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Café Jacu: conheça o café mais caro do Brasil e como ele é produzido

Conheça o café Jacu, um dos mais raros e exclusivos do Brasil, pode chegar a mais de R$ 90 mil a saca de 60 kg, refletindo sua produção limitada e processo único.
  • Publicado em 06/02/2026
  • João Paulo Marim Sebim
  • Café
  • Publicado em 06/02/2026
  • João Paulo Marim Sebim
  • Café
  • Atualizado em 08/02/2026
café jacu
Sumário

Em um mercado global onde o café deixou de ser apenas uma commodity agrícola para se tornar símbolo de experiência sensorial, origem e sofisticação, alguns grãos ultrapassam a lógica do consumo cotidiano e alcançam o status de artigo de luxo.

É nesse seleto universo que surge o Café Jacu, um café especial brasileiro capaz de atingir valores superiores a R$ 90 mil por saca, resultado de uma combinação singular entre natureza, seleção biológica e manejo agrícola sustentável, sendo o café mais caro do Brasil.

Mais do que um café raro ou curioso, o também chamado Jacu Bird Coffee trata-se de um exemplo extremo de como inovação, narrativa de origem e qualidade sensorial podem transformar um fruto comum em um dos cafés mais exclusivos e valorizados do mundo.

O Brasil domina a produção global de café, respondendo por cerca de um terço da produção mundial de café, com uma fração crescente dedicada ao café especial, marcado por qualidade, origem e práticas agrícolas sustentáveis.

Certificações, cultivares e métodos de processamento agregam valor à produção brasileira neste segmento e amplia a competitividade internacional.

O que é o café Jacu?

O Café Jacu é um tipo de café especial brasileiro produzido a partir de grãos ingeridos pela ave nativa Jacu (Penelope sp.) e posteriormente excretados intactos nas fezes do animal (Figura 1).

Jacu, Ave, trilha
Figura 1. Jacu (Penelope sp.). Fonte: Grão gourmet.

Esta peculiaridade inspirou analogias ao Kopi Luwak, o café indonésio produzido via digestão por civetas, mas o café Jacu Bird é uma expressão brasileira, com identidade própria de terroir e sistema produtivo.

A principal diferença em relação aos métodos tradicionais de produção de cafés especiais está na seleção natural de frutos maduros: o jacu escolhe e consome apenas frutos em ponto ótimo de maturação, e os grãos são posteriormente coletados manualmente após a excreção. A ave promovendo, portanto, uma pré-seleção biológica que influencia diretamente o perfil sensorial do café.

Origem e contexto histórico

O processo que dá origem ao Jacu Bird Coffee foi desenvolvido de forma experimental pelo produtor Henrique Sloper na Fazenda Camocim Organic, em Domingos Martins, no Espírito Santo.

A história começou quando os jacus, considerados inicialmente pragas, começaram a frequentar os cafezais e consumir frutos maduros, fato que inspirou o produtor a testar um método similar ao do Kopi Luwak.

Desde então, o Café Jacu tem sido produzido em escala extremamente reduzida, no em sistemas de agroflorestas integrada à mata nativa, com foco em práticas orgânicas e biodinâmicas que respeitam o ecossistema local.

Como o café Jacu é produzido?

A produção do café Jacu envolve uma equência de etapas naturais e operacionais altamente dependentes do ambiente e do comportamento da ave. O processo pode ser dividido em três fases principais: interação animal-planta, digestão e excreção, e pós-colheita.

O processo se inicia com o Jacu consumindo exclusivamente os frutos de café maduros em plantações imersas em ambientes de floresta tropical, sistema que favorece biodiversidade e seleciona grãos naturalmente mais doces e equilibrados.

Após a ingestão, o alimento passa pelo trato digestivo da ave. Porções da polpa são metabolizadas, enquanto o grão de café é eliminado intacto nas fezes. Essa ação natural funciona como uma forma de seleção e pré-trituração que, segundo produtores e especialistas, afeta positivamente as características sensoriais.

Os grãos excretados são:

  • coletados manualmente ao pé das árvores (Figura 2);
  • submetidos à higienização rigorosa;
  • secos em estufas ou ao sol;
  • classificados por tamanho;
  • repousados em câmaras frias para estabilização;
  • torrados artesanalmente para consumo.

Todos os estágios são feitos de forma manual e criteriosa, refletindo no custo e na escala limitada de produção.

fezes jacu com café, mão
Figura 2. Fezes do Jacu com grãos de café. Fonte: TV Gazeta ES.

Fatores que elevam o valor do Café Jacú

O elevado valor agregado do Café Jacu está diretamente relacionado a um conjunto de fatores produtivos, ambientais e mercadológicos que o diferenciam de forma consistente dos cafés especiais convencionais. Trata-se de um produto de nicho, cuja exclusividade não é resultado de estratégias industriais, mas de um sistema produtivo naturalmente limitado e altamente dependente de condições ecológicas específicas. Vejamos em detalhes esses fatores:

Escala de produção

A produção anual é limitada (muitas vezes não superior a algumas toneladas), em contraste com cafés especiais convencionais, que dependem de colheita mecanizada ou semi-manual em larga escala.

Seleção natural

A escolha de frutos maduros pelo Jacu representa uma forma de pré-seleção biológica, associada a atributos sensoriais diferenciados, um aspecto central no posicionamento do produto como premium.

Agricultura sustentável

O ambiente de agrofloresta e manejo, torna-o um café orgânico e biodinâmico, com redução no uso de fertilizantes e defensivos, reforça a resiliência ecológica e agrega valor às certificações de sustentabilidade.

Demanda internacional

Mercados na Europa, Japão, Austrália e Estados Unidos adquiriram lotes do Jacu Bird Coffee, atraídos por sua narrativa singular e perfil sensorial.

Perfil sensorial técnico do café Jacu

O Café Jacu tende a apresentar:

  • Aroma: floral, frutado com nuances de mel e castanha.
  • Sabor: suave, acidez equilibrada e doçura natural.
  • Corpo: sedoso, delicado.
  • Finalização: prolongada e elegante.

Esse perfil combina atributos organolépticos desejados em cafés especiais com uma expressão única decorrente do processo de seleção natural (Figura 3).

café jacu saco, coado, fruto
Figura 3. O café Jacu está entre os cafés especiais: para receber essa classificação, a bebida precisa superar 80 pontos em uma escala de 0 a 100, e alguns lotes do Jacu já alcançam pontuações em acima de 86 pontos. Fonte: Forbes.

O que caracteriza um café especial?

O café especial é definido a partir de critérios rigorosos de qualidade sensorial, rastreabilidade e boas práticas ao longo da cadeia produtiva.

De acordo com o protocolo da Specialty Coffee Association (SCA), um café só pode ser classificado como especial quando atinge pontuação superior a 80 pontos em uma escala de 0 a 100, obtida por meio de análises sensoriais conduzidas por provadores certificados (Q-graders).

Essa avaliação considera atributos como fragrância e aroma, sabor, acidez, corpo, doçura, equilíbrio, finalização e ausência de defeitos. Além do aspecto sensorial, cafés especiais geralmente apresentam origem controlada, colheita seletiva, processamento adequado e armazenamento criterioso, fatores que garantem consistência e expressão do terroir.

Trata-se, portanto, de um produto que transcende o conceito de commodity, posicionando-se como alimento de alto valor agregado, associado à identidade regional, inovação e sustentabilidade.

Quem atribui a pontuação a um café especial?

As avaliações são conduzidas por profissionais certificados, conhecidos como Q-graders, treinados para identificar atributos positivos e defeitos na bebida.

Durante a prova, os cafés recebem notas para critérios como aroma, sabor, acidez, corpo, doçura, equilíbrio e finalização, além da uniformidade entre xícaras. A soma desses atributos resulta em uma pontuação final em uma escala de 0 a 100.

Classificação:

  • Abaixo de 80 pontos: Café comercial (commodity)
  • 80,0 a 84,99 pontos: Café especial (Very Good)
  • 85,0 a 89,99 pontos: Café especial de excelência (Excellent)
  • 90 pontos ou mais: Café excepcional (Outstanding / Rare Coffees)

Cafés raros e exóticos

Além do Café Jacu, o mercado global de cafés especiais abriga uma categoria ainda mais restrita: os cafés raros e ultra premium, caracterizados por produção extremamente limitada, processos singulares e alto valor simbólico e sensorial.

Entre os exemplos mais conhecidos está o Kopi Luwak, da Indonésia, produzido a partir de grãos ingeridos e excretados pela civeta. Apesar de sua fama internacional e preços elevados, esse café enfrenta críticas relacionadas ao bem-estar animal quando produzido em sistemas de confinamento, o que tem levado consumidores a questionar sua sustentabilidade ética.

Outro exemplo é o Black Ivory Coffee, da Tailândia, considerado um dos cafés mais caros do mundo. Nesse sistema, elefantes consomem os frutos de café, e os grãos são posteriormente coletados após a digestão.

A produção é extremamente limitada, voltada a hotéis de luxo e mercados exclusivos, e o processo digestivo tende a reduzir a acidez, o que resulta em uma bebida suave e adocicada. O alto custo reflete tanto a raridade quanto a complexidade logística do processo.

Há ainda cafés raros que não envolvem digestão animal, como o Panama Geisha, famoso por alcançar valores recordes em leilões internacionais, chegando até R$ 160.000,00 o quilograma.

Sua exclusividade está ligada à combinação entre genética, terroir, manejo altamente técnico e perfil sensorial excepcional, com notas florais intensas e acidez vibrante.

Esses exemplos demonstram que a raridade no mercado de cafés especiais pode ser construída por diferentes caminhos, biológicos, ambientais ou genéticos, e ajudam a contextualizar o Café Jacu como uma expressão brasileira legítima dentro do seleto grupo dos cafés mais exclusivos do mundo.

Quanto custa o Café Jacu no Brasil?

Embora os preços variem conforme lote, certificação e canal de venda, um quilograma pode ultrapassar R$ 1.500,00, dependendo do mercado e da forma de comercialização.

No mercado interno, embalagens menores (por exemplo, 250 g) podem ser comercializadas por preços elevados comparados a cafés especiais convencionais, reforçando sua posição de produto de luxo.

Café Jacu no contexto da cafeicultura brasileira

Enquanto a produção de cafés especiais no Brasil segue estratégias como certificações, métodos de processamento e seleção de cultivares para ampliar qualidade e valor, o Jacu Bird Coffee representa uma fronteira extrema da diferenciação de produto, agregando ecologia, narrativa de origem e exclusividade mercadológica.

Ele ilustra como processos inovadores e de nicho podem coexistir com práticas tradicionais, abrindo espaço para segmentos de mercado que priorizam história, sustentabilidade e experiência sensorial singular.

Conclusões

O Café Jacu não é apenas um produto de curiosidade; trata-se de uma expressão de mercado que combina seleção natural, agricultura sustentável e artesanato pós-colheita para criar um item de alto valor agregado.

Seu papel no ecossistema de cafés especiais brasileiros revela uma tendência de inovação orientada por atributos agroambientais e indicadores de qualidade.

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Sobre o autor

João Paulo Marim Sebim

Doutorando em fitotecnia (ESALQ/USP)

  • Mestre em Produção Vegetal (UFAC)
  • Engenheiro Agrônomo (UFAC)
  • joao.sebim@usp.br
  • Perfil do Linkedin
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Como citar este artigo:

SEBIM, J.P.M. Café Jacu: conheça o café mais caro do Brasil e como ele é produzido. Blog Agroadvance. Publicado em: 06 Fev. 2026. Disponível em: https://agroadvance.com.br/blog-cafe-jacu-cafe-mais-caro-do-brasil/ Acesso: 08 fev. 2026.

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