Poucos microrganismos exerceram impacto tão significativo sobre a agricultura quanto as bactérias do gênero Agrobacterium. Inicialmente estudadas por sua capacidade de causar doenças em plantas, essas bactérias passaram a ocupar posição de destaque na biotecnologia vegetal após a descoberta de um mecanismo biológico singular: a transferência natural de DNA para células vegetais.
A compreensão desse mecanismo representou um marco para a biologia molecular. Ao remover os genes associados à formação de tumores e substituí-los por sequências de interesse, pesquisadores transformaram Agrobacterium em um eficiente vetor biológico para introdução de genes em plantas. Desde então, essa estratégia vem sendo utilizada no desenvolvimento de cultivares com características agronômicas superiores, como resistência a pragas e doenças, tolerância a herbicidas e adaptação a estresses ambientais.
Atualmente, essa tecnologia permanece como uma das principais ferramentas da biotecnologia vegetal, contribuindo para o desenvolvimento de sistemas agrícolas mais produtivos, resilientes e sustentáveis.
Ao longo deste artigo serão apresentados os principais mecanismos moleculares que tornam Agrobacterium um organismo único, sua transição de fitopatógeno para vetor biotecnológico e as aplicações dessa tecnologia no melhoramento genético das principais culturas agrícolas, como soja, milho e algodão.
O que é Agrobacterium tumefaciens?
O gênero Agrobacterium compreende bactérias Gram-negativas, aeróbias, em formato de bastonete, pertencentes à família Rhizobiaceae, ordem Rhizobiales e classe Alphaproteobacteria. São microrganismos distribuídos em solos agrícolas e ecossistemas naturais, onde colonizam principalmente a rizosfera e estabelecem estreita interação com raízes e tecidos vegetais.
Diferentemente da maioria das bactérias fitopatogênicas, que causam danos por meio da produção de toxinas ou da degradação de tecidos, Agrobacterium desenvolveu uma estratégia de infecção altamente especializada baseada na transferência de material genético para células vegetais. Essa característica faz do gênero um dos exemplos mais sofisticados de interação entre procariotos e plantas descritos na literatura científica.

A espécie mais conhecida é Agrobacterium tumefaciens, tradicionalmente associada à doença denominada galha-da-coroa (crown gall), caracterizada pela formação de tumores em caules, colo e raízes de centenas de espécies vegetais, principalmente dicotiledôneas. Essas estruturas resultam de alterações permanentes no metabolismo das células infectadas, comprometendo o desenvolvimento da planta e reduzindo seu desempenho agronômico.
Além de A. tumefaciens, outras espécies também apresentam importância científica. Agrobacterium rhizogenes, por exemplo, é responsável pela doença conhecida como raízes em cabeleira (hairy root disease), caracterizada pela intensa emissão de raízes adventícias após a infecção. Embora represente um problema fitossanitário em determinadas culturas, essa capacidade também é explorada em pesquisas envolvendo metabolismo secundário, expressão gênica e produção de metabólitos de interesse farmacêutico e agrícola.
Nas últimas décadas, estudos filogenéticos baseados em sequenciamento genômico promoveram mudanças importantes na classificação taxonômica do grupo. Algumas linhagens anteriormente classificadas como Agrobacterium tumefaciens passaram a integrar o gênero Rhizobium, recebendo a denominação Rhizobium radiobacter. Apesar dessa atualização taxonômica, a nomenclatura Agrobacterium tumefaciens permanece amplamente utilizada na literatura científica, em protocolos laboratoriais e em programas de transformação genética vegetal, mantendo seu valor histórico e científico.

Como ocorre a infecção das plantas por Agrobacterium?
Esse processo inicia-se pela percepção de sinais químicos liberados por tecidos lesionados, que desencadeiam a ativação coordenada dos genes bacterianos responsáveis pela transferência de DNA.
O estabelecimento da infecção envolve uma sequência ordenada de eventos, incluindo o reconhecimento da planta, a migração da bactéria por quimiotaxia, a adesão às células vegetais e a ativação dos mecanismos moleculares responsáveis pelo processamento e transporte do material genético. Cada etapa é essencial para que a transferência do DNA ocorra de forma eficiente.

Como Agrobacterium migra e coloniza os tecidos vegetais?
Após reconhecer os sinais químicos emitidos pela planta, a bactéria desloca-se em direção ao tecido lesionado por quimiotaxia, mecanismo que orienta seu movimento de acordo com o gradiente de moléculas presentes no ambiente e aumenta a probabilidade de colonização das regiões suscetíveis à infecção.
Ao atingir a superfície vegetal, inicia-se um processo de adesão mediado por proteínas de superfície, fibrilas, celulose bacteriana e exopolissacarídeos. Esses componentes promovem uma ligação estável entre bactéria e célula vegetal, condição indispensável para as etapas subsequentes da infecção.
Essa proximidade permite o início do processamento do DNA que será transferido à planta. A partir desse momento, proteínas especializadas passam a preparar o material genético e conduzi-lo ao interior da célula vegetal, etapa que constitui o principal diferencial biológico de Agrobacterium.
Como Agrobacterium transfere DNA para as plantas?
A principal característica que diferencia Agrobacterium de outros fitopatógenos é sua capacidade de realizar transferência estável de DNA para células vegetais. Esse processo constitui a base das modernas tecnologias de transformação genética vegetal.
A transferência é coordenada por um grande plasmídeo extracromossômico denominado plasmídeo Ti (Tumor-inducing plasmid). Essa molécula possui duas regiões funcionais: os genes de virulência (vir), responsáveis pelo reconhecimento do hospedeiro, processamento do DNA e montagem do sistema de transporte, e a região T-DNA (Transferred DNA), correspondente ao segmento que será integrado ao genoma vegetal.

Como o T-DNA é formado a partir do plasmídeo Ti?
Após a ativação dos genes vir, inicia-se o processamento da região T-DNA presente no plasmídeo Ti. Essa etapa é conduzida principalmente pelas proteínas VirD1 e VirD2, que reconhecem duas sequências conservadas conhecidas como Right Border (RB) e Left Border (LB), responsáveis por delimitar o segmento de DNA que será transferido.
A proteína VirD2 atua como uma endonuclease específica, promovendo uma clivagem de fita simples exatamente entre essas regiões. Como resultado, forma-se uma molécula linear de DNA de fita simples denominada T-strand, correspondente ao T-DNA propriamente dito.

Durante esse processo, VirD2 permanece ligada à extremidade 5′ da molécula recém-formada. Além de proteger o DNA contra degradação, essa proteína possui sinais de localização nuclear (Nuclear Localization Signals – NLS), fundamentais para direcionar posteriormente o complexo ao núcleo da célula vegetal.
Em seguida, a T-strand é revestida por múltiplas moléculas da proteína VirE2, formando um complexo nucleoproteico altamente estável. Esse revestimento protege o DNA contra nucleases, evita danos estruturais durante o transporte e aumenta significativamente a eficiência da transferência.
Como o T-DNA se integra ao genoma vegetal?
Depois de atravessar a membrana plasmática, o complexo T passa a interagir com proteínas da própria célula vegetal. Os sinais de localização nuclear presentes em VirD2 e VirE2 permitem seu reconhecimento pelo sistema de transporte da planta, conduzindo o complexo através dos poros nucleares até o interior do núcleo.
Nesse ambiente, o T-DNA é integrado ao cromossomo vegetal por mecanismos associados ao reparo de quebras na dupla fita de DNA. Embora os detalhes desse processo ainda sejam objeto de investigação, sabe-se que a integração ocorre de forma estável, permitindo que os genes inseridos sejam expressos pela própria planta e transmitidos às gerações seguintes.
Em condições naturais, o T-DNA contém genes responsáveis pela produção de auxinas, citocininas e opinas, promovendo a formação da galha-da-coroa e criando um ambiente favorável ao desenvolvimento da bactéria. Nos sistemas de transformação utilizados atualmente, esses genes são removidos e substituídos por sequências de interesse experimental ou agronômico, preservando apenas o mecanismo natural de transferência desenvolvido por Agrobacterium.
Como Agrobacterium deixou de ser praga e se tornou ferramenta da biotecnologia vegetal?
Até meados da década de 1970, Agrobacterium era estudada quase exclusivamente como agente causal da galha-da-coroa, doença caracterizada pela formação de tumores em diversas espécies vegetais. Naquela época, as pesquisas concentravam-se na epidemiologia da doença, nos prejuízos econômicos e nas estratégias de controle.
Esse cenário mudou quando pesquisadores demonstraram que a bactéria promovia a formação dos tumores por meio da transferência estável de uma porção de seu DNA para o genoma da planta. Essa descoberta revelou que Agrobacterium possuía um mecanismo natural de engenharia genética desenvolvido ao longo de sua evolução.
A compreensão desse processo marcou uma das maiores revoluções da biotecnologia vegetal. Ao remover do T-DNA os genes responsáveis pela síntese de fitormônios e opinas, preservando apenas a capacidade de transferência de DNA, pesquisadores transformaram Agrobacterium em um vetor biológico seguro para introdução de genes de interesse científico e agronômico em plantas.
Qual o papel de Agrobacterium no desenvolvimento de plantas transgênicas?
Desde a década de 1980, essa tecnologia vem sendo empregada na obtenção de cultivares com características superiores, permitindo incorporar genes relacionados à resistência a pragas e doenças, tolerância a herbicidas, adaptação a estresses ambientais e melhoria da qualidade dos produtos agrícolas. Atualmente, a transformação mediada por Agrobacterium permanece amplamente utilizada tanto em programas de pesquisa quanto no desenvolvimento comercial de organismos geneticamente modificados (OGMs), além de desempenhar papel fundamental em técnicas modernas de edição do genoma.

O que são plantas transgênicas?
Plantas transgênicas são organismos vegetais que receberam, por técnicas de engenharia genética, um ou mais genes provenientes de outra espécie, os quais passam a integrar seu genoma e podem ser transmitidos às gerações seguintes. Esses genes introduzidos conferem novas características que dificilmente seriam obtidas apenas por meio do melhoramento convencional, reduzindo significativamente o tempo necessário para o desenvolvimento de novas cultivares.
Embora frequentemente utilizados como sinônimos, transgenia, cisgenia e edição gênica representam abordagens distintas de modificação genética.
Na transgenia, o gene inserido provém de uma espécie sexualmente incompatível com a planta receptora. Um exemplo clássico é a introdução dos genes cry, originários da bactéria Bacillus thuringiensis (Bt), em culturas como milho, soja e algodão, conferindo resistência a importantes insetos-praga.
Na cisgenia, o gene transferido pertence à própria espécie vegetal ou a espécies que poderiam cruzar naturalmente com ela. Nessa abordagem, não ocorre introdução de genes provenientes de organismos não relacionados, preservando maior proximidade com os processos naturais de melhoramento.
Já a edição gênica, realizada principalmente por sistemas como CRISPR/Cas, não exige necessariamente a inserção de genes exógenos. A tecnologia permite promover alterações precisas no DNA da própria planta, incluindo deleções, substituições ou modificações pontuais em genes específicos, aumentando a precisão e reduzindo modificações indesejadas no genoma.
Como Agrobacterium é utilizada na produção de transgênicos?
A utilização de Agrobacterium na transformação genética baseia-se na adaptação de seu mecanismo natural de transferência de DNA. Nos sistemas empregados atualmente, os genes responsáveis pela formação da galha-da-coroa e pela produção de opinas são removidos da região T-DNA do plasmídeo Ti, eliminando a capacidade patogênica da bactéria.
O espaço anteriormente ocupado por esses genes passa a receber o gene de interesse, juntamente com sequências regulatórias responsáveis por controlar sua expressão na planta. Os genes de virulência (vir), indispensáveis para o processamento e transporte do T-DNA, permanecem funcionais, permitindo que a bactéria continue atuando como um eficiente vetor biológico.
Durante o processo de transformação, tecidos vegetais são colocados em contato com Agrobacterium contendo o plasmídeo modificado. A bactéria reconhece os sinais químicos emitidos pelas células vegetais, ativa os genes de virulência e transfere o novo T-DNA para o interior da célula hospedeira. Posteriormente, esse DNA integra-se ao cromossomo vegetal, permitindo que o gene introduzido seja expresso de forma estável e herdado pelas gerações seguintes.
Após a transformação, as células vegetais são cultivadas em meios de cultura contendo agentes seletivos, possibilitando a regeneração apenas das plantas que incorporaram corretamente o gene de interesse. Esse procedimento constitui a base da produção de grande parte das plantas geneticamente modificadas desenvolvidas nas últimas décadas.
Quais características agronômicas a transgenia mediada por Agrobacterium já permitiu obter?
A transformação genética mediada por Agrobacterium possibilitou a incorporação de inúmeras características agronômicas de interesse econômico, ampliando a eficiência dos programas de melhoramento vegetal.
Resistência a insetos
Uma das aplicações mais bem-sucedidas foi a introdução dos genes cry, provenientes de Bacillus thuringiensis (Bt). Esses genes codificam proteínas inseticidas altamente específicas para determinados grupos de insetos, reduzindo significativamente os danos causados por lagartas em culturas como milho, algodão e soja. Além de aumentar a produtividade, essa tecnologia contribuiu para diminuir a utilização de inseticidas químicos e fortalecer os programas de manejo integrado de pragas.

Tolerância a herbicidas
Genes que conferem tolerância a herbicidas permitiram maior flexibilidade no manejo de plantas daninhas, possibilitando aplicações pós-emergentes com menor risco de fitotoxicidade à cultura. Essa característica simplificou operações agrícolas, favoreceu sistemas de plantio direto e reduziu perdas provocadas pela competição com plantas invasoras.
Resistência a doenças
Diversos programas de pesquisa utilizam Agrobacterium para introduzir genes relacionados à resistência contra fungos, bactérias e vírus. Esses genes podem atuar por diferentes mecanismos, como reconhecimento de patógenos, ativação de respostas de defesa, produção de proteínas antimicrobianas e fortalecimento da imunidade vegetal, reduzindo perdas ocasionadas por doenças e aumentando a estabilidade produtiva.
Tolerância à seca e a outros estresses ambientais
A identificação e introdução de genes envolvidos na resposta ao déficit hídrico, altas temperaturas, salinidade e estresse oxidativo têm permitido o desenvolvimento de plantas mais resilientes às condições ambientais adversas. Muitos desses genes codificam fatores de transcrição, proteínas protetoras e enzimas relacionadas ao metabolismo antioxidante, contribuindo para maior estabilidade da produção em ambientes sujeitos às mudanças climáticas.
Melhoria da qualidade nutricional
A engenharia genética também possibilita modificar características relacionadas à composição química dos alimentos. Alterações no perfil de aminoácidos, vitaminas, óleos, proteínas e antioxidantes têm sido empregadas para aumentar o valor nutricional de diferentes culturas agrícolas, além de melhorar propriedades tecnológicas e industriais de produtos destinados à alimentação humana, animal e à produção de biocombustíveis.
Tabela 1. Exemplos de eventos biotecnológicos utilizados em importantes culturas agrícolas no Brasil, destacando a tecnologia empregada, a característica incorporada e seus principais benefícios agronômicos
| Cultura | Gene ou tecnologia | Característica incorporada | Principal benefício agronômico | Exemplo de aplicação no Brasil |
| Soja (Glycine max) | EPSPS (Roundup Ready®) e outros eventos | Tolerância a herbicidas | Manejo mais eficiente de plantas daninhas e maior flexibilidade na aplicação de herbicidas | Soja tolerante ao glifosato amplamente cultivada nas principais regiões produtoras |
| Milho (Zea mays) | Proteínas Bt (Cry e Vip) | Resistência a insetos-praga | Redução dos danos causados por lagartas e menor necessidade de aplicações de inseticidas | Milho Bt resistente à lagarta-do-cartucho (Spodoptera frugiperda) |
| Algodão (Gossypium hirsutum) | Proteínas Bt (Cry1Ac, Cry2Ab e outras) | Resistência a insetos-praga | Maior proteção contra lagartas, aumento da produtividade e fortalecimento do manejo integrado de pragas | Algodão Bt amplamente utilizado nas regiões produtoras brasileiras |
| Cana-de-açúcar (Saccharum spp.) | Tecnologia Bt | Resistência à broca-da-cana | Redução dos danos provocados por Diatraea saccharalis e aumento da produtividade industrial | Cana Bt aprovada para cultivo comercial no Brasil |
| Feijão (Phaseolus vulgaris) | RNA de interferência (RNAi) | Resistência ao vírus do mosaico-dourado | Redução das perdas causadas pelo Bean golden mosaic virus (BGMV) | Feijão transgênico desenvolvido pela Embrapa e aprovado para cultivo comercial |
Fonte: Adaptado de Gelvin (2003, 2017), Nester (2015), Embrapa (2021) e CTNBio (2025).
Como Agrobacterium é aplicada no melhoramento genético de soja, milho e algodão?
Embora a transformação genética mediada por Agrobacterium tornou-se uma das principais ferramentas utilizadas em programas de melhoramento vegetal. Além da obtenção de plantas geneticamente modificadas, a tecnologia permite validar genes candidatos, investigar processos fisiológicos e acelerar o desenvolvimento de novas cultivares com características agronômicas superiores.
Embora os princípios moleculares da transformação sejam semelhantes entre as espécies, cada cultura apresenta desafios próprios relacionados à regeneração de tecidos, eficiência de transformação e resposta às condições de cultivo in vitro. Como consequência, protocolos específicos foram desenvolvidos para soja, milho e algodão, três culturas estratégicas para o agronegócio brasileiro.
Soja: plataforma estratégica para inovação genética
A soja (Glycine max) representa uma das culturas que mais incorporaram ferramentas da biotecnologia ao melhoramento genético. O desenvolvimento de protocolos eficientes de transformação permitiu acelerar estudos envolvendo genes associados ao crescimento vegetal, metabolismo, tolerância a estresses e produtividade.
Entre as principais aplicações destacam-se a identificação de genes relacionados à arquitetura das plantas, desenvolvimento radicular, eficiência fotossintética, metabolismo do nitrogênio e adaptação ao déficit hídrico. Esses estudos permitem compreender como diferentes vias metabólicas influenciam o desempenho da cultura em ambientes de produção distintos.
A transformação mediada por Agrobacterium também desempenhou papel decisivo no desenvolvimento de eventos comerciais resistentes a herbicidas e no avanço de programas de pesquisa voltados à resistência a doenças, como ferrugem-asiática (Phakopsora pachyrhizi), e a nematoides, especialmente Heterodera glycines. Mais recentemente, genes como FAD2, relacionados à composição de ácidos graxos, e fatores de transcrição da família DREB, associados à tolerância ao estresse hídrico, passaram a integrar pesquisas utilizando transformação genética e edição gênica.
Além da geração de novas cultivares, a soja consolidou-se como uma das principais espécies modelo para validação funcional de genes, contribuindo para o avanço da genômica vegetal e do melhoramento de precisão.
Milho: superando desafios na transformação genética
Durante muitos anos, o milho (Zea mays) foi considerado uma espécie de difícil transformação devido à baixa capacidade regenerativa de alguns genótipos e à limitada suscetibilidade de determinados tecidos à infecção por Agrobacterium.
As aplicações concentram-se principalmente na investigação de genes relacionados à resistência a insetos-praga, tolerância a herbicidas, eficiência no uso de nitrogênio, metabolismo do carbono, arquitetura de plantas e resposta ao estresse hídrico. Genes como ARGOS8, associados à tolerância à seca, e ZmCCT, relacionado à adaptação do florescimento em diferentes latitudes, ilustram como a genômica funcional tem contribuído para acelerar o desenvolvimento de híbridos mais adaptados às condições de cultivo.
A integração entre transformação genética e edição gênica também vem permitindo modificações precisas em características quantitativas complexas, reduzindo o tempo necessário para incorporação de novos atributos aos programas de melhoramento.
Algodão: inovação para resistência e qualidade da fibra
O algodoeiro (Gossypium hirsutum) também figura entre as culturas que mais se beneficiaram da transformação mediada por Agrobacterium. A tecnologia permitiu ampliar significativamente o conhecimento sobre genes envolvidos na formação das fibras, resistência a pragas e adaptação aos diferentes ambientes de cultivo.
Entre as aplicações mais consolidadas destaca-se o desenvolvimento de cultivares contendo proteínas Cry, derivadas de Bacillus thuringiensis, que conferem proteção contra importantes lagartas da cultura. Eventos contendo genes Cry1Ac e Cry2Ab, por exemplo, reduziram a dependência do controle químico em diversas regiões produtoras e contribuíram para aumentar a eficiência do manejo integrado de pragas.
Além da resistência a insetos, pesquisas recentes têm direcionado esforços para genes associados à tolerância ao déficit hídrico, resistência a doenças vasculares, metabolismo antioxidante e melhoria das propriedades tecnológicas da fibra, incluindo comprimento, resistência, uniformidade e micronaire. Essas características possuem impacto direto sobre a qualidade industrial e o valor comercial da produção.
A crescente integração entre transformação genética, genômica funcional e edição gênica amplia as possibilidades de desenvolvimento de cultivares capazes de reunir múltiplas características agronômicas em um mesmo material genético, contribuindo para sistemas produtivos mais eficientes e sustentáveis.
Qual o futuro de Agrobacterium na agricultura?
O avanço da genômica, da biologia molecular e das tecnologias de edição do genoma ampliou significativamente o potencial de utilização de Agrobacterium na pesquisa agrícola. Embora sua aplicação esteja consolidada há décadas em programas de transformação genética vegetal, novas abordagens continuam expandindo as possibilidades de uso dessa bactéria no desenvolvimento de cultivares mais produtivas, resilientes e adaptadas às demandas da agricultura moderna.
Entre as principais tendências destaca-se a integração entre transformação genética, edição gênica e melhoramento convencional. Essa combinação permite validar genes de interesse com maior rapidez, reduzir o tempo necessário para obtenção de novos materiais genéticos e aumentar a precisão das modificações introduzidas no genoma vegetal. Como consequência, programas de melhoramento podem responder de forma mais eficiente aos desafios impostos pelas mudanças climáticas, pela evolução de pragas e doenças e pela necessidade de maior sustentabilidade dos sistemas produtivos.
Conclusão
A descoberta da capacidade de Agrobacterium em transferir DNA para células vegetais representou um dos maiores avanços da biotecnologia moderna e transformou definitivamente o melhoramento genético de plantas. O que antes era conhecido apenas como um fitopatógeno tornou-se uma das principais ferramentas para o desenvolvimento de cultivares mais produtivas, resistentes e adaptadas aos desafios da agricultura contemporânea.
Atualmente, sistemas derivados de Agrobacterium são amplamente utilizados em programas de pesquisa e inovação envolvendo soja, milho e algodão, permitindo desde a validação funcional de genes até a aplicação de tecnologias de edição gênica, como CRISPR/Cas. Essas ferramentas aceleram o desenvolvimento de novas cultivares e ampliam a capacidade de resposta às demandas por maior produtividade, sustentabilidade e adaptação às mudanças climáticas.
À medida que a genômica, a biologia sintética e a agricultura de precisão avançam, Agrobacterium tende a manter seu protagonismo como plataforma de transformação genética vegetal. Mais do que um agente de transferência de DNA, a bactéria consolidou-se como um elo entre a pesquisa científica e a inovação no campo, contribuindo para a construção de sistemas agrícolas cada vez mais eficientes, resilientes e sustentáveis.
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Referências
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Sobre o autor:

Alasse Oliveira da Silva
Doutorando em Produção Vegetal (ESALQ/USP)
- Engenheiro agrônomo (UFRA) e Técnico em agronegócio
- Mestre e especialista em Produção Vegetal (ESALQ/USP)
Como citar este artigo:
SILVA, A. O. Agrobacterium tumefaciens : a bactéria que revolucionou a biotecnologia vegetal. Blog Agroadvance. Publicado: 27 Jul. 2026. Disponível em: https://agroadvance.com.br/blog-agrobacterium-tumefaciens/ . Acesso: 27 jul. 2026



