Conflitos são parte inevitável da convivência humana. No ambiente de trabalho, seja em fazendas familiares, cooperativas ou agroindústrias, eles surgem em decisões estratégicas, divergências de opinião ou simples diferenças de gerações. Mas a pergunta central é: como transformar tensões em oportunidades de crescimento?
O termo “conflito” tem origem do latim “conflictus”, que possui o significado de choque ou embate entre coisas. No dia a dia de equipes de trabalho, estes embates podem ser prejudiciais ou benéficos para o time, variando de acordo de como se é realizado a gestão do conflito em si.
Pesquisas mostram que 85% dos funcionários precisam lidar com algum tipo de conflito no trabalho e 29% o fazem com frequência. No Brasil, gastam-se em média 1,9 hora por semana apenas em atividades de resolução de conflitos, o que gera impactos na produtividade e motivação das equipes.
No agronegócio, os conflitos são presentes em diferentes situações: entre funcionários, nas tomadas de decisões, na escolha das estratégias, nas divergências de opiniões em propriedades familiares, etc. Estas tensões quando são bem resolvidas em ambas as partes, podem se tornar oportunidades de melhorias para o time.
Neste artigo, vamos explorar o que é gestão de conflitos, os tipos mais comuns no setor agropecuário, as etapas essências para resolver divergências e estratégias que incluem desde a mediação dentro das equipes até métodos formais como a mediação e a arbitragem. Afinal, liderar no campo exige mais do que conhecimento técnico: exige saber gerir pessoas e relações.
Boa leitura!

Figura 1. Imagem representativa sobre conflitos no agronegócio. Fonte: Instituto Agro.
O que é gestão e gerenciamento de conflitos?
Antes de falarmos sobre a gestão de conflitos, é importante compreender o porquê e como os conflitos acontecem.
Os conflitos acontecem por divergentes opiniões, ações e atitudes de acordo com uma situação. Isto pode acontecer entre líder e liderado, mas também pode acontecer com todo o time e equipe envolvida. É de supra importância entender e conhecer as motivações e gravidades destes conflitos, investigando as causas e origens, visando reduzir problemas ainda mais complexos.
Os conflitos podem ser tanto construtivos, utilizados para desenvolver soluções de qualidade e fortalecer relacionamentos, quanto destrutivos, quando frustram a comunicação e dificultam a solução de problemas (Deutsch, 2014). Nesse sentido, o desafio está em identificar como e quando os indivíduos e grupos podem discutir e lidar com conflitos, a fim de torná-los benéficos para si e para a organização. Se os conflitos são geridos de forma eficaz, pode haver melhorias na qualidade da decisão e no desempenho individual e organizacional.
Embora muitas vezes usados como sinônimos, gestão de conflitos e gerenciamento de conflitos possuem diferenças importantes.
- A gestão de conflitos envolve a habilidade do líder em identificar, compreender e conduzir as situações de divergência, sem que elas prejudiquem o clima organizacional e a produtividade.
- O gerenciamento de conflitos, por sua vez, diz respeito à aplicação de técnicas, métodos e ferramentas que transformam conflitos em oportunidades de melhoria, reduzindo riscos e fortalecendo as relações.
Tanto a gestão quanto o gerenciamento de conflitos são competências fundamentais que um líder precisa ter dentro de uma organização, seja ela pequena, média ou grande porte.
Gestores gastam seu tempo lidando com conflitos internos, quando falamos do setor do agronegócio se torna de extrema importância esta gestão, pois os conflitos impactam diretamente na produtividade dos envolvidos, colocando em risco as operações a serem realizadas.
Se pensarmos nas fazendas, quando um conflito não é bem gerido pode ocasionar perdas significativas. Imagine uma fazenda em que o agrônomo defende o plantio imediato, mas a equipe de operações prefere esperar por melhores condições climáticas. Ou que algo divergências semelhantes ocorram no momento da colheita. Se a decisão não for bem conduzida, o atraso pode gerar perdas significativas de produtividade.
Nestes cenários, a falta de habilidade para gerenciar os conflitos, podem gerar perdas financeiras, operacionais e desgaste no relacionamento dos envolvidos.
Quais são os tipos de conflitos mais comuns no agronegócio?
Os conflitos possuem classificações em diferentes dimensões, mas existem 4 mais comuns que ocorrem no agronegócio. Sendo estes:
- Conflito intrapessoal:
Este conflito como o nome dele já diz, é um conflito interno, ocorre dentro do próprio indivíduo, quando ele possui dúvidas e incertezas pessoais de acordo com uma situação. Um exemplo se dá quando um sucessor de uma propriedade familiar precisa começar a tomar decisões sozinho, gerando dúvidas na gestão da fazenda.
- Conflito interpessoal:
Este conflito é ocorre com duas pessoas envolvidas, podendo ser causado por diferentes opiniões sobre um determinado assunto ou situação. Muitas vezes este tipo de conflito é comum nas relações do líder e do liderado, quando ocorre divergentes opiniões, no qual um fator pode ser a diferença de geração, causando os conflitos entre gerações.
- Conflito intragrupal:
Este tipo de conflito surge dentro de um mesmo grupo. Por exemplo: membros da equipe de campo estão com divergência entre o melhor momento para o plantio, causando discussões dentro do próprio time.
- Conflito intergrupal:
O conflito intergrupal acontece quando há discussões com pessoas de times diferentes, por exemplo: o setor de campo discutindo com o setor administrativo, ou com o setor de logística por exemplo. Estes conflitos, mesmo que inevitáveis, são uma oportunidade para alinhar os processos organizacionais.
Além dessas dimensões, no agronegócio é comum enfrentar conflitos de natureza contratual, fundiária, ambiental e trabalhista:
- Contratuais: inadimplência em contratos de compra e venda de commodities ou divergências em contratos de arrendamento e parcerias rurais.
- Fundiários: disputas por posse, registros sobrepostos ou questões envolvendo comunidades tradicionais e indígenas.
- Ambientais: embargos por desmatamento, uso irregular de recursos hídricos ou exigências de recuperação de áreas degradadas.
- Trabalhistas: condições precárias de trabalho, informalidade, jornadas excessivas e descumprimento de normas de segurança.
Além de compreendermos sobre os tipos mais comuns de conflitos, é importante ver diretamente quais os principais motivos que eles acontecem, além de entender as consequências na prática. Vejamos abaixo:
Principais motivos que os conflitos acontecem:
- Lideranças autoritárias
- Falta de confiança e comunicação
- Ausência de feedback
- Ausência de oportunidades para crescimento interno
- Prazos inalcançáveis
Principais consequências que os conflitos geram:
- Falta de cooperação com o time
- Queda de motivação
- Quebra de relacionamento e confiança
- Impactos negativos no clima da empresa e/ou fazenda
- Geração de ansiedade, tensão e estresse entre colaboradores
Entendemos o quanto os conflitos impactam diretamente, vejamos a seguir, quais as etapas da gestão de conflitos, visando reduzir os impactos causados.
Quais são as 4 etapas da gestão de conflitos?
Antes de falarmos das 4 etapas da gestão de conflitos, é importante que os envolvidos na situação possuam abertura para diálogo, escuta ativa, empatia e comprometimento, pois desta maneira os conflitos serão resolvidos com maior efetividade.
A gestão de conflitos possui 4 etapas para sua realização, sendo estas:
- Identificar os conflitos
- Análise da situação
- Definição das estratégias
- Acompanhamento
Quando falamos em identificação de conflitos, é fundamental a escuta ativa e com atenção, pois ela permite o entendimento de uma forma mais clara, sobre a percepção dos membros do time, a respeito do acontecimento.
Neste primeiro momento, o líder precisa estar atento a todos os membros do time, para ter a rápida percepção de um conflito, não permitindo que ele se torne em algo pior, caso passe despercebido.
A análise da situação se complementa na identificação do conflito, pois neste momento há a compreensão da causa raiz que gerou o conflito, além da captação dos interesses e das percepções entre as partes envolvidas. Isto é essencial para descobrir a causa raiz do conflito e evitar que o mesmo aconteça repetidamente.
A definição das estratégias permite que o líder traga uma solução ao conflito ocorrido, é neste momento que se torna importante trazer uma solução ao problema, ouvindo todas as partes envolvidas, buscando resolvido o conflito gerado.
E, por fim temos o acompanhamento, no qual é necessário após um determinado tempo acompanhar e monitorar as partes envolvidas, com o principal objetivo em evitar o ressurgimento de novos conflitos com as mesmas causas raízes. É necessário o líder estar atento, buscando reduzir novas divergências de opiniões.
Exemplo real de como a gestão de conflitos contribui dentro do setor do agronegócio:
Um dos conflitos presentes no dia a dia das empresas familiares no agronegócio, é com relação a sucessão familiar. Através de um estudo realizado pela “Governança e gestão do patrimônio das famílias do agronegócio” da Fundação Dom Cabral e da JValério, menos de 1% das empresas familiares não chegam a quarta geração.
Um exemplo de destaque de como uma empresa familiar conseguiu superar os desafios e conflitos presentes em um processo de sucessão, foi a Família Salvalaggio. Pois, a transição familiar foi realizada com planejamento, antecedência e organização. Desta forma, os conflitos foram reduzidos, evitando tensões e garantindo a continuidade.
Neste caso, houve um planejamento prévio, que reduziu drasticamente a quantidade de conflitos que poderiam ser gerados, caso a transição fosse realizada de forma abruta. Portanto, houve a compreensão da situação, além de diálogo e entendimento dos interesses com as partes interessadas.
Como fazer gestão de conflitos? Estratégias para o agro
No agronegócio lidamos com os conflitos nas propriedades agrícolas em muitos momentos, para reduzir os impactos causados, é necessário ter algumas estratégias, para lidar com as situações quando as mesmas acontecerem.
A comunicação direta periodicamente é de extrema importância, pois caso haja algum ponto a ser discutido, este será levado em consideração nas conversas periódicas, não permitindo que um pequeno conflito se torne algo maior e com maiores impactos negativos.
Além da comunicação, é importante dentro das propriedades que tenha escuta ativa, isto permite que os membros envolvidos nas atividades exponham seus posicionamentos, ideias e opiniões, reduzindo tensões e favorecendo um convívio harmonioso.
A definição clara dos papeis contribui diretamente na redução de conflitos, pois cada membro tem a clara certeza das suas respectivas obrigações e deveres, reduzindo atritos dentro da área.
Por fim, a capacitação continua é um pilar essencial para lidar com os conflitos dentro do agronegócio, pois permite que através dos treinamentos as partes interessadas se tornem mais capacitadas, fortalecendo o senso de união da equipe e aprendizado constante.
Mas o agronegócio, por sua complexidade, também demanda métodos extrajudiciais para resolução de disputas de maior escala:
- Mediação: indicada para preservar relações comerciais, renegociar contratos ou tratar sucessão familiar. O mediador atua como facilitador do diálogo.
- Arbitragem: ideal para conflitos mais complexos, como contratos internacionais, qualidade de commodities e disputas ambientais. Permite decisões técnicas, céleres e confidenciais.
Esses métodos reduzem a morosidade da Justiça, diminuem custos indiretos e trazem maior segurança jurídica às operações do agro.
O papel da liderança estratégica na prevenção e mediação de conflitos
A liderança é uma peça-chave para prevenir e resolver conflitos, evitando que divergências se tornem crises. Um líder bem-preparado consegue alinhar os diferentes interesses, em torno do convívio e do bem comum. Um líder estratégico no agronegócio deve:
- Atuar de forma preventiva, promovendo um ambiente de confiança e diálogo.
- Saber quando conduzir internamente e quando recorrer a instrumentos formais, como a mediação ou a arbitragem.
- Estimular a cultura da cooperação, substituindo a imposição por negociação e escuta.
No Brasil, o desafio ainda é a falta de conhecimento de pequenos e médios produtores sobre essas ferramentas. Há também a percepção de que métodos como a arbitragem são caros. Por isso, cabe às lideranças rurais buscar capacitação, criar canais de diálogo dentro das propriedades e fortalecer práticas modernas de gestão de conflitos.
Agroadvance indica: filmes que abordam a gestão de conflitos
Alguns filmes abordam muito bem a gestão de conflitos e podem ser usados como inspiração. Segue uma lista de sugestões:
- Senhor das Moscas: Mostra como os conflitos de liberança e a falta de regra claras levam ao caos. O filme tras o relato de crianças presas em uma ilha, tentam criar uma sociedade, mas em pouco tempo surge rivalidades.
- A negociação: O filme mostra a historia de um magnata que busca manter a sua empresa a sua reputação, enquanto enfrente diversos problemas.
- 12 homens e uma sentença: O filme mostra como o dialogo e a escuta ativa, podem transformar as decisões em grupos. No filme retrata 12 homens que precisam se decidir se um jovem é culpada ou inocente. Destaca o poder da liderança e calma.
- O Sol é para Todos: Neste filme há um advogado que defente um negro injustitiçado. O filme ensina sobre ética, coragem, empatica e como compreender os conflitos sociais e culturais.
- A Rede Social: O filme mostra a historia da criação das redes sociais por Mark Zuckerberg, onde traz reflexões sobre ambição, confiaça, traição nos negocios. Mostra a importancia da comunicação.
- O Discurso do Rei: O filme retrata um momento da Segunda Guerra Mundial, no qual o rei George VI precisa superar um desafio pessoal. O filme mostra a superação de limites, fortalecimento de liderança em crise e importancia do apoio.

Conclusão
No agronegócio, onde cada decisão impacta diretamente a produtividade e a rentabilidade, a gestão de conflitos é uma competência essencial. Do ambiente interpessoal até disputas contratuais, fundiárias e ambientais, saber lidar com divergências de forma estruturada é o que diferencia líderes preparados de gestores reativos.
Métodos como a mediação e a arbitragem despontam como alternativas estratégicas, oferecendo agilidade, segurança e preservação das relações comerciais no campo. Para transformar tensões em resultados, líderes precisam unir habilidades de comunicação, visão estratégica e preparo técnico.
E para quem deseja se aprofundar nessa competência, o MBA em Liderança, Gestão e Estratégia no Agronegócio da Agroadvance oferece uma formação completa, prática e conectada aos desafios reais do setor.
O curso faz toda a preparação dos profissionais, para que possam enfrentar os desafios do setor, de maneira prática, real e com estratégia. Investir no desenvolvimento profissional é essencial para construção de um agronegócio mais produtivo e preparado.
Referencias:
BOSCHIERO, Beatriz Nastaro. Sucessão familiar rural: desafios e soluções para garantir a continuidade do negócio. Blog Agroadvance. Publicado em: 14 jun. 2023. Atualizado em: 25 fev. 2025. Disponível em: <https://agroadvance.com.br/blog-sucessao-familiar-rural/\>. Acesso em: 24 ago. 2025.
COCARI – Cooperativa Agroindustrial. Sucessão familiar: uma tradição que se renova em Campo Alegre de Goiás. Informativo Cocari. Disponível em: <https://www.cocari.com.br/informativo/sucessao-familiar-uma-tradicao-que-se-renova-em-campo-alegre-de-goias\>. Acesso em: 24 ago. 2025.
DEUTSCH, M. Cooperation, competition and conflict. In COLEMAN, P. DEUTSCH, M.; MARCUS, E. (EDS.), The handbook of conflict resolution: theory and practice Jossey Bass. pp. 03-28, 2014
FELLIPELLI CONSULTORIA. Funcionários brasileiros perdem mais de 90 horas de trabalho com conflitos mal resolvidos nas empresas. [S. l.: s. n.], 18 out. 2017. Disponível em: https://fellipelli.com.br/funcionarios-brasileiros-perdem-mais-de-90-horas-de-trabalho-com-conflitos-mal-resolvidos-nas-empresas/. Acesso em: 24 ago. 2025.
GREAT PLACE TO WORK®. Como fazer a gestão de conflitos na sua organização. Disponível em: https://gptw.com.br/conteudo/artigos/gestao-de-conflitos/. Acesso em: 24 ago. 2025.
INSTITUTO AGRO. Título: 10 dicas de gestão de conflitos para empresas do Agronegócio. [S. l.: s. n.], 28 jun. 2018. Disponível em: https://institutoagro.com.br/gestao-de-conflitos-no-agronegocio/. Acesso em: 24 ago. 2025. Instituto Agro
Sobre a autora:

Rosiane Caroline de Souza
Analista de Produtos Educacionais PLENO na Agroadvance
- Engenheira Agrônoma (UNESP/Botucatu)
- MBA em Gestão Florestal (UFPR)
- MBA em Liderança, Gestão, Estratégia no Agronegócio (Agroadvance)
Como citar este artigo:
SOUZA, R. C. Gestão de conflitos no agronegócio: como lidar com desafios nas equipes e transformar tensões em resultados. Blog Agroadvance, Publicado em: 27 Ago 2025. Disponível em https://agroadvance.com.br/blog-gestao-de-conflitos/. Acesso em: 13 jun. 2026.



