Em um mercado global onde o café deixou de ser apenas uma commodity agrícola para se tornar símbolo de experiência sensorial, origem e sofisticação, alguns grãos ultrapassam a lógica do consumo cotidiano e alcançam o status de artigo de luxo.
É nesse seleto universo que surge o Café Jacu, um café especial brasileiro capaz de atingir valores superiores a R$ 90 mil por saca, resultado de uma combinação singular entre natureza, seleção biológica e manejo agrícola sustentável, sendo o café mais caro do Brasil.
Mais do que um café raro ou curioso, o também chamado Jacu Bird Coffee trata-se de um exemplo extremo de como inovação, narrativa de origem e qualidade sensorial podem transformar um fruto comum em um dos cafés mais exclusivos e valorizados do mundo.
O Brasil domina a produção global de café, respondendo por cerca de um terço da produção mundial de café, com uma fração crescente dedicada ao café especial, marcado por qualidade, origem e práticas agrícolas sustentáveis.
Certificações, cultivares e métodos de processamento agregam valor à produção brasileira neste segmento e amplia a competitividade internacional.
O que é o café Jacu?
O Café Jacu é um tipo de café especial brasileiro produzido a partir de grãos ingeridos pela ave nativa Jacu (Penelope sp.) e posteriormente excretados intactos nas fezes do animal (Figura 1).

Esta peculiaridade inspirou analogias ao Kopi Luwak, o café indonésio produzido via digestão por civetas, mas o café Jacu Bird é uma expressão brasileira, com identidade própria de terroir e sistema produtivo.
A principal diferença em relação aos métodos tradicionais de produção de cafés especiais está na seleção natural de frutos maduros: o jacu escolhe e consome apenas frutos em ponto ótimo de maturação, e os grãos são posteriormente coletados manualmente após a excreção. A ave promovendo, portanto, uma pré-seleção biológica que influencia diretamente o perfil sensorial do café.
Origem e contexto histórico
O processo que dá origem ao Jacu Bird Coffee foi desenvolvido de forma experimental pelo produtor Henrique Sloper na Fazenda Camocim Organic, em Domingos Martins, no Espírito Santo.
A história começou quando os jacus, considerados inicialmente pragas, começaram a frequentar os cafezais e consumir frutos maduros, fato que inspirou o produtor a testar um método similar ao do Kopi Luwak.
Desde então, o Café Jacu tem sido produzido em escala extremamente reduzida, no em sistemas de agroflorestas integrada à mata nativa, com foco em práticas orgânicas e biodinâmicas que respeitam o ecossistema local.
Como o café Jacu é produzido?
A produção do café Jacu envolve uma equência de etapas naturais e operacionais altamente dependentes do ambiente e do comportamento da ave. O processo pode ser dividido em três fases principais: interação animal-planta, digestão e excreção, e pós-colheita.
O processo se inicia com o Jacu consumindo exclusivamente os frutos de café maduros em plantações imersas em ambientes de floresta tropical, sistema que favorece biodiversidade e seleciona grãos naturalmente mais doces e equilibrados.
Após a ingestão, o alimento passa pelo trato digestivo da ave. Porções da polpa são metabolizadas, enquanto o grão de café é eliminado intacto nas fezes. Essa ação natural funciona como uma forma de seleção e pré-trituração que, segundo produtores e especialistas, afeta positivamente as características sensoriais.
Os grãos excretados são:
- coletados manualmente ao pé das árvores (Figura 2);
- submetidos à higienização rigorosa;
- secos em estufas ou ao sol;
- classificados por tamanho;
- repousados em câmaras frias para estabilização;
- torrados artesanalmente para consumo.
Todos os estágios são feitos de forma manual e criteriosa, refletindo no custo e na escala limitada de produção.

Fatores que elevam o valor do Café Jacú
O elevado valor agregado do Café Jacu está diretamente relacionado a um conjunto de fatores produtivos, ambientais e mercadológicos que o diferenciam de forma consistente dos cafés especiais convencionais. Trata-se de um produto de nicho, cuja exclusividade não é resultado de estratégias industriais, mas de um sistema produtivo naturalmente limitado e altamente dependente de condições ecológicas específicas. Vejamos em detalhes esses fatores:
Escala de produção
A produção anual é limitada (muitas vezes não superior a algumas toneladas), em contraste com cafés especiais convencionais, que dependem de colheita mecanizada ou semi-manual em larga escala.
Seleção natural
A escolha de frutos maduros pelo Jacu representa uma forma de pré-seleção biológica, associada a atributos sensoriais diferenciados, um aspecto central no posicionamento do produto como premium.
Agricultura sustentável
O ambiente de agrofloresta e manejo, torna-o um café orgânico e biodinâmico, com redução no uso de fertilizantes e defensivos, reforça a resiliência ecológica e agrega valor às certificações de sustentabilidade.
Demanda internacional
Mercados na Europa, Japão, Austrália e Estados Unidos adquiriram lotes do Jacu Bird Coffee, atraídos por sua narrativa singular e perfil sensorial.
Perfil sensorial técnico do café Jacu
O Café Jacu tende a apresentar:
- Aroma: floral, frutado com nuances de mel e castanha.
- Sabor: suave, acidez equilibrada e doçura natural.
- Corpo: sedoso, delicado.
- Finalização: prolongada e elegante.
Esse perfil combina atributos organolépticos desejados em cafés especiais com uma expressão única decorrente do processo de seleção natural (Figura 3).

O que caracteriza um café especial?
O café especial é definido a partir de critérios rigorosos de qualidade sensorial, rastreabilidade e boas práticas ao longo da cadeia produtiva.
De acordo com o protocolo da Specialty Coffee Association (SCA), um café só pode ser classificado como especial quando atinge pontuação superior a 80 pontos em uma escala de 0 a 100, obtida por meio de análises sensoriais conduzidas por provadores certificados (Q-graders).
Essa avaliação considera atributos como fragrância e aroma, sabor, acidez, corpo, doçura, equilíbrio, finalização e ausência de defeitos. Além do aspecto sensorial, cafés especiais geralmente apresentam origem controlada, colheita seletiva, processamento adequado e armazenamento criterioso, fatores que garantem consistência e expressão do terroir.
Trata-se, portanto, de um produto que transcende o conceito de commodity, posicionando-se como alimento de alto valor agregado, associado à identidade regional, inovação e sustentabilidade.
Quem atribui a pontuação a um café especial?
As avaliações são conduzidas por profissionais certificados, conhecidos como Q-graders, treinados para identificar atributos positivos e defeitos na bebida.
Durante a prova, os cafés recebem notas para critérios como aroma, sabor, acidez, corpo, doçura, equilíbrio e finalização, além da uniformidade entre xícaras. A soma desses atributos resulta em uma pontuação final em uma escala de 0 a 100.
Classificação:
- Abaixo de 80 pontos: Café comercial (commodity)
- 80,0 a 84,99 pontos: Café especial (Very Good)
- 85,0 a 89,99 pontos: Café especial de excelência (Excellent)
- 90 pontos ou mais: Café excepcional (Outstanding / Rare Coffees)
Cafés raros e exóticos
Além do Café Jacu, o mercado global de cafés especiais abriga uma categoria ainda mais restrita: os cafés raros e ultra premium, caracterizados por produção extremamente limitada, processos singulares e alto valor simbólico e sensorial.
Entre os exemplos mais conhecidos está o Kopi Luwak, da Indonésia, produzido a partir de grãos ingeridos e excretados pela civeta. Apesar de sua fama internacional e preços elevados, esse café enfrenta críticas relacionadas ao bem-estar animal quando produzido em sistemas de confinamento, o que tem levado consumidores a questionar sua sustentabilidade ética.
Outro exemplo é o Black Ivory Coffee, da Tailândia, considerado um dos cafés mais caros do mundo. Nesse sistema, elefantes consomem os frutos de café, e os grãos são posteriormente coletados após a digestão.
A produção é extremamente limitada, voltada a hotéis de luxo e mercados exclusivos, e o processo digestivo tende a reduzir a acidez, o que resulta em uma bebida suave e adocicada. O alto custo reflete tanto a raridade quanto a complexidade logística do processo.
Há ainda cafés raros que não envolvem digestão animal, como o Panama Geisha, famoso por alcançar valores recordes em leilões internacionais, chegando até R$ 160.000,00 o quilograma.
Sua exclusividade está ligada à combinação entre genética, terroir, manejo altamente técnico e perfil sensorial excepcional, com notas florais intensas e acidez vibrante.
Esses exemplos demonstram que a raridade no mercado de cafés especiais pode ser construída por diferentes caminhos, biológicos, ambientais ou genéticos, e ajudam a contextualizar o Café Jacu como uma expressão brasileira legítima dentro do seleto grupo dos cafés mais exclusivos do mundo.
Quanto custa o Café Jacu no Brasil?
Embora os preços variem conforme lote, certificação e canal de venda, um quilograma pode ultrapassar R$ 1.500,00, dependendo do mercado e da forma de comercialização.
No mercado interno, embalagens menores (por exemplo, 250 g) podem ser comercializadas por preços elevados comparados a cafés especiais convencionais, reforçando sua posição de produto de luxo.
Café Jacu no contexto da cafeicultura brasileira
Enquanto a produção de cafés especiais no Brasil segue estratégias como certificações, métodos de processamento e seleção de cultivares para ampliar qualidade e valor, o Jacu Bird Coffee representa uma fronteira extrema da diferenciação de produto, agregando ecologia, narrativa de origem e exclusividade mercadológica.
Ele ilustra como processos inovadores e de nicho podem coexistir com práticas tradicionais, abrindo espaço para segmentos de mercado que priorizam história, sustentabilidade e experiência sensorial singular.
Conclusões
O Café Jacu não é apenas um produto de curiosidade; trata-se de uma expressão de mercado que combina seleção natural, agricultura sustentável e artesanato pós-colheita para criar um item de alto valor agregado.
Seu papel no ecossistema de cafés especiais brasileiros revela uma tendência de inovação orientada por atributos agroambientais e indicadores de qualidade.
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Sobre o autor

João Paulo Marim Sebim
Doutorando em fitotecnia (ESALQ/USP)
- Mestre em Produção Vegetal (UFAC)
- Engenheiro Agrônomo (UFAC)
Como citar este artigo:
SEBIM, J.P.M. Café Jacu: conheça o café mais caro do Brasil e como ele é produzido. Blog Agroadvance. Publicado em: 06 Fev. 2026. Disponível em: https://agroadvance.com.br/blog-cafe-jacu-cafe-mais-caro-do-brasil/ Acesso: 08 fev. 2026.



