O milho é uma das culturas agrícolas mais antigas e importantes do mundo, sendo peça-chave para a alimentação e o desenvolvimento de civilizações inteiras desde a era pré-colombiana.
Hoje, o cereal mantém sua relevância como uma das principais commodities agrícolas globais, e o Brasil está entre os maiores produtores e exportadores mundiais de milho.
Versátil e altamente energético, o milho é amplamente utilizado na alimentação humana e animal, além de ter aplicações crescentes nas indústrias de alimentos, bebidas, cosméticos, papel, embalagens, biocombustíveis e químicos biodegradáveis.
A seguir, vamos explorar os principais destinos do milho brasileiro e entender melhor quais são os produtos derivados do milho e seus subprodutos presentes no nosso dia a dia — da mesa do consumidor às cadeias industriais mais complexas.
Acompanhe!
Mercado brasileiro do milho
O Brasil está entre os maiores produtores e exportadores mundiais de milho do mundo.
Na safra 2023/24, o país produziu 115,5 milhões de toneladas de milho. Para a safra 2024/25, a Conab prevê um aumento de 11%, com uma produção total de 128,3 milhões de toneladas.
Do total de milho produzido no País em 2023/24, cerca de 39,8 milhões de toneladas foram exportadas, de acordo com a ABIOVE, o que representa cerca de 35% do total produzido. O valor total gerado no Brasil em 2024 pelas exportações de milho foi de US$ 8,2 bilhões.
O restante: 75,7 milhões de toneladas (65,5%) ficou no mercado interno. A previsão é de que o a indústria de ração animal consuma em 2025, cerca de 60 milhões de toneladas de milho (incluindo o seu derivado DDG), de acordo com o matéria do Globo Rural.
O restante se destina para: consumo industrial, como para produção de etanol de milho ou extrações de moagem (23 milhões de toneladas), consumo humano (1,9 milhões de toneladas) e produção de sementes (cerca de 0,6 milhões de toneladas),
Portanto, o destino do milho no Brasil, pode ser sintetizado na Figura 1, entre exportação, consumo animal, consumo industrial, consumo humano e produção de sementes.

Constituição e composição dos grãos de milho
O milho é um cereal essencialmente energético, formado por quatro principais estruturas físicas (Figura 2):
- Endosperma: representa aproximadamente 83% do peso seco do grão e concentra 75% da proteína e 98% do total de carboidratos, dos quais 86 a 89% é amido.
- Gérmen: representa 10-14% do peso do grão, contém aproximadamente 26% da proteína, 83% dos lipídeos e quase a totalidade das vitaminas, minerais e açúcares do grão.
- Pericarpo: é a casca do grão,cujo peso equivale a 5 a 6% do peso do grão, concentra 55% das fibras do grão do milho.
- Ponta: é a menor fração, correspondendo a apenas 0.8% do peso do grão, mas concentra 7% das fibras do grão.

A composição química de cada parte do grão (Tabela 1) mostra que as proteínas, que representam cerca de 9% do peso do grão, estão presentes principalmente no endosperma, ponta e gérmen dos grãos. Os lipídeos são encontrados principalmente no gérmen e três quartos do grão são constituídos de amido.
Tabela 1. composição química do grão de milho e seus componentes
| Fração | Grão (%) | Amido (%) | Lipídeos (%) | Proteína (%) | Açúcares (%) | Cinzas (%) |
| Grão inteiro | 100,0 | 73,4 | 4,4 | 9,1 | 1,9 | 1,4 |
| Endosperma | 82,9 | 87,6 | 0,8 | 8,0 | 0,6 | 0,3 |
| Gérmen | 11,1 | 8,3 | 33,2 | 18,4 | 10,8 | 10,5 |
| Pericarpo | 5,3 | 7,3 | 1,0 | 3,7 | 0,3 | 0,8 |
| Ponta | 0,8 | 5,3 | 3,8 | 9,1 | 1,6 | 1,6 |
Produtos derivados do milho
A indústria alimentícia utiliza, de forma geral, os grãos secos do milho, que são transformados em diversos produtos. Os derivados do milho são adquiridos por dois processos diferentes, que permitem separar o gérmen do endosperma para posterior extração de óleo:
- moagem seca: é, essencialmente, um processo de quebra física do grão de milho, onde o grão é separado em gérmen, pericarpo e endosperma.
- O gérmen é removido em degerminadores para posterior extração de óleo, e o endosperma remanescente, chamado de canjica, pode ser utilizado tal e qual ou pode também ser direcionado a processos adicionais de moagem e classificação densimétrica para a obtenção de diversas frações, que variam em tamanho e composição
- Os principais produtos obtidos são canjicas, farinhas, fubás, grits e canjiquinhas (estas duas últimas com partículas maiores que as farinhas e fubás).
- Também podem ser obtidos outros produtos, como flocos de milho pré-cozidos, farinhas de milho pré-gelatinizadas e fibra de milho (Tabela 2).
- moagem úmida: uma etapa de maceração dos grãos é adicionada após a moagem seca, onde se utilizada uma solução de dióxido de enxofre em condições controladas, que propiciam a separação dos componentes do grão e maior extração do amido e da proteína, sendo possível obter uma vasta gama de produtos (Figura 3).
Temos, ainda, o segmento que utiliza o milho na forma imatura – milho verde, que é comercializado a granel ou em bandejas para consumo, como milho cozido ou assado, utilizado na elaboração de pamonha, cural, creme de milho, bolos etc.; ou ainda o milho doce, destinado à indústria de enlatados e conservas.

Tabela 2. Rendimento médio na moagem de milho por via seca
| Produto | Rendimento médio (%) |
| Canjica* | 68% |
| Farinhas/fubás | 22% |
| Grits/canjiquinhas | 12% |
| Canjicas | 14% |
| Produtos pré-cozidos/flocos | 20% |
| Gérmen | 30% |
| Óleo | 4% |
| Farelo | 26% |
| Quebra | 2% |
Fonte: Associação Brasileira das Indústrias do Milho (Abimilho).
Subprodutos derivados do milho
O milho não se limita apenas ao grão inteiro ou aos produtos alimentícios tradicionais. A cadeia agroindustrial do cereal gera diversos subprodutos — resultantes principalmente dos processos de moagem e fermentação — que são fundamentais para a nutrição animal, a produção de biocombustíveis, a indústria farmacêutica e até a fabricação de bioplásticos (Figura 4).

Subprodutos da moagem seca
- Farelo de milho: rico em fibra, utilizado em rações para bovinos, suínos e aves.
- Casca (pericarpo): aproveitada como fonte de fibra alimentar ou fibra insolúvel em formulações de rações.
- Ponta de espiga: embora pequena em volume, é direcionada principalmente à alimentação animal.
Subprodutos da moagem úmida
- Glúten de milho (Corn Gluten Meal): proteína concentrada, muito usada em rações para monogástricos e aquicultura.
- Glúten feed (Corn Gluten Feed): mistura de resíduos da moagem úmida com steep liquor (líquor de maceração), com menor teor de proteína, usado como volumoso energético.
- Steep liquor (líquor de maceração): líquido nutritivo rico em compostos nitrogenados, utilizado como aditivo na nutrição animal ou como meio de cultura microbiana em processos industriais.
- Óleo bruto de milho: extraído do gérmen, pode ser refinado para uso alimentício ou usado como matéria-prima para biodiesel.
Subprodutos da indústria do etanol
- DDG (Dried Distillers Grains) e DDGS (com solubles): resultado da fermentação do amido do milho para produção de etanol, são subprodutos secos, com alto teor de proteína e energia, amplamente utilizados na formulação de rações balanceadas.
Esses subprodutos conferem à cadeia do milho uma eficiência circular, em que praticamente todas as partes do grão são aproveitadas, agregando valor ao longo da cadeia produtiva.
Uso do milho na alimentação humana e animal
O milho é um alimento base tanto para humanos quanto para animais, e sua versatilidade se expressa nos diversos formatos e composições que assume.
Na alimentação humana, os principais usos são:
- Consumo direto: milho verde (em espiga, pamonha, curau, milho assado), canjica.
- Produtos secos: fubá, farinha de milho, flocos, grits, milharina.
- Indústria alimentícia: amido de milho (espessante), xarope de milho (adoçante), maltodextrina (suplementos), snacks, cereais matinais, bolachas e biscoitos.
- Alimentos funcionais: com fibras e antioxidantes oriundos de compostos fenólicos presentes no pericarpo e gérmen.
Na alimentação animal, por sua vez, os usos incluem:
- Ração para aves, suínos e bovinos: com base em milho integral, farelos, glúten de milho, DDG e outros subprodutos.
- Formulações específicas: para cada categoria animal, otimizando o teor proteico, energético e de fibra.
Essa amplitude de usos reforça o milho como pilar da segurança alimentar, da produção de proteína animal e da bioindústria.
Conclusão
Do consumo direto à industrialização em larga escala, o milho é uma cultura estratégica para o Brasil — não apenas pelo seu volume de produção, mas pela variedade de produtos e subprodutos do milho que movimentam cadeias inteiras da agroindústria, da alimentação humana à nutrição animal, da energia renovável à química verde.
Compreender a constituição do grão, os processos industriais envolvidos e os destinos comerciais do milho é essencial para quem deseja atuar com propriedade nas áreas de produção, gestão e tomada de decisão no agronegócio. O conhecimento técnico, quando bem aplicado, se transforma em diferencial competitivo.
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Referências
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PAES, M. C. D. Aspectos Físicos, Químicos e Tecnológicos do Grão de Milho. sete lagoas: Embrapa milho e sorgo, 2006. (Embrapa milho e sorgo, Circular Técnica 75).
STRAZZI, S. Derivados do milho são usados em mais de 150 diferentes produtos industriais. Visão agrícola, nº13, 2015. Disponível em: https://www.esalq.usp.br/visaoagricola/sites/default/files/VA_13_Industrializacao-artigo4.pdf. Acesso: 16 Jun 2025.
SINGH, N.; ECKHOFF, S. P. Wet milling of Corn – A review of laboratory – scale and Pilot Plant – scale Procedures. Cereal Chemistry, v. 73, n. 6, p. 659-667, 1996.
WATSON, S. A. The Corn kernel. in: WHITE, J. P.; JOHNSON, L. A. (Ed.). Corn: Chemistry and Technology. 2. ed. minnesota: Americ.
Sobre a autora

Beatriz Nastaro Boschiero
Especialista em Conteúdo na Agroadvance
- Pós-doutora pelo CTBE/CNPEM e CENA/USP
- Mestra e Doutora em Solos e Nutrição de Plantas (ESALQ/USP)
- Engenheira Agrônoma (UNESP/Botucatu)
Como citar este artigo:
BOSCHIERO, B.N. Produtos derivados do milho e seus subprodutos: destinos e usos no mercado brasileiro. Blog Agroadvance. 2025. Disponível em: https://agroadvance.com.br/blog-produtos-derivados-do-milho-e-subprodutos/. Data de acesso: 19 jul. 2026.



