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Agricultura regenerativa aumenta produtividade? o que os dados da SLC Agrícola permitem concluir

Em cinco safras, a SLC Agrícola triplicou a área tratada com bioinsumos e quase dobrou a participação de biológicos nas aplicações; tudo isso sem abrir mão de produtividade. Este artigo usa os números internos apresentados por Aurélio Pavinato para responder, com dados e não com discurso, se agricultura regenerativa aumenta produtividade e gera retorno econômico.
  • Publicado em 19/08/2026
  • Beatriz Nastaro Boschiero
  • Solos, Sustentabilidade
  • Publicado em 19/08/2026
  • Beatriz Nastaro Boschiero
  • Solos, Sustentabilidade
  • Atualizado em 18/08/2026
Agricultura Regenerativa Aurelio pavinato simposio brasileiro de saúde do solo
Sumário

O conceito de agricultura regenerativa ganhou espaço no agronegócio, mas ainda existe uma diferença importante entre declarar a adoção de determinadas práticas e demonstrar, com indicadores, como elas se comportam em uma operação agrícola de larga escala.

Parte do problema é que os cases mais citados no mercado são globais e genéricos, construídos por grandes compradoras de commodity para reforçar cadeia de suprimento: números bons de manchete, curtos em série histórica e raros em transparência de operação própria. Falta o que você, que toca lavoura, realmente precisa: uma série de safras, numa fazenda de grande escala, com número antes e depois.

Para responder isso sem enrolação, este artigo resume os dados mostrados pelo Dr. Aurélio Pavinato — engenheiro agrônomo, mestre e doutor em Ciência do Solo pela UFRGS e hoje CEO da SLC Agrícola, uma das maiores produtoras de soja, milho e algodão do Brasil.

A palestra fez parte do Simpósio Brasileiro de Saúde do Solo 2026 (SBSS) e responde: a agricultura regenerativa aumenta produtividade? gera retorno econômico?; veja a cobertura completa do evento. Nela, Pavinato abriu números internos da própria empresa: cinco safras de bioinsumos, área certificada em agricultura regenerativa e economia real com aplicação localizada de defensivos.

Evolução do uso de bioinsumos na SLC Agrícola entre as safras 2020/21 e 2024/25 — hectares aplicados (milhões) e participação dos biológicos no total de aplicações. agricultura regenerativa aumenta produtividade
Figura 1. Evolução do uso de bioinsumos na SLC Agrícola entre as safras 2020/21 e 2024/25 — hectares aplicados (milhões) e participação dos biológicos no total de aplicações. Elaborado pelo autor com ajuda do Claude. Fonte: Palestra de Aurélio Pavinato, Simpósio Brasileiro de Saúde do Solo 2026.

Produtividade é consequência

A tese central de Pavinato é direta: os últimos 50 anos de sucesso do agro brasileiro não vieram de expansão de área; vieram de ganho de produtividade sustentado por tecnologia e manejo. Na frase-síntese da palestra:

“Produtividade é consequência.” — “Tecnologia no manejo, tudo que nós fizemos no dia a dia nas nossas fazendas, a produtividade é consequência disso, e por isso que nós conseguimos esse sucesso todo.” — Aurélio Pavinato

Para dimensionar o quanto essa ideia contraria o senso comum antigo, vale um contraponto histórico. Pavinato lembrou que seu orientador de doutorado nos Estados Unidos, ainda em 1960, resumia o consenso da época sobre regiões de clima tropical:

“As regiões tropicais elas estão condenadas à miséria.”

Não existia tecnologia para produzir bem no trópico, e todo país tropical era, à época, um país pobre. A revolução do plantio direto e da cobertura de solo no Brasil é o que reverteu esse diagnóstico.

Fica então a pergunta que estrutura o resto deste artigo: se produtividade é consequência de manejo, a agricultura regenerativa é causa desse ganho, ou é só reforço de imagem em cima de um resultado que já viria de qualquer forma? Os dados apresentados por Pavinato ajudam a responder parte dessa questão, mas também mostram os limites do que é possível concluir a partir de um case empresarial.

Em resumo: agricultura regenerativa aumenta produtividade?

Os dados apresentados pela SLC Agrícola não permitem afirmar, isoladamente, que a agricultura regenerativa causou aumento de produtividade. O que eles mostram é a adoção de práticas associadas à agricultura regenerativa em uma operação de larga escala, acompanhada de indicadores de saúde do solo, eficiência no uso de insumos e evolução tecnológica.

Brasil x mundo: o tamanho do diferencial de produtividade

O tamanho do diferencial brasileiro aparece quando você compara CAGR (Compound Annual Growth Rate ou Taxa de Crescimento Anual Composta), não safra isolada. Em 50 anos, a produção de grãos do Brasil saltou de 47 milhões de toneladas para 360 milhões de toneladas — um crescimento de +667%, CAGR de 4,25% ao ano. A área plantada de 1ª safra cresceu bem menos no mesmo período: de 31 para 57 milhões de hectares (+84%, CAGR de 1,25% ao ano). A diferença entre os dois ritmos é produtividade: CAGR de 2,9% a 2,95% ao ano na produtividade da terra brasileira (incluindo 2ª safra), contra 1,5% ao ano de CAGR da produtividade mundial no mesmo período.

Pavinato traduz essa diferença de CAGR num contrafactual direto:

“Se nós tivéssemos aumentado [a produtividade] igual o mundo, não estaria produzindo 360 hoje, estaria produzindo 250, com a mesma área.” — Aurélio Pavinato

Ou seja: só o excedente de produtividade brasileira sobre a média mundial equivale a 110 milhões de toneladas de grãos a mais, na mesma área. Para o panorama histórico completo de como o Brasil chegou a esses números, veja a evolução da produção agrícola brasileira.

Comparativo de CAGR crescimento da produtividade agrícola no Brasil x média mundial, últimos 50 anos
Figura 2. Comparativo de CAGR de produtividade agrícola — Brasil x média mundial, últimos 50 anos. Elaborado pelo autor com ajuda do Claude. Fonte: Palestra de Aurélio Pavinato, SBSS 2026.

Práticas que fazem parte da evolução dos sistemas agrícolas brasileiros e sustentam o aumento da produtividade

O crescimento na produtividade brasileira se apoia num conjunto específico de práticas, que são a base do sistema brasileiro:

  • Sistema de Plantio Direto (SPD),
  • o mix de culturas de cobertura,
  • a Integração Lavoura-Pecuária (ILP)
  • e o Manejo Integrado de Pragas e Doenças (MIP/MID).

Pavinato destacou que a inclusão de leguminosas em misturas de cobertura com gramíneas pode contribuir para a fixação biológica de nitrogênio, além de ampliar a diversidade do sistema e o aporte de carbono no sistema:

“O mix de cobertura de solo eu estou vendo como sendo realmente a solução para aumentar a diversidade biológica do sistema, adicionar mais carbono e aumentar a fixação de nitrogênio no sistema.” — Aurélio Pavinato

Há uma nuance técnica que vale reter: rotação clássica (cultura diferente a cada ano) não é a mesma coisa que sucessão (1ª e 2ª safra dentro do mesmo ano civil, o que Pavinato chama de “rotação entre aspas”). Na avaliação apresentada por Pavinato, a sucessão ganha importância porque permite duas culturas e, consequentemente, duas oportunidades de produção e adição de matéria seca ao sistema.

Pavinato porém traz uma ressalva: a sucessão soja → algodão, por não envolver nenhuma gramínea, ainda é uma dúvida em aberto quanto à sustentabilidade de longo prazo, por questões de doenças e carbono no solo (voltamos a esse ponto mais pra frente).

O case SLC Agrícola: cinco safras de dados sobre agricultura regenerativa

Aqui está o núcleo do artigo: a série histórica de uma operação real, não um estudo de caso genérico. A SLC Agrícola tem hoje 325.769 hectares certificados em agricultura regenerativa (soja e algodão) — o que a torna a maior empresa certificada das Américas nessa categoria. A meta declarada da empresa para 2030 é 550.864 hectares.

Olhando safra a safra, a área tratada com bioinsumos na SLC evoluiu assim: 1,572 milhão de hectares em 2020/21, 1,985 milhão em 2021/22, 3,682 milhões em 2022/23, 5,178 milhões em 2023/24 e 5,323 milhões de hectares em 2024/25 — um aumento de aproximadamente 239%, ou 3,4 vezes (Figura 1). A participação de biológicos no total de aplicações da empresa acompanhou esse movimento: 11,40% (2020/21), 15,00% (2021/22), 13,98% (2022/23), 16,67% (2023/24) e 17,70% (2024/25, dado atualizado em setembro/2025).

E o que isso fez com a saúde do solo? Pelos indicadores internos da empresa:

  • 86% das áreas agrícolas da SLC estão com IQS Fertbio alto ou muito alto — indicador de qualidade biológica do solo desenvolvido pela pesquisadora Dra. Ieda,/ Mendes da Embrapa Cerrados, que mede duas enzimas do solo associadas a potencial produtivo.
  • Outros 69% das áreas apresentam condição adequada de ciclagem de nutrientes

A SLC agrícola faz diagnóstico anual de solo (BioAS) em 35% de sua área física. E Pavinato enfatizou durante sua palestra:

“O que a gente está visualizando nas nossas lavouras: cada ano que passa, os nossos solos estão ficando melhores. Melhor significa com mais saúde do solo.” — Aurélio Pavinato

Tabela 1. Pilares da agricultura regenerativa na SLC Agrícola e indicadores de adoção

PilarIndicador de adoção na SLC
Plantio DiretoBase histórica do sistema produtivo da empresa
Cobertura do solo (mix gramínea + leguminosa)Gramínea 44,2%; Brassica 40,1%; Gramínea+Leguminosa 13,1%; Leguminosa 1,8%; Poligonácea 0,7% do mix
Integração Lavoura-Pecuária (ILP)Parte do sistema de rotação/sucessão da empresa
Rotação / Sucessão de culturasIndicadores de solo mostram sustentabilidade da sucessão (com ressalva soja-algodão)
MIP/MID e agricultura de precisão89% das lavouras mapeadas em agricultura de precisão; 93% citado para taxa variável de fertilizante (fósforo, potássio, calcário)
Biológicos / bioinsumos17,70% das aplicações da safra 2024/25
Qualidade do solo (IQS Fertbio)86% das áreas com IQS Fertbio alto/muito alto
Certificação regenerativa325.769 ha certificados / meta de 550.864 ha até 2030
Fonte: Palestra de Aurélio Pavinato, SBSS 2026.

Quanto de economia a agricultura regenerativa trás: aplicação localizada e bioinsumos na prática

Regenerativo também é economia mensurável, não só indicador de solo. Na safra 2024/25, a SLC Agrícola relatou economia de 80% no uso de inseticidas em 382,7 mil hectares por meio de aplicações localizadas. Esse resultado é um dado específico da operação da SLC Agrícola e não deve ser interpretado como uma taxa de economia esperada para qualquer propriedade.

Em paralelo, a identificação de ervas daninhas por sensor — aplicação “bico-a-bico” — gerou 67% de economia de defensivos em mais de 227,7 mil hectares.

Pavinato usa um número simples para explicar por que o Brasil tem mais a ganhar com essa tecnologia do que produtores de clima temperado: o Brasil gasta em média US$ 200 por hectare/ano em defensivos, enquanto os Estados Unidos gastam US$ 50 por hectare/ano, considerando o consumo total dividido pela área plantada.. Quanto maior o gasto de base, maior o espaço para economia com aplicação localizada.

 Economia com aplicação localizada de defensivos na SLC Agrícola, safra 2024/25.  economia gerada pel agricultura regenerativa
Figura 3. Economia com aplicação localizada de defensivos na SLC Agrícola, safra 2024/25. Elaborado pelo autor com ajuda do Claude. Fonte: Palestra de Aurélio Pavinato, SBSS 2026.

A camada tecnológica que viabiliza esse tipo de aplicação em escala inclui drones de menor porte (capacidade de 40 litros, autonomia de 8 a 12 minutos, rendimento de 12 a 20 ha/h) e um avião elétrico autônomo (300 litros, 45 minutos de autonomia, 70 ha/h de rendimento).

Essas plataformas também reduzem o amassamento de lavoura causado pelo pulverizador terrestre.

O que ainda está em aberto: sucessão, certificação e limites do modelo

Nem tudo neste case está resolvido — e isso é parte do valor de olhar para dados reais. Como já adiantado anteriormente, a sucessão soja → algodão continua sendo uma dúvida em aberto para o próprio Pavinato:

“A sucessão de soja e algodão, que são duas culturas que não têm uma gramínea, […] parece ser uma sucessão não sustentável no longo prazo, pensando na questão de doenças e de carbono no solo.” — Aurélio Pavinato

Na certificação de agricultura regenerativa, a SLC está com 325.769 hectares certificados diante de uma meta de 550.864 hectares até 2030 — ou seja, ainda no meio do caminho, não numa linha de chegada.

E na economia circular on-farm (reciclagem total de resíduo seco e orgânico, incluindo resíduo de alojamentos, via compostagem, eliminando lixões), apenas 11 das 26 fazendas da empresa operam nesse modelo hoje.

Nada disso invalida os números trazidos anteriormente, mas mostra que mesmo o case de referência da agricultura regenerativa brasileira tem adoção parcial, não um pacote fechado e uniforme.

O que você leva para o campo amanhã?

  1. Produtividade é consequência de manejo, não de expansão de área — a lição central de 50 anos de agro brasileiro.
  2. Bioinsumos saíram do nicho: em 5 safras a SLC triplicou a área tratada com biológicos, aumentando em 55% a participação dos biológicos entre 2020/21 e 2024/25 (de 11,4% das áreas → para 17,7%).
  3. Aplicação localizada de defensivos já economiza de 67% a 80% em casos reais, em centenas de milhares de hectares — não é mais promessa piloto, é operação em escala.
  4. Nem toda sucessão de safras é igual: soja-algodão ainda é ponto de atenção para sustentabilidade de longo prazo, segundo o próprio professor.
  5. Certificação de agricultura regenerativa é caminho, não chegada — mesmo a maior empresa certificada das Américas está a menos da metade do caminho até sua própria meta de 2030.

Quer aplicar isso na sua fazenda ou na sua carreira técnica? A Pós-Graduação em Fertilidade e Saúde do Solo da Agroadvance forma quem quer transformar dado de solo e manejo em decisão de produtividade — do diagnóstico à prática de campo, no mesmo território (fertilidade e saúde do solo) que sustenta o case da SLC Agrícola. Clique em SAIBA MAIS e conheça o curso:

Material de base do artigo

Conteúdo baseado na palestra “Sistemas Agrícolas Promotores de Saúde do Solo como Diferencial Competitivo em Anos Desafiadores”, apresentada por Aurélio Pavinato (CEO da SLC Agrícola; engenheiro agrônomo; mestre e doutor em Ciência do Solo pela UFRGS) no Simpósio Brasileiro de Saúde do Solo 2026 (SBSS), Dia 1, Palestra 1, 05/08/2026, das 8h45 às 10h00.

Sobre a autora

Beatriz Nastaro Boschiero

Especialista em Conteúdo na Agroadvance

  • Pós-doutora pelo CTBE/CNPEM e CENA/USP
  • Mestra e Doutora em Solos e Nutrição de Plantas (ESALQ/USP)
  • Engenheira Agrônoma (UNESP/Botucatu)
  • [email protected]
  • Perfil do Linkedin
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Como citar este artigo:

BOSCHIERO, B.N. Agricultura regenerativa aumenta produtividade? o que os dados reais de 5 safras da SLC Agrícola mostram. Blog Agroadvance, 19 Ago. 2026. Disponível em: https://www.agroadvance.com.br/blog-agricultura-regenerativa-aumenta-produtividade/. Acesso em: 19 ago. 2026.

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