redistribuição de nutrientes acumulados ao longo do ciclo.

Com isso, qualquer restrição imposta nesse período se traduz diretamente em grãos mal formados, redução do peso individual e comprometimento da qualidade fisiológica.

Compreender o que ocorre dentro da planta durante o enchimento de grãos, identificar corretamente o início do R5 a campo e ajustar o manejo nutricional, hídrico e fitossanitário são práticas que separam lavouras medianas de lavouras tecnicamente bem conduzidas.

Boa leitura!

Enchimento de grãos como síntese do manejo da lavoura

O desempenho da soja em R5–R6 não é um evento isolado. Ele representa a soma de decisões tomadas desde o planejamento do plantio, correção do solo, escolha da cultivar e condução do manejo vegetativo.

No enchimento, a planta deixa de investir em novas estruturas e passa a mobilizar tudo o que foi construído anteriormente. Nesse estágio, o produtor não cria mais potencial. Ele apenas preserva ou perde aquilo que já foi definido. Por isso, o foco técnico do enchimento de grãos está associado à eficiência fisiológica, à continuidade do funcionamento metabólico e à ausência de estresses evitáveis.

Soja ao campo
Figura 1. Área de produção de soja em Piracicaba (fevereiro/2026). Créditos: Victor A. Z. Souza (2026).

Identificação correta do estádio R5 a campo

Critério prático de diagnóstico

No fluxo fenológico da soja, o R5 se posiciona entre a consolidação reprodutiva e a definição do peso final dos grãos. Antes dele, em R3 ocorre o início da formação das vagens, seguido por R4, fase em que o número de vagens é efetivamente definido e a lavoura se torna altamente sensível a estresses.

O R5 marca a virada do ciclo, quando se inicia o enchimento de grãos dentro da vagem e a planta intensifica a alocação de água, fotoassimilados e nutrientes para os órgãos reprodutivos.

sequencia fenologica soja imagem
Figura 2. Sequência fenológica da soja do florescimento à maturação, com ênfase na identificação do estágio R5 em campo. Fonte: Manar Agro (2026).

Após essa etapa, o avanço para R6 consolida o grão cheio e determina grande parte do peso final, enquanto R7 e R8 representam a transição para a maturação fisiológica e a preparação para a dessecação e colheita, em R7.2 e R7.3 (a depender da região).

A correta leitura do R5 a campo é o ponto de inflexão para decisões de manejo fino e sincronização das últimas intervenções técnicas.

O início do enchimento de grãos ocorre quando se identifica, em um dos quatro nós superiores do caule principal, pelo menos uma vagem contendo grãos com aproximadamente 3 mm, perceptíveis ao tato. Esse critério é mais confiável do que contagem de dias após florescimento, especialmente em cultivares de crescimento indeterminado.

estádios reprodutivos soja com enchimento de grãos
Figura 3. Subdivisão dos estádios reprodutivos da soja do R5 ao R8, com ênfase no enchimento de grãos e na progressão da maturação fisiológica. Fonte: Terras Gerais Solum (2024).

A avaliação deve ser feita sempre na haste principal, do ápice para a base, priorizando nós plenamente desenvolvidos. A correta identificação do R5 é determinante para o posicionamento de manejos nutricionais e sanitários, como veremos a seguir.

Subdivisão do R5 e implicações práticas

O estádio R5 pode ser subdividido em cinco subestádios, que representam diferentes intensidades de demanda fisiológica. Nos estágios iniciais, há maior sensibilidade ao abortamento e “chochamento”. A partir de agora, iremos detalhar cada uma dessas subdivisões.

Em R5.1, observa-se o início da granação, com até 10% da granação máxima nas vagens localizadas no terço superior da haste principal, indicando transição efetiva da fase de formação para enchimento.

O R5.2 corresponde ao avanço inicial do processo, quando a maioria das vagens desse terço atinge entre 10 e 25% da granação máxima, sinalizando elevação consistente da demanda metabólica.

Em R5.3, a granação média, entre 25 e 50%, caracteriza um período de alta exigência fisiológica, com forte direcionamento de assimilados aos grãos. Já em R5.4, com 50 a 75% da granação máxima, consolida-se o enchimento e intensifica-se a definição do peso individual dos grãos.

Sequência de enchimento de grãos na soja
Figura 4. Enchimento de grãos na soja. Caracterização do estádio reprodutivo R5 segundo a escala fenológica de Fehr e Caviness, com subdivisão operacional proposta por Yorinori, evidenciando a progressão do desenvolvimento dos grãos. Fonte: Tagliapietra et al. (2022) e O Técnico Agrícola (2024).

Por fim, o R5.5 representa o final da granação, quando a maioria das vagens no terço superior atinge entre 75 e 100% da granação máxima, antecedendo a transição para o R6.

Fisiologia do enchimento de grãos da soja

Relação fonte–dreno

Durante o enchimento, as folhas maduras atuam como fontes, enquanto os grãos em formação representam os principais drenos metabólicos. A eficiência dessa relação depende diretamente da manutenção da área foliar ativa, da integridade do floema e da disponibilidade de energia para o transporte de assimilados.

Folhas perdidas precocemente, seja por estresse hídrico, deficiência nutricional ou doenças, reduzem a oferta de carboidratos aos grãos. Esse desequilíbrio se manifesta em falhas de enchimento, redução do peso individual e heterogeneidade de grãos na colheita.

Importância da área foliar por terço da planta

Cada terço da planta contribui preferencialmente para as vagens localizadas na mesma posição. A perda de folhas do baixeiro compromete o enchimento das vagens inferiores. Já a perda de folhas do terço médio e superior impacta diretamente o peso médio dos grãos.

A manutenção da área foliar até o final de R6 é um dos pontos mais críticos do manejo do enchimento.

Relação fonte-dreno soja a campo
Figura 5. Observação em campo na relação planta (fonte-dreno) e manejo de pragas em Piracicaba (fevereiro/2026). Créditos: Victor A. Z. Souza (2026).

Dinâmica hídrica no enchimento de grãos

Exigência de água em R5–R6

O maior consumo hídrico da soja ocorre entre o florescimento e o completo enchimento dos grãos. Nesse período, a demanda diária situa-se, em média, entre 7 e 8 mm de água por dia, podendo variar conforme ambiente, solo e arquitetura da planta.

O déficit hídrico nesse intervalo reduz o fluxo de assimilados para os grãos, encurta a duração do enchimento e compromete o peso final. Trata-se de um estresse com efeito direto e irreversível sobre o rendimento.

gráfico de dinâmica de evapotranspiração
Figura 6. Dinâmica da evapotranspiração real da soja, estimada por simulação no modelo DSSAT–CROPGRO, e variação do coeficiente de cultura (Kc) da FAO ao longo dos estágios fenológicos. Fonte: Alencar Junior Zanon (2024); Field Crops (2024).

O gráfico evidencia que a demanda hídrica da soja se intensifica rapidamente a partir do fechamento do dossel, atingindo seu ponto crítico entre R1 e R5, quando a evapotranspiração diária se aproxima de 7 a 8 mm dia⁻¹ e o coeficiente de cultura (Kc) atinge o valor máximo.

Na prática, esse intervalo define a janela de maior risco agronômico, em que qualquer limitação de água ou falha de manejo se converte diretamente em perda de grãos viáveis, menor enchimento e penalização do peso final.

É o momento em que o sistema produtivo precisa estar rodando sem gargalos, com solo bem estruturado, perfil explorável e disponibilidade hídrica contínua.

A partir de R5–R6, observa-se redução gradual da evapotranspiração, apesar de o Kc ainda permanecer elevado, indicando que a cultura segue fisiologicamente ativa, porém com menor capacidade de compensar estresses. Operacionalmente, isso reforça que o manejo hídrico e nutricional precisa ser antecipado, não reativo.

Consequências fisiológicas do déficit hídrico

A restrição de água em R5 provoca fechamento estomático, redução da fotossíntese, queda da atividade nodular e limitação do transporte via floema. O resultado prático é o chochamento, caracterizado por grãos leves, mal-formados ou parcialmente preenchidos.

danos de temperatura e estresse hídrico na soja
Figura 7. Danos aos tecidos da soja provocados por alta temperatura e déficit hídrico. Fonte: Ciro Rosolem e Juliano Calonego (2010).

Nutrição mineral no enchimento de grãos

Nitrogênio e Fixação Biológica de Nitrogênio

Durante o enchimento, a soja atinge o ponto mais alto de atividade da fixação biológica de nitrogênio. O nitrogênio fornecido via nódulos sustenta a síntese de proteínas dos grãos, além de manter o metabolismo foliar ativo.

Qualquer fator que comprometa a nodulação ou a atividade das bactérias simbióticas impacta diretamente a qualidade do enchimento.

Fósforo, potássio e magnésio e metabolismo energético

O fósforo participa da geração de ATP e do fluxo energético necessário à fotossíntese e ao transporte de assimilados. Em R5–R6, sua presença adequada sustenta a alta taxa metabólica exigida pela planta.

Potássio e translocação de assimilados

O potássio é um dos nutrientes mais diretamente associados ao enchimento de grãos. Ele atua na regulação estomática, na fotossíntese e, principalmente, no transporte de carboidratos pelo floema. Áreas com baixo suprimento de potássio apresentam maior acúmulo de açúcares nas folhas e menor direcionamento aos grãos, refletindo em menor peso individual.

marcha de absorção de macronutrientes - soja
Figura 8. Marcha de Absorção de Macronutrientes em cultivares de soja. Fonte: Oliveira Junior et al. (2016). LEGENDA: • BRS 184 – Convencional. Produtividade: 3.250 kg/ha ou 54 sc/ha; ■ SYN 1059 – RR. Produtividade: 4.000 kg/ha ou 67 sc/ha; ▼ DM 6563 – Intacta RR2 PRO™. Produtividade: 3.000 kg/ha ou 50 sc/ha

Magnésio e eficiência fotossintética

O magnésio é componente estrutural da clorofila. Durante o enchimento, quando a fotossíntese opera em alta intensidade, sua presença garante eficiência na captura e conversão de energia luminosa.

Cálcio e boro na integridade reprodutiva

O cálcio atua na estabilidade das paredes celulares, enquanto o boro participa do transporte de açúcares e da integridade das estruturas reprodutivas. A deficiência desses nutrientes está associada à má formação de grãos e falhas no enchimento.

Antagonismos nutricionais e equilíbrio na CTC

O enchimento de grãos responde mais ao equilíbrio nutricional do que a aplicações isoladas. Interações entre potássio, magnésio e cálcio devem ser consideradas, especialmente em solos com saturações desbalanceadas.

Relações inadequadas na CTC limitam a absorção e a redistribuição dos nutrientes, mesmo quando eles estão presentes no solo em teores considerados adequados.

tabela de extração e exportação de macronutrientes em soja.
Figura 9. Extração e exportação de macro e micronutrientes em diferentes cultivares de soja. Fonte:Oliveira Junior et al. (2016).

Manejo nutricional foliar no enchimento de grãos da soja

Papel do manejo foliar

O manejo foliar não substitui a construção nutricional via solo, mas funciona como ferramenta de ajuste fino em situações específicas. Sua eficiência depende do estado nutricional da lavoura, do estádio fenológico e da mobilidade dos nutrientes aplicados.

área de produção de soja - piracicaba
Figura 10. Área de produção de soja em Piracicaba (fevereiro/2026). Créditos: Victor A. Z. Souza (2026).

Época, dose e fonte

Aplicações tardias ou doses elevadas podem gerar respostas inconsistentes ou efeitos fisiológicos indesejáveis. O sucesso do manejo foliar está diretamente ligado ao posicionamento correto, especialmente no início do enchimento.

Pragas no enchimento de grãos

Os percevejos representam o maior risco econômico durante o enchimento. O dano ocorre pela sucção direta dos grãos, resultando em redução de peso, má formação, alteração da composição e retenção foliar.

O monitoramento com pano de batida deve ser intensificado em R5, com decisões baseadas em nível de ação, não apenas em observação visual.

Outras pragas relevantes

Lagartas e nematoides também interferem no enchimento ao comprometerem folhas, vagens ou o sistema radicular, reduzindo a eficiência de absorção e translocação.

Doenças no período de enchimento

Manutenção da área foliar

O objetivo do manejo sanitário em R5–R6 é preservar a área foliar ativa até o final do enchimento. Doenças como ferrugem asiática, antracnose e doenças de final de ciclo reduzem drasticamente a capacidade fotossintética quando não manejadas adequadamente.

Planejamento fitossanitário

Programas de controle devem considerar rotação de mecanismos de ação, uso de multissítios e atenção a misturas com potencial de fitotoxicidade, especialmente em um período de alto fluxo metabólico.

Transição para a maturação fisiológica

Ao avançar para R7–R8, a planta encerra a absorção de água e nutrientes. Os grãos atingem o máximo acúmulo de matéria seca e iniciam o processo de secagem. Nesse momento, o manejo passa a ter foco em qualidade e colheita, especialmente em áreas destinadas à produção de sementes.

Enchimento de grãos em diferentes sistemas produtivos

Em regiões com estação seca bem definida, práticas como dessecação antecipada são adotadas para reduzir riscos climáticos no final do ciclo. Em ambientes sujeitos a excesso hídrico, a escolha de cultivares tolerantes à umidade assume papel decisivo.

A integração com sistemas de cobertura do solo contribui para a ciclagem de nutrientes e estabilidade do sistema produtivo.

Conclusão

O enchimento de grãos da soja é a fase em que a fisiologia da planta opera no limite.

Trata-se do período mais sensível do ciclo, no qual água, nutrição, sanidade e eficiência metabólica precisam atuar de forma sincronizada.

O manejo técnico do R5–R6 exige diagnóstico preciso, decisões bem-posicionadas e compreensão clara dos processos internos da planta. Quando conduzido com critério, o enchimento se traduz em grãos mais pesados, uniformes e com melhor qualidade fisiológica.

—

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Referências

AGROFIT – Sistemas de agrotóxicos fitossanitários. Ministério da Agricultura e Pecuária. Disponível em: https://agrofit.agricultura.gov.br/agrofit_cons/principal_agrofit_cons. Acesso em: 30 jan. 2026.

ALENCAR JUNIOR, Z.; ZANON, A. J. Dinâmica hídrica da cultura da soja ao longo dos estádios fenológicos. Santa Maria: Universidade Federal de Santa Maria, 2024.

BARBOSA, J. Z. et al. Winners of the Brazilian soybean yield contest: agronomic and environmental drivers of high yield. Field Crops Research, Amsterdam, v. 312, p. 109–118, 2025.

EMPRESA BRASILEIRA DE PESQUISA AGROPECUÁRIA (EMBRAPA). Tecnologias de produção de soja – Região Central do Brasil 2020. Londrina: Embrapa Soja, 2020. (Sistemas de Produção, 17).

EMPRESA BRASILEIRA DE PESQUISA AGROPECUÁRIA (EMBRAPA). Ecofisiologia da soja. Londrina: Embrapa Soja, 2003. (Circular Técnica, 48).

FEHR, W. R.; CAVINESS, C. E. Stages of soybean development. Ames: Iowa State University of Science and Technology, 1977. (Special Report, 80).

SILVA, E. H. F. M. et al. Impact assessment of soybean yield and water productivity in Brazil under climate change scenarios. Agricultural Water Management, Amsterdam, v. 252, p. 106–115, 2021.

STECCA, J. D. L. et al. Relationship between plant, seed, physiological, phenological and agronomic traits of soybean in southern Brazil. Revista de Ciências Agrárias, Belém, v. 68, n. 1, p. 1–12, 2025.

THOMAS, A. L. Soja: manejo para alta produtividade de grãos. Porto Alegre: Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 2010.

Sobre o autor:

Alasse Oliveira

Alasse Oliveira da Silva

Doutorando em Produção Vegetal (ESALQ/USP)

  • Engenheiro agrônomo (UFRA) e Técnico em agronegócio
  • Mestre e especialista em Produção Vegetal (ESALQ/USP)
  • alasse.oliveira77@gmail.com
  • Perfil do Linkedin
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Como citar este artigo:

SILVA, A. O. Enchimento de Grãos da Soja (R5–R6): Fisiologia, Nutrição e Manejo. Blog Agroadvance. Publicado: 09 Fev. 2026. Disponível em: https://agroadvance.com.br/blog-enchimento-de-graos-da-soja-r5r6/. Acesso: 09 fev. 2026

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