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Potencial de uso de bactérias do gênero Chromobacterium spp. na agricultura

Entenda o potencial agronômico de Chromobacterium spp. na agricultura, com foco nas espécies, seus metabólitos, modo de ação inseticida, produção On farm e entraves regulatórios no Brasil.
  • Publicado em 28/01/2026
  • Alasse Oliveira da Silva
  • Bioinsumos
  • Publicado em 28/01/2026
  • Alasse Oliveira da Silva
  • Bioinsumos
  • Atualizado em 27/01/2026
inseto sobre planta, sol nascente
Sumário

A intensificação dos sistemas agrícolas tropicais, combinada à crescente restrição regulatória sobre inseticidas químicos e à maior complexidade fitossanitária das lavouras, vem reposicionando os microrganismos como ativos técnicos no manejo de pragas.

Nesse contexto, a microbiologia aplicada deixa de ocupar um papel acessório e passa a integrar decisões agronômicas com impacto direto na eficiência operacional e na previsibilidade dos resultados em campo. Entre esses microrganismos, bactérias do gênero Chromobacterium têm despertado atenção crescente nos meios técnico, científico e industrial.

Sua diversidade metabólica, associada a modos de ação multifatoriais e à compatibilidade com programas de manejo integrado, sustenta aplicações que envolvem não apenas mortalidade direta, mas também supressão populacional progressiva e interferências fisiológicas relevantes em insetos-praga.

Dentro desse grupo, Chromobacterium subtsugae destaca-se pelo amplo espectro de ação inseticida documentado na literatura, com atividade sobre espécies como o percevejo-verde da soja, o percevejo-marrom e vaquinhas do gênero Diabrotica.

Estudos indicam que esse espectro está associado à atuação simultânea de múltiplos compostos bioativos, resultando em diferentes modos de ação que afetam alimentação, fisiologia e sobrevivência dos insetos.

Essa complexidade biológica sustenta o interesse por Chromobacterium como base para bioinseticidas e como componente técnico em programas de manejo integrado, tema aprofundado ao longo deste texto a partir da conexão entre fundamentos científicos, posicionamento técnico e desafios operacionais no campo.

Vamos aprender mais essa bactéria inovadora? Então acompanhe e boa leitura!

Caracterização do gênero Chromobacterium

O gênero Chromobacterium pertence à família Chromobacteriaceae, classe Betaproteobacteria, sendo composto por bactérias gram-negativas, móveis, facultativamente aeróbias e metabolicamente versáteis.

A característica mais conhecida do grupo é a produção do pigmento violaceína, responsável pela coloração violeta típica de diversas espécies, embora existam cepas não pigmentadas com relevância biotecnológica.

Do ponto de vista fisiológico, espécies de Chromobacterium apresentam adaptação a ambientes tropicais e subtropicais, com tolerância a variações de pH, temperatura e disponibilidade nutricional.

Essa plasticidade metabólica explica, em parte, sua persistência em ambientes naturais como solos agrícolas, áreas florestais e sistemas aquáticos, além de favorecer sua multiplicação em sistemas controlados de fermentação.

Tipos de espécies de Chromobacterium e aplicações biotecnológicas

A literatura descreve diversas espécies pertencentes ao gênero Chromobacterium, com diferenças fisiológicas, metabólicas e de aplicação industrial.

Embora compartilhem características gerais, cada espécie apresenta particularidades que determinam seu uso em setores distintos, incluindo agricultura, indústria farmacêutica, alimentícia e cosmética (Figura 1).

Relações filogenômicas entre espécies do gênero Chromobacterium
Figura 1. Relações filogenômicas entre espécies do gênero Chromobacterium com base na identidade média de nucleotídeos. Fonte: Blackburn et al. (2017).

Chromobacterium violaceum

Espécie mais representativa do gênero, amplamente estudada. Destaca-se pela produção intensa de violaceína, pigmento com atividade antimicrobiana e inseticida, além de elevada tolerância a diferentes compostos químicos. É frequentemente utilizada como modelo em estudos de “quorum sensing” e metabolismo secundário.

Aspectos morfológicos e crescimento celular de Chromobacterium violaceum
Figura 2. Aspectos morfológicos e crescimento celular de Chromobacterium violaceum: (a) padrão de crescimento; (b) micrografia eletrônica da célula bacteriana. Fonte: Adriana Almeida Antunes (2006).

Chromobacterium pseudoviolaceum

Apresenta similaridade genética e metabólica com C. violaceum, porém com diferenças fenotípicas detectáveis, especialmente na intensidade de pigmentação e em respostas metabólicas específicas. Seu uso permanece majoritariamente restrito a estudos taxonômicos e fisiológicos.

Chromobacterium haemolyticum

Caracteriza-se pela atividade hemolítica, atributo que direciona seu interesse principalmente para estudos microbiológicos e biomédicos. Seu uso agrícola é limitado, exigindo cautela quanto à biossegurança, uma vez que certos grupos podem trazer riscos à saúde humana.

Chromobacterium vaccinii

Espécie associada a processos fermentativos e à produção de metabólitos de interesse industrial. Apresenta potencial para aplicações em biotecnologia industrial, especialmente em sistemas controlados de fermentação.

Chromobacterium piscinae

Conhecida pela produção de pigmentos e metabólitos secundários, com aplicações exploradas em processos industriais e estudos de biossíntese de compostos naturais.

Chromobacterium subtsugae

Espécie de maior interesse agronômico. Apresenta atividade inseticida comprovada, associada à produção de violaceína, cromamidas e outros metabólitos.

Placa de Petri contendo colônias de C. subtsugae
Figura 3. Placa de Petri contendo colônias de C. subtsugae. Fonte: Lidiane M. S. Moreira e colaboradores (2023).

Tem aplicação direta em sistemas de produção de bioinsumos e inseticidas microbiológicos, inclusive em modelos On farm, sendo referência para o manejo biológico de pragas agrícolas, como percevejos.

Chromobacterium sphagani

Espécie descrita a partir de isolados de turfeiras de Sphagnum, com elevada similaridade genômica em relação a C. subtsugae, porém suficientemente distinta para caracterização taxonômica própria. Apresenta perfil inseticida promissor, reforçando o gênero Chromobacterium como plataforma biotecnológica para a prospecção de novas linhagens com potencial agronômico.

Diversidade metabólica e compostos de interesse agronômico

Um dos principais diferenciais de Chromobacterium spp. reside na capacidade de sintetizar múltiplos metabólitos secundários com atividade biológica comprovada.

Entre os compostos mais estudados destacam-se a violaceína, cromamidas, sideróforos, quitinases, lipases e moléculas ainda não totalmente elucidadas do ponto de vista estrutural.

Composição molecular da cromamida
Figura 4. Composição molecular da cromamida. Fonte: Assolkar et al. (2015).

A violaceína apresenta atividade inseticida, antimicrobiana e moduladora de comportamento alimentar de artrópodes.

Estudos apontam estabilidade térmica e relativa resistência à degradação proteolítica, características que ampliam sua viabilidade operacional em ambientes agrícolas.

Estrutura química e principais componentes moleculares da violaceína.
Figura 5.Estrutura química e principais componentes moleculares da violaceína. Fonte: Assolkar et al. (2015).

Além disso, a produção desses metabólitos está frequentemente associada a mecanismos de “quorum sensing”, permitindo que a bactéria module sua atividade metabólica conforme a densidade populacional e o ambiente.

Essa multiplicidade de compostos implica que o efeito agronômico de Chromobacterium spp. não pode ser interpretado sob a lógica de alvo único, comum a inseticidas químicos clássicos. Trata-se de uma atuação sistêmica, com interferências simultâneas em alimentação, fecundidade, mobilidade e sobrevivência dos insetos-alvo.

Modo de ação e implicações para o manejo de pragas

Na literatura observa-se consenso quanto ao caráter multifatorial do modo de ação de Chromobacterium spp. A toxicidade ocorre predominantemente por ingestão, embora efeitos de contato e residuais também tenham sido documentados em condições específicas.

Após a ingestão, os metabólitos produzidos interferem em processos fisiológicos centrais do inseto, como digestão, assimilação de nutrientes e equilíbrio microbiano intestinal.

Além da toxicidade direta, são relatados efeitos comportamentais relevantes, como redução da alimentação, alteração do padrão de movimentação, diminuição da oviposição e redução da viabilidade reprodutiva.

Esses efeitos, ainda que nem sempre resultem em mortalidade imediata, exercem forte pressão populacional ao longo do ciclo da praga.

Do ponto de vista operacional, esse conjunto de efeitos posiciona Chromobacterium spp. como ferramenta especialmente compatível com programas de manejo integrado, nos quais a supressão populacional progressiva é mais valorizada do que respostas imediatas e isoladas.

Espectro de ação sobre artrópodes-praga

Pesquisas conduzidas em diferentes regiões demonstram atividade de Chromobacterium spp. sobre pragas pertencentes às ordens Hemiptera, Coleoptera, Diptera, Thysanoptera e Acari. Entre os alvos mais estudados, destacam-se:

  • percevejos pentatomídeos,
  • mosca-branca,
  • pulgões,
  • tripes,
  • ácaros fitófagos,
  • besouros crisomelídeos,
  • dípteros de importância hortícola.

Os resultados variam conforme espécie-alvo, cepa bacteriana, formulação, dose e condições ambientais.

atividade inseticida de Chromobacterium subtsugae
Figura 6. Avaliação da atividade inseticida de Chromobacterium subtsugae produzido em sistema On farm sobre lagartas de Spodoptera frugiperda. Fonte: Ramon Vasconcelos (2025).

Em alguns casos observa-se supressão consistente de populações; em outros, os efeitos concentram-se na redução de danos indiretos, como menor transmissão de patógenos e menor interferência na fisiologia da planta.

Essa variabilidade reforça a necessidade de posicionamento técnico adequado, com ênfase em monitoramento, aplicação em fases iniciais da infestação e integração com outras ferramentas de manejo.

Chromobacterium subtsugae como espécie de referência

Entre as espécies do gênero, Chromobacterium subtsugae destaca-se como a mais estudada e documentada para uso agrícola.

Isolada inicialmente em solos florestais, essa bactéria apresentou toxicidade comprovada contra diferentes insetos-praga, o que motivou sua incorporação em produtos comerciais em mercados internacionais.

Os estudos indicam que C. subtsugae sintetiza um conjunto específico de metabólitos inseticidas durante o processo fermentativo, sendo a violaceína e a cromamida A os compostos mais frequentemente associados à atividade biológica.

placa - Chromobacterium subtsugae
Figura 7. Chromobacterium subtsugae: Uma Aliada na Agricultura.
Fonte: Suelen de Lima (2025).

Do ponto de vista agronômico, essa espécie tornou-se modelo para o desenvolvimento de protocolos de multiplicação, formulação e aplicação.

Chromobacterium subtsugae no manejo do percevejo-marrom

Os produtos Cromobac; Chromotrix; CI são inseticidas microbiológicos registrados no MAPA, formulados a partir da bactéria Chromobacterium subtsugae, cepa ASN04, com concentração de 2,21 × 10⁸ UFC/mL.

Trata-se de um microrganismo gram-negativo, com ação comprovada sobre Euschistus heros (percevejo-marrom), posicionado como ferramenta complementar em programas de manejo integrado de pragas.

Percevejo-marrom na soja
Figura 8. Percevejo-marrom na soja. Fonte: Laizi Azevedo Nogueira (2025).

Cepa, reservatório e modo de ação

A cepa ASN04 é o elemento central da performance agronômica do produto. Seu reservatório funcional é o ambiente agrícola, onde atua por ingestão, liberando toxinas termoestáveis e metabólitos bioativos que interferem diretamente na fisiologia do inseto.

O efeito não se limita à mortalidade imediata, mas inclui redução da alimentação, comprometimento fisiológico e pressão populacional progressiva, alinhando-se à lógica de supressão contínua típica do manejo biológico.

Aplicação prática de Chromobacterium subtsugae em campo

A aplicação deve ser foliar, preferencialmente no início da infestação, com reaplicação após cerca de 10 dias, ajustando a dose conforme a pressão do percevejo-marrom. Os produtos permitem aplicação terrestre e aérea, utilizando pulverizadores de barra, costal ou aeronaves agrícolas.

Pontos críticos de execução:

  • Manter a calda constantemente em agitação.
  • Priorizar aplicações no final da tarde ou à noite, com temperatura abaixo de 27 °C, umidade relativa acima de 50% e vento inferior a 10 km/h.
  • Evitar radiação UV intensa e deriva.
  • Realizar limpeza rigorosa do tanque, mangueiras e bicos, eliminando resíduos de defensivos químicos que possam comprometer a viabilidade da bactéria.

Produção On farm e desafios operacionais

No Brasil, a produção de Chromobacterium spp. ocorre majoritariamente em sistemas On farm, integrados a biofábricas instaladas em propriedades agrícolas ou instituições de pesquisa. Esse modelo apresenta vantagens logísticas e econômicas, mas também impõe elevado rigor técnico.

Entre os principais fatores críticos estão:

  • a qualidade da água,
  • o nível de sanitização dos equipamentos,
  • a pureza do pré-inóculo,
  • a aeração do sistema e
  • a estabilidade do pH durante o processo fermentativo.


Estudos indicam que a multiplicação bem-sucedida está associada à manutenção do pH em faixa próxima à neutralidade e à oferta adequada de oxigênio dissolvido.

Produção on farm de chromobacterium
Figura 9. Produção on farm (ou unidades de produção de bioinsumos para uso próprio). Fonte: Eduarda Leite (2025).

A presença de microrganismos indesejáveis constitui um dos principais gargalos do sistema. Embora Chromobacterium spp. apresente certa competitividade microbiana, contaminações elevadas podem comprometer a previsibilidade do processo e a estabilidade do produto final.

Aspectos regulatórios e lacunas no Brasil

Apesar do avanço científico, o ambiente regulatório brasileiro ainda apresenta lacunas relevantes quanto ao registro e à padronização de produtos à base de Chromobacterium spp.

A maior parte das informações disponíveis decorre de estudos internacionais ou de experiências regionais não consolidadas em escala nacional.

Essa lacuna regulatória limita a difusão tecnológica e impõe desafios à validação agronômica em larga escala.

Ao mesmo tempo, cria espaço para pesquisas aplicadas voltadas à geração de dados nacionais sobre eficácia, segurança ambiental e estabilidade de formulações.

Conclusão

O gênero Chromobacterium representa um ativo biotecnológico de alto interesse para a agricultura contemporânea. Sua diversidade metabólica, amplitude de alvos e compatibilidade com sistemas integrados posicionam essas bactérias como ferramentas estratégicas no manejo de pragas.

No entanto, a consolidação de seu uso depende da superação de desafios técnicos, regulatórios e operacionais, bem como da produção de dados robustos em condições brasileiras.

A continuidade das pesquisas e a profissionalização dos sistemas de produção e aplicação tendem a definir o papel definitivo de Chromobacterium spp. nos sistemas agrícolas tropicais.

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Referências

AGROFIT – Sistemas de agrotóxicos fitossanitários. Disponível em: <https://agrofit.agricultura.gov.br/agrofit_cons/principal_agrofit_cons> Acesso em: 20 de jan de 2026.

ASOLKAR, R.; HUANG, H.; KOIVUNEN, M.; MARRONE, P. Chromobacterium Bioactive Compositions and Metabolites. US Patent Application Publication, US 14/293,728, 9 October 2014.

MARTIN, P.A.W., GUNDERSEN-RINDAL, D., BLACKBURN, M. AND BUYER, J. 2007a: Chromobacterium subtsugae sp. nov., a betaproteobacterium toxic to Colorado potato beetle and other insect pests. Int. J. Syst. Evol. Microb. 57: 993 999.

MARTIN, P.A.W., HIROSE, E., AND ALDRICH, J.R. 2007B: Toxicity of Chromobacterium subtsugae to southern green stink bug (Heteroptera:Pentatomidae) and corn rootworm (Coleoptera: Chrysomelidae). J. Econ. Entomol. 100: 680-684.

MONNERAT, R. et al. 2020. Disponível em: <https://ainfo.cnptia.embrapa.br/digital/bitstream/item/213246/1/documentos 36916.pdf>. Acesso em: 20 jan. 2026.

KOIVUNEN, M., CHANBUSARAKUM, L., FERNÁNDEZ, L., ASOLKAR, R., TAN, E., WALLNER, D., & MARRONE, P. (2009). Development of a new microbial insecticide based on Chromobacterium subtsugae. IOBC/wprs Bulletin, 45, 183 – 186.

Sobre o autor:

Alasse Oliveira

Alasse Oliveira da Silva

Doutorando em Produção Vegetal (ESALQ/USP)

  • Engenheiro agrônomo (UFRA) e Técnico em agronegócio
  • Mestre e especialista em Produção Vegetal (ESALQ/USP)
  • alasse.oliveira77@gmail.com
  • Perfil do Linkedin
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Como citar este artigo: SILVA, A. O. Potencial de uso de bactérias do gênero Chromobacterium spp. na agricultura. Blog Agroadvance. Publicado: 26 Jan 2026. Disponível em: https://agroadvance.com.br/blog-chromobacterium-subtsugae-na-agricultura/. Acesso: 29 jan. 2026.

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