Nos dias 5 e 6 de agosto de 2026, o WTC de Goiânia recebeu o primeiro Simpósio Brasileiro de Saúde do Solo (SBSS), evento organizado pela Agroadvance. A proposta era ambiciosa: reunir, no mesmo palco, pesquisadores de referência internacional, consultores que atuam na ponta e produtores que já colocaram a saúde do solo no centro da sua estratégia de negócio.
Passados os dois dias de programação, o resultado confirmou a aposta. Como resumiu o professor Maurício Cherubin, um dos coordenadores científicos do evento, no encerramento: “foi um momento histórico” ver um auditório cheio discutindo, com profundidade técnica, um tema que “10 anos atrás” era incipiente até dentro da própria academia brasileira.
Este texto reconstrói, a partir do conteúdo apresentado nos dois dias de simpósio, por que o SBSS pode ser lido como um marco de credibilidade para a discussão de saúde do solo no país — e não apenas mais um evento do calendário agro.
Uma grade científica com peso internacional discutindo saúde do solo
A programação foi organizada em quatro painéis que seguiram uma lógica deliberada: primeiro situar a saúde do solo como diferencial competitivo global, depois destrinchar os três pilares que a sustentam (física, química e biologia), para então avançar para avaliação, diagnóstico e ferramentas de manejo, e finalmente aterrissar em casos reais de produtores rurais que adotam práticas promotoras de saúde do solo dentro da agricultura regenerativa.
Essa arquitetura, pouco comum em eventos do setor, é parte do que deu densidade científica ao simpósio: cada palestra dialogava com a anterior, e as mesas redondas de encerramento de cada dia foram desenhadas justamente para amarrar as pontas entre academia, indústria e campo.
O nível dos palestrantes convidados é, em si, um indicador de credibilidade. Aurélio Pavinato, presidente da SLC Agrícola — uma das maiores produtoras de soja, milho e algodão do Brasil, com operações em oito estados —, abriu o simpósio trazendo dados de 50 anos de evolução da agricultura mundial e brasileira, incluindo os números internos da SLC sobre agricultura regenerativa em 325 mil hectares já certificados.
Na sequência, Carlos Bonini Pires, doutor pela Kansas State University e professor da North Dakota State University, hoje vice-presidente da Comunidade de Saúde do Solo da Sociedade Americana de Agronomia, apresentou o contraponto americano: uma agricultura de clima temperado que começou a estruturar cargos dedicados à saúde do solo apenas em 2011 e ainda enfrenta baixíssima adoção de plantas de cobertura, o que colocou em perspectiva o quanto o Brasil já avançou nesse tema.
Coube a Maurício Cherubin, professor da Esalq/USP, diretor de pesquisa do Centro de Estudos de Carbono e Agricultura Tropical (C4Carbon) e coordenador da Brazilian Soil Health Partnership, apresentar o dado que talvez resuma melhor a credibilidade científica do evento: o Brasil é hoje o quarto país do mundo em produção científica sobre saúde do solo, atrás apenas de potências como Estados Unidos, China e a União Europeia — e o único fora do hemisfério norte nesse grupo.
Cherubin, que figura desde 2021 entre os pesquisadores mais influentes do mundo segundo o ranking da Universidade de Stanford e é finalista do Prêmio Jabuti com o mais recente livro do grupo sobre o tema, trouxe ainda o primeiro mapa de saúde do solo da América Latina, publicado por sua equipe, como ferramenta de planejamento estratégico para políticas públicas de restauração de solo.
Os três pilares técnicos do solo — física, química e biologia — foram conduzidos por nomes com currículo equivalente.
Eduardo Severiano, do Instituto Federal Goiano e bolsista de produtividade do CNPq desde 2018, apresentou dados de 199 fazendas entre Brasil e Paraguai mostrando que a compactação física está presente em cerca de 80% das áreas avaliadas — mas concentrada nas camadas mais superficiais do solo, o que muda completamente a estratégia de recuperação recomendada.
Rodrigo Almeida, pesquisador da Embrapa e coordenador científico do simpósio, mostrou como sistemas com plantas de cobertura tropicais chegam a acumular mais potássio na parte aérea das plantas do que no próprio solo, um dado que desafia a forma tradicional de interpretar laudos de fertilidade.
E Lucas William Mendes, professor do Cena/USP, bolsista de produtividade do CNPq e eleito em 2025 membro afiliado da Academia Brasileira de Ciências, levou a discussão para o nível do microbioma, mostrando experimentos em que a simples redução da diversidade microbiana do solo já era suficiente para aumentar a infecção por nematoides e reduzir a produtividade da soja.






Ferramentas, dados de campo e o elo com a indústria
O segundo dia manteve o mesmo padrão de rigor, mas com foco em transformar diagnóstico em decisão prática. Bruna Schiebelbein, pós-doutoranda vinculada ao C4Carbon e ao grupo Soma da Esalq, apresentou o Kit Soma — uma ferramenta de avaliação de saúde do solo no campo, em cerca de duas horas, que já tem pedido de patente depositado e foi reconhecida em 2024 pela FAO como uma das tecnologias mais promissoras da área, com mais de 200 avaliações realizadas em sete estados brasileiros.
Lucas Rozas, da Prisma Inteligência Agronômica, e Edicarlos Damascena de Souza, da Universidade Federal de Rondonópolis e vice-presidente da Aliança CIPA, trouxeram dados de campo — inclusive de solos arenosos no Mato Grosso, onde a integração lavoura-pecuária sobre mixes de plantas de cobertura elevou a produtividade do algodão de cerca de 199 para 276 arrobas por hectare no mesmo experimento de longa duração.
A presença de duas grandes empresas do setor como patrocinadoras — Syngenta, patrocinadora diamante, e Acadian, patrocinadora bronze junto com a Bayer — também reforçou o caráter aplicado do simpósio. José Martins, gerente de portfólio da Syngenta, usou o palco para lançar oficialmente no Brasil um produto à base de micorrizas voltado à eficiência nutricional, enquanto Diego Andrade, da Acadian, apresentou resultados de um programa de pesquisa em rede — o Sibion Soil — conduzido simultaneamente no Brasil, Chile e Colômbia sobre o uso de extratos de algas marinhas na saúde física, química e biológica do solo.
Os relatos de produtores fecharam o ciclo com credibilidade prática. Joel Hillesheim, fundador da SomaField, apresentou seis safras de dados de uma área assistida de mais de 100 mil hectares no Mato Grosso, com produtividade média consistentemente acima da média estadual.
Erick Van Den Broek, produtor à frente da centenária Fazenda Tropical, detalhou como o manejo regenerativo consolidado ao longo de mais de uma década — incluindo a criação da Movie, uma biofábrica própria com 40 produtores acionistas dedicada à prospecção de micro-organismos regionais — resultou em ganhos de até 41% de retorno sobre o investimento nas áreas com maior tempo de adoção das práticas.




Um resumo de como foi o Simpósio e depoimentos de alguns participantes podem ser visualizados na página da Agroadvance no Youtube:
Simpósio Brasileiro de Saúde do solo: um evento pensado para durar
A curadoria científica ficou a cargo de um comissão organizadora que reuniu o pesquisador da Embrapa, Rodrigo Almeida e o Professor Maurício Cherubin, da Esalq/USP, grande autoridade mundial no tema, além do time de especialistas da Agroadvance. O evento teve apoio do Grupo SOHMA, da Brazilian Soil Health Partnership e da Universidade de Goiás (UFG).
O simpósio também teve uma comissão científica dedicada, que avaliou os pôsteres acadêmicos submetidos e premiou o trabalho de Anny Caroline Silva Cáceres sobre o uso de plantas de cobertura na ciclagem de nitrogênio — um sinal de que o evento não se limitou a palestras convidadas, mas também funcionou como vitrine para pesquisa em desenvolvimento no país.
Ao final da programação, o convite de Cherubin foi direto: “nos vemos em 2028 no próximo Simpósio Brasileiro de Saúde do Solo“. A frase resume o que os dois dias de conteúdo deixaram claro — o SBSS não nasceu como um evento pontual, mas como o primeiro capítulo de um espaço permanente de encontro entre ciência, indústria e produção no Brasil, ancorado em nomes, dados e instituições que já têm peso reconhecido nacional e internacionalmente na discussão sobre saúde do solo.
Para quem não pôde acompanhar presencialmente, a Agroadvance mantém uma Pós-graduação em Fertilidade e Saúde do Solo, 100% online e reconhecida pelo MEC, com parte dos professores que estiveram no palco do simpósio — um caminho natural para quem quer se aprofundar no que foi discutido em Goiânia.
Nos vemos em 2028!




