O manejo eficiente de plantas daninhas é um dos componentes fundamentais para preservar o potencial produtivo das culturas agrícolas. Entre os diferentes grupos presentes nas áreas de produção, as gramíneas merecem atenção especial devido à elevada capacidade de competição por água, luz e nutrientes, além da adaptação de determinadas espécies aos sistemas intensivos de cultivo.
Nesse cenário, o cletodim ocupa posição relevante no manejo químico de gramíneas. Sua importância agronômica está relacionada principalmente à capacidade de controlar diferentes espécies da família Poaceae, incluindo gramíneas anuais e, conforme espécie, estádio de desenvolvimento e recomendação do produto utilizado, algumas gramíneas perenes.
Entretanto, o desempenho do cletodim no campo não depende exclusivamente da escolha do ingrediente ativo. Espécie infestante, estádio de desenvolvimento, condições ambientais, qualidade da aplicação, adjuvantes, dose registrada, associação com outros herbicidas e histórico de resistência da população são fatores que podem alterar de maneira significativa o nível de controle obtido.
Esse aspecto ganhou ainda mais relevância com a evolução da resistência de plantas daninhas. No Brasil, já existem registros de populações de gramíneas resistentes aos herbicidas inibidores da ACCase (acetil-CoA carboxlase), tornando inadequada a utilização repetitiva do cletodim como única ferramenta de controle dentro de um sistema produtivo.
Por isso, compreender como o cletodim atua, em quais situações pode ser utilizado e quais fatores determinam sua eficiência é essencial para posicionar corretamente o herbicida e preservar sua vida útil no manejo de plantas daninhas.
O que é o cletodim?
O cletodim é um herbicida seletivo e sistêmico, pertencente à família química das ciclohexanodionas (DIMs). É utilizado principalmente em pós-emergência para o controle de plantas daninhas gramíneas, enquanto culturas de folhas largas apresentam, em geral, tolerância aos herbicidas desse grupo.
É utilizado principalmente no controle em pós-emergência de plantas daninhas gramíneas em sistemas e culturas para os quais os respectivos produtos comerciais possuem registro.
Na classificação internacional do Herbicide Resistance Action Committee (HRAC), o cletodim pertence ao Grupo 1, correspondente aos herbicidas inibidores da enzima acetil-CoA carboxilase (ACCase), anteriormente denominado Grupo A.

Após a aplicação, o herbicida é absorvido predominantemente pelas folhas e translocado para regiões de crescimento ativo da planta. Essa característica é importante porque sua ação ocorre nos tecidos meristemáticos, interrompendo o desenvolvimento das gramíneas suscetíveis.
Tabela 1. Principais características técnicas do herbicida cletodim.
| Característica | Descrição |
| Família química | Ciclohexanodionas (DIMs) |
| Classificação HRAC | Grupo 1 — Inibidores da ACCase |
| Aplicação | Pós-emergência |
| Absorção | Predominantemente foliar |
| Movimento na planta | Translocação até os tecidos meristemáticos |
| Principal alvo | Gramíneas suscetíveis em crescimento ativo |
Por ser um graminicida, seu posicionamento deve considerar principalmente a espécie infestante e seu estádio de desenvolvimento, além das recomendações específicas do produto comercial registrado. O cletodim não deve ser tratado como um herbicida de amplo espectro para qualquer planta daninha.
Como o cletodim age na planta?
O cletodim inibe a ACCase, enzima que participa da etapa inicial da biossíntese de ácidos graxos. Com essa rota comprometida, a planta reduz a formação de lipídios essenciais à construção e manutenção das membranas celulares, afetando principalmente os tecidos em crescimento.
Por isso, a paralisação do crescimento ocorre antes que os sintomas visuais se tornem evidentes. Posteriormente, podem surgir clorose, necrose e morte dos tecidos meristemáticos, evoluindo para a morte da gramínea quando o controle é efetivo.

Essa dinâmica explica por que a avaliação da eficiência do cletodim não deve ser realizada apenas nos primeiros dias após a aplicação: sua ação é sistêmica e os sintomas se desenvolvem progressivamente.
Quais plantas daninhas o cletodim controla?
O cletodim apresenta ação direcionada principalmente às plantas daninhas da família Poaceae, abrangendo gramíneas anuais e perenes. Sua atividade sobre espécies de folhas largas e ciperáceas é limitada ou inexistente, o que determina seu posicionamento como graminicida dentro do programa de manejo.
Entre as principais espécies contempladas em registros de produtos à base de cletodim no Brasil estão:
- Capim-amargoso (Digitaria insularis)
- Capim-pé-de-galinha (Eleusine indica)
- Capim-colchão (Digitaria horizontalis)
- Capim-marmelada ou papuã (Brachiaria plantaginea)
- Capim-carrapicho (Cenchrus echinatus)
- Capim-arroz (Echinochloa crus-galli)
- Capim-colonião (Panicum maximum)
- Capim-massambará (Sorghum halepense)
- Capim-camalote (Rottboellia exaltata)
- Azevém (Lolium multiflorum)
O ingrediente ativo também pode ser empregado, conforme o registro específico do produto, no manejo de plantas voluntárias de culturas gramíneas, como milho, trigo, arroz e milheto.

A eficiência tende a ser maior quando as plantas daninhas estão jovens e em crescimento ativo. À medida que ocorre avanço do perfilhamento e aumento do porte, o controle pode se tornar mais difícil, especialmente em espécies perenes ou com capacidade de rebrota.
Por isso, a identificação correta da espécie e do estádio de desenvolvimento é determinante para definir o posicionamento do cletodim. Além disso, populações resistentes aos inibidores da ACCase exigem estratégias específicas de manejo, não sendo adequado aumentar a dose como tentativa de superar a resistência.
Em quais culturas o cletodim pode ser utilizado?
O cletodim possui registro no Brasil para diferentes culturas, mas as culturas autorizadas e as modalidades de aplicação variam conforme o produto comercial. Por isso, a recomendação deve sempre considerar a bula do produto utilizado.
Entre as culturas contempladas por produtos à base de cletodim estão soja, algodão, feijão, amendoim, batata, tomate, café, cebola, cenoura, mandioca, girassol, melancia e diversas outras culturas de folhas largas.
Em culturas como milho e trigo, o cletodim pode aparecer registrado para aplicação em pré-plantio (dessecação), visando ao controle das gramíneas presentes antes da implantação da cultura. Isso ocorre porque milho e trigo também são gramíneas e, portanto, podem ser suscetíveis ao mecanismo de ação do herbicida.

Alguns registros mais recentes ampliam as possibilidades de uso para outras culturas e sistemas. Há produtos, por exemplo, registrados para culturas como canola, ervilha, feijão-caupi, gergelim, grão-de-bico, lentilha e linhaça, além de modalidades específicas de dessecação.
Essa diversidade reforça um ponto fundamental: não existe uma recomendação única de cletodim baseada apenas no ingrediente ativo. Cultura, planta daninha, estádio, dose, modalidade e intervalo de aplicação devem ser conferidos no registro e na bula do produto comercial escolhido.
Onde consultar os produtos comerciais a base de cletodim registrados no Brasil?
Para consultar informações atualizadas sobre produtos comerciais à base de cletodim registrados no Brasil, recomenda-se acessar o AGROFIT – Sistema de Agrotóxicos Fitossanitários, mantido pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA). A plataforma permite pesquisar os produtos registrados e verificar informações como ingrediente ativo, marca comercial, titular do registro, formulação, culturas autorizadas, alvos biológicos e classificação do produto.
A consulta ao Agrofit e à bula do produto comercial é fundamental antes de qualquer recomendação ou aplicação. Embora diferentes herbicidas possam conter cletodim como ingrediente ativo, as condições de uso não são necessariamente iguais.
Dose, cultura, espécie de planta daninha, estádio de aplicação, número e intervalo de aplicações, necessidade de adjuvante, volume de calda, intervalo de segurança e demais parâmetros técnicos devem ser conferidos para o produto escolhido. Dessa forma, a tomada de decisão fica alinhada ao registro vigente e às recomendações técnicas e legais para o uso do herbicida no Brasil.
Como usar o cletodim corretamente?
A eficiência do cletodim depende diretamente do momento da aplicação e das condições da planta daninha. O melhor desempenho ocorre, de modo geral, sobre gramíneas em crescimento ativo e nos estádios indicados na bula do produto utilizado.
Qual o estádio ideal da planta daninha para aplicar cletodim?
O estádio de desenvolvimento é um dos principais fatores que determinam a eficiência do controle. Gramíneas jovens tendem a ser mais suscetíveis, enquanto plantas perfilhadas, desenvolvidas ou perenizadas podem apresentar maior dificuldade de controle.
Essa situação é particularmente importante para o capim-amargoso (Digitaria insularis). Após o perfilhamento e o estabelecimento de plantas perenizadas, a eficiência dos inibidores da ACCase pode diminuir, tornando necessário um programa de manejo mais robusto.
Quais condições ambientais favorecem a aplicação de cletodim?
A aplicação deve priorizar plantas sem estresse e condições favoráveis à absorção do herbicida. Períodos prolongados de seca, baixa umidade relativa e temperaturas elevadas podem comprometer o desempenho.
Os parâmetros exatos devem seguir as recomendações da bula do produto comercial utilizado, considerando que as condições adequadas para a aplicação, como umidade relativa do ar, temperatura e velocidade do vento, podem variar conforme a formulação e o produto registrado à base de cletodim.
É necessário usar adjuvante com o cletodim?
Diversas formulações de cletodim recomendam a utilização de adjuvante, que pode favorecer molhamento, deposição e absorção do herbicida. Entretanto, o tipo e a concentração não devem ser generalizados, pois variam entre produtos e modalidades de aplicação.
Portanto, a definição de dose, adjuvante, volume de calda e estádio de aplicação deve seguir a bula específica do produto comercial, evitando extrapolações entre diferentes formulações de cletodim.
Cletodim pode ser misturado com outros herbicidas em tanque?
A associação do cletodim com outros herbicidas é comum quando a área apresenta simultaneamente gramíneas e plantas daninhas de folhas largas. Entretanto, nem toda mistura mantém a mesma eficiência do cletodim aplicado isoladamente.
Os herbicidas inibidores da ACCase estão entre os grupos mais sujeitos a interações antagônicas em misturas. Dependendo dos ingredientes ativos, da espécie daninha e das condições de aplicação, a associação pode reduzir o controle das gramíneas.
Um dos principais pontos de atenção é a combinação com herbicidas auxínicos, como 2,4-D e triclopyr. Estudos brasileiros demonstram que essas associações podem provocar antagonismo no controle de gramíneas como azevém e capim-amargoso. Entretanto, a intensidade da interação varia conforme a combinação utilizada e a espécie-alvo.
Quando houver risco de antagonismo, aplicações sequenciais podem ser uma estratégia mais eficiente do que concentrar diferentes mecanismos de ação em uma única aplicação. O intervalo e a sequência, porém, devem respeitar as recomendações dos produtos envolvidos.
Portanto, misturas com cletodim não devem ser definidas apenas pela conveniência operacional. É necessário avaliar compatibilidade agronômica, espécie-alvo, estádio da planta daninha e recomendações de bula, principalmente quando o objetivo é controlar gramíneas de difícil manejo.
Cletodim pode gerar resistência em plantas daninhas?
O uso repetitivo de cletodim e de outros herbicidas com o mesmo mecanismo de ação aumenta a pressão de seleção, favorecendo a sobrevivência e multiplicação de biótipos resistentes (indivíduos com variação genética dentro de uma população, capazes de sobreviver à aplicação do herbicida). Esse cenário já é relevante nos sistemas produtivos brasileiros.
Em 2025, o HRAC-BR (Comitê de Ação à Resistência aos Herbicidas – Brasil) confirmou no Brasil casos de capim-amargoso (Digitaria insularis) com resistência múltipla e cruzada, envolvendo cletodim e haloxifope, ambos inibidores da ACCase (Grupo 1), além do glifosato (Grupo 9). O capim-pé-de-galinha (Eleusine indica) também possui histórico de resistência envolvendo cletodim no país.
A ocorrência de escapes, entretanto, não significa automaticamente resistência. Falhas podem estar relacionadas ao estádio avançado da planta daninha, condições ambientais desfavoráveis, problemas na aplicação, antagonismo em misturas ou inadequação do tratamento.
Quando a resistência é confirmada, simplesmente aumentar a dose ou repetir aplicações do mesmo mecanismo de ação não constitui uma estratégia sustentável. O manejo deve integrar diferentes ferramentas, como:
- rotação de mecanismos de ação;
- utilização estratégica de herbicidas pré-emergentes;
- rotação de culturas e uso de plantas de cobertura;
- eliminação de escapes antes da produção de sementes;
- limpeza de máquinas para reduzir a dispersão;
- associação de métodos químicos, culturais e mecânicos.

Qual a tecnologia de aplicação ideal para o cletodim?
A tecnologia de aplicação influencia diretamente a deposição do cletodim sobre as gramíneas e, consequentemente, a eficiência do controle. O objetivo é proporcionar cobertura uniforme do alvo, com mínima perda por deriva e evaporação.
Na aplicação terrestre, devem ser utilizadas pontas adequadas ao volume de calda e à cobertura necessária, mantendo o equipamento corretamente calibrado. O aumento excessivo da pressão não deve ser utilizado como estratégia para melhorar a cobertura, pois reduz o tamanho das gotas e pode aumentar o risco de deriva.
O volume de calda varia conforme o produto comercial, equipamento e modalidade de aplicação. Bulas brasileiras apresentam, por exemplo, volumes terrestres na faixa de 100 a 250 L ha⁻¹ e volumes menores para aplicação aérea. Portanto, esses valores não devem ser generalizados entre diferentes formulações.

As condições meteorológicas também precisam ser monitoradas. Temperatura elevada, baixa umidade relativa, ventos inadequados e ocorrência de inversão térmica aumentam as perdas e podem comprometer a deposição. Da mesma forma, plantas submetidas a déficit hídrico prolongado podem apresentar menor resposta ao tratamento.
Outro aspecto importante é o manejo das gotas. Deve-se buscar tamanho suficiente para reduzir deriva, sem comprometer a cobertura das folhas das plantas daninhas. Regulagem de pontas, pressão, velocidade operacional, altura da barra e volume de aplicação devem funcionar de maneira integrada.
Assim, uma aplicação eficiente de cletodim depende não apenas da escolha do herbicida, mas da capacidade de colocar a dose recomendada sobre o alvo, no momento adequado e sob condições ambientais favoráveis, sempre seguindo os parâmetros estabelecidos na bula do produto utilizado.
Conclusão
O cletodim é uma ferramenta importante para o manejo de gramíneas em diferentes sistemas agrícolas, mas sua eficiência depende do posicionamento correto. Espécie e estádio da planta daninha, condições ambientais, tecnologia de aplicação, adjuvância, possíveis antagonismos e ocorrência de resistência devem ser considerados na tomada de decisão.
O avanço de populações resistentes reforça que o cletodim não deve ser utilizado de forma isolada ou repetitiva. A estratégia mais sustentável envolve sua integração com diferentes mecanismos de ação e métodos de manejo, reduzindo a pressão de seleção e preservando a eficiência da ferramenta.
Na prática, não existe uma recomendação universal para o ingrediente ativo. Cultura, dose, alvo, adjuvante, volume de calda, intervalo e modalidade de aplicação devem seguir a bula do produto comercial registrado, associada à orientação técnica de um engenheiro agrônomo.
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Referências
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Sobre o autor:

Alasse Oliveira da Silva
Doutorando em Produção Vegetal (ESALQ/USP)
- Engenheiro agrônomo (UFRA) e Técnico em agronegócio
- Mestre e especialista em Produção Vegetal (ESALQ/USP)
Como citar este artigo:
SILVA, A. O. Cletodim: modo de ação, culturas registradas e como usar. Blog Agroadvance. Publicado: 07 Set. 2026. Disponível em: https://agroadvance.com.br/blog-cletodim/. Acesso em: 08 set. 2026.



