Todo produtor de cana saber dizer, sem hesitar, qual é o custo seu canavial por hectare: R$ 10 mil. R$12 mil. R$ 14 mil.
Mas, basta uma única pergunta para expor uma verdade incômoda:
Qual o seu custo do ATR?
Foi exatamente essa provocação (direta, simples e desconcertante) que marcou a palestra de João Rosa (Pecege Consultoria) no Agroadvance Fórum. Segundo ele, 99% dos produtores de cana não sabem responder.
E o motivo é claro: continuam olhando para R$/ha, uma métrica que não diz nada sobre rentabilidade.
Este artigo nasce dessa reflexão e aprofunda o ponto central apresentado por Rosa: o produtor de cana não vende toneladas de cana! Ele vende toneladas de ATR.
E enquanto não calcular seus custos com esse foco, continuará tomando decisões às cegas.
O erro cultural que domina o setor: olhar para R$/ha
A lógica do custo por hectare é confortável, tradicional e amplamente difundida. Funciona para culturas de grãos, onde a métrica R$/ha se aproxima do faturamento. Mas, na cana, essa conta não fecha e esse indicador é o menos útil para avaliar a rentabilidade.
Como exemplificou João Rosa, dois produtores podem gastar valores completamente diferentes por hectare para produção de cana:
- Produtor A: R$ 10 mil/ha.
- Produtor B: R$ 13 mil/ha.
O senso comum diria que o primeiro é mais eficiente. Mas isso é FALSO.
O custo por hectare não carrega nenhuma informação sobre produtividade, não incorpora longevidade, não reflete ATR, não mostra nível tecnológico, qualidade operacional, tipo de arrendamento e modalidade de entrega. É apenas o custo bruto da área, e nada mais!
Esse apego ao R$/ha gera um efeito perigoso: a sensação de “gestão eficiente” baseada em um indicador que não conversa com o que o produtor realmente comercializa: açúcar total recuperável (ATR).
A métrica que realmente importa: o ATR é a moeda do setor sucroenergético
O setor sucroenergético gira em torno do ATR (Açúcar Total Recuperável). É essa unidade que:
- determina o valor comercial da cana (CONSECANA-SP),
- compõe o pagamento da usina,
- define o faturamento do produtor.
- Conecta campo e indústria em uma unidade comum
O ATR nada mais é do que Açucar Redutor Total (ART) ajustado pelas perdas industriais. Ou seja, é o quanto de açúcar é possível extrair daquela cana.
Uma cana com 135 kg de ATR por tonelada significa que ela entrega, efetivamente 135 quilos de açúcar recuperável por tonelada de cana. É esse açúcar que vai ser convertido em álcool ou etanol e irá compor o pagamento do produtor (de acordo com o mix de produção da usina).
A partir desse conceito, surge a pergunta que deveria guiar toda tomada de decisão: quanto custa produzir 1 kg de ATR no seu canavial? Enquanto essa resposta não estiver clara, qualquer análise de custo será parcial.
A curva do ATR: produtividade é apenas metade da equação
Quando falamos em ATR surge um ponto crucial: a curva do ATR (Figura 1). O açúcar recuperável varia ao longo da safra, e colher fora do momento ideal significa receber menos, mesmo produzindo o mesmo em toneladas de cana (embora existam opções para tentar amenizar isso como vender em ATR fixo).

Colher nos meses entre julho e setembro é garantir maior ATR da cana, uma vez que as condições climáticas dos meses anteriores (temperaturas mais menos e déficit hídrico) favorecem o acúmulo de açúcar pela planta. Mas a usina precisa de cana o ano inteiro para moagem e aí entram os dilemas e negociações…
Custo de produção de cana na Safra 2024/2025: a conta completa
A partir dos dados do PECEGE e apresentados por João Rosa (Figura 2), o custo médio da cana na safra 2024/2025 foi:
- Custo total: R$ 13.019 por hectare
- Produtividade média: 78 t/ha
- Custo por tonelada: R$ 166,92/t
- ATR médio: 135 kg/t
- Custo por kg de ATR: R$ 1,19/kg

Fonte: Pecege Consultoria (2025).
A decomposição dos custos mostra o verdadeiro “peso” da atividade:
Composição do custo por tonelada
- Operações (máquinas, mão de obra, diesel): 45,0%:
- Insumos: 26,2%
- Arrendamento: 18,5%
- Custos administrativos e outros: 5,9%
- Irrigação e fertirrigação: 4,4%
E dentro dos insumos (43,71 R$/t):
- 10%: fertilizantes
- 7,9%: defensivos
- 4,25%: mudas
- 2,4%: adubação corretiva
- 1,5%: outros
Essa estrutura expõe um ponto frequentemente negligenciado: insumos não são os vilões, operações são!
Custo decomposto da produção de cana na Safra 2024/2025
Formação do canavial
A formação do canavial inclui as operações de preparo do solo, plantio e o primeiro ano de tratos culturais. O investimento médio, conforme levantamento oficial do PECEGE, fica em torno de R$ 17 a 18 mil/ha .
Esse valor não deve entrar 100% na conta da safra, porque será diluído pela longevidade do canavial.
Quanto mais cortes o canavial sustentar, menor o peso da formação na conta do ATR.
Tratos culturais da soqueira
O custo médio para tratos da soqueira na safra 2024/2025 gira entre R$ 3.700 e R$ 4.000/ha .
Porém, um alerta essencial: Apesar de ser comum falar em seis cortes, apenas cinco cortes entram na conta real da soqueira, porque o primeiro é planta e não soqueira.
CTT: Corte, Transbordo e Transporte
O CTT é um dos componentes mais pesados da atividade.
Os valores citados giram em torno de R$ 45–50 por tonelada , podendo variar conforme terreno, distância e mecanização.
E aqui está um ponto crítico: quanto menor a produtividade do talhão, maior o custo operacional por tonelada e por ATR.
O peso do arrendamento
Talvez o ponto mais negligenciado pelo produtor seja o custo da terra, especialmente quando o pagamento é em tonelada de cana ou em kg de ATR.
Isso acontece porque boa parte dos contratos ainda usa um valor histórico de 121,97 kg de ATR por tonelada de cana como referência para pagamento.
Esse número não nasceu de cálculo agronômico, nem de avaliação atual de qualidade. Ele vem do período pré-Consecana, quando o setor trabalhava com ATR padrão, e não com ATR real da cana. Naquele contexto, o pagamento da matéria-prima era baseado em valores fixos estabelecidos na usina, e 121,97 kg ATR/TC era o parâmetro utilizado para a cana “na esteira”. Depois, o mercado apenas perpetuou esse valor nos contratos.
O problema é que, ao indexar o arrendamento a esse ATR fixo, o produtor cria uma relação automática:
- se o preço do ATR sobe, o custo do arrendamento sobe;
- se o preço do ATR cai, o custo do arrendamento cai;
- mas ele raramente refaz a conta completa do custo total.
E como o arrendamento já representa 18,5% da tonelada produzida, manter um valor histórico sem revisão crítica distorce o custo real do ATR e compromete a análise de rentabilidade.
De R$/ha para R$/t e por que ainda não basta
Quando o produtor deixa de olhar apenas para R$/ha e começa a observar R$/t, ele de fato dá um passo à frente, pois passa a considerar a produtividade que está sendo obtido com aquele investimento. Mas essa métrica ainda não representa rentabilidade, porque não considera o ATR.
Dois talhões com a mesma produtividade em toneladas podem ter valores de ATR totalmente diferentes. E isso altera o faturamento e, portanto, muda tudo no cálculo do custo real.
Por isso, é importante reforçar: o único indicador que mostra eficiência econômica real é o custo por quilo de ATR.
O número que expõe a realidade: custo do ATR em R$/kg
Os números oficiais de custo de produção da cana na safra 2024/2025 apresentados por João Rosa trazem um cenário preocupante: quando comparamos o custo de produção do ATR com o preço médio do ATR pago ao produtor no mesmo período, fica claro o descompasso:
- Preço médio do ATR recebido: ~R$ 1,03/kg
- Custo para produzir 1 kg de ATR: R$ 1,19/kg
Ou seja: o produtor perdeu cerca de R$ 0,16 por quilo de ATR produzido.
E mais: com produtividade média de 78 t/ha, o setor não atingiu o ponto de equilíbrio (entre custo e receita), que era de aproximadamente 81 t/ha.
Essa disparidade confirma um ponto central do artigo: muitos produtores acham que estão equilibrados porque olham para o número errado.
Esse exemplo mostra por que tantos produtores confundem redução de custo com aumento de rentabilidade.
Sem olhar para o ATR, a conta sempre parecerá “mais ou menos”, até que o caixa prove o contrário.
Produtividade de equilíbrio: o ponto que define lucro ou prejuízo
A análise do Botão mostrou que a produtividade de equilíbrio (aquela necessária para cobrir o custo do ATR) ficou em torno de 81 toneladas por hectare na safra 2024/2025.
E aqui vem a parte mais importante: Quando o preço do ATR cai, a produtividade necessária sobe.
Quando os custos aumentam, a produtividade necessária sobe ainda mais.
Quando o produtor corta os investimentos em insumos por exemplo e reduz produtividade no ano seguinte, ele se afasta do equilíbrio.
Ou seja: não existe corte de custo que compense uma queda de produtividade.
O erro clássico: cortar insumos para “resolver o caixa”
Cortar a adubação é a primeira ação que o produtor realiza quando quer reduzir custos. Mas, de acordo com João Rosa, isso não é o que deveria ser feito.
Adubação e tratos culturais representam uma pequena fração do custo total. A maior parte do custo está em operações, CTT e arrendamento.
Reduzir adubação raramente diminui o custo total de forma relevante. E o pior, é que essa prática produz um efeito perverso: a economia é mínima, mas a perda de produtividade é enorme, e afeta todas as safras seguintes.
Mesmo assim, ano após ano, é nessa conta que o produtor tenta “enxugar”.
Esse é um ciclo que compromete a longevidade do canavial e amplia o custo do ATR.
Por outro lado, os custos de CTT representam quase 50% do total e podem sim, ser otimizados. De acordo com João Rosa:
“Uma colhedora de cana trabalha, em média, 11 horas efetivas por dia. 45% de eficiência. Boas equipes chegam a 15 horas/dia.”
Com um aumento na eficiência operacional da colheita haveria:
- Redução de máquinas necessárias,
- Redução de operadores,
- Redução de diesel,
- Redução com manutenção,
- Redução no custo por tonelada,
- Reduz no custo por ATR,
- Aumento de margem.
Mas é o tipo de melhoria que não aparece no curto prazo — e por isso raramente vira prioridade.
Conclusão: quem não sabe o custo do ATR trabalha no escuro
O setor sucroenergético é técnico, competitivo e altamente sensível a variações de mercado. E o produtor que toma decisões olhando apenas para R$/ha está preso a uma lógica que funcionava há 40 anos atrás, mas não funciona mais.
O que define o lucro é o ATR. É o ATR que deve guiar gestão, investimentos, arrendamento, colheita e planejamento. Por isso, a pergunta que abriu este artigo continua valendo: Quanto custa o seu ATR?
Se você não sabe responder, não está calculando o indicador que sustenta a rentabilidade da atividade. E quem não domina esse número está pilotando o canavial no escuro.
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Referências
ROSA, J. Benchmarking Custo e eficiência operacional da Cana. Palestra ministrada no Agroadvance Fórum | Produtores de alta performance no dia 13 de novembro em Piracicaba (SP).
ROSA, J. Publicação no LinkedIn sobre cortes de orçamento no setor sucroenergético. Disponível em: https://www.linkedin.com/posts/joaorosabotao_cortar-o-sup%C3%A9rfluo-e-focar-no-essencial-%C3%A9-activity-7394349773249609728-5r25. Data de acesso: 09 Dez. 2025.
Sobre o autor:

Beatriz Nastaro Boschiero
Especialista em Conteúdo na Agroadvance
- Pós-doutora pelo CTBE/CNPEM e CENA/USP
- Mestra e Doutora em Solos e Nutrição de Plantas (ESALQ/USP)
- Engenheira Agrônoma (UNESP/Botucatu)
Como citar este artigo:
BOSCHIERO, B.N. Custo de produção da cana-de-açúcar por hectare em 2025/2026. Blog Agroadvance. Publicado em: 12 Dez. 2025. Disponível em: https://agroadvance.com.br/blog-custo-do-atr-custo-de-producao-cana-24-25/. Data de acesso: 23 jun. 2026.



