As formigas cortadeiras estão entre as pragas de maior impacto econômico nos sistemas produtivos brasileiros.
Em áreas agrícolas e florestais, sua presença compromete desde o estabelecimento inicial das plantas até a formação estrutural de culturas perenes e florestas comerciais.
Não se trata apenas de desfolha visualmente perceptível, mas de interferência direta na fisiologia da planta e na arquitetura do sistema produtivo das culturas.
A magnitude do problema é evidenciada por levantamentos técnicos que indicam perdas de até 40% no volume de madeira em plantios florestais quando há desfolha recorrente.
Em culturas agrícolas, o ataque precoce pode resultar na morte de mudas, necessidade de replantio e desuniformidade de stand. Esse problema exige compreensão técnica da biologia da praga e organização cronológica do manejo.
Este artigo apresenta uma abordagem estruturada, iniciando pela identificação das formigas cortadeiras, passando pela formação da colônia, dinâmica de forrageamento, padrões de dano e culminando no posicionamento técnico de manejo integrado para a sua lavoura.
Boa leitura!
O que são formigas cortadeiras e por que representam alto risco produtivo?
As formigas cortadeiras pertencem principalmente a dois gêneros de importância agrícola:
- Atta, conhecidas como saúvas, e
- Acromyrmex, popularmente chamadas de quenquéns.
Ambos os grupos apresentam comportamento altamente especializado de corte de material vegetal, transporte para o interior do ninho e cultivo de fungo simbionte.
Ao contrário do que muitos imaginam, o material vegetal não é alimento direto da colônia. As operárias removem fragmentos de folhas, flores ou brotações e transportam o material para o interior de ninho, onde ele é utilizado como substrato para o desenvolvimento de um fungo simbionte. Esse fungo constitui a principal fonte alimentar das formigas da colônia.
Essa relação simbiótica sustenta a estabilidade da colônia e explica sua permanência prolongada nas áreas agrícolas.

O risco produtivo está diretamente relacionado à combinação de fatores como:
- organização social altamente complexa,
- elevado potencial de colonização e
- grande demanda por biomassa vegetal,
- adaptação a sistemas agrícolas homogêneos e monoculturais.
Diferenças entre Atta (saúvas) e Acromyrmex (quenquéns)
A correta identificação das formigas cortadeiras é etapa fundamental para o manejo e permite estimar o porte da colônia e ajustar o método de intervenção.
Embora ambas pertençam ao mesmo grupo funcional, existem diferenças importantes entre saúvas e quenquéns, tanto do ponto de vista morfológico quanto estrutural.
Características das saúvas (Atta)
As saúvas apresentam maior porte corporal e podem ser identificadas por três pares de espinhos no dorso do tórax.
Os formigueiros desse gênero são volumosos e geralmente apresentam montículos de terra solta facilmente visíveis na superfície. Esses ninhos podem atingir grandes dimensões e abrigar milhões de indivíduos.
O impacto das saúvas é direto e indireto, pois a dimensão do formigueiro implica maior profundidade de câmaras e maior complexidade no controle. Em áreas florestais, um único sauveiro pode comprometer extensas linhas de plantio.

Características das quenquéns (Acromyrmex)
As quenquéns possuem porte menor e apresentam quatro ou cinco pares de espinhos no dorso do tórax, característica útil para diferenciação.
Os ninhos são geralmente menos evidentes, muitas vezes camuflados sob vegetação ou resíduos orgânicos. A ausência de grandes montículos superficiais dificulta a detecção precoce.
Apesar do menor porte, a pressão de ataque pode ser intensa em áreas agrícolas, sobretudo quando há múltiplos ninhos distribuídos na propriedade.
A pulverização de ninhos pequenos, quando negligenciada, favorece reinfestações contínuas. A distinção morfológica entre os gêneros orienta a estratégia de monitoramento e a logística de aplicação de iscas biológicas ou químicas.

Diferenças morfológicas e estruturais
A distinção entre formigas cortadeiras dos gêneros Acromyrmex e Atta é baseada principalmente em:
- número de espinho no tórax
- porte das operárias
- arquitetura do ninho
A identificação correta em campo orienta o diagnóstico e direciona o manejo, sobretudo em áreas agrícolas com histórico de reincidência.
Acromyrmex (quenquéns)
- 4 a 5 pares de espinhos no dorso do tórax,
- Operárias menores (8 a 10 mm)
Ninhos menores e geralmente sem montículo evidente de terra solta na superfície. Essa conformação reflete colônias menos extensas e com menor volume de escavação externa.
Atta (saúvas)
- 3 pares de espinhos no dorso do tórax,
- Operárias maiores(12 e 15 mm), com cabeça mais robusta e mandíbulas desenvolvidas.
- Os ninhos são amplos, compostos por diversas panelas interligadas, e apresentam monte de terra solta visível na superfície.

Formação da colônia: início do problema no campo
O ciclo das formigas cortadeiras inicia-se com a revoada, geralmente associada ao início do período chuvoso. Machos e fêmeas alados realizam voo nupcial, e a fêmea fecundada busca local adequado para fundar nova colônia.
Após escavar pequena câmara subterrânea, a futura rainha deposita seus primeiros ovos e inicia o cultivo do fungo simbionte. Esse estágio inicial é crítico, pois a colônia ainda é pequena e vulnerável. Intervenções precoces nessa fase reduzem significativamente a expansão futura do formigueiro.

Crescimento da colônia e formação do formigueiro
Com o desenvolvimento das primeiras operárias, inicia-se a atividade de forrageamento externo. A coleta de material vegetal se intensifica à medida que a colônia se estrutura internamente.
O crescimento é gradual, porém constante. Ao longo dos anos, o ninho expande câmaras e amplia o volume de solo removido, tornando-se estruturalmente complexo.
A negligência no início do processo favorece consolidação do formigueiro e eleva o custo de erradicação.
Estrutura interna do formigueiro
Os ninhos subterrâneos apresentam múltiplas câmaras destinadas a diferentes funções:
- cultivo do fungo simbionte,
- armazenamento do material vegetal, e
- abrigo da rainha e das formas imaturas.
A profundidade pode variar conforme espécie, tipo de solo e idade da colônia.
Essa arquitetura explica por que controles superficiais frequentemente falham. A simples redução de operárias externas não elimina a rainha nem o núcleo reprodutivo.

A compreensão da estrutura do ninho orienta a aplicação correta de iscas formicidas, garantindo que o ingrediente ativo alcance a câmara de fungo.

Dinâmica de forrageamento e padrão de corte
As operárias seguem trilhas definidas, chamadas de carreiros, que conectam o ninho às fontes vegetais. O corte das folhas apresenta formato semicircular ou em arco, característica diagnóstica da presença da praga.
A atividade tende a intensificar-se em períodos de temperatura amena e maior umidade relativa. A observação dessas condições auxilia no planejamento de inspeções.

A simples interrupção temporária do fluxo de forrageamento sem eliminação da colônia resulta apenas em pausa temporária da atividade externa. Se a rainha permanecer ativa, a colônia rapidamente retoma sua atividade.
Padrões de dano em sistemas agrícolas
Culturas anuais
Em culturas anuais, como soja e milho, o ataque pode comprometer rapidamente a área foliar ativa. A redução abrupta da superfície fotossintética interfere na produção de biomassa e potencial produtivo.
Quando o ataque ocorre nos estádios iniciais, a perda de plantas compromete a uniformidade da lavoura. O monitoramento em fases vegetativas iniciais é decisivo para evitar falhas de estande.
Culturas perenes
Em fruticultura e sistemas perenes, o ataque recorrente compromete a formação da copa. Plantas jovens são particularmente vulneráveis.
A desfolha sucessiva retarda a estruturação da planta e prolonga o período até entrada em produção. Em mudas recém-transplantadas, o risco de mortalidade é elevado.

A proteção no período pós-plantio deve integrar o planejamento técnico. A espécie Atta sexdens, popularmente chamada de saúva-limão, possui elevado potencial de desfolha e pode comprometer lavouras em curto período.
As colônias atuam de forma intensa principalmente durante a noite, transportando material vegetal que alimenta o fungo cultivado no interior do ninho.
No Brasil, sua ocorrência é frequente nas regiões Sudeste, Centro-Oeste e Sul. A presença dessa formiga impacta diretamente áreas agrícolas e projetos de reflorestamento, onde a remoção contínua de folhas interfere no estabelecimento e no desenvolvimento das plantas.
Padrões de dano em plantios florestais
Em plantios de eucalipto e pinus, a desfolha repetida interfere na formação do fuste e na uniformidade da floresta. A perda de área foliar reduz o acúmulo de biomassa e compromete o volume final de madeira.
Estimativas indicam perdas de até 40% no volume quando não há manejo adequado. Esse percentual altera significativamente a viabilidade econômica do projeto florestal. A inspeção sistemática antes e após o plantio é etapa operacional obrigatória.

Monitoramento: base da tomada de decisão
Identificação de sinais de atividade
O monitoramento deve incluir busca por carreiros ativos, olheiros recentes e montículos de solo. A observação da intensidade de corte auxilia na estimativa do tamanho da colônia.
A periodicidade das inspeções deve ser ampliada em períodos de maior atividade biológica, como início das chuvas. O registro sistemático das ocorrências permite planejamento estratégico de intervenção.
Planejamento de inspeções
A organização cronológica das inspeções deve considerar histórico da área, proximidade de vegetação nativa e registros anteriores de infestação.
Áreas recém-implantadas exigem frequência maior de vistoria. A ausência de rotina estruturada favorece expansão silenciosa dos ninhos.
O monitoramento não é etapa opcional. É eixo central do manejo.
Manejo cultural e organização do ambiente
A estrutura ambiental influencia a dinâmica populacional das formigas cortadeiras. Sistemas extremamente homogêneos favorecem oferta constante de substrato vegetal.
A manutenção de áreas de vegetação nativa pode contribuir para presença de inimigos naturais. O planejamento do entorno reduz pressão direta sobre a cultura principal.
O preparo adequado do solo antes do plantio elimina ninhos iniciais e reduz a infestação na fase de estabelecimento.
Controle com iscas formicidas
As iscas granuladas são ferramenta amplamente utilizada no manejo de formigas cortadeiras. Contêm atrativos alimentares associados a ingrediente ativo que age sobre o fungo simbionte ou sobre a colônia.
A aplicação deve ocorrer próxima aos carreiros ativos, em dias secos e com temperatura amena. A umidade excessiva compromete a integridade da isca.
A dosagem correta é determinante para eficácia do tratamento. Subdosagem favorece retomada da atividade.
Aplicação técnica e logística operacional
A distribuição das iscas deve ser uniforme ao redor do formigueiro, evitando contato direto com a vegetação. Equipamentos de dosagem precisam estar calibrados.
Em grandes áreas florestais, o planejamento logístico envolve mapeamento prévio dos ninhos e organização de equipes treinadas.
A execução técnica adequada evita retrabalho e reinfestações.
Outros métodos de controle químico
Em situações específicas, pode-se utilizar inseticidas em pó aplicados diretamente nos olheiros. Esse método é indicado para ninhos menores.
A termonebulização é empregada em formigueiros de grande porte, permitindo dispersão do inseticida em forma de fumaça.
A escolha do método deve considerar porte do ninho, profundidade estimada e logística da área.
Prevenção e planejamento pré-implantação
A prevenção começa antes do plantio. O levantamento histórico da área identifica regiões de maior risco.
A inspeção nas bordaduras evita entrada de novos formigueiros. A integração entre monitoramento e intervenção precoce reduz pressão futura.
O planejamento técnico deve anteceder qualquer implantação agrícola ou florestal.
Manejo integrado de formigas cortadeiras
O manejo integrado combina monitoramento contínuo, organização ambiental e controle químico direcionado. A integração dessas etapas mantém a área sob vigilância constante. A execução cronológica correta envolve:
- Levantamento inicial da área
- Identificação e mapeamento dos ninhos
- Intervenção direcionada
- Revisão periódica
- Registro técnico das operações
Manejo biológicas de formigas cortadeiras
O cenário regulatório brasileiro para controle de formigas cortadeiras, com foco em Atta laevigata e Atta sexdens rubropilosa, está estruturado no sistema Agrofit/MAPA, que reúne produtos classificados como formicidas, incluindo formulações granuladas e iscas atrativas. A tendência técnica recente concentra-se em princípios ativos de origem vegetal e, em fase experimental, agentes microbiológicos.
A lógica biológica dessas soluções parte da compreensão central do sistema alimentar da colônia. Como as operárias transportam o material vegetal para cultivo do fungo simbionte, o alvo indireto do controle passa a ser esse fungo, eixo metabólico da colônia.
A formulação precisa ser atrativa, estável e capaz de alcançar as câmaras internas do ninho.
Iscas granuladas à base de anil (Tephrosia cândida)
As formulações registradas no MAPA para controle biológico de formigas cortadeiras incluem produtos com base ativa vegetal derivada de Tephrosia candida, com concentração aproximada de 335 g/kg em determinadas composições. Essa planta contém flavonas saponínicas do tipo rotenoide, metabólitos secundários associados à atividade inseticida.
O mecanismo de ação ocorre após o transporte da isca para o interior do formigueiro. Ao atingir o ambiente de cultivo do fungo simbionte, o princípio ativo interfere no equilíbrio da colônia. A interrupção da base alimentar compromete a estabilidade biológica do ninho.
A forma granulada é tecnicamente compatível com o comportamento de forrageamento de Atta, pois facilita o carregamento pelas operárias e o direcionamento às câmaras de fungo.
Combinações botânicas com extratos vegetais adicionais
Algumas formulações ampliam a base ativa com inclusão de extratos de outras espécies vegetais, como folhas de Psychotria marcgravii, associadas à presença de compostos bioativos naturais.
Essas combinações visam potencializar o efeito sobre a colônia por meio de interação entre diferentes metabólitos secundários.
O racional técnico está na diversificação de compostos com possível ação inseticida e interferência indireta sobre o fungo simbionte. A eficácia depende da estabilidade da matriz atrativa e da manutenção do interesse das operárias pelo transporte da isca.
Essas formulações mantêm classificação como formicida no MAPA, com aplicação via isca granulada.
Pesquisa com óleos essenciais: citronela, eucalipto e neem
Há linhas de investigação envolvendo óleo de citronela, óleo de Eucalyptus e óleo de neem como possíveis insumos para controle de formigas cortadeiras. Esses compostos apresentam propriedades inseticidas ou repelentes em diferentes grupos de insetos.
No contexto específico de Atta, o desafio técnico reside na incorporação desses óleos em matrizes que garantam atratividade e estabilidade. A volatilidade natural dos óleos essenciais pode comprometer a persistência no campo.
A viabilidade prática depende de formulação que permita transporte pelas operárias e ação efetiva no ambiente interno do formigueiro.
Inovação com agentes microbiológicos entomopatogênicos
Outra frente em desenvolvimento envolve fungos entomopatogênicos como Metarhizium anisopliae e Beauveria bassiana. Esses microrganismos apresentam potencial de infecção das operárias, com possível disseminação na colônia. O principal obstáculo técnico é o comportamento higiênico das formigas cortadeiras, que removem indivíduos contaminados antes que o patógeno se dissemine amplamente. Além disso, a proteção dos conídios contra radiação solar e temperatura elevada é fator crítico.

Para que essa tecnologia avance, a formulação precisa assegurar:
- Proteção física do agente biológico
- Manutenção da viabilidade em condições tropicais
- Integração à dinâmica social do formigueiro
Até o momento, essas soluções encontram-se majoritariamente em fase experimental, sem consolidação ampla como isca granulada biológica registrada para uso comercial.
Conclusão
As formigas cortadeiras representam ameaça estrutural aos sistemas produtivos brasileiros. Sua biologia organizada, associação simbiótica com fungo e alta demanda por biomassa vegetal explicam o impacto econômico observado em culturas agrícolas e florestais.
O enfrentamento técnico exige compreensão cronológica do ciclo biológico, identificação correta da espécie e execução estruturada do manejo.
Monitoramento sistemático, aplicação precisa de iscas e planejamento prévio constituem os pilares da condução agronômica.
Ignorar a presença inicial de um formigueiro significa permitir consolidação de uma colônia capaz de comprometer anos de investimento produtivo.
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Referências
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Sobre o autor:

Alasse Oliveira da Silva
Doutorando em Produção Vegetal (ESALQ/USP)
- Engenheiro agrônomo (UFRA) e Técnico em agronegócio
- Mestre e especialista em Produção Vegetal (ESALQ/USP)
Como citar este artigo:
SILVA, A. O. Formigas cortadeiras: controle de Atta (saúvas) e Acromyrmex (quenquéns) nos plantios agrícolas e florestais. Blog Agroadvance. Publicado: 13 Mar. 2026. Disponível em: https://agroadvance.com.br/blog-formigas-cortadeiras-sauvas-e-quenquens/. Acesso: 13 mar. 2026.



